Radar MMA Brasil: Tom Duquesnoy, a potencial chave para o MMA na França

O francês Tom Duquesnoy, 22 anos, convive com a proibição do MMA em seu país, mas isso não impediu de treinar desde os 12. Agora, ele é visto como quem poderá carregar a bandeira contra este bloqueio.

País onde o judô exerce grande influência política no cenário esportivo, a França proíbe o MMA, assim como Nova York o fazia até o último mês de março. Por conta disso, a maior parte dos lutadores que alcançam certo destaque neste país europeu treinam em academias no exterior ou são obrigados a realizar seus combates em eventos que podem ser considerados clandestinos.

Um dos principais meios para se contornar o embargo político exercido pela poderosa Federação Francesa de Judô é a presença de um atleta reconhecido e que seja capaz de liderar a causa, assim como a lenda Teddy Riner, oito vezes campeão mundial e uma vez das Olimpíadas, faz para a modalidade olímpica. O UFC, principal interessado na expansão, já tem ou teve diversos atletas do país sob contrato, como Cheick Kongo, Francis Carmont e Taylor Lapilus. No entanto, nenhum deles cresceu a ponto de se tornar este nome, já tendo sido cortados ou então ainda muito pouco desenvolvidos no MMA.

A história de Tom Duquesnoy

Eis então que entra em cena o nosso personagem. Nascido em Lens, uma cidade de pouco mais de 30 mil habitantes e localizada a cerca de 180 quilômetros de Paris, Tom Duquesnoy, 22 anos, conheceu o MMA a partir de vídeos de Fedor Emelianenko competindo no PRIDE FC. Como era menor de idade – tinha apenas 12 anos – e seu país não permite o treino das artes marciais mistas abaixo dos dezoito anos, Duquesnoy tratou de começar a praticar a modalidade de origem de seu ídolo, o sambô, na qual conquistou cinco títulos nacionais. Depois, vieram o boxe, o wrestling e o muay thai.

Quando completou 18 anos, seu pai lhe deu um ultimato. Pagaria as despesas para que se mudasse para Paris e investisse em sua carreira como lutador profissional, mas, se ao final de um ano não tivesse obtido resultados, Tom estaria por conta própria. Ao término desse período, ele já estava com 3-0 no MMA e vislumbrava um futuro no esporte que amava e com o qual poderia pagar as suas contas.

Mais uma vitória veio antes do primeiro tropeço. Em fevereiro de 2013, Duquesnoy enfrentou um dos atuais nomes em ascensão do plantel do UFC, o finlandês Makwan Amirkhani, em território hostil. O francês relata que não houve pesagem e que só viu o oponente pela primeira vez no dia do combate. Em um duelo de muito giro na luta de solo, o inexperiente Tom acabou finalizado no primeiro round com um triângulo de mão invertido após um movimento equivocado.

A recuperação veio com mais três triunfos consecutivos, o que lhe rendeu um contrato em uma das principais organizações da Europa, o inglês BAMMA. Em sua primeira luta no evento, Duquesnoy nocauteou Jack Saville no ground and pound e se credenciou para disputar o cinturão vago dos penas. Seu adversário na disputa foi o compatriota Teddy Violet. Na ocasião, Duquesnoy dominou o combate, que se encerrou com um belo triângulo, conquistado depois de uma sensacional reversão, que pode ser conferida no vídeo abaixo.

Após uma defesa de cinturão que terminou em no contest em cinco segundos por conta de um chute baixo que deixou o desafiante Ashleigh Grimshaw incapaz de lutar, Tom enfrentou o polonês Krzysztof Klaczek. O francês aparentou ter problemas para lidar com a maior força física do adversário, que conseguiu derrubá-lo algumas vezes. Contudo, o atleticismo de Duquesnoy prevaleceu e um avassalador chute na linha de cintura abriu caminho para os golpes que encerraram a luta.

Seu desafio seguinte acabou sendo o mais complicado até agora. Ao enfrentar o ex-UFC Brendan Loughnane, o “Fire Kid” se encontrou em nítida desvantagem física, sofreu um knockdown, mas se manteve na luta, também conectando bons golpes e uma queda. No fim das contas, Tom manteve seu cinturão em uma controversa decisão dividida. Ele aparentou ter ficado incomodado com o próprio desempenho.

Quando o interesse do UFC chegou, Duquesnoy mostrou maturidade e que estava pensando a longo prazo ao recusar a primeira oferta de contrato, afirmando que ainda precisava evoluir. Ele renovou com o BAMMA, embora não tenha perdido o contato com a maior organização de MMA do mundo, conforme disse em entrevista ao Sherdog:

“Pelos últimos dois anos eu mantive contato com (o matchmaker) Sean Shelby. Nós temos um bom relacionamento e estamos cientes de que trabalharemos juntos logo. Temos respeito um pelo outro, porque sabemos que ainda teremos negócios. Nesse momento, meu objetivo é me preparar da melhor maneira, porque quero chegar no UFC para ficar. Não pretendo ir e voltar.”

