Resenha MMA Brasil: UFC 217

A melhor coisa é quando algo que esperamos muito entregue tudo o que foi prometido. Este foi o caso do UFC 217, um dos mais empolgantes eventos dos últimos anos.

Que dia para se estar vivo! São 10 para as 5 da madruga e eu não tenho a menor ideia de quando conseguirei dormir novamente. O insano UFC 217 me deixou num estado de adrenalina tal que vou ter que procurar o que fazer após escrever este texto.

Mais uma vez o Madison Square Garden viveu uma noite apoteótica no MMA. O UFC 217 marcou a primeira vez que três campeões foram destronados na mesma noite – todos antes de três rounds. Teve ainda confusão, lutador desclassificado, uso de replay, nocautes brutais, zebra monumental, recorde de bônus, acertos da comissão atlética de Nova York e o retorno de um gênio.

Acompanhe aí embaixo as minhas reflexões sobre o UFC 217 e vamos ao debate.

Bisping vs. St. Pierre: A discussão do maior de todos os tempos ganha novos contornos

Voltar depois de dois anos é muito difícil. Voltar depois de quatro é coisa para raros. Georges St. Pierre é um dos raros. O maior atleta que o MMA já viu não deixaria a aposentadoria para colocar seu legado em risco se não tivesse certeza de que poderia atuar em alto nível. Porém, muitas dúvidas pairavam sobre o canadense.

O primeiro round tirou quase todas as dúvidas. Parecia que quatro anos eram quatro meses, que St. Pierre jamais havia parado. Foi um clássico GSP: jabs controlando perfeitamente a distância, ganchos e chutes rodados para incomodar um Michael Bisping que mostrava muito respeito pelo wrestling do desafiante, superman punch e, claro, o jogo de quedas. A parte técnica estava em dia, o tempo de reação também – Georges acertou todas as entradas de queda na luta.

Ainda havia outra dúvida, talvez a mais importante: seria o “Rush” capaz de manter o ritmo por cinco rounds contra um lutador reconhecidamente durável? Na parte final do segundo assalto, Bisping finalmente conseguiu desenvolver seu kickboxing. Ele acertou alguns golpes potentes, diminuiu a movimentação de GSP e voltou para o córner empolgado.

O terceiro assalto foi de demonstrações de genialidade. St. Pierre entendeu que teria problemas a longo prazo se o cenário do fim do round anterior se prolongasse, então aplicou uma queda com meio minuto. No entanto, Mike foi tão ativo por baixo quanto Georges era por cima. O “Conde” acertou algumas cotoveladas que abriram um rombo no rosto de GSP. Quando eles se levantaram, exatamente na metade do tempo regulamentar da luta, GSP tinha o seguinte cenário para resolver: precisava poupar energia e lidar com aquela quantidade de sangue que lhe atrapalhava a visão, a respiração e incomodava muito, isso sem deixar que Bisping aumentasse o ritmo e dominasse a luta. O que fazer?

Este é o momento em que separamos os grandes lutadores, como Bisping, dos gênios, como St. Pierre. Em vez de diminuir o ritmo das ações e cozinhar a luta, GSP acionou o senso de urgência. Mas como assim GSP com senso de urgência?, perguntaram os fãs mais recentes. Tirando o quinto round da última luta, contra Johny Hendricks, fazia tempo que não víamos GSP com senso de urgência. E ele lembrou a todos que haviam esquecido – ou que não sabiam – que é um matador de elite.

O desfecho foi sensacional. St. Pierre lançou um gancho que desenhou um arco perfeito e se chocou contra o rosto do campeão. Bisping foi à lona e GSP partiu para o ground and pound. Foram cotoveladas violentas, de direita e de esquerda. Ele não errou uma. Já era para interromper a luta, mas o árbitro “Big” John McCarthy deixou seguir. Quando Bisping tentou virar, Georges definiu. Num único movimento, o canadense pegou as costas do inglês e encaixou um mata-leão tão justo que era óbvio que não havia como se defender. Bisping se recusou a bater e dormiu o sono dos justos. Foi a primeira vitória por interrupção de GSP (tirando desistência) desde a revanche contra Matt Serra, há quase dez anos.

 

Georges St. Pierre agora é a quarta pessoa a conquistar cinturão do UFC em duas categorias na história, juntando-se a Randy Couture, BJ Penn e Conor McGregor. Ele é também o lutador que mais venceu no octógono (empatado com o próprio Bisping). É ainda quem mais venceu lutas por título na história do UFC. Tem a terceira maior sequência de defesas da história.

Se eu não sabia viver num mundo em que Michael Bisping era campeão do UFC, agora ele voltou a ser aquele lugar das nossas memórias afetivas, como se fosse voltar ao bairro onde fomos criados depois de anos. Georges St. Pierre saiu do octógono ontem do mesmo modo em que saiu em sua última luta: com o cinturão preso em seu tronco.

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Garbrandt vs. Dillashaw: O peso galo masculino é maravilhoso

Nós fomos privados de 17 minutos e 19 segundos de Cody Garbrandt contra TJ Dillashaw. Porém, não temos do que reclamar dos 7 minutos e 41 segundos de pura arte que nos foi entregue.

