Por Alexandre Matos | 30/09/2018 03:27

Até onde menos se esperava deu para se divertir com o Bellator 206. Com uma disputa de cinturão, dois duelos de alta relevância e um encontro de veteranos, o evento aproveitou bem a brecha que o UFC deu no calendário do MMA internacional. A Resenha MMA Brasil Bellator 206 conta essa história.

O duelo mais esperado da noite acabou em passeio. Do mesmo jeito terminou o encontro entre o maior prospecto do esporte contra um veterano tarimbado. O torneio dos meios-médios abriu mostrando um favorito ao título. Os astros da década passada mostraram vontade e circunferências abdominais em excesso.

Deixemos de papo furado e vamos debater o que aconteceu em San Jose, Califórnia.

Cidadão do mundo espanca um rascunho do Red King

Era uma vez um jovem canadense com cara de nerd e ar de psicopata de filme policial. Depois de assombrar várias vítimas, ele teve um encontro com uma encarnação do Satanás, que levou sua alma para o Inferno. Desde então, Rory MacDonald se tornou um rascunho daquele que um dia foi o melhor meio-médio do mundo.

Gegard Mousasi atropela Rory MacDonald pede para sair no Bellator 206

O “Red King” subiu de categoria para desafiar Gegard Mousasi, dono do cinturão do peso médio que faz uma falta danada no UFC. No fim das contas, o cidadão do mundo era o mais forte fisicamente, mas também o mais rápido. Não sem motivo. Enquanto Rory estava carregando mais peso do que está acostumado, Mousasi era meio-pesado e fica mais leve e veloz como médio. Esta foi a chave da vitória.

Quando colocou um divisor de águas na carreira de MacDonald, Robbie Lawler também causou um dano no nariz do canadense que reflete em seu psicológico. Esta situação nasal de Rory fica insustentável contra um bom trabalho de jab. E poucos no MMA fazem isso tão bem quanto Mousasi. A cada estocada que o punho esquerdo do holandês dava na fuça do desafiante, a confiança de MacDonald ruía um pouco. Como foram vários jabs em alta velocidade, a confiança do “Red King” foi para o ralo. Sem confiança, MacDonald se desesperou e inventou uma entrada nas pernas do campeão. Óbvio que não daria certo.

Naquele momento, foi a vez da pujança física de Gegard ditar as regras. Ele chegou à meia guarda e de lá escalou para a montada. MacDonald tentou ficar ativo na guarda, mas defendeu mal a posição e permitiu que Mousasi chegasse ao seu peitoral. O passeio seguiu com cotoveladas e socos no ground and pound. Nunca ninguém passou o carro deste modo em Rory MacDonald. Acho que nunca mais veremos aquele doce psicopata dos tempos do UFC. Culpa de Robbie Lawler.

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Rampage iguala a rivalidade – e o constrangimento – com o Cachorro Louco

A rivalidade entre Rampage Jackson e Wanderlei Silva teve o quarto capítulo neste sábado, dez anos depois do último duelo. Sim, do último, não do primeiro. O que esperar numa situação dessa?

Como bem disse nosso colaborador Vinicius Camilo no grupo de WhatsApp, Rampage parece um personagem do Minecraft. Já o pirocóptero de Wand não dá mais que meia volta. Houve um momento no combate hilariamente constrangedor. O Cachorro Louco tentou uma movimentação lateral. Rampage meteu um olhar de reprovação e chamou o rival para o pau, mas apenas para evitar a fadiga de transportar seu abdômen protuberante atrás de Wand. Não que o curitibano estivesse esbanjando energia. Longe disso.

Um momento legal foi a tentativa de Rampage terminar o combate com joelhadas, o modo com que Wand o liquidou duas vezes no Pride e que dá pesadelos no americano até hoje. Para sorte de Silva, Jackson não tinha nenhuma condição de fazer sua rótula superar a pança mais de uma vez consecutivamente.

Quando os punhos se chocaram contra os queixos, os vários quilos a mais de Rampage atuaram em seu favor. Com maior potência, o americano balançou o brasileiro e o mandou à lona para enfim empatar a rivalidade no ground and pound.

