Por João Gabriel Gelli | 11/11/2020 15:03

O calendário do UFC no últimos tempos se tornou cada vez mais diluído. Os grandes destaques ficaram mais escassos e a maior parte dos cards parecem depender de uma ou duas lutas. Entretanto, escondidos neles podem ser encontradas algumas joias. Raoni Barcelos é o caso de uma que ficou obscura no UFC Vegas 13, que aconteceu no último sábado (dia 07/11), mas brilhou de forma mais forte com seu desempenho.

O brasileiro entrou de última hora no evento para substituir Jack Shore e enfrentar Khalid Taha. O que se viu foi um amplo domínio e um bônus de luta da noite. Desde então, muitos analistas começaram a elogiar a sua atuação e a carreira invicta no UFC até o momento. É bem possível que você, caro leitor, já tenha se deparado com algum texto sobre ele nessa semana, como é o caso desse no Bloody Elbow. No entanto, é necessário reforçar aqui no MMA Brasil o talento de Raoni. Além disso, temos enfatizar que, nesse momento, ele merece uma chance de mostrar seu valor contra concorrência do nível mais alto.

No entanto, vamos voltar alguns passos e mostrar o porquê disso.

O caminho de Raoni Barcelos até o UFC

Quem acompanha o MMA Brasil há algum tempo, conhece o Radar MMA Brasil. Nela, selecionamos atletas jovens e com muito potencial. Nomes como Henry Cejudo, Thomas Almeida, Mirsad Bektic foram mencionados muito antes de atingirem o UFC e o ranking de suas respectivas categorias. No longínquo ano de 2013, Raoni Barcelos foi o personagem da segunda edição da coluna. Ele ainda atuava em eventos no Brasil, mas já mostrava grande talento, tanto que ganhou o Prêmio Osvaldo Paquetá como revelação do MMA nacional em 2012 e provocou as seguintes palavras do nosso editor-chefe Alexandre Matos:

A expectativa do MMA Brasil é bastante alta. Com a maturidade e a evolução dos treinos, o destino mais provável de Raoni Barcelos é chegar ao UFC e poder bater de frente com os melhores da categoria dos penas no mundo. Minha aposta é na contratação em até um ano pela maior organização de MMA do mundo.

A questão aqui é que a chance no UFC não veio tão rápido. No período de um ano citado, ele tinha conquistado mais uma vitória no Brasil e assinado com a RFA, na qual venceu na estreia. Todavia, tropeçou no compromisso seguinte ao ser finalizado por Mark Dickman.

De qualquer forma, Barcelos não se abalou com o revés e pouco mais de um ano depois estava disputando o importante cinturão da RFA contra Ricky Musgrave. O triunfo veio em decisão unânime e em seguida já poderia ser esperado o chamado do UFC. Sempre foi comum para Joe Silva e Sean Selby buscar novos lutadores no plantel da RFA e era quase certo que um campeão receberia um chamado em breve.

Raoni Barcelos com os cinturões da RFA

Como já está ficando claro nessa história, Raoni não recebeu essa chance de imediato. Em 2016, ele defendeu duas vezes o título dos penas da organização contra Bobby Moffet e Dan Moret, dois lutadores que tiveram passagem pelo UFC posteriormente. Com um cartel de 11-1, vitórias relevantes e duas defesas de um dos cinturões mais importantes do MMA regional, ficou difícil impedir que chegasse o momento do brasileiro no maior palco.

Contudo, como não poderia ser diferente, isto não veio sem algum atraso. Ele foi contratado pelo UFC para lutar no UFC Fight Night: Brunson vs. Machida, em São Paulo, em outubro de 2017. O problema é que seu adversário, Boston Salmon, se lesionou e então o duelo foi removido do card. Isto adiou a estreia até o meio do ano seguinte.

