Por Alexandre Matos | 10/09/2017

Mais um card numerado do UFC foi para a conta neste sábado. O Rogers Place, em Edmonton, Canadá, foi palco do UFC 215, evento liderado pela disputa do cinturão do peso galo feminino e marcado por posições reforçadas, testes severos para prospectos importantes e a participação de vários lutadores brasileiros.

Como temos muitos assuntos a tratar, vamos por parte na nossa nova coluna Resenha MMA Brasil.

Amanda Nunes venceu com polêmica, mas esqueça esse negócio de garfo

Eu achei que a Valentina Shevchenko venceu Amanda Nunes. Na minha contagem, a quirguiz naturalizada peruana ganhou por 48-47. Porém, compreendo quem viu o mesmo placar, mas a favor da baiana. Ou seja, não tem esse papo de garfo. Aliás, ficar chamando de garfo toda decisão apertada que tenha um pouco de controvérsia é chatíssimo. Garfo é Diego Sanchez contra Ross Pearson, é Leonard Garcia contra o Korean Zombie ou Nam Phan. Nunes-Shevchenko 2 não pode sequer ser comparado a esses garfos lendários.

Isto posto, vamos à luta em si.

Amanda quase se complicou por insistir numa estratégia perigosa. Ela claramente se incomodou com as críticas ao seu condicionamento cardiorrespiratório e decidiu mostrar que consegue lutar por cinco rounds. Com isso, ela adotou uma postura menos agressiva e atuou praticamente contra sua própria natureza. Assim, a campeã facilitou muito a tarefa de Shevchenko, mais rápida e mais técnica, de se sustentar nos contragolpes, especialmente por cima de jabs de quase nenhuma utilidade que Amanda jogava como se quisesse apenas estabelecer a distância. A desafiante mostrou um jogo de pernas excelente e um fantástico trabalho de movimentação de cabeça, mistura que deixou muitos ataques de Amanda no vazio e serviram para Valentina pontuar e levar os rounds 2, 3 e 4.

Shevchenko também errou. O terceiro assalto foi apertado demais para ela confiar que entrava no último vencendo por 39-37. Quando Amanda tentou mudar de nível, a defesa de quedas de Valentina esteve no estado da arte. Bastava à desafiante manter a luta de pé e seguir forçando os contragolpes para vencer o quinto. Porém, Shevchenko tentou ela mesma derrubar, levou uma revertida e acabou por baixo da campeã. Shevchenko ainda tentou mostrar atividade socando de baixo para cima, mas não são todos os juízes que levam isso em consideração. Nunes levou a melhor no quinto round – já tinha vencido o primeiro – e tornou a decisão dramática.

No festival de erros, claro que a juizada teria que aprontar as deles. Nenhum dos três deixou de fazer barbeiragem. Tony Weeks, que concordou com o 48-47 dado pelo MMA Brasil, deu o quarto round para Amanda (foi claro para Valentina) e o quinto para a desafiante. David Therien deu o segundo para Amanda e Sal D’Amato marcou os dois rounds mais apertados para a campeã.

Valentina ficou transtornada com o resultado, mas não pode reclamar. Ela jamais poderia ter confiado em cabeça de juiz achando que uma luta disputada como essa estava encaminhada. Amanda também tem que ficar na dela, pois venceu duas vezes sua maior rival e não convenceu em nenhuma das duas. E, diferentemente do que a campeã falou, é muito provável que um terceiro duelo aconteça. Eu mesmo prefiro ver uma revanche imediata do que ver Raquel Pennington lutando pelo cinturão.

Astros em recuperação com desempenho dominante, parte 1: Rafael dos Anjos

Neil Magny foi ao Rio de Janeiro duas vezes para ter aula particular de jiu-jítsu. Serginho Moraes ministrou o primeiro seminário, no UFC 163. Demian Maia foi o professor do segundo, no UFC 190. O americano então foi ao Canadá neste sábado e mostrou que aprendeu porra nenhuma. Rafael dos Anjos fez Magny de gato e sapato no chão e o pegou no katagatame em pouco menos de quatro minutos.

Em duas lutas como meio-médio, Dos Anjos conseguiu dois bons resultados e, com o retrospecto de ex-campeão da divisão de baixo e o cenário totalmente aberto na categoria atual, ficou próximo de uma disputa de cinturão. E o melhor para o niteroiense é que Tyron Woodley se mantenha no topo, porque Rafael provavelmente oferecerá um confronto de estilos no qual o campeão não se sente à vontade.

Astros em recuperação com desempenho dominante, parte 2: Henry Cejudo

Dos Anjos limpou a barra de duas derrotas seguidas e já se colocou no caminho correto novamente. O mesmo pode ser dito de Henry Cejudo. O campeão olímpico de wrestling fez o que quis com Wilson Reis e reafirmou seu nome na elite do peso mosca.

Cejudo teve sua melhor atuação no MMA, melhor inclusive do que a derrota injusta para Joseph Benavidez. O boxe e o muay thai fluíram com um dinamismo que dava a impressão que ele tinha base em alguma modalidade de striking e não na luta olímpica. Wilson não teve a menor chance em momento algum da luta, nem mesmo quando Cejudo resolveu derrubar e mostrar que, contra wrestlers de elite, o jiu-jítsu tem sua eficácia bastante reduzida, especialmente quando o jiu-jiteiro está de costas para o chão.

