Por Alexandre Matos | 30/10/2014 19:58

Entre os mais jovens, é comum achar que Muhammad Ali é um pobre idoso portador do Mal de Parkinson e que George Foreman é um simpático coroa vendedor de grill. Nem imaginam que se tratam de pesadas lendas que protagonizaram um dos momentos mais antológicos da história do esporte e a luta mais importante de todos os tempos.

O antológico The Rumble in the Jungle comemora 40 anos nesta quinta-feira. No dia 30 de outubro de 1974, Ali e Foreman se encontraram em Kinshasa, capital do Zaire (hoje República Democrática do Congo), para a terceira defesa dos cinturões dos pesados do Conselho Mundial de Boxe e Associação Mundial de Boxe que pertenciam a Big George.

O campeão era o ser humano mais temido que perambulava sobre a face da Terra naqueles tempos. Frio, dono de uma força descomunal em seus golpes, campeão olímpico em 1968, Foreman chegou ao duelo ostentando cartel de 40-0, com ridículos 37 nocautes. Aos 25 anos, estava no auge da forma e enfrentaria um ex-campeão sete anos mais velho, que passara três anos e meio proibido de lutar por ter se recusado a combater na Guerra do Vietnã e que parecia ter deixado seus dias de glória para trás.

Kinshasa foi palco do confronto por um motivo insólito. Apesar da importância do combate, quem o promoveu foi um iniciante: o polêmico Don King, que fazia sua primeira grande promoção, ofereceu US$5 milhões de bolsa para cada um. O problema: King não tinha a grana. Querendo promover seu governo, o ditador Mobutu Sese Seko bancou o evento no Stade du 20 Mai (em homenagem à data de criação do partido de Sese Seko), atraindo 60 mil pessoas.

Para se adequar ao fuso horário para transmissão na televisão dos Estados Unidos, o confronto aconteceu às 4:00h da manhã, o que acabou também ajudando os atletas, que lutaram a céu aberto e não precisaram sofrer tanto com o calor inclemente da selva africana.

Trash talking de Ali era encarado como piada

Muhammad Ali foi um dos maiores promotores de lutas entre atletas de qualquer modalidade de esportes de combate. Suas provocações em forma de rima, que inspiraram Chael Sonnen décadas depois, não escolhiam adversários.

Contra Foreman, o falatório tinha que ser especial para tentar levar o psicológico da luta para o lado do desafiante, uma vez que Big George era favorito na ordem de 3 para 1 e havia conquistado o cinturão com uma surra antológica sobre Joe Frazier, derrubando o oponente seis vezes em dois assaltos. Na segunda defesa, dois rounds novamente foram suficientes para destruir Ken Norton – Frazier e Norton eram, na ocasião, os únicos que haviam derrotado Ali.

“George Foreman não é nada além de uma grande múmia. Eu oficialmente o nomeei ‘A Múmia’. Ele se movimenta como uma múmia lenta e nenhuma múmia vai bater o grande Muhammad Ali.”

“Se você acha que o mundo ficou surpreso quando Nixon renunciou, espere até que eu chute o traseiro de Foreman.”

“Todos os meus críticos rastejam! Todos vocês otários que escrevem para a The Ring Magazine, para a Boxing Illustrated… todos vocês são otários!”

“Eu disse a vocês, todos os meus críticos, eu disse a todos vocês que eu era o maior de todos os tempos quando venci Sonny Liston (dez anos antes, quando Ali conquistou seu primeiro cinturão ainda como Cassius Clay). Eu digo a vocês hoje: ainda sou o maior de todos os tempos.”

A imprensa não o levou a sério. Como assim chamar o jovem Foreman de múmia lenta? Ele não precisava de velocidade, bastava pegar uma vez e estaria tudo acabado. Quando a imprensa cobria os treinos de Foreman e o via atingir o saco de pancadas com ferocidade, a pergunta era uma só: o que será de Ali quando for acertado por aqueles golpes?

A luta: como o rope-a-dope de Ali acabou com Foreman

O duelo aconteceu cinco semanas após a data inicialmente programada por conta de um corte sofrido por Foreman em uma sessão de sparring. Os lutadores passaram parte do verão de 1974 no Zaire para se acostumarem com o clima tropical africano.

