Por Alexandre Matos | 08/10/2017 11:20

Para surpresa de ninguém, o UFC 216, disputado neste sábado na entristecida Las Vegas, foi um evento muito divertido. Os fãs de MMA viram mais um capítulo da história ser escrito, com um cidadão que não para de deixar todo mundo de queixo caído. Viram também dois recordes importantes, dois empates na mesma noite, várias finalizações, prospectos caindo, pancadaria rolando solta.

Demetrious Johnson passa Anderson Silva e Jon Jones de uma vez

Peço desculpa ao vencedor da luta principal, mas eu só poderia começar a resenha por Demetrious Johnson. Está começando a faltar adjetivos para descrever esse sujeitinho tão enorme.

A vitória sobre Ray Borg era mais do que esperada. Não por falta de qualidade do desafiante, mas porque não estava na hora dele. E quando você enfrenta um campeão como Johnson fora de hora, a missão, que já é ingrata demais, fica quase insustentável.

O jovem Borg foi um bravo. Ele chegou a aplicar queda no campeão, tentou capturar o pescoço de Johnson e lutou com dignidade. Porém, o número um peso por peso do MMA mundial foi superior em praticamente todos os segundos, em todas as áreas do jogo, especialmente na luta agarrada, um espetáculo à parte.

Como se fosse um gênio do xadrez, o “Mighty Mouse” fazia um ataque e já previa o desenrolar uns cinco movimentos à frente. Quedas, montadas justinhas, passagens de guarda, ground and pound. A luta parecia se encaminhar para um 50-44, mas Demetrious nunca se dá por satisfeito. Faltando um minuto e meio para o fim de uma vitória garantida, Johnson tirou onda.

Próximo à grade, o campeão ergueu o desafiante para cravá-lo no chão com um suplê. Seria aquela queda humilhante num resultado já garantido, tipo o inesquecível sétimo gol de André Schürrle, mas Demetrious foi além. Na descida, ele passou a perna por um ombro de Borg e encaixou o armlock NO AR. Quando os lutadores bateram no chão, o “Mighty Mouse” só precisou ajustar a posição e esticar o braço do incauto. Ray tentou, estribuchou, se debateu, mas teve que batucar.

 

Não sei se estou movido pela emoção, mas acho que essa foi a chave de braço mais sensacional que eu vi no MMA.

Talvez esteja realmente embebido pela emoção, mas acho que Demetrious Johnson é o número um peso por peso da atualidade com ou sem Jon Jones na ativa.

Quem sabe a emoção tenha tomado minhas veias, mas talvez não seja absurdo considerar que Johnson se tornou um lutador de MMA melhor do que foram Anderson Silva ou Fedor Emelianenko. Se considerarmos não só a capacidade de executar os movimentos no octógono, mas também a genialidade e a busca incansável por encerrar as lutas até o último segundo, talvez Georges St. Pierre também tenha sido deixado para trás.

Amanhã eu posso acordar com os batimentos cardíacos controlados e não achar mais nada disso. O que não vai mudar é que Demetrious Johnson deixou o “Spider” para trás como recordista de defesas consecutivas de cinturão no UFC.

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Tony Ferguson conquista cinturão interino e bate recorde

Que homão da porra é esse rapaz Tony Ferguson. O vencedor do TUF 13 levou para casa o cinturão interino da categoria mais forte do MMA mundial com uma vitória sensacional sobre Kevin Lee.

O mais legal da conquista de Ferguson é que ele fez o mesmo que vem fazendo em sua gigantesca sequência de vitórias, que chegou a dez neste sábado, a mais longa série da história do peso leve do UFC. O começo meio lento permitiu uma pressão inicial de Lee, que botou o wrestling pra jogo, derrubou, montou e bateu severamente no rival. Talvez Kevin tivesse conseguido o nocaute técnico contra qualquer outro, mas Tony não é um qualquer. A guarda ativa e o queixo de pedra sustentaram a situação até o fim do assalto.

A partir do segundo round, o ritmo de Ferguson aumentou enquanto o de Lee caiu. A defesa de quedas impediu que Kevin voltasse à posição dominante. Em pé, Tony tinha maior volume misturando chutes nas pernas e no corpo, controlando a distância como queria, seja com jabs longos ou pegando Lee com cotoveladas no pocket.