Se havia alguma dúvida sobre Garbrandt ter tido uma noite mágica contra Dominick Cruz ou se ele realmente está naquele nível, ela foi dirimida ontem. Garbrandt definitivamente está naquele nível. Com um excelente domínio do espaço físico, jogo de pernas fluido, boas esquivas e contragolpes punitivos, Cody pertence à elite. O problema (para ele) é que o adversário também pertence.

A primeira metade do primeiro assalto foi equilibrada. Garbrandt dominou o centro do octógono e Dillashaw tentou ser mais agressivo do que Cruz fora contra o rival. Trocas de base, chutes, joelhadas, combinações de cada lado. Já a segunda metade foi dominada por Garbrandt. Seus contra-ataques passaram a encontrar mais o alvo e todo movimento de Dillashaw tinha resposta. O ápice aconteceu nos segundos finais, quando Cody mandou TJ a knockdown e só não completou o nocaute técnico porque a buzina salvou o desafiante.

Garbrandt voltou cheio de si para o segundo e até ensaiou algumas dancinhas e provocações que fizera contra Cruz. Baita erro. A luta não estava sob controle para brincadeiras. Ainda antes da metade da parcial, Dillashaw o mandou à lona com um chute alto que pegou Garbrandt recuando. Quando voltaram em pé, Cody tentou trazer a luta para o tiroteio no infighting e levou a pior. Mal colocado, ele jogou um gancho todo errado no lado direito de Dillashaw. O desafiante devolveu um gancho de esquerda perfeita, anotando outro knockdown. Dessa vez foi definitivo: TJ partiu com fúria para o ground and pound e o árbitro Dan Miragliotta não teve outra alternativa senão interromper o combate.

No fim das contas, Garbrandt provou que, sim, já havia mandado Dillashaw a knockdown num treino. A disputa dos knockdowns acabou empatada em 2 a 2. Dillashaw venceu no desempate ao sair do octógono com o cinturão.

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Jedrzejczyk vs. Namajunas: Que mulherão da porra!

Ainda estou chocado com o desfecho do combate entre Joanna Jedrzejczyk, a campeã mais dominante do MMA atual, e Rose Namajunas, uma talentosa lutadora, mas ainda aparentemente não totalmente desenvolvida. As aparências às vezes enganam.

A “Rainha da Violência” parecia ter entrado na cabeça da desafiante. Joanna fez Rose chorar na véspera e quase provocou o início da luta na encarada dentro do octógono. Mas Namajunas provou o que havia dito após a pesagem: as emoções ficam do lado de fora do octógono. Lá dentro, apenas foco na missão.

Namajunas mostrou muita velocidade para capitalizar no conhecido começo mais lento da polonesa. Quando a americana deu um passinho para o lado esquerdo, avançou numa sequência violenta e mandou Joanna à lona. A campeã se levantou, mas foi novamente atingida por um combo de três socos. Namajunas viu a porteira aberta e largou um gancho de esquerda tão violento que fez Jedrzejczyk desabar como um tronco de árvore abatido. Aí foi hora de despejar toda a raiva acumulada no ground and pound. Rose bateu tanto que Joanna batucou no momento em que o árbitro “Big” John McCarthy se aproximava para interromper.

No anúncio oficial do resultado, Namajunas chorou novamente, mas agora eram lágrimas da vitória e do alívio, com Dana White colocando o cinturão em seu corpo. Do lado de fora, o marido Pat Barry pulava alucinado. Que momento!

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Thompson vs. Masvidal: O Karate Kid está de volta

Depois de fazer talvez a luta de cinturão mais safada de todos os tempos, Stephen Thompson tinha que limpar sua barra perante os fãs. Ontem ele foi magistral contra Jorge Masvidal.

O multicampeão de caratê e kickboxing foi perfeito no controle da distância. Com movimentação lateral intensa, trocas de base e muitos chutes, o “Wonderboy” prendeu Masvidal na longa distância e fez o adversário trocar o boxe pelo muay thai – até a postura de Masvidal lembrava os clássicos lutadores tailandeses. Sabe qual é a chance de Jorge vencer Stephen numa batalha dessas? Praticamente nenhuma.

Sem conseguir entrar no raio de ação e incapaz de mudar de nível com uma queda, Masvidal virou um alvo móvel. Para piorar sua situação, Thompson apareceu com o melhor boxe que apresentou até hoje. A movimentação lateral criou ângulos para as combinações curtas explodirem na cabeça do adversário. Masvidal não tinha resposta e levou um passeio até o fim dos 15 minutos regulamentares.

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Hendricks vs. Borrachinha: A pá de cal

Uma das decisões mais estúpidas tomadas por um lutador nos últimos tempos foi a de Johny Hendricks subir para o peso médio. Muito pequeno, ele nunca conseguiu juntar a massa magra suficiente para encarar os trogloditas da divisão. Ontem, a comparação física com Paulo Borrachinha foi ridícula.

