Por Alexandre Matos | 03/12/2017 15:39

Mais um evento sensacional foi para a conta neste sábado, aumentando a incrível sequência de bons eventos montados pela maior organização do MMA mundial. Desta vez o palco foi a Little Caesars Arena, no centro de Detroit.

O UFC 218 teve todos os ingredientes que fazem a alegria dos fãs: disputa de cinturão, nocaute aterrorizante, finalização, dois quebra-paus homéricos e muita ação. Uma pena que uma noite deveras divertida não deverá render uma polpuda venda de pay-per-views para engordar as contas bancárias dos atletas. Quem não viu, perdeu.

Acompanhe aí embaixo as minhas reflexões sobre o UFC 218 e vamos ao debate.

O peso pena está diante de uma nova era

Imagine se o duelo entre Max Holloway e José Aldo fosse um filme. Irritado com o desfecho da primeira obra, um diretor, fã de um dos atores, resolve inserir novos aspectos para tentar um final diferente. A “versão do diretor” chega a dar a impressão de algo novo, mas termina exatamente como o anterior. Seria como se não fosse possível mudar os rumos do filme.

O MMA Brasil disse na prévia que Aldo teria que se reinventar para vencer a revanche. O brasileiro basicamente tinha três missões: a) reduzir o ritmo da luta; b) diversificar o boxe com chutes baixos e quedas; e c) não deixar Holloway ser o agressor.

Aldo falhou no item c), o que tornou o a) mais difícil de ser implementado. Diferentemente do primeiro combate – e de seu padrão – Holloway buscou desde os primeiros momentos tomar a iniciativa do combate. Isso aconteceu porque ele já tinha o conhecimento empírico da distância a ser adotada. E como Junior demorou a diversificar os ataques, Max se sentiu à vontade.

O ex-campeão finalmente usou os chutes baixos e conseguiu alguns bons momentos. Especialmente no primeiro assalto, Aldo mostrou um bom movimento de cabeça para escapar dos golpes do havaiano. O problema é que a defesa de striking consiste na movimentação de cabeça, quadril e pernas de modo orquestrado. O manauara esteve muito bem no primeiro, razoavelmente bem no segundo e mal no terceiro. Isso representou um alvo que se mexia como um bonecão de posto: ativo da cintura para cima, porém, estacionário.

A solução estava em seu próprio repertório. No primeiro round, enquanto o jogo de pernas funcionava, Aldo poderia ter usado sua lendária capacidade de retaliação para baixar o ritmo do combate e impedir que Holloway imprimisse um fluxo elevado de golpes. Conforme o combate teve sequência, o brasileiro não mais se movimentava como antes. A partir dali, os jabs de Holloway perfuraram o sistema defensivo do desafiante. A movimentação de cabeça ajudava a tirar alguns golpes, mas, no volume com que o campeão ataca, é preciso ajuda das pernas. Uma hora a cabeça estaria no lugar errado (para Aldo).

Quando este cenário se concretizou, Holloway pisou no acelerador e transformou a vida do adversário em pesadelo. No tiroteio, Aldo ficou à mercê do campeão. Max já havia captado o movimento de cabeça e, aproveitando a maior envergadura e a falta de movimentação do brasileiro, aplicou uma surra de socos, cotoveladas, joelhadas e até chute alto. Quando Aldo tentou derrubar no desespero, Holloway defendeu facilmente e terminou a sessão de espancamento no solo.

A geração de Aldo pode ser considerada parte do passado para o novo reinado da divisão dos penas. Além do brasileiro, Ricardo Lamas, Cub Swanson e Jeremy Stephens já foram abatidos por Max. Chad Mendes voltará de dois anos parado, aos 33, precisando desenferrujar e com um estilo que não casa com o de Holloway. Frankie Edgar até tem ferramentas (velocidade e transição para o wrestling) para trazer problemas ao campeão, mas, aos 36 anos, o tempo não lhe é favorável e, a cada dia que a luta não é marcada, a vantagem de Holloway aumenta.

