Profissionais poderão disputar o boxe olímpico a partir do Rio-2016 – e isso é ridículo

A ideia inicial de usar profissionais pouco experientes foi mudada para aceitar todo e qualquer tipo de boxeador, inclusive máquinas de nocautear como Gennady Golovkin ou Sergey Kovalev, contra garotos amadores de 17 ou 18 anos. Não tem como isso dar certo.

De olho em aumentar seu campo de atuação visando o profissionalismo (e o dinheiro envolvido), a AIBA, Associação Internacional de Boxe Amador, arrancou a última palavra de seu nome. A entidade, que controla o boxe olímpico, passou a sancionar combates profissionais, tanto por equipes (WSB – World Series of Boxing) quanto em competições individuais (APB – AIBA Pro Boxing).

A medida tinha uma boa justificativa. Os atletas que disputam esses torneios não perderiam a elegibilidade olímpica ao mesmo tempo em que poderiam levantar um troco para ajudar em suas preparações – por se tratar de iniciantes no profissionalismo, obviamente o dinheiro envolvido não chega perto das somas nababescas pagas às estrelas. Como sabemos, especialmente aqui no Brasil, a vida de atleta amador não é nada fácil e qualquer ajuda é bem-vinda. Essa ideia visava também aproximar o boxe olímpico, de pouca atratividade junto ao público, do profissional, esporte que movimenta hordas de fãs ao redor do mundo. A ideia veio inclusive junto com outras, como a de retirar o capacete dos combates amadores.

Como dito acima, essa novidade permitiria que boxeadores profissionais disputassem as Olimpíadas. No entanto, estávamos falando de profissionais com 10 ou menos lutas em seus carteis, ou seja, gente ainda inexperiente frente aos mais de 60 combates de Manny Pacquiao ou Wladimir Klitschko. Eu já tinha preparado um texto para falar das mudanças de regra no boxe olímpico, tratando da entrada dos profissionais, quando a AIBA muda o discurso e toma uma medida ridícula que faz cair por terra parte do meu trabalho antecipado.

Wladimir Klitschko (de vermelho) foi campeão olímpico em 1996

Wladimir Klitschko (de vermelho) foi campeão olímpico em 1996

Nesta quarta-feira, a entidade máxima do boxe (ex-)amador anunciou que boxeadores profissionais poderão disputar qualificação para os Jogos Olímpicos já agora, no Rio de Janeiro. Primeiramente eu nem dei tanta bola porque parecia apenas a oficialização de algo planejado há três anos. Com o passar das horas, vi muitos analistas esbravejando. Pensei: “Tem alguma coisa errada aí. Deixa eu ver o que está rolando”. Foi quando entendi a patifaria da AIBA.

Reparou que não tem nada além de “…anunciou que pugilistas profissionais poderão disputar qualificação para os Jogos Olímpicos” dito acima? Pois é, a AIBA abriu as pernas para TODOS os boxeadores profissionais. Sim, a partir de agora, Gennady Golovkin ou Floyd Mayweather Jr poderão tentar as medalhas de ouro olímpicas que lhes escaparam em 2004 e 1996, respectivamente, quando GGG foi prata em Atenas e Money foi bronze em Atlanta.

Há quem pense que a ideia é genial, afinal, quem não quer ver os melhores do mundo disputando o título mais representativo do esporte mundial? Seria como ver o Dream Team do basquete masculino, ou a seleção neozelandesa de rúgbi, nos ringues olímpicos, certo? Erradíssimo.

Quando um punhado de Stephen Curry, LeBron James, Kevin Durant, Russell Westbrook, Kawhi Leonard, Damian Lillard e outros superastros se juntarem com a camiseta da USA Basketball para surrar times na Arena Carioca 1, nenhum adversário será surrado literalmente (a não ser que Draymond Green seja convocado, mas aí é outra história). Nenhum deles terá a integridade física maculada – apenas, talvez, a psicológica. Porém, o que você acha que vai acontecer quando experientes máquinas de nocautear como Golovkin, Sergey Kovalev ou Deontay Wilder estiverem frente a frente no ringue com um guri de 17 ou 18 anos? Qual a chance de uma discrepância desse tamanho acabar bem? Sem contar na tremenda injustiça com garotos que dedicaram suas vidas nos quatro anos de ciclo entre Londres e Rio de Janeiro em busca da glória olímpica que poderiam perder a vaga nas delegações de seus países para profissionais que se meteram nisso de última hora.

O Dream Team de basquete não vai machucar ninguém (pelo menos fisicamente) nos Jogos Olímpicos

O Dream Team de basquete não vai machucar ninguém (pelo menos fisicamente) nos Jogos Olímpicos

Felizmente será difícil que alguma estrela do boxe tope o desafio olímpico. Afinal, terão que disputar o Pré-Olímpico da Venezuela, em julho, e se submeter a lutar cinco vezes em dez dias, o que a maioria dos craques provavelmente não tem mais disposição para fazer. Pacquiao, por exemplo, já disse que não vai tentar para focar em sua carreira política. Alguns até demonstraram interesse, como Amir Khan para defender o Paquistão e, pasmen, Kovalev, que por sorte foi vetado por sua empresária.

Kathy Duva, empresária de Kovalev e viúva do lendário promotor Dan Duva:

“Não tem chance disso acontecer. Não vai acontecer neste ano, simplesmente não é possível. Ele tem um contrato para lutar em julho e outro no fim do ano, então, sem chance, sequer está em discussão. Durante as Olimpíadas, ele terá compromissos de mídia para promover a próxima luta. Isso nunca foi trazido a mim por ele ou sua equipe. Isso não vai acontecer, ele definitivamente não vai para as Olimpíadas. Eu não quero nem pensar no que ele poderia fazer com um amador. É absurdo.”

Os Jogos Olímpicos, no boxe, são (ou eram) o palco definitivo para vermos quais jovens poderão trilhar um caminho de sucesso no profissionalismo, como foram os casos recentes de Vasyl Lomachenko, Anthony Joshua, Zou Shiming ou Esquiva Falcão. Para os Jogos Rio-2016, provavelmente essa ideia de jerico da AIBA não surtirá efeito, pelo curto espaço de tempo. Porém, não posso afirmar o mesmo para Tóquio-2020. Só espero que nenhum profissional experiente, mas ainda em busca do estrelato, queira usar os Jogos Olímpicos para catapultar seu nome às custas da saúde e da carreira de jovens mais promissores do que ele.