Quando sonhos se tornam realidade: Andy Ruiz nocauteia Anthony Joshua na maior zebra em anos

Por Alexandre Matos | 02/06/2019 18:22

Impossible is nothing.

A Adidas ganhou o mercado publicitário há alguns anos com a frase acima e Muhammad Ali olhando fixamente o corpo de Sonny Liston estirado na lona. Neste sábado, o americano Andy Ruiz Jr. recriou a peça publicitária com o nocaute devastador diante de Anthony Joshua. O cenário, que estava pronto para a grande estreia do britânico em solo americano, definitivamente entrou para a história.

Andy Ruiz nocauteia Anthony Joshua

O Madison Square Garden, principal palco do boxe mundial, foi invadido por lutadores das Ilhas Britânicas para coroar Joshua como o peso pesado número um do mundo. O desafiante era bem mais baixo, com menor alcance, gordo e substituto de última hora, com um mês de preparação. Porém, Ruiz era um homem numa missão.

Antes, um recorte do cenário que estava montado contra Ruiz. Apesar de ser americano de nascimento, o desafiante foi vaiado na entrada. Quando Sinéad Harnett começou a cantar “God Save The Queen”, parecia que a “Meca do Boxe” ficava em Londres, tamanha a quantidade de vozes entoando o hino do Reino Unido – o mesmo não aconteceu na execução do hino americano. Após os hinos, a torcida passou a cantar as músicas baseadas em “Seven Nation Army”, tradicional nos estádios e ginásios na Grã-Bretanha.

Joshua fez o que se imaginava nos dois primeiros assaltos, mantendo Ruiz a uma distância segura, em ótimo serviço de jabs. Ele travava o combate no clinch sempre que Ruiz tentava encurtar. No começo do terceiro, o inglês resolveu dar show. AJ encurtou a distância, largou algumas bombas e mandou Ruiz à lona, pela primeira vez na carreira do americano, com um gancho seco de esquerda. Parecia que o destino estava escrito. Na verdade, esse momento agudo se revelou um grande equívoco na estratégia de Joshua.

O grave erro de Joshua: aceitar a curta distância

Empolgado, o campeão continuou trocando socos no pocket. Um erro primário que um lutador do nível de Joshua não pode cometer. Ruiz largou couro e, um minuto após cair, foi a sua vez de mandar Joshua a knockdown. O britânico se levantou em condições precárias e não conseguiu manter o desafiante longe. Resultado: a sete segundos do fim do round, Ruiz mandou Joshua à lona novamente. Round do ano até aqui.

Anthony Joshua v Andy Ruiz Jr

Andy Ruiz Jr demoliu Anthony Joshua na curta distância (Foto: Reuters/Andrew Couldridge)

O assalto seguinte praticamente não teve nada, com Joshua tentando apenas sobreviver e Ruiz cansado pelo esforço hercúleo da parcial anterior. No quinto, o britânico melhorou a movimentação e voltou a ter o desafiante longe. Joshua acertou dois potentes socos para garantir o round. Assim continuou até o minuto final do sexto assalto, quando Anthony resolveu baixar a guarda e, sem ter a velocidade de Ali, recebeu uns dois ou três golpes mais potentes de Andy. Ainda assim, não parecia que Joshua correria mais risco.

Não poderia estar mais errado.

Joshua voltou para o sétimo aceitando a curta distância. Ruiz não perdoou. Com meio minuto, o americano caçou o inglês e largou uma combinação de diversos ganchos abertos. Um direto de direita explodiu contra o rosto de Joshua em cheio e mandou o campeão à lona mais uma vez. Anthony se levantou, mas sua alma estava embarcando de volta a Londres. Sentindo a oportunidade, Ruiz espancou novamente e conseguiu o quarto knockdown da noite, o segundo no mesmo assalto. Joshua se levantou, mas não atendeu às demandas do árbitro Mike Griffin, que não teve outra saída senão decretar o nocaute técnico.

Andy Ruiz Jr. comemora com o pai, Andy Ruiz, e o técnico Manny Robles

Andy Ruiz Jr. comemora com o pai, Andy Ruiz, e o técnico Manny Robles

Callum Smith defende o cinturão dos supermédios de modo enfático

Se Joshua decepcionou os fãs britânicos, Callum Smith fez a sua parte. Com uma atuação magnífica, o inglês manteve o cinturão dos supermédios versão WBA ao nocautear o ex-campeão dos médios Hassan N’Dam N’Jikam. O campeão de Liverpool homenageou seu clube de coração, que conquistou pela sexta vez o título da UEFA Champions League poucas horas antes, lutando totalmente de vermelho.