Resta então olhar para o futuro e para o crescimento de alguns. Abre-se no horizonte um cenário com Mirsad Bektic, Zabit Magomedsharipov, Shane Burgos, Alexander Volkanovski, Brian Ortega, Doo Ho Choi, Arnold Allen. Holloway terá trabalho por muito tempo, com diversos candidatos a lutão.

E Aldo? Ele pode subir ao peso leve e tentar repetir Rafael dos Anjos nos meios-médios. O problema é que tem muito mais gente encardida nos leves do que em qualquer outra divisão, além de serem sujeitos maiores e mais fortes. Se permanecer nos penas, corre o risco de virar porteiro do havaiano. Não tenho certeza se Aldo está disposto a uma completa reformulação, que passaria inclusive por mudar de equipe.

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Francis Ngannou quase arrancou a cabeça de Alistair Overeem fora

“SE A MÃO ENTRAR…” é uma das grandes frases proferidas por fãs de MMA tentando justificar uma saída alternativa para um combate. Bem, se a mão em questão for de Francis Ngannou, talvez seja prudente verificar as condições de seguro de vida e parcelamento de jazigo. Vitimado pela mão do besta-fera, Alistair Overeem morreu, mas passa bem.

Já se passaram algumas horas do nocaute e eu sigo abismado. Overeem tentou adotar a correta estratégia de trabalhar na ausência de distância, fosse para desgastar os braços do camaronês no clinch ou tentar uma queda. Porém, a execução não foi das melhores, o que facilitou a tarefa de Ngannou de defender a queda e sustentar o clinch em vantagem. Como nada acontecia, Dan Miragliotta mandou os lutadores se separarem. Acho que Overeem vai amaldiçoar todas as gerações do árbitro quando ele acordar.

De volta ao centro, Overeem tentou pendular como se ele fosse um peso leve. Como tem trinta quilos a mais e quase 40 anos, não teve agilidade para executar o movimento. Resultado: ficou exposto, de guarda aberta e com o corpo fora do centro de gravidade, diante de Ngannou. O africano viu o presentão aberto e largou um uppercut de esquerda que entra imediatamente para os violentos anais do MMA. A cabeça de Alistair parecia a de um daqueles bonecos de teste de batida de carro. A coluna cervical teve trabalho para manter a cabeça acoplada ao pescoço. Overeem caiu como uma árvore abatida, sua cabeça quicou no solo. E eu sigo abismado até agora.

O campeão Stipe Miocic também deve ter ficado abismado. O sistema ali é bruto. Depois dessa, não vejo problema algum em tornar Ngannou o próximo desafiante e deixar Cain Velasquez tirar a ferrugem contra um cordeiro de sacrifício qualquer. Pode ser até Fabricio Werdum, numa eliminatória no nível do mar, para não ter desculpa.

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Henry Cejudo separou adultos de crianças contra Sergio Pettis

O UFC parece cada vez mais perto de ter um medalhista de ouro olímpico ostentando um cinturão – obviamente é preciso que o ET que chefia o peso mosca com mão de ferro há cinco anos deixe o trono e suba de categoria. Se isso acontecer, o caminho fica aberto para Henry Cejudo.

Henry Cejudo venceu Sergio Pettis no UFC 218 (Foto: Gregory Shamus/Getty Images)

Henry Cejudo venceu Sergio Pettis no UFC 218 (Foto: Gregory Shamus/Getty Images)

O campeão olímpico de wrestling em 2008 mostrou mais uma vez que não há ninguém na divisão – e aqui eu conto inclusive com o ET – capaz de enfrentá-lo em sua modalidade de origem. Sergio Pettis engrossou a estatística que mostra que todos que cruzaram com Cejudo foram derrubados e nenhum deles conseguiu lhe aplicar uma queda. E, a cada luta que passa, Henry se mostra mais polido nas transições, o que torna a missão de impedir suas quedas cada vez mais complexa.

Em dados momentos da luta, Pettis até chegou a fazer alguma frente na troca de golpes em pé, mesmo que de leve, mas não chegou a ter vantagem nunca. Para piorar, ele parecia com medo das quedas de Cejudo – quem nunca? Incapaz de deter o ex-desafiante, o caçula de Anthony Pettis mostrou-se inútil por baixo, recebendo de bom grado o passeio nos giros e ground and pound de Cejudo.

