Por Alexandre Matos | 28/08/2013 21:32

No primeiro dia, medalha de bronze. No segundo, medalha de prata. No terceiro dia de competições, Rafaela Silva conquista a primeira medalha de ouro em Campeonatos Mundiais da história do judô feminino brasileiro.

Depois de ser xingada na derrota em Londres, Rafaela Silva dá a volta por cima com o título mundial (Foto: Marcio Rodrigues / Fotocom)

Depois de ser xingada na derrota em Londres, Rafaela Silva dá a volta por cima com o título mundial (Foto: Marcio Rodrigues / Fotocom)

O título inédito tem um gosto especial por ter sido conquistado exatamente por Rafaela. Nascida na comunidade da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, a menina pobre foi descoberta e lapidada pelo projeto social tocado pelo ex-medalhista olímpico Flavio Canto, o Instituto Reação, que inclusive tem apoio do UFC. Além de ser uma prova viva do esporte agindo como a melhor ferramenta de inclusão social, Rafaela pode dar a resposta a todos que destilaram seu preconceito racial e social quando ela foi eliminada nos Jogos Olímpicos de Londres. E isto justo no dia do cinquentenário da Marcha Sobre Washington, liderada por Martin Luther King, importante marco da luta contra o racismo.

“Mandaram eu fazer outra coisa, disseram que eu não servia pro judô”, desabafou a campeã logo após vencer a final contra a americana Marti Malloy, que havia batido Rafaela no Pan-americano por equipes. Sim, ela serve para o judô. Como ficou claro no golpe que decidiu a medalha de ouro. Malloy tentou forçar um ataque, mas Rafaela contragolpeou com um perfeito deashi harai (a popular varrida) e conduziu a americana até chapar suas costas no chão. O árbitro central ameaçou dar wazari, mas logo a mesa decidiu pelo ippon.

A carioca de 21 anos começou a escalada contra outra americana: Hana Carmichael foi derrotada por dois yuko. No combate seguinte, sofrimento. A romena Loredana Ohai conseguiu um yuko no minuto final. A quinze segundos da eliminação, um wazari salvou Rafaela e a colocou nas quartas-de-final. A vaga na semifinal foi garantida contra a kosovar Nora Gjakova, superada por ippon no começo do combate.

A semifinal foi outra luta sofrida – e agora com polêmica. Afinal de contas, a adversária era a número um do mundo, a francesa Automne Pavia. Combate truncado, Rafaela conseguiu uma queda, contabilizando um wazari. A brasileira foi para a imobilização, passou para a chave de braço e fez a adversária bater discretamente. O árbitro não viu e a luta continuou. Por sorte de Rafaela, não havia mais tempo e o wazari anterior garantiu sua vaga na decisão.

Outra brasileira em ação, Ketleyn Quadros foi eliminada precocemente. A primeira medalhista olímpica brasileira estreou vencendo a húngara Hedvig Karakas, exatamente a que venceu Rafaela em Londres. Em seguida, Quadros foi derrotada por Malloy, que acabou com a medalha de prata.

Shohei Ono anotou um lindo ippon no francês Ugo Legrand para conquistar a medalha de ouro (Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP)

Shohei Ono anotou um lindo ippon no francês Ugo Legrand para conquistar a medalha de ouro (Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP)

Na chave masculina, o Japão anotou a terceira medalha de ouro em três disputas. Shohei Ono fez uma campanha brilhante, mostrando um judô versátil e plástico. Ele bateu na decisão o talentoso francês Ugo Legrand, um dos favoritos ao título no começo da competição.

Único brasileiro em ação nesta quarta, Bruno Mendonça venceu o chileno Felipe Caceres e o gabonês Terence Junior Kouamba Poutoukou, mas tombou diante do bielorrusso Aliaksei Ramanchyk.

No quadro de medalhas, o Japão lidera com três ouros, uma prata e um bronze. O Brasil assumiu o segundo lugar com uma medalha de cada cor, seguido da Mongólia, com um ouro e uma prata.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.