Com 2 a 2 no placar, vários já estão pedindo o desempate. Melhor não.

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Douglas Lima é o principal favorito no torneio dos meios-médios

Voltando ao conto do psicopata que foi exorcizado, jamais seria pensado que Douglas Lima pudesse vencer Rory MacDonald. Porém, pelas últimas atuações de ambos, acho que isso acontecerá na próxima vez que eles se encontrarem.

O brasileiro se tornou um lutador muito consistente e mais inteligente. Contra Andrey Koreshkov, Douglas anulou o wrestling do russo, que foi a ferramenta que lhe causou a derrota no primeiro duelo da trilogia.

Aliás, de onde Koreshkov tirou que ele é wrestler? O triunfo sobre Douglas parece ter subido à cabeça de Andrey. O russo insistiu nas quedas até chegar ao ponto de tornar infrutífera todo o seu planejamento de luta. O wrestling defensivo de Lima foi mais do que suficiente para impedir todas as tentativas de Koreshkov. Para piorar, o europeu não mostrou nenhuma variação, facilitando ainda mais a missão de Douglas não ir ao chão.

No fim das contas, ir ao chão resolveu a parada a favor do brasileiro. Douglas avançou bem às costas de Koreshkov e, num movimento rápido e perfeito, encaixou os ganchos no mesmo momento em que travava o pescoço do rival no mata-leão. Quando Lima completou o movimento, nada mais havia a ser feito por parte de Koreshkov, que dormiu o sono dos justos.

Atualização: fui lembrado pelo João Gabriel Gelli que Ed Ruth está no torneio. Douglas continua favorito, mas terá um oponente encardido demais pelo caminho.

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Parece que negó de Aaron Pico é bom mesmo

Minha sina é ser criticado quando o assunto é Aaron Pico. A sina do americano é mostrar a todos que ele é pica perdão.

Durante a semana passada, fui questionado ao defender as largas odds a favor de Pico contra Leandro Higo, a despeito da enorme vantagem na experiência a favor do brasileiro. Meu ponto era simples: Higo é um lutador muito talentoso, mas com um estilo muito moroso. O terror desse tipo de lutador é alguém dinâmico e agressivo como Pico. E se o dinâmico e agressivo for ainda daqueles caras que aparecem a cada 50 anos, o negócio piora.

Aos 22 anos, sem ter feito lutas amadoras ou ter atuado no circuito regional, Pico demonstra uma consciência do que tem que ser feito que gente com muito mais estrada que ele não consegue. E ele faz isso mesmo ainda visivelmente se enrolando com alguns detalhes como a utilização do espaço de luta. Apesar de ser redondo como os tapetes de wrestling, o cage circular do Bellator tem grades e postes. Houve um momento em que Pico parou e reiniciou sua movimentação mais para o centro do cage, como se ele fosse bater na grade se continuasse onde estava. Isso é natural para alguém em seu estágio de experiência. Imagine o que ele fará quando sua movimentação sair mecanicamente.

Pico sabe exatamente quando deve entrar com um gancho, com um direto, com um uppercut. Sabe quando tem que fazer o step back, quando tirar a cabeça. E, mais importante, sabe receber um soco potente e ter a consciência de recuar e reiniciar. Imagine esse rapaz com 25 anos e mais nove ou dez lutas na conta.

Não tinha muito jeito. Higo poderia tentar o jiu-jítsu, mas não havia possibilidade de levar um wrestler do gabarito de Pico ao chão se não fosse por um knockdown. Embora tenha engolido algumas pedradas com muita dignidade, Leandro não foi páreo quando Aaron acelerou a troca de socos. Paulatinamente, Pico destruiu o adversário até o árbitro parecer um amaldiçoado que não parava a luta.

Na comemoração, Pico deu um berro apontando o dedo para Patricio Pitbull, treinador de Higo e atual campeão da categoria dos penas, dizendo que sua hora vai chegar. Não agora, pois Patricio é um salto imenso em relação a Higo. Porém, pelo andar da carruagem, vai chegar mesmo.

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Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.