Por Alexandre Matos | 02/03/2012 19:13

Neste sábado, direto da Nationwide Arena em Columbus, Ohio, o Strikeforce traz o duelo de MMA feminino mais importante desde que Gina Carano resolveu se dedicar à vida de atriz. Na luta principal, a campeã da categoria até 61kg Miesha Tate fará sua primeira defesa contra a medalhista olímpica Ronda Rousey.

Depois de mais de um ano parado, o ex-campeão dos leves Josh Thomson volta para um difícil desafio contra o ex-meio-médio KJ Noons. Já o inglês Paul Daley e o japonês Kazuo Misaki vão se engalfinhar naquela que tem tudo para ser a melhor luta da noite.

O brasileiro Ronaldo Jacaré fará sua primeira luta desde que perdeu o cinturão dos médios. Ele vai enfrentar o americano Bristol Marunde, substituto de última hora de Derek Brunson. Abrindo o card principal, o rei das viradas Scott Smith tenta dar uma sobrevida à carreira contra o surpreendente Lumumba Sayers.

Infelizmente o evento não terá transmissão ao vivo por nenhum canal brasileiro. Então fique de olho no nosso Twitter para acompanhar o play by play do Strikeforce: Tate vs Rousey.

Miesha Tate (EUA) vs Ronda Rousey (EUA)

Enquanto você está aí discutindo se Rousey merece ou não a chance de disputar o cinturão, as casas de apostas a apontam como favorita à vitória. Favorita, não. Muito favorita. Apesar do curto retrospecto profissional de 4-0 (que soma pouco mais de 2 minutos de tempo de luta), a loira tem vantagem de 1.3 a 1.35 contra 3.25 a 3.6 em diversas linhas de aposta. Para efeito de comparação, é uma vantagem pouco maior que Anderson Silva tem sobre Chael Sonnen (1.36 x 3.15) para a revanche prevista para o meio do ano.

Tudo isso por um motivo bem simples: nenhuma das sete oponentes (quatro profissionais e três amadoras) até hoje de Rousey duraram sequer um minuto contra a medalhista de bronze no judô nos Jogos Olímpicos de Pequim. Autumn Richardson, numa edição do Tuff-N-Uff, chegou perto: sucumbiu à chave de braço aos 57 segundos de luta.

Aliás, Rowdy está para a chave de braço assim como Toquinho está para o heel hook. Todas (eu disse todas) as adversárias foram obrigadas a bater neste tipo de finalização. Na verdade, todas não. No Strikeforce Challengers 18, Sarah D’Alelio foi salva pelo árbitro Steve Mazzagatti, que encerrou a luta antes que D’Alelio batesse – ou quebrasse o braço.

Esta performance arrasadora de Rousey tem um grande porém: ninguém nunca viu o restante do arsenal ofensivo da californiana de 25 anos, muito menos seu sistema defensivo. Não sabemos como é a trocação dela, sequer imaginamos qual seja um eventual plano B para o caso de o A não funcionar. E estes detalhes serão importantes, visto que a chance de o plano principal não funcionar neste sábado é grande.

Por mais que Tate seja considerada zebra, ninguém vai imaginar que ela será submetida em alguns segundos. Integrante da Team Alpha Male de Urijah Faber, a campeã treina com homens desde os tempos de wrestling escolar, época em que chegou a ser campeã nacional e venceu uma seletiva em 2005 para a seleção americana que disputaria o campeonato mundial.

Com cartel profissional de 12-2, 4-1 no Strikeforce, “Takedown” Tate evoluiu muito desde que foi brutalmente nocauteada por Keitlin Young, em sua segunda luta profissional, na semifinal de um torneio no extinto BodogFIGHT. Conquistou vitórias zanzando por alguns eventos pequenos até ser recontratada pelo Strikeforce. Ainda muito jovem, foi derrotada num Challengers pela futura campeã Sarah Kaufman e engrenou a série de 6 triunfos seguidos que carregará para o cage hexagonal no sábado.