Quando Lee conseguiu outra queda, o jogo de guarda de Ferguson foi um deleite. Mesmo por baixo, ele levava vantagem socando e cotovelando o adversário. A segunda queda que Lee executou foi um erro. Ele caiu por cima no meio do octógono e deu espaço para o adversário trabalhar. Primeiro foi um bote no braço, mas Kevin defendeu o armlock com maestria girando para o lado certo e mantendo a articulação na posição natural. Em seguida, Tony aproveitou o movimento para atacar com um triângulo que parecia estranhamente encaixado. Porém, a armadilha estava justa e Lee ficou sem alternativa além de desistir.

Se por um lado foi legal ver Ferguson vencendo do modo de sempre, foi triste ouvir Lee falar na entrevista pós-luta que subestimou a capacidade do agora campeão interino de lutar com as costas no chão. Foi um erro grave de (falta de) estudo por parte de Lee e sua equipe.

O cenário do peso leve agora toma contornos excitantes. Eu apostaria minhas fichas que o campeão Conor McGregor vai ignorar o cinturão interino em prol de defender a coroa linear contra o arquirrival Nate Diaz. Deste modo, abre-se a sensacional oportunidade de Ferguson colocar em jogo seu prêmio recém conquistado contra Khabib Nurmagomedov. Maiores detalhes dessa linha de pensamento no podcast nesta segunda. Não percam!

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Fabricio Werdum sai por cima da luta em que só tinha o que perder

A terceira luta mais importante do UFC 216 seria entre Fabricio Werdum e Derrick Lewis. Outro confronto de pesados estava agendado para o card preliminar entre Walt Harris e Mark Godbeer. Porém, Lewis voltou a sofrer com suas hérnias de disco e teve que abandonar o evento horas antes do combate. Harris então foi chamado para substituí-lo. Werdum aceitou e Godbeer virou espectador.

A única ameaça que Harris levaria a Werdum era o batido “se a mão entrar”. Como Werdum não é trouxa, tratou de resolver a parada no modo very easy. Como a defesa de quedas do ex-jogador de basquete é pífia, o gaúcho levou para o chão com um single leg, pegou as costas e rapidamente fez a transição para o braço. O negócio foi tão fácil que o UFC poderia ter mantido Godbeer no aquecimento e pedido para ele enfrentar Werdum em seguida. O final provavelmente teria sido o mesmo.

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Kalindra Faria estreia levando um passeio

A ex-campeã do Titan FC Kalindra Faria teve uma estreia para se esquecer no UFC. A italiana Mara Romero Borella, convocada às pressas para substituir Andrea Lee, precisou de menos de três minutos para dar cabo da brasileira.

Romero derrubou em 30 segundos e avançou na meia guarda de Faria. Quando a brasileira tentou escapar empurrando a grade com os pés, sofreu a montada. Kalindra errou de novo a movimentação e a italiana pegou as costas. Quando viu a oportunidade de passar o antebraço pelo pescoço da adversária, Mara encaixou um mata-leão bastante profundo que forçou Kalindra a desistir – ela provavelmente apagaria em mais dois ou três segundos.

Embora não seja material para um dia pensar em cinturão, Kalindra é melhor do que sua apresentação supôs. Os tais dos octagon jitters são implacáveis com alguns.

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Dois empates num mesmo evento é coisa rara

Não lembro de ter visto duas lutas acabarem empatadas num mesmo evento do UFC. Beneil Dariush e Evan Dunham, no card principal, e Lando Vannata e Bobby Green, no preliminar, terminaram em igualdade. Ambas foram as melhores lutas da noite, embora Vannata-Green tenha sido bonificada com justiça.

Dariush iniciou forte e deu a impressão que o combate não passaria do primeiro round quando ele mandou Dunham à lona com duas cotoveladas no infighting e executou um forte ground and pound. Evan sobreviveu ao espancamento e voltou melhor contra um oponente que não teve mais o mesmo ímpeto. No fim das contas, o empate em 28-28 foi um placar justo, embora seja possível também ter anotado uma vitória de Dariush.