O jovem brasileiro parecia um adulto marombeiro caçando uma criança. Todos os golpes de Borrachinha machucaram o americano. Não precisou de muito mais que um minuto para saber que Hendricks estava encrencado. A certeza chegou quando o ex-campeão dos meios-médios tentou derrubar, expondo a diferença física brutal. Sem explosão, velocidade ou força física, Hendricks sequer tirou Borrachinha do centro de equilíbrio.

Hendricks passou praticamente todo o tempo com as costas próximas à grade levando bordoada. Como ele é um sujeito duro, aguentou por um tempo. Mas Borrachinha foi implacável e, muito mais forte e mais explosivo, foi desmantelando o astro até o árbitro John McCarthy acabar com o sofrimento do americano e dos fãs de MMA, que acompanham a queda triste de um (ex-)lutador de elite.

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Reflexões do card preliminar do UFC 217

James Vick está numa situação complicada: ele é bom o suficiente para incomodar lutadores mais bem colocados na divisão, mas não tem nome para justificar que um top aceite enfrentá-lo. É um risco bem maior que o retorno. Ontem, ele se complicou com a pressão inicial de Joseph Duffy, mas acertou o controle da distância com suas dimensões absurdas para um peso leve e chegou a sete vitórias em oito lutas no UFC. Olho nele.

– O UFC 217 foi tão sensacional que até luta de barangas empolgou. Apesar do nível técnico sofrível, Walt Harris e Mark Godbeer fizeram uma luta animada. No entanto, Harris mandou uma joelhada na região genital do adversário e, mesmo com o árbitro Blake Grice gritando e encostando nele para parar, Walt ainda acertou um chute alto no rosto do Zeca Pagodinho do MMA. Godbeer ficou obviamente tonto e não teve condições de voltar. Não cabia outra decisão a Grice senão desclassificar Harris.

– Parece que Corey Anderson nunca vai dar o passo além para deixar de ser um prospecto e se tornar realidade. Ele deu um salto de qualidade depois de vencer o péssimo TUF 19, mas parou de evoluir. E o pior: não mostra capacidade de encaixe de golpes numa categoria de gente enorme. Anderson tinha wrestling para abafar e anular Ovince St. Preux. Por um tempo, ele até conseguiu. Porém, quando encontrou uma brecha, o cavalo descendente de haitianos largou um canelaço que mandou o rival para as profundezas da vala.

– Em seu primeiro desafio de verdade, contra um lutador consolidado, Mickey Gall mostrou que sua caminhada ainda será longa. O jovem grappler teve muita dificuldade em pé contra Randy Brown e não foi capaz de sair da pressão quando o jamaicano caiu por cima. De costas para o chão, Gall não tem 10% do talento que mostrou quando tem o controle posicional. Ele apanhou como mala velha no ground and pound numa daquelas derrotas que ensinam. Perto de completar 26 anos, a hora é essa.

– O outro duelo de pesos pesados do UFC 217 teve igualmente momentos toscos no aspecto técnico, mas também foi uma luta divertida e que acabou de modo polêmico. Quatorze anos mais jovem e fisicamente mais forte, Curtis Blaydes usou o wrestling para definir onde a luta contra Oleksiy Oliynyk iria transcorrer. O americano mandou alguns golpes duros e fez o russo trocar atabalhoadamente. Oliynik quase foi para a vala no primeiro round, mas sobreviveu para voltar ao segundo. Blaydes continuou mandando mão dura e o russo caiu de joelhos. Quando Curtis mandou um chute no oponente em quatro apoios, acertou de raspão a orelha do europeu. Oliynyk tentou ludibriar a arbitragem dizendo que havia sido golpeado ilegalmente e que não tinha condições de voltar. O árbitro Blake Grice recorreu ao replay e descobriu a armação do russo, decretando nocaute técnico a favor de Curtis Blaydes.

– Para surpresa de ninguém, Ricardo Carcacinha e Aiemann Zahabi fizeram um duelo sensacional. O brasileiro foi melhor no primeiro assalto com muita movimentação e variação nos golpes, deixando o canadense em posição defensiva. Zahabi voltou muito melhor para o segundo assalto depois de mapear a movimentação de Carcacinha e descobrir um padrão nela. No terceiro foi a hora de Aiemann ser mais agressivo. Quando parecia que ele chegaria ao nocaute encurralando o rival na grade, Carcacinha meteu a mão lá no fundo da cartola e tirou uma cotovelada rodada que explodiu contra o queixo de Zahabi e o mandou em colapso ao solo. Candidatíssimo a nocaute do ano.

– A Comissão Atlética do Estado de Nova York (NYSAC, na sigla em inglês) andou estudando. Depois de protagonizarem vários erros patéticos nos eventos anteriores no estado, os oficiais novaiorquinos acertaram ontem em momentos cruciais. Usaram o replay para corretamente desfazer o migué de Olyinyk e desclassificaram Harris acertadamente. Alguns reclamaram da interrupção contra Duffy, mas eu não achei nada grave.

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