As fileiras do peso mosca estão cheias de gente talentosa, mas nenhum atualmente capaz de fazer frente a Cejudo. Joseph Benavidez é um oponente óbvio, até para passar a limpo a polêmica do combate entre ambos. Se Demetrious Johnson subir, o peso galo ganha mais um monstro e os moscas terão uma disputa de cinturão vago sensacional.

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Eddie Alvarez exorciza Justin Gaethje

Que homão da porra é Eddie Alvarez. No confronto entre o ex-campeão do Bellator (e do próprio UFC) contra o detentor do cinturão do WSOF, melhor para Alvarez, que tirou a invencibilidade de Justin Gaethje.

O confronto entre dois sujeitos violentos entregou a emoção que os fãs esperavam. Alvarez teve uma atuação magistral, juntando velocidade, jogo de pernas, um trabalho fantástico na linha de cintura de Gaethje, capacidade de absorver os golpes do filho do demo e inteligência para escapar da armadilha sádica do rival.

Como Gaethje também é um homão da porra, Eddie voltou para casa com uma grotesca deformação no rosto – dava a impressão que ele tinha uma bola de squash dentro da boca. Justin se viu em dificuldades quando Alvarez minou sua resistência com socos implacáveis na região abdominal. Ainda assim, Gaethje era capaz de seguir andando para frente, como se fosse um zumbi. Alvarez se manteve focado mesmo quando o adversário tentava transformar o duelo em pancadaria anárquica. Os lutadores trocaram pau fixe e levantaram o público que lotou o ginásio do Detroit Pistons.

A defesa de Gaethje foi ficando cada vez mais esburacada e sua movimentação não o ajudava em nada. Mesmo cansado e também surrado, Alvarez encontrou uma brecha para mandar uma joelhada dos infernos. O filhote de cruz-credo foi à lona e não conseguiu se defender da insana bateria do ground and pound do ex-campeão.

Como próximo passo desses dois elementos: revanche encabeçando um Fight Night. Precisamos de Alvarez-Gaethje em cinco rounds #fodace #pas.

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O card preliminar do UFC 218

– Sempre que você estiver triste, assista ao duelo entre Yancy Medeiros e Alex Cowboy. Os caras saíram na mão como se não houvesse amanhã. Primeiro foi o havaiano quebrando o nariz do entrerriense no primeiro assalto. Recuperado, Cowboy quase conseguiu o nocaute na mesma parcial com direito a dois knockdowns, mas, sabe-se lá como, Medeiros resistiu e trouxe o caos ao octógono. Então foi a vez de Yancy aplicar uma queda, chegar à montada e despejar um selvagem ground and pound. Na terceira etapa, foi a vez de Alex derrubar. Porém, o brasileiro não manteve o oponente no solo e ainda foi vitimado por socos e cotoveladas brutais em pé. Um gancho de esquerda pôs fim à candidata a luta do ano.

– Muito bacana o duelo entre os prospectos David Teymur e Drakkar Klose. #Xatiado por ter perdido o posto no Top 10 do Futuro para o rival, Teymur frustrou Klose com um senso excelente de contra-ataque, forte defesa de quedas e variação de jogo. Drakkar tentou ser agressivo, mas só serviu para alimentar o sueco. Agora Teymur, com vitórias sobre Klose e Lando Vannata, mostra como o peso leve é difícil de prever.

Charles do Bronx vive um problema grave. Ele não consegue bater o limite do peso pena com saúde e é magro e frágil demais para o peso leve. Ontem ele deu trabalho a Paul Felder no chão atacando com um versátil arsenal de finalizações. Porém, quando Felder esteve por cima pelos seus méritos, terminou a discussão com brutais cotoveladas no ground and pound que fizeram Charles bater em desistência. Como o árbitro não viu, apesar de estar de frente para a situação, a derrota de Do Bronx acabou sendo por nocaute técnico e não por submissão.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.