Já pelo Strikeforce, Tate bateu a atual campeã até 52kg do Bellator, Zoila Gurgel. Em seguida venceu um torneio de uma noite, conquistando a vaga de desafiante ao cinturão da então campeã Marloes Coenen. No mesmo evento que Dan Henderson nocauteou Fedor Emelianenko, Miesha mostrava seu wrestling enjoado, controlou a holandesa por cima e se tornou a primeira a submeter a especialista em jiu-jitsu, conquistando o cinturão.

A atuação contra Coenen pode dar uma ideia de um caminho para Tate neste sábado. Normalmente Rousey usa alguma abordagem rápida para levar a luta para o chão. Caindo por cima ou por baixo, ela ataca ferozmente as adversárias em busca do braço. Contra uma wrestler como Tate, é coerente imaginar que a tática não funcionará. A campeã está acostumada ao jogo de quedas e, mais importante, tem lastro em competições longas. Apenas contra Coenen, Tate permaneceu no cage até o quarto round, quatro vezes e meia mais tempo que toda a carreira de Rousey – contando o amadorismo.

A campeã vai precisar evitar o ímpeto inicial da desafiante. E é bem provável que consiga. Depois vai buscar travar a luta em clinches contra a grade, minando a resistência da judoca. Como a própria Tate disse, vai “levar Rousey para águas profundas”. Como sabe se posicionar e controlar as adversárias tanto na grade quanto no chão, além de já ter mostrado boa defesa de submissão, Miesha vai fazer com que a luta dure.

Na hora da decisão, os preparos físico e mental de Rousey poderão definir o duelo. Se ela não se desesperar e tiver calma para capitalizar uma eventual brecha, como a que Tate deu a Coenen no terceiro round, poderá vencer a luta. Caso contrário, poderá “se afogar em águas profundas”.

O palpite? De acordo com meus critérios cretinos de torcida em esportes femininos, estarei com uma camiseta “Go, Rowdy!” Inclusive uma vitória de Rousey seria ótima para o MMA feminino: uma loira bonita, medalhista olímpica e dona de cinturão é tudo que o mercado publicitário está louco atrás. Mas acho que o cinturão vai permanecer onde está.

Josh Thomson (EUA) vs Karl James Noons (EUA)

Ex-campeão do Strikeforce vai medir forças com o antigo dono do cinturão do extinto EliteXC em excelente duelo de pesos leves.

Atleta da AKA, Thomson possui larga experiência no MMA. Começou em 2001 e abriu 5-0 (um no contest), parando no UFC em 2003. Venceu um quebra-pau contra Hermes França, mas acabou sofrendo um dos nocautes mais plásticos que o UFC já viu pelas mãos (e pés) de Yves Edwards, no UFC 49. Foi tentar a sorte no PRIDE, maior evento do mundo na época, e ganhou a única luta que fez antes de assinar com o então inexpressivo Strikeforce.

Josh perdeu para Clay Guida a primeira disputa de cinturão do evento. Venceu em seguida seis lutas, incluindo Duane “Bang” Ludwig e Nam Phan, todos atualmente no UFC, até ter nova chance de título. Na ocasião, venceu Gilbert Melendez, então ainda um lutador em ascenção. Aos 30 anos, com cartel de 16-2 e dono do cinturão, Thomson estava no auge. Foi quando começou a sofrer com contusões e teve o ritmo de competição quebrado. Uma fratura no tornozelo adiou duas vezes a revanche com Melendez. Quando finalmente os dois se reencontraram, Gilbert era outro lutador e o venceu num duelo eletrizante.