Tendo em vista seu futuro a longo prazo, Duquesnoy optou por baixar para a categoria dos galos, mais condizente com seu porte físico (apesar de ter 1,70m de altura, Duquesnoy não é tão forte quanto outros penas da elite), e buscou treinos em diversas academias nos Estados Unidos, estabelecendo-se finalmente na Jackson-Wink MMA quando está em camp, dividindo seu tempo entre o Novo México e Paris. Na academia de Greg Jackson e Mike Winkeljohn ele pode evoluir e ter parceiros de treino como John Dodson, Diego Sanchez, BJ Penn e Cub Swanson. No entanto, sua escolha de colega de sparring preferido é surpreendente:

“Eu amo treinar com Holly Holm. Ela é eficiente, inteligente, sabe usar bem os ângulos. Para mim, ela tem uma das melhores técnicas aqui em Albuquerque e é uma ótima parceira de sparring. Nós temos o mesmo tamanho, então trazemos muitos benefícios um para o outro.”

Em sua estreia na nova divisão, Tom enfrentou o veterano Damien Rooney. Em um frenético embate de pouco menos de um minuto e meio, Duquesnoy conseguiu o nocaute após ter sofrido um knockdown e se credenciou para enfrentar o campeão Shay Walsh.

Buscando se tornar o primeiro campeão simultâneo de duas categorias da história da organização britânica, Tom entrou no cage no último dia 14 e precisou de menos de dois minutos para aplicar um sensacional nocaute, com uma cotovelada, que mandou Walsh de cara no chão.

Análise Técnica

O principal fator que chama a atenção ao assistir Duquesnoy lutando é sua capacidade atlética muito acima da média, que foi capaz de tirá-lo de situações mais complicadas no início da carreira. No entanto, aos poucos, ele foi evoluindo, sobretudo no wrestling, quando passou a treinar com a seleção olímpica francesa (que conta com vários lutadores de origem russa), no boxe, quando está na Mayweather Boxing Club, com Jeff Mayweather, tio de Floyd, e ao chegar na Jackson-Wink MMA. Apesar de não estar em tempo integral nos Estados Unidos, seu plano é se mudar de maneira definitiva uma vez que o chamado do UFC chegar e for aceito.

Toda ação que Duquesnoy toma nas lutas é realizada com um dinamismo impressionante. Trata-se de um lutador razoavelmente completo, mesmo com apenas 22 anos, apresentando boa habilidade nas transições. Ofensivamente, já demonstra um arsenal invejável, seja disparando combinações que chegam a quatro ou cinco golpes e normalmente completadas por potentes chutes em alturas variadas de ambas as bases, contragolpeando, trocando socos na curta distância, seja mudando de nível para aplicar quedas e trabalhar com um jiu-jítsu de muito giro por cima.

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Duquesnoy aplicando um de seus violento chutes no corpo em Krzysztof Klaczek.

De costas para o chão, Tom mostra o quadril solto e é muito ativo, sempre procurando raspagens, finalizações ou uma abertura para conseguir ficar de pé, se estiver por baixo. No clinch, ele aplica violentas cotoveladas e joelhadas e consegue variar para derrubar os oponentes. Além disso, após baixar de categoria, apresenta um tamanho adequado em relação aos seus adversários, contra os quais quase sempre possuirá vantagem na velocidade e aparentemente seu poder de nocaute passou a se destacar.

Por ser bastante agressivo – às vezes exageradamente – , Duquesnoy acaba se tornando um alvo acertável. Em diversas ocasiões ele acaba avançando em direção aos golpes dos adversários, apesar da frequente movimentação de cabeça. Tom ainda precisa evoluir no aspecto defensivo tanto de pé quanto na luta olímpica.

O maior receio ao se chegar no próximo nível de competição é saber como ele lidará com lutadores maiores que buscarão grudá-lo contra a grade e derrubá-lo. A pouca experiência de apenas quatro anos como profissional ainda pode lhe custar algumas vitórias, ao tentar movimentos que eventualmente lhe prejudiquem em combates, como finalizações de baixa probabilidade de encaixe ou por não saber dosar o ritmo nas horas certas.

O futuro

Que Tom Duquesnoy é um jovem de muito talento, competitivo e persistente, já foi possível perceber. Seus resultados no cenário regional já o qualificam para que realize o salto para o UFC.

Depois de ganhar o cinturão dos galos do BAMMA, ele logo desafiou o campeão britânico da organização na mesma categoria, o norte-irlandês Alan Philpott, que aceitou imediatamente. Este combate seria o último previsto em seu atual contrato e a expectativa é que poderá acontecer em Dublin, capital da Irlanda, no dia 10 de setembro. Mais uma vitória e Duquesnoy estará liberado para assinar com o UFC.