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No outro empate, Vannata entregou mais uma luta altamente divertida. E mais uma vez deixou alguns problemas graves à mostra. O ataque versátil e potente quase deram cabo de Green no primeiro assalto, mas a defesa esburacada permitiu que o rival ressurgisse das cinzas para equilibrar as ações.

Este confronto escancarou uma questão que estava meio clara, mas não totalmente até aquele momento. Embora a Comissão Atlética de Nevada tivesse dito que as novas regras ainda não estavam valendo, os juízes pareciam julgar as lutas sob a nova ótica. No entanto, os árbitros centrais mantinham a conduta anterior. Foi o que aconteceu com uma joelhada de Vannata no primeiro round. Green estava em três apoios quando levou o golpe na cabeça. Pelas regras novas, golpe válido. Pelas antigas, movimento irregular. O árbitro Herb Dean interrompeu as ações e tirou um ponto de Vannata.

Além da dedução de um ponto, Vannata foi atrapalhado pela própria incapacidade de montar um sistema defensivo confiável. Ele usa muito a defesa na movimentação de cabeça para evitar os ataques adversários, o que é muito legal. Porém, nem sempre essa movimentação está alinhada com o jogo de pernas, então Lando acaba se tornando um alvo fácil de ser atingido de modo limpo, principalmente conforme os minutos passam e o sincronismo entre a cabeça e as pernas vai ficando cada vez pior devido ao cansaço. Green deformou o rosto de Vannata de tanto jab, direto e gancho que ele acertou.

Top 10 do Futuro deu azar para todos os que atuaram no UFC 216

O projeto Top 10 do Futuro, que visa apontar lutadores do UFC com potencial para se meterem entre os 10 melhores de suas categorias, é muito legal de se fazer pelo risco enorme de as previsões darem errado. Ainda é cedo para cravar o insucesso, mas os três listados no projeto que lutaram no UFC 216 foram derrotados.

O primeiro foi o peso mosca Magomed Bibulatov. Ele era o segundo maior favorito de todo o card, abaixo apenas de Demetrious Johnson. Contra o ex-desafiante John Moraga, o ex-campeão do WSOF até começou melhor, dominando as ações na troca de golpes. Porém, Moraga manteve a compostura e pegou o russo com um combo de cruzado de direita e gancho de esquerda. Mais uma martelada e o árbitro Jason Herzog interrompeu.

A segunda vítima da maldição do MMA Brasil foi Vannata, que também tinha o favoritismo nas casas de apostas. Contudo, aconteceu com ele o que previmos quando o mencionamos no projeto: a defesa altamente esburacada pode travar seu crescimento. O técnico Brandon Gibson tem um longo trabalho pela frente para que a Jackson-Wink MMA não veja um talento tão grande ser desperdiçado.

O terceiro era o menos favorito dos três, pelo menos nas odds, mas a quem mais se espera para o futuro, o francês Tom Duquesnoy.

O “Fire Kid” começou atropelando o americano Cody Stamann com sua conhecida pressão combinando socos, chutes e venenosas cotoveladas em pé. A defesa de quedas, que funcionou à perfeição no primeiro assalto, deixou Tom na mão no segundo. Cody aproveitou para trabalhar o ground and pound e desgastar o adversário. Duquesnoy voltou bem mais lento para a última parcial e, com volume de golpes baixo, foi superado até no striking.

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As derrotas de Bibulatov e Duquesnoy não devem preocupar tanto. O russo perdeu para um oponente de ótimo nível e pode se reorganizar. O francês mostrou alguns problemas, mas o tempo está a seu favor. Já Vanatta insiste numa postura que lhe trará problemas enquanto não estiver muito bem azeitada.

A única exceção do nosso azar foi Poliana Botelho. Depois de adiar tanto tempo a sua estreia, ela finalmente pisou no octógono. A luta contra Pearl Gonzalez foi bem chata, mas muito por culpa da adversária, que insistiu em travar o combate na grade. Poliana foi melhor nos poucos momentos em que a luta ficou solta e soube trabalhar no clinch para bloquear Gonzalez e golpeá-la.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.