O duelo não foi equilibrado em momento algum. Mais baixo, N’Dam tentou usar a velocidade para cansar o adversário, mas Smith mostrou excelente noção de ringue e sempre conseguia estar diante do oponente. Quando o franco-camaronês tentou acelerar, Callum encaixou um feroz gancho de esquerda enquanto recuava, mandando o desafiante à lona pela primeira vez no combate.

O contragolpe dos infernos voltou a ser mostrado em meio minuto do segundo assalto. Novamente N’Dam tentou pressionar e levou outro gancho de esquerda na têmpora, beijando a lona mais uma vez. Smith conseguia acertar golpes violentos na longa, média ou curta distância e fazia o desafiante errar a maioria de seus movimentos, parando quase todos no bloqueio. Sem conseguir escapar de ser caçado pelo campeão, o desafiante não tinha muito o que fazer.

Smith deixou o melhor para o terceiro round. O campeão manteve o desafiante encurralado e trabalhou combinações com ambos os punhos, variando muito bem os ataques entre cabeça e corpo. N’Dam, depois de levar dois knockdowns com a esquerda de Smith, resolveu sair para o lado direito do inglês e pagou caro. Enquanto o oponente preparava um golpe, Callum disparou um direto de direita tão violento que fez Hassan cair longe, dando contornos finais ao massacre.

Katie Taylor unifica os cinturões do peso leve com resultado absurdo

Até ontem, apenas seis boxeadores – quatro homens e duas mulheres – conseguiram abocanhar os quatro principais cinturões simultaneamente, dando o sentido correto para a expressão campeão linear. A estrela irlandesa Katie Taylor queria ser a sétima. Para tanto, precisava tirar da belga Delfine Persoon o título do WBC para juntar com os seus da WBA, WBO e IBF. Ela conseguiu, mas olha…

O momento foi também histórico por manter apenas mulheres no ringue, com a árbitra Sparkle Lee completando o trio com Taylor e Persoon.

A irlandesa era a franca favorita e com vasta superioridade técnica. Porém, Persoon apresentou o inferno à ex-jogadora de futebol. A belga imprimiu uma pressão implacável, sufocando Taylor e impedindo que ela usasse sua movimentação para ditar o ritmo da luta. Ao contrário, Katie praticamente tentava sair da pressão e respirar.

Ao final do quinto assalto, Taylor conseguia os melhores momentos quando colocava volume de golpes na distância, impedindo a aproximação de Persoon. No entanto, a determinação da belga transformou o combate em pancadaria, fazendo a irlandesa se perder na estratégia e aceitar o quebra-pau que favorecia Delfine. Neste ponto, Taylor vencia por 48-47, mas a situação estava imprevisível.

A multicampeã finalmente conseguiu diminuir o ritmo da adversária no sexto e abriu vantagem de 58-56, mas foi o último assalto vencido pela irlandesa. Persoon voltar a pressionar no sétimo e encurtou para 67-66. No oitavo, a belga acertou pelo menos três golpes violentos e balançou Taylor contra as cordas, empatando o duelo em 76 pontos. Nos dois rounds finais, Persoon passou por cima dos golpes de Taylor de modo implacável, garantindo a vantagem de 96-94.

No fim das contas, ficou muito barato para a agora campeã unificada. Persoon venceu os quatro assaltos finais, além do segundo e do quinto. Neste cenário, Taylor teria vantagem no terceiro, no quarto e no sexto. Ainda que o primeiro tenha ficado com a irlandesa, que teve mais precisão, a belga venceria por 96-94. Contudo, os juízes Allan Nace e John Poturaj marcaram este mesmo placar, mas para Tayor, enquanto Don Trella anotou empate em 95.

De qualquer maneira, Katie Taylor se junta a Oleksandr Usyk (peso cruzador), Bernard Hopkins, Jermain Taylor, Claressa Shields (peso médio), Cecilia Brækhus (meio-médio) e Terence Crawford (peso superleve) como os únicos a unificarem os cinturões WBA, WBC, WBO e IBF desde que a quarta entidade foi criada, em 1988.