Num cenário em que Demetrious Johnson transformou em terra arrasada, é muito bom ver Cejudo evoluir desse jeito.

Trouxeram o Giblert Melendez pro UFC

Quem não assistia ao Strikeforce deve estar pensando que eu enganei geral ao dizer que Gilbert Melendez já foi o peso leve número um do mundo mesmo contando com a turma do UFC. Desde que migrou para a maior organização do MMA mundial, Melendez tem 1-5 e quatro reveses consecutivos.

Isso só pode ser trabalho da Reebok, que sequestrou o ex-campeão do Strikeforce e WEC e o trocou pelo impostor Giblert. O Melendez que eu conheço jamais ficaria preso numa estratégia infrutífera. O Melendez que eu conheço é completo para poder alterar os rumos de uma luta. O Melendez que eu conheço não deixaria eternamente a perna dianteira à mercê de bicos durante todo o combate sem ao menos tentar cravar o oponente no solo.

Aqui cabe um aparte. Que baita atuação teve Jeremy Stephens. E que sujeito doido é Jeremy Stephens. Se ele lutasse sempre como fez neste sábado, certamente já teria disputado um cinturão no UFC. Boxe solto, chutes baixos venenosos e movimentação muito melhor do que aquele camarada plantado que procurava apenas uma brecha para um shoryuken. Quando eu achava que Stephens tinha desistido da vida, ele ressurge desse modo. Numa categoria que não para de se fortalecer, Jeremy terá um papel fundamental se continuar lutando assim.

Prospectos com testes severos demais

Dois pré-selecionados do nosso projeto Top 10 do Futuro, no qual apontamos prospectos que já estão no UFC e que um dia chegarão fortes nos rankings, lutaram no UFC 215. Os dois perderam. Um deles deixou uma impressão tão ruim que me fez repensar a lista.

Tyson Pedro não deu conta da potência de Ilir Latifi. O equino sueco é um teste deveras encardido para um prospecto ainda um tanto pouco polido como o jovem australiano. Pedro até teve seus momentos, mas o brutal jogo de quedas e pressão sufocante por cima de Latifi definiram o combate. Há espaço para Tyson crescer e adentrar o top 10, especialmente com o envelhecimento de vários integrantes da elite dos meios-pesados. Porém, ele mostrou que precisa melhorar em alguns aspectos para não ficar no meio do caminho.

Já o caso de Gavin Tucker é mais grave. Primeiro porque o peso pena é muito mais profundo que o atual cenário do peso meio-pesado. Segundo porque o sacode iaiá que ele levou do Rick Glenn me assustou. Glenn é um excelente lutador e poderia (ou poderá) ir mais longe se cuidasse de alguns aspectos. Tucker é naturalmente mais talentoso do que ele. Até ficou claro no começo do combate, mas o modo negativo com que o canadense lidou com a desvantagem e com o fato de não conseguir se impor me deixou com um pé atrás. Como Tucker já tem 31 anos, talvez tenha ficado tarde para apostar no futuro dele. Mas ainda vou dar um voto de confiança.

Ah, aqui cabe a tradicional reclamação contra os árbitros carniceiros: Kyle Cardinal perdeu várias oportunidades de parar a luta e permitiu que Tucker apanhasse muito mais do que o tolerável. Já o banana do Jarin Valel deveria ter decretado o fim da luta entre Stephens e Melendez quando percebeu que o segundo tinha dificuldade de se manter de pé. Está ficando mais comum do que o desejado a presença de carniceiros arbitrando no UFC.

Os demais brasileiros do UFC 215

Além de Amanda Nunes e Wilson Reis no card principal, o UFC 215 contou com mais três brasileiros em ação nas preliminares.

Ketlen Vieira foi a única da trinca que saiu vitoriosa. Ela levou um belo sufoco de Sara McMann no primeiro round. A medalhista olímpica e ex-desafiante botou pra baixo, passou, montou e bateu do jeito que quis. Parecia que a quarta vitória seguida estava a caminho, mas a integrante da Nova União deu uma reviravolta incrível, derrubando a wrestler medalha de prata em Atenas e fazendo a americana batucar num katagatame da meia guarda que nem parecia tão justo. Agora é a invicta brasileira que tem três vitórias seguidas no UFC, chegando perto de Pennington e a própria Shevchenko pelo posto de próxima desafiante.

No peso pesado, Luis Henrique KLB deu as boas-vindas ao local Arjan Bhullar. O brasileiro foi subjugado pela potência dos punhos do descendente de indianos e ainda levou um quedão de grande amplitude que teria valido quatro pontos a Bhullar se ele ainda estivesse numa competição de wrestling. KLB ainda é muito novo para a categoria, mas tem ainda um caminho longo a percorrer na evolução técnica.

No primeiro combate da noite, Adriano Martins voltou após quase um ano contra Kajan Johnson, que estava parado há dois. O manauara foi bem em certo ponto da movimentação, cercando o canadense o tempo inteiro. Porém, faltou cortar o octógono para pegar Johnson dentro do raio de ação no ponto futuro. Como Adriano passou a ter dificuldade de encurtar, deixou o mapa para Kajan, que capitalizou com uma direita que fez o brasileiro desabar pesadamente com o rosto no chão.