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Toda a paciência demonstrada durante a carreira poderá proporcionar que a cena acima, de Duquesnoy usando as luvas do UFC, seja uma visão rotineira na vida dos fãs de MMA pelos próximos 10 a 15 anos. Certamente, ele se mostra ciente de que o momento é agora e deseja se testar contra os melhores:

“Eu posso ver qual é o meu nível. Não quero soar arrogante, mas sei que aos poucos estou pronto para o título, mas quero fazer as coisas passo a passo e respeitar minha evolução física. Ainda quero trabalhar em diversos pontos e quero chegar no UFC para lutar pelo cinturão. Tenho uma visão a longo prazo neste negócio. Você tem que chegar ao UFC quando estiver preparado para o título, não antes.”

Com as habilidades que apresenta atualmente, o francês já seria forte candidato a se tornar um favorito dos fãs e adentrar o top 10 em pouco tempo no octógono, em uma divisão que está em fluxo. Adicione mais alguns anos de experiência, treinando em uma academia de elite como a Jackson-Wink, e já se torna difícil imaginar qual será o limite que ele poderá alcançar. E, quem sabe, o MMA possa ter encontrado o porta-bandeira que tanto necessita em sua causa na busca pela legalização na França.

  • Melhor matéria que o João já fez pro site, de longe. Só falta agora meter um Raio-X maneiro e já posso me aposentar. No UFC 200 ele faz.

    • João Gabriel Gelli

      Eu to aprendendo com o melhor, mas essa história de aposentar não cola hahahaha.

      Sobre o Raio-X, quem sabe ¯_(ツ)_/¯

  • Luiz Guilherme

    Grande matéria!!! Mto bom o paralelo com essa absurda proibição do mma na França.
    Sobre o duquesnoy, promete mesmo e tem os pé no chão. Deve dar caldo!

    • João Gabriel Gelli

      Eu to apostando forte no moleque. Essa categoria dos galos vai ser foda demais no futuro.

  • Anderson Cachapuz

    Acho que mesmo com tantas credenciais, ele ainda é jovem…. demorará alguns anos até ele ter as credenciais certas para ser o “porta bandeira” desta empreitada…

    Eu ainda não vi os vídeos, mas acho que pela altura não rola de cortar pros moscas, né?
    Precisamos de adversários pro Mighty Mouse.. :P

    • João Gabriel Gelli

      Ele ser o porta-bandeira da causa é algo em potencial, como eu sempre fiz questão de dizer quando falava sobre isso. Ele ainda precisa amadurecer e ganhar visbilidade antes de exercer esse papel.

      Sobre o tamanho, ele me parece um peso galo legítimo. Não vai ficar em desvantagem física e vai ser mais rápido. Duvido de um corte para os moscas, mas já vimos coisas mais estranhas acontecerem.

    • Acho que nem rola pra ele baixar pra mosca.

  • Gefferson Nesta

    Não conhecia, mas pelo que vi nos vídeos o moleque tem um futuro promissor!

    • João Gabriel Gelli

      O garoto é bom. Olho nele!

  • James sousa 8

    Ele tem talento , esta numa ótima equipe com bons parceiros de treino e ainda tem cabeça boa

    • João Gabriel Gelli

      As declarações me deixaram ainda mais confiantes no futuro dele. Parece bem ciente do que precisa fazer.

  • Bruno Moraes da Costa

    Excelente material, parabéns ao João!

    O guri parece ser muito bom, troca bem na média/curta, bom clinch, bom jogo de chão, boa resistência e queixo demais. Estou impressionado, só me preocupa ele tomar uns botadão que não precisaria.

    Só espero que ele não precise virar top antes de liberarem o MMA na França, puta atraso (se bem que se mantiveram até hj…).

    • João Gabriel Gelli

      É o que eu falei. Às vezes a agressividade dele acaba sendo um problema, deixando muito exposto. Acredito que seja o principal problema a corrigir.

  • Gio

    BAMMA tem parceria com o Bellator, e o Coker que de burro não tem nada já deve estar querendo ele também, não me surpreenderia se ele aparecesse no Bellator antes de ir pro UFC, seria um reforço e tanto para os galos do Bellator

    • João Gabriel Gelli

      Pelas declarações dele, eu acho que recusaria uma proposta do Bellator. O UFC é o objetivo dele, que provavelmente vai se concretizar depois da próxima defesa de cinturão no BAMMA.

      • Gio

        Declarações valem até ver as verdinhas na frente rsrs

    • Tomara que ele vá pro UFC. Se ele ficar no peso pena, aí seria legal no Bellator também.