Se toda a provocação de Ali não empolgou a imprensa, ela serviu para trazer a torcida local para o lado do desafiante. Muhammad foi empurrado pelos gritos de “Ali bomaye!”, ou “Ali, mate-o!”. Mas isso não parecia ter incomodado o campeão. Dizem que, no vestiário antes do combate, Foreman e seus córneres rezaram pedindo proteção para o rival, para que Ali não fosse morto no ringue.

Muhammad-Ali-George-Foreman-Sports-IllustratedQuando a luta iniciou, foi possível perceber a enorme inteligência e coragem de Ali. No primeiro assalto, o desafiante percebeu que o piso do ringue estava mais lento que o comum, atrapalhando seu jogo de movimentação. A condição cansou as pernas de Ali, que se desgastou mais fugindo de Foreman do que o campeão para encurralá-lo. Aquilo exigiu uma medida extrema.

Ali passou a atrair Foreman para as cordas, permitindo que o campeão o pressionasse. Era uma tática aparentemente suicida e que levou o treinador Angelo Dundee ao desespero. “Quando ele ia para as cordas, eu ficava doente”, disse o técnico tempos depois. “Eu implorava para ele sair dali, mas Ali dizia que sabia o que estava fazendo”.

Ele sabia mesmo. As cordas do ringue estavam mais frouxas que o normal. Quando Ali encostava nelas e levava o tronco para trás, para esquivar dos golpes de Foreman, conseguia uma distância imensa, parecendo que deitaria sobre as cordas. Daquele jeito, a cabeça de Ali ficava mais distante e fazia com que Foreman desperdiçasse muitos golpes e, por consequência, cansasse.

Até a tática, que ficou conhecida como rope-a-dope, render frutos, Ali ficou em situação delicada, absorvendo petardos do mais violento boxeador que o mundo já vira. Porém, o queixo de aço do desafiante deu conta do castigo e, a partir do quinto assalto, Big George começou a dar sinais de queda de rendimento. Round a round, Ali foi sentindo que os golpes do campeão perdiam potência.

“Bata com mais força! Mostre-me algo, George”, passou a provocar Ali. “Isso não dói. Pensei que você fosse mau”. Era o que faltava para desmoronar o psicológico de Foreman. Vendo o poderoso adversário exausto, Ali cresceu e passou a lançar fogo.

No oitavo assalto, Foreman tentou pressionar, mas Ali se recusava a sair das cordas, fazendo com que os últimos recursos energéticos do adversário se esvaíssem. Quando faltavam menos de 30 segundos para o gongo, o árbitro Zach Clayton mais uma vez tentou separar os lutadores. Desta vez, três direitas de Ali explodiram contra o rosto de Foreman. O desafiante sentiu o cheiro da oportunidade e disparou uma sequência de cinco golpes com punhos alternados. Para surpresa do planeta, George Foreman estava na lona.

Clayton abriu contagem a oito segundos do fim, mas logo percebeu que Foreman sequer fazia menção de reação. O árbitro então decretou o nocaute. Enquanto Big George caminhava para o córner parecendo estar em outra dimensão, o ringue foi invadido por pessoas indo ao encontro do novo campeão.

Pós-luta rendeu um Oscar e uma bela amizade

O fato de Ali ter sido o segundo lutador a recuperar o cinturão dos pesados (o primeiro foi Floyd Patterson), além de ter sido uma grande zebra baseada numa artimanha genial (o rope-a-dope) fez do Rumble in the Jungle a luta mais importante da história.

Tudo o que cercou o duelo, inclusive um show musical de três dias em Kinshasa, que contou com BB King, James Brown e outras lendas da música, foi contado no documentário Quando Éramos Reis, de Leon Gast e David Sonenberg, que ganhou o Oscar em 1996. Na cerimônia de entrega do prêmio, uma cena memorável: aplaudido de pé por todo o Shrine Auditorium, Ali, abatido pelo Parkinson, subiu ao palco ajudado por um sorridente Foreman.

Nesta quinta-feira estava programado um evento de boxe no Stade du 20 Mai, que atualmente se chama Estádio Tata Raphaël, para comemorar os 40 anos do combate, mas a programação foi cancelada. Hoje não há nenhuma lembrança daquela madrugada histórica, sequer um par de luvas no estádio deteriorado pelo tempo e descaso da administração. Para piorar, até mesmo o ringue foi roubado. Pelo menos o Museu Nacional da História Americana resgatou o roupão e as luvas que Ali usou no Zaire.