A trajetória de Raoni Barcelos no UFC

O tão esperado momento de estrear na maior organização de MMA do mundo chegou em julho de 2018. Nela, Raoni enfrentou Kurt Holobaugh, que já tinha passagem anterior pelo UFC e tinha retornado após conquistar título no Titan FC e vencer no Contender Series. O duelo foi empolgante e o brasileiro conseguiu se sobressair ao mostrar versatilidade e potência. Ele conseguiu ler os jabs de Holobaugh e identificou brechas para atacar. Em uma dessas brechas saiu a violenta sequência que rendeu o nocaute no terceiro round e um bônus de luta da noite.

Poucos meses depois, estava de novo no octógono, mas dessa vez para fazer a estreia como peso galo. Barcelos passou toda a carreira até aquele momento como pena, mas via a possibilidade de descer de categoria como uma forma de ficar mais forte e rápido. A transição se mostrou efetiva e mais uma vitória pela via rápida chegou. Dessa vez, Raoni finalizou Chris Gutierrez em exibição com muito controle na luta agarrada.

Em seguida, teve a oportunidade de lutar no Rio de Janeiro, sua cidade. Originalmente enfrentaria Said Nurmagomedov, que se lesionou e foi substituído por Carlos Huachin. Raoni teve alguma dificuldade no primeiro assalto, mas conseguiu identificar os pontos que o oponente estava aproveitando e fez ajustes. O combate foi interrompido no final do segundo round depois de amplo domínio no ground and pound.

Foto: Jason Silva (USA TODAY Sports)

O duelo com Nurmagomedov aconteceu sete meses depois, na Coreia do Sul. O brasileiro mostrou atenção para os golpes giratórios do russo e conseguiu duas quedas e venceu seu principal adversário até o momento na carreira. Nesse ponto, a expectativa é de que teria um salto para enfrentar concorrência do top 15. Ele chegou a ter confronto marcado com Cody Stamann, mas este foi desmarcado por causa da pandemia da Covid-19. Isto adiou o retorno de Raoni ao octógono até o último sábado, no triunfo já citado contra Taha.

O que esperar de Raoni Barcelos no futuro

Todo esse histórico serviu para contar a trajetória de Raoni no MMA. Muitas vezes, as chances vieram tarde demais. Ele já é um veterano de quase nove anos no esporte e com 33 anos de idade. Fez uma longa e vitoriosa carreira no cenário regional e tem um arsenal técnico de alto nível.

Ele é um boxeador ajustado, com contragolpes precisos e leituras eficientes. Também tem um chute potente e capacidade de interromper combates com os punhos. Além disso, é muito bom na luta agarrada. Tem um longo histórico não apenas como faixa preta de jiu-jítsu, mas também como integrante da seleção brasileira de wrestling. Isso o torna um dos melhores brasileiros no MMA em aplicar quedas. Isto é bem complementado com um forte trabalho de controle posicional, passagens de guarda, finalizações e ground and pound. Dessa forma, Barcelos pode ser caracterizado como um lutador completo, com um arsenal profundo. Mais importante que isso, apresenta diversas camadas para buscar ajustes e se adaptar para cada oponente diferente.

O problema é que, como já falamos, ele já está mais para a parte final da carreira. Isto não quer dizer que está em declínio ou que está perto de aposentar. Apenas representa que, em um esporte enviesado a favor dos mais jovens, Raoni já acumula sua boa parcela de camps de treinamento.

Ele tem todas as ferramentas para enfrentar o temido top 10 do peso galo e ser bem-sucedido. O que falta é receber uma oportunidade, que muitas vezes chegou atrasada em sua carreira no MMA, e parece que pode acontecer novamente na evolução da trajetória no UFC. Chegou a hora de colocar todo o talento do brasileiro em teste contra a elite da divisão. Esse é o ponto em que já é um produto finalizado como lutador e precisa mostrar qual o seu real teto. Por isso, fica o recado de que, como em muitos outros momentos, Raoni Barcelos merece uma chance.

Concorda, caro leitor? Conte nos comentários! 

Foto de destaque: Jeff Bottari (Zuffa LLC).