Por Alexandre Matos | 15/06/2019 03:22

O Bellator 222 marcou a segunda visita da organização vice-líder do MMA mundial ao Madison Square Garden, em Nova York. O evento contou com duas disputas de cinturão e algumas estrelas em ação.

O ex-melhor meio-médio do mundo voltou a vencer, um pouco melhor do que antes, mas nem tanto. O melhor peso mosca do mundo fora do UFC conquistou seu segundo cinturão desde que deixou o octógono. O velho Dragão nocauteou e aposentou o velho Gângster. A super promessa volta a naufragar em Nova York.

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Como visto, aconteceu um monte no Bellator 222. Vamos debater pelo menos a parte que eu assisti e vocês ainda me contam o que eu não consegui acompanhar.

Foto de destaque: Esther Lin/MMA Fighting

Sobra talento e falta energia a Rory MacDonald

Pelo menos não foi aquela atuação apática contra Jon Fitch. Nesta sexta-feira, Rory MacDonald mostrou alguns traços da enorme capacidade técnica e inteligência de luta que um dia o levaram à elite do peso meio-médio. Ele dominou Neiman Gracie, mas ainda não recuperou a minha confiança.

Rory MacDonald venceu Neiman Gracie no Bellator 222

A diferença técnica entre eles é grande demais para Gracie acertar jabs limpos como no primeiro assalto. MacDonald aparentava estar travado, errando movimentos que dificilmente erraria. Porém, aos poucos foi se soltando, encontrando a distância, marcando o rosto de Neiman.

As quedas – e contraquedas – foram a principal arma do canadense no combate. No solo, ele soube manter o faixa-preta de costas no chão e trabalhar um eventual ground and pound com cotoveladas e socos. Nada que lembrasse o furor dos tempos de UFC, mas o suficiente para pontuar e abrir vantagem considerável.

O grappling defensivo também se destacou. O “Red King” foi muito calmo para sair de uma chave de calcanhar que Neiman nem devia ter tentado. Mais tarde, defendeu bem uma tentativa de armlock e foi soberbo quando teve o Gracie montado, no quinto round. Com muita calma, MacDonald primeiro repôs a meia guarda, depois tirou Neiman daquela posição e conseguiu se desvencilhar. O assalto acabou perdido, mas a luta estava decidida pelas quatro parciais anteriores. Tinha ficado claro que não seria possível finalizar o campeão.

Outro ponto positivo foi a postura no pós-luta. Contra Fitch, MacDonald veio com um papo esquisito que não queria mais machucar as pessoas. Agora ele encarou com um sorriso no rosto a revanche que concederá a Douglas Lima, na final do torneio da categoria. Vamos ver se a recuperação de hoje será um passo para uma melhora ainda maior contra Lima. Se eu tivesse que apostar hoje, iria no brasileiro.

Lyoto Machida vence mais uma com seu brinquedo favorito e aposenta Chael Sonnen

Quando me perguntam qual é o estilo ideal para se enfrentar um wrestler num cage, eu falo sempre de Lyoto Machida. O “pega-wrestler” mais clássico do MMA não tem mais o vigor físico de outrora, mas ainda é suficiente para dar show contra um veterano como Chael Sonnen.

Lyoto Machida nocauteou Chael Sonnen no Bellator 222

Chegou a ser engraçado ver Sonnen todo errado tentando derrubar Machida sem um mínimo de preparação antes de entrar que nem um touro na queda. Levou dibre, levou bica na boca do estômago, perdeu na troca de força na grade. E aí, eventualmente, eles se desgrudavam. Na distância era covardia. Machida largou uma joelhada voadora que eu pensei que Sonnen havia caído morto. O americano guarda até hoje a coragem. O bicho voltou, mas não por muito tempo.

No começo do segundo assalto, Lyoto voou em outra joelhada. Chael desmoronou e, dessa vez, não conseguiu se recuperar do ground and pound.

Foi bem legal relembrar o vintage Machida, mas há de se ter calma. O “Dragão” venceu uma luta contra um adversário que anunciou sua aposentadoria logo ao final e que tinha um jogo sob medida para o brasileiro. Isso não significa que Lyoto está pronto para tomar o cinturão de Gegard Mousasi ou de Ryan Bader – lutadores que Machida venceu no UFC. Hoje, o campeão dos médios e o dos meios-pesados e pesados seriam favoritos contra o ex-número um do mundo.

Eita, Aaron Pico…

Todo mundo que acompanha o MMA Brasil já sabe o quanto colocamos de expectativa em Aaron Pico. O garoto mostra talento nas lutas, mas os resultados finais deixam claro que falta caminho a ser trilhado no novo esporte. Em seu primeiro combate como pupilo de Greg Jackson, o americano foi nocauteado pelo prospecto húngaro Ádám Borics.

Adam Borics nocauteou Aaron Pico no Bellator 222

Quando trocou a ensolarada Califórnia pela desértica Albuquerque, Pico disse que queria “aprender a lutar com Jackson”. Em sua visão, ele tem as ferramentas, mas falta aprender a misturá-la. Isso ficou claro neste sábado.

Pico levou o primeiro round com enorme facilidade quando usou pela primeira vez na carreira seu wrestling de nível mundial. O californiano derrubou do jeito que quis: queda de grande amplitude, carregando ao estilo Matt Hughes, cruzeta, single leg na grade, dentre outras. Mostrou muito bom controle posicional, mas pareceu que tinha recebido a missão de lutar apenas daquele jeito. E isso custou caro.

O segundo assalto parecia caminhar para a mesma direção quando Borics conseguiu escapar de uma pressão na grade e retornar ao centro. O húngaro foi mais rápido que o americano: quando Pico fez menção de iniciar uma nova entrada de queda, ele não percebeu que Adam já havia decolado numa joelhada voadora. O golpe estourou na cabeça do americano e o jogou à lona. O ground and pound nem precisou se alongar para o árbitro Dan Miragliotta encerrar a contenda.

Greg Jackson tem uma missão importante para não matar precocemente uma carreira que era tão promissora. Pico precisa dominar as transições do MMA com urgência. E precisa proteger o queixo. Se Jackson ensinou esse último para Alistair Overeem perto dos 40 anos, pode fazer o mesmo com Aaron Pico aos 22.

Resenha MMA Brasil: Bellator 222 – outros destaques

– Não consegui pegar quase nada da luta do Eduardo Dantas. Basicamente assisti aos segundos finais. Foi suficiente para vê-lo ser encurralado na grade por Juan Archuleta e, com a defesa totalmente escancarada, levar um cruzado monstruoso na ponta do queixo e desabar pesadamente.

O americano é bom lutador, mas ele se empolgou ao pedir Kyoji Horiguchi, que tomou o cinturão dos galos de Darrion Caldwell com a segunda vitória sobre o rival na promoção cruzada do Bellator e RIZIN. Archuleta se considera capaz de disputar os cinturões dos galos, penas e leves, mas não tem nível ainda para o japonês ou o champ-champ Patricio Pitbull.

Dillon Danis pegou um oponente limitado e fez o que dele se esperava. A queda que ele aplicou não funcionaria contra um adversário mais experiente, de tão baixo que ele desceu. Porém, funcionou contra Max Humphrey. O parça de Conor McGregor fez um bom trabalho no ground and pound e brincou no jiu-jítsu até pegar na chave de braço faltando meio minuto para o fim do primeiro assalto.