Por Isabella Kida | 11/07/2018 06:00

No cenário atual do MMA Mundial, toda a atenção e holofotes estão voltados aos lutadores, os grandes protagonistas do “show” que sobem ao octógono para se enfrentar trazendo entretenimento e emoção ao público. Mas é importante também enxergarmos toda a engrenagem que faz com que o esporte e eventos aconteçam, muitos profissionais com diferentes funções fazem essa roda girar: Cutmans/Cutwomans, promotores, matchmakers, fiscais, árbitros, juízes, cronometristas, médicos entre outros cada um com sua devida importância e responsabilidade.

É evidente a importância na escolha destes profissionais, que precisam estar devidamente capacitados e sempre em processo de reciclagem principalmente quando falamos de arbitragem. Inclusive já tivemos um texto aqui no site, anteriormente, falando sobre este assunto. Hoje venho aqui trazer um ponto de vista de quem está do outro lado, trabalhando esporadicamente em eventos nacionais. Sempre quando falamos de arbitragem, existe uma aura polêmica em torno do assunto independente de qual esporte, então vou tentar abordar um pouco da visão que tenho neste tempo de “carreira”.

Sou publicitária por formação e trabalho na área, mas decidi traçar paralelamente um caminho no mundo do MMA, mais precisamente como juíza lateral. Iniciei minha jornada em um curso de formação para árbitros e Juízes laterais da CBMMA ministrado pelo mestre Roberto Thomaz mais conhecido como Robertão, que me formou, me incentivou e deu muitas oportunidades no cenário das lutas. Após alguns anos, procurei a reciclagem e agregar ao meu conhecimento e participei do curso da CABMMA, ministrado pelo conhecido Mário Yamazaki. Neste início percebi como já era difícil buscar a formação pois pouquíssimas entidades ofereciam o curso de capacitação, mesmo que nos dias de hoje tenha aumentado um pouco essa quantidade, pois o esporte vem crescendo bastante, ainda é muito escasso este mercado de formação profissional dentro do MMA. Consequentemente o de reciclagem é menor ainda.

Este trabalho como qualquer outro necessita de muita dedicação, estudo e aperfeiçoamento. É necessário sempre estar atualizado sobre as constantes alterações das regras, entender de artes marciais e até do estilo de cada lutador dentro do cage e ter muita atenção e foco, pois cada segundo de luta é crucial para julgar ao final de um combate. Porém, além de toda parte teórica a melhor maneira de se aprender algo é vivenciando, iniciando o trabalho. Aqui já enxergo o segundo ponto de atenção, fazer algum destes cursos ou reciclagem não quer dizer que você terá emprego garantido nessas entidades, então já se inicia um processo de busca para inserir-se nas restritas equipes de arbitragens que temos no Brasil. Para quem tem pouco envolvimento com o MMA e está iniciando, este processo é 10x mais difícil e trabalhoso. Por sorte, encontrei pessoas no meu caminho que apostaram em mim e me deram essas oportunidades. (Robertão, Yves, Wernei, Roberto, Magno, entre outros) e também alguns eventos que abriram suas portas para uma juíza iniciante e principalmente: MULHER. No primeiro texto que escrevi aqui para o site, abordei o tema que muito me incomoda ainda nesta profissão: O machismo. As oportunidades para mulheres são muito menores, e nós precisamos provar o nosso conhecimento e capacidade a cada minuto. Hoje, felizmente encontramos grandes mulheres que persistiram e estão aí para mostrar arbitragem no MMA também é para mulheres: Camila Albuquerque, Charyana Gambale, Mariana Missio, entre outras.

Hoje temos uma grande quantidade de eventos surgindo no Brasil, porém, é muito comum ouvirmos que a arbitragem ainda não é umas das principais preocupações dos donos/promotores, principalmente quando falamos de juízes laterais. Chegando ao absurdo de ouvirmos sobre eventos que chamam “amigos” que estavam na plateia para assistir para julgarem as lutas, pessoas obviamente não preparadas para exercer tal função, ou então em eventos que disponibilizam um valor alto para contratação de ring girls porém não tem verba para contratar uma equipe de arbitragem (uma coisa pode inviabilizar a outra?). Tão importante quanto a seleção do árbitro central é a dos juízes laterais também, um julgamento errôneo pode prejudicar todo o cartel de um lutador e sua carreira botando em risco a credibilidade do evento. Além do que estamos falando de seres humanos que dedicam suas vidas ao MMA, merecem respeito e profissionalismo.

Não podemos generalizar, existem muitos eventos aqui no Brasil bem estruturados e conscientes em relação à isso, porém ainda existe um caminho longo em relação ao comprometimento e compreensão sobre a importância de colocar este assunto como um dos mais importantes na realização de um evento para a grande maioria. Valorizar uma boa equipe de arbitragem é zelar pela integridade física dos seus atletas, respeitá-los como profissionais dando à eles todo o suporte e seriedade.

Encontra-se sim , dificuldades em relação à profissão e seu crescimento, e cabe aos profissionais envolvidos buscarem cada vez mais conhecimento e aprendizados para exercer com excelência suas tarefas, porém cabe também aos eventos valorizarem os profissionais capacitados e darem a devida importância que uma boa arbitragem merece. Todos tendem a ganhar e o principal vencedor é o esporte.

O pensamento da maioria das organizações/eventos ainda é muito individualista e esquecem que o crescimento e construção de um MMA melhor é parte importante para a evolução do esporte como um todo. Quando juntam-se forças em prol de um mesmo objetivo os ganhos são benéficos para todos e fazem com que o esporte cresça e se popularize cada vez mais, trazendo novas oportunidades e visibilidade.

Apesar de todas as dificuldades, a tendência é que essa consciência cresça facilitando assim a evolução da profissão e um foco muito maior na formação e capacitação constante destes profissionais. O MMA merece.