Rafaela Silva é campeã mundial de judô no terceiro dia de competições

Em importante data na luta contra o racismo, brasileira que sofreu o mal em Londres se torna a primeira brasileira campeã mundial de judô. No masculino, Shohei Ono faz o Japão disparar no quadro de medalhas.

No primeiro dia, medalha de bronze. No segundo, medalha de prata. No terceiro dia de competições, Rafaela Silva conquista a primeira medalha de ouro em Campeonatos Mundiais da história do judô feminino brasileiro.

Depois de ser xingada na derrota em Londres, Rafaela Silva dá a volta por cima com o título mundial (Foto: Marcio Rodrigues / Fotocom)

Depois de ser xingada na derrota em Londres, Rafaela Silva dá a volta por cima com o título mundial (Foto: Marcio Rodrigues / Fotocom)

O título inédito tem um gosto especial por ter sido conquistado exatamente por Rafaela. Nascida na comunidade da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, a menina pobre foi descoberta e lapidada pelo projeto social tocado pelo ex-medalhista olímpico Flavio Canto, o Instituto Reação, que inclusive tem apoio do UFC. Além de ser uma prova viva do esporte agindo como a melhor ferramenta de inclusão social, Rafaela pode dar a resposta a todos que destilaram seu preconceito racial e social quando ela foi eliminada nos Jogos Olímpicos de Londres. E isto justo no dia do cinquentenário da Marcha Sobre Washington, liderada por Martin Luther King, importante marco da luta contra o racismo.

“Mandaram eu fazer outra coisa, disseram que eu não servia pro judô”, desabafou a campeã logo após vencer a final contra a americana Marti Malloy, que havia batido Rafaela no Pan-americano por equipes. Sim, ela serve para o judô. Como ficou claro no golpe que decidiu a medalha de ouro. Malloy tentou forçar um ataque, mas Rafaela contragolpeou com um perfeito deashi harai (a popular varrida) e conduziu a americana até chapar suas costas no chão. O árbitro central ameaçou dar wazari, mas logo a mesa decidiu pelo ippon.

A carioca de 21 anos começou a escalada contra outra americana: Hana Carmichael foi derrotada por dois yuko. No combate seguinte, sofrimento. A romena Loredana Ohai conseguiu um yuko no minuto final. A quinze segundos da eliminação, um wazari salvou Rafaela e a colocou nas quartas-de-final. A vaga na semifinal foi garantida contra a kosovar Nora Gjakova, superada por ippon no começo do combate.

A semifinal foi outra luta sofrida – e agora com polêmica. Afinal de contas, a adversária era a número um do mundo, a francesa Automne Pavia. Combate truncado, Rafaela conseguiu uma queda, contabilizando um wazari. A brasileira foi para a imobilização, passou para a chave de braço e fez a adversária bater discretamente. O árbitro não viu e a luta continuou. Por sorte de Rafaela, não havia mais tempo e o wazari anterior garantiu sua vaga na decisão.

Outra brasileira em ação, Ketleyn Quadros foi eliminada precocemente. A primeira medalhista olímpica brasileira estreou vencendo a húngara Hedvig Karakas, exatamente a que venceu Rafaela em Londres. Em seguida, Quadros foi derrotada por Malloy, que acabou com a medalha de prata.

Shohei Ono anotou um lindo ippon no francês Ugo Legrand para conquistar a medalha de ouro (Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP)

Shohei Ono anotou um lindo ippon no francês Ugo Legrand para conquistar a medalha de ouro (Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP)

Na chave masculina, o Japão anotou a terceira medalha de ouro em três disputas. Shohei Ono fez uma campanha brilhante, mostrando um judô versátil e plástico. Ele bateu na decisão o talentoso francês Ugo Legrand, um dos favoritos ao título no começo da competição.

Único brasileiro em ação nesta quarta, Bruno Mendonça venceu o chileno Felipe Caceres e o gabonês Terence Junior Kouamba Poutoukou, mas tombou diante do bielorrusso Aliaksei Ramanchyk.

No quadro de medalhas, o Japão lidera com três ouros, uma prata e um bronze. O Brasil assumiu o segundo lugar com uma medalha de cada cor, seguido da Mongólia, com um ouro e uma prata.

  • FeroZ

    Impressionante história de superação. Brasileiro tem mania de torcer só pra quem vence. Realmente, ela foi muito criticada na eliminação olímpica (algumas críticas com fundamento). Entretanto, ela mostrou que determinação é fundamental. Quem diria que uma garota pobre, de uma comunidade estigmatizada como de gente “fudida”, chegaria tão cedo onde essa menina chegou?!

    Parabéns pra ela e pro Flávio Canto. Te falar que eu não ia muito com a cara dele, mas já a muito tempo sou fã do sujeito. O brasil precisa de mais pessoas assim.

    O esporte e sua filosofia, as vezes mesmo barata, vive dando lições de vida. Aprendamos todos com isso.

    E Alexandre. Ótima cobertura. Parabéns.

    • Feroz, ainda que algumas críticas tivessem fundamento em Londres (sim, ela cometeu uma falta sabendo que as regras tinham mudado, foi quase um ato falho), acho que as pessoas deveriam levar em conta que era uma menina de 20 anos, oriunda de uma comunidade carente, que não tinha dinheiro pra treinar se não fosse o Reação, disputando a maior competição esportiva do planeta.
      .
      Flavio Canto é foda, mano. Conheci há muitos anos, quando a gente era garoto.

    • Vertuno

      Eu sempre tive a impressão que o Flávio Canto era um cara bacana. Já o admirava muito por ser um ótimo atleta, passei a admirar ainda mais como pessoa depois do Instituto Reação! Imagino como o cara deve estar feliz agora com essa grande conquista!

      Parabéns à Rafaela! Merecida conquista, ainda mais se pensarmos o quanto ela foi criticada exageradamente depois das Olimpíadas! Tão jovem e já conseguiu uma conquista desse porte!

  • Leandro Silva

    Ótima matéria alexandre, parabéns para a Rafaela que superação….

    Fico imaginando se o Brasil tivesse um apoio ao esporte pra valer, quantas “Rafaelas” nao seriam descobertas em todas as modalidades?

    Parabens Flavio canto pelo trabalho ..

  • mauricio

    Essa menina foi minha vizinha, lembro dela começando no judo,fico feliz espero que tenham mais projetos para os esportes olimpicos.

  • Tyler Manawaroa lutador racista. O australiano postou uma foto em sua conta atacando os negros com a seguinte frase. “Estão acostumados a olhar através das barras, negrinhos”. Para concluir a sua obra racista, o lutador ainda completou com hashtag: #Malditosnegros #Cadeia.