Rafaela Silva: quatro anos depois da covardia racista, a primeira campeã mundial e olímpica do judô brasileiro

Em Londres, Rafaela Silva cometeu um erro, foi desclassificada e sofreu ataques racistas e misóginos. Quatro anos depois, no quintal de onde nasceu, ela se tornou a primeira pessoa a conquistar ouro mundial e olímpico no judô brasileiro.

Esportes vivem apresentando histórias maravilhosas de superação, de volta por cima. Os Jogos Olímpicos, ponto máximo esportivo, traz algumas das mais especiais. Nesta segunda-feira, o judô foi a bola da vez com Rafaela Silva, judoca nascida na comunidade da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, e revelada no programa social Instituto Reação, tocado pelo ex-medalhista olímpico Flavio Canto.

Jogos Olímpicos de Londres, oitavas de final da categoria até 57 quilos do judô feminino. Aos 20 anos, Rafaela dominava a húngara Hedvig Karakas com tranquilidade quando, aos 2min51s, se meteu numa polêmica: ao tentar desequilibrar a adversária pela manga, ela aplicou um kata-otoshi e projetou a adversária ao tatame. A primeira reação da arbitragem foi marcar um wazari para a brasileira, mas a revisão no vídeo mostrou que não houve tentativa de desequilíbrio antes do ataque à perna de Karakas. Por este motivo, ao invés de receber um wazari, Rafaela foi desclassificada.

Desolada pela eliminação precoce, Rafa desabou no tatame aos prantos. Karakas, que estranhou a marcação oficial, tentou consolar a oponente, em vão. Porém, o pior viria em seguida. Quando Rafaela chegou à Vila Olímpica achando que teria incentivo nas redes sociais, deu de cara com uma corja de vagabundos a esculachando com toda sorte de ofensas racistas e misóginas. A judoca foi chamada de burra, de macaca. Houve quem dissesse que ela era a vergonha da família, que merecia voltar de Londres nadando ou que deveria morar numa jaula. Teve até alguém dizendo que ela “estava gastando o dinheiro de impostos para tentar ganhar roubando”. Bem típico do que vem acontecendo no Brasil há alguns anos, quando alguns passaram a ter cada vez menos vergonha de proferir as mais baixas ofensas.

Rafa então superou o desejo de abandonar o judô e deu a volta por cima. E que volta. Já no ano seguinte, ela se tornou a primeira judoca brasileira campeã mundial no adulto, cinco anos depois de conquistar o Mundial Júnior e exatamente no dia do cinquentenário da Marcha Sobre Washington, liderada por Martin Luther King, importante marco da luta contra o racismo.. Mas era pouco. No dia 8 de agosto de 2016, Rafaela completou seu ciclo de recuperação de maneira épica.

Quando saiu a chave do torneio olímpico do Rio de Janeiro, Rafa viu que Karakas estava novamente em seu caminho. Antes, a sul-coreana Kim Jan-Di, vice-líder do ranking mundial, foi batida por wazari. Na hora da revanche de Londres, a brasileira se focou em não passar por todo aquele sofrimento novamente e, mostrando uma frieza incrível, um novo wazari a conduziu à semifinal do período da tarde.

A semifinal contra a romena Corina Căprioriu foi tensa, decidida apenas no golden score. Como? Com mais um wazari, desta vez num uchimata de contragolpe. Então chegou a final contra a mongol Dorjsürengiin Sumiyaa, que também teve uma participação ruim em Londres, mas que evoluiu horrores e chegou ao Rio como líder do ranking mundial e cabeça de chave número um.

Sem esboçar reação alguma, Rafaela entrou no tatame. A luta começou tensa, mas a carioca se mantinha impávida. Cerca de metade do tempo passado, Rafa aproveitou um contragolpe e projetou a rival ao tatame. O filme de quatro anos antes voltou a passar, para desespero dos torcedores que ocuparam a Arena Carioca 2 e os milhões assistindo pela TV. De novo, a arbitragem recorreu ao vídeo para saber se Rafaela havia feito uma catada de perna direta. Assim como em Londres, ela estava entre um wazari ou a desclassificação, que, agora, representaria a medalha de prata. Não há quem aguente um negócio desse duas vezes, ainda mais numa final olímpica no quintal de casa – o ginásio dos Jogos fica a menos de oito quilômetros da Cidade de Deus.

Quando o árbitro central esticou o braço direito a 90º do solo, o veredito estava dado: outro wazari, completando a pontuação quase decisiva em todos os cinco duelos. A torcida explodiu, mas Rafa se manteve como se estivesse num 0 a 0 dos Campeonatos Cariocas quando, ainda na faixa amarela, sacodia as meninas da marrom.

Sumiyaa cresceu na luta, pressionou, mas Rafaela defendeu bem a manga esquerda e anulou o ponto forte da judoca da Mongólia. Três segundos para o fim e, ameaçada de levar mais uma punição, Rafa seguia com o mesmo semblante sério, frio, focado. Fim de luta, primeira medalha de ouro para o Brasil nos Jogos Olímpicos Rio 2016. Assim como há quatro anos, Rafa desabou no chão em lágrimas, mas agora não precisou ser consolada pela adversária.

“A macaca que deveria estar na jaula em Londres agora é campeã olímpica”, disse ela, emocionada, ao microfone do repórter Tino Marcos, da Rede Globo. Olímpica e Mundial, Rafa. Entre homens e mulheres, a única brasileira a atingir tal feito. Gigante.

  • Marcos E

    Emocionante! !!!!

  • Kadu Rampazzo

    Sensacional. Me emocionei ontem, me emocionei vendo o jornal hoje e de manhã e agora estou aqui lendo com os olhos marejados novamente. Incrível!

  • Anderson Rodrigues

    Sensacional!!!

  • Isabella Kida

    Foi emocionante! O esporte é fantástico demais !

  • Alex Silva

    caramba q história de superação fantástica!!!

    • Mais uma saída dessa coisa maravilhosa que é a Olimpíada.

  • James sousa

    não sou muito conhecedor da historia do Judo do Brasil , mas tenho visto que nos últimos anos as grandes conquistas foram através das mulheres

    • Sim, a equipe feminina virou nossa maior força na última década.

  • Gabriel Carvalho II

    Incrível!

  • IMPERADOR

    Ótimo texto!!
    Sensacional a historia!!
    Sao os milagres do esporte que, apesar de negligenciado historicamente pelas autoridades, nos dão frutos de justiça social e dignidade humana.
    Pelo esporte, mais uma vez, vejo a capacidade humana de ser resiliente, emergir de um mar de corrupção, barreiras sociais e de uma intrincada e complexa textura de impossbilidades.
    | Omnia labor vincit | = O trabalho a tudo vencera.

  • Luiz Gustavo

    Que texto maravilhoso Alexandre…e o quão nos deixa emocionado por ver tamanha volta por cima d uma mulher q tinha td pra desistir por td q passou.
    Gostaria inclusive q a equipe do site pudesse mostrar a historia dos outros esportes de lutas novamente…sei q mtas pessoas não darão o devido valor mas quem os acompanharem certamente aumentarão seus conhecimentos.