O “Punk” novamente se viu às voltas com contusão quando estava para enfrentar Maximo Blanco, no começo de 2011. O pé mais uma vez o tirou de circulação por mais de um ano, ausência que vai terminar amanhã. Quando estava no auge, Thomson era um legítimo integrante da AKA: misturava kickboxing fluido com bom wreslting e transição para o jiu-jitsu (ele é faixa preta de Dave Camarillo). Agora, com cinco lutas em mais de quatro anos, vai ter que lutar contra a falta de ritmo.

Um dos melhores boxeadores no MMA, com cartel profissional de 11-4, Noons luta para se livrar da inconstância. O poder de nocaute monstruoso vive lado a lado com a ineficiência nos demais ramos do MMA. A preocupação em se mostrar multidimensional é tão grande que ele quase se enrolou na última apresentação, contra o mediano Billy Evangelista. Com um wrestling constrangedor e um jiu-jitsu inexistente, “King” James tentou jogar nas quedas, mas não sabia o que fazer no chão e acabou dominado. Para evitar a derrota, voltou para sua zona de conforto e venceu por decisão.

A vitória interrompeu dois reveses seguidos. Nick Diaz havia conseguido vingar a derrota no EliteXC, num quebra-pau homérico em outubro de 2010. Em junho passado, foi a vez de Jorge Masvidal abusar da falta de conhecimento globalizado para atropelar KJ. Em cinco lutas pelo Strikeforce, ele venceu três, longe de representar o mesmo retrospecto anterior de 8-2.

Fosse há três anos, no auge de ambos, e eu não teria dificuldade para apontar Thomson como favorito. Como o ritmo de competição de Noons é bem superior no momento, ele pode equilibrar a luta. Trocar na média para a curta distância pode ser péssimo para o ex-campeão. O caminho para Josh é mesclar os chutes baixos com combinações na longa distância, procurando o momento exato de entrar com uma queda, levando “King” James ao seu ponto fraco. Se o Punk estiver em boas condições físicas, vai evitar a pancadaria e vencer sem susto.

Paul Daley (ING) vs Kazuo Misaki (JAP)

Duelo de pesos meio-médios com potencial enorme de luta da noite.

Depois da demissão do UFC por causa da ridícula agressão a Josh Koscheck, o britânico passou a perambular por eventos medianos, atrás de oponentes de algum nome e bolsas atraentes. No meio da viagem pela América, Europa e até Oceania, Daley fez três lutas pelo Strikeforce. Nocauteou Scott Smith de modo espetacular, mas sucumbiu à pancadaria enloquecida de Nick Diaz e foi jantado pelo wrestling de Tyron Woodley, no mesmo joguinho mequetrefe, enfadonho e altamente eficaz que lhe tirou do sério contra Kos.

Dono de punhos venenosos e, provavelmente, o maior poder de nocaute da divisão, Daley pode causar terror aos oponentes. Depois de vencê-lo, Nick Diaz falou: “Não tenho mais medo de trocar porrada com ninguém. Nunca mais serei acertado tão duro como hoje”. Karateca que passou um tempo na lendária Mike’s Gym, na Holanda, Paul baseou toda sua carreira na trocação, mas, dizem, foi graduado como faixa roxa de jiu-jitsu. Seria interessante alguém verificar o culpado.

Koscheck e Woodley mostraram o caminho para quem quiser bater Daley. Para sorte do inglês, Misaki não é dos mais inteligentes lutadores do mundo. Para sorte do público, o japonês é chegado numa pancadaria desenfreada. Quem viu a derrota dele para Jorge Santiago na melhor luta do ano de 2010, sabe bem do que estou falando.

Judoca de natureza, Misaki nunca teve medo de sair na mão. Em pouco mais de 10 anos como profissional, já enfrentou toda sorte de oponentes que se possa imaginar. E venceu gente como Dan Henderson, Jorge Patino “Macaco”, Ed Herman e Siyar Bahadurzada. Conquistou um GP do PRIDE em 2006 depois de substituir na final Paulão Filho, que havia lhe derrotado na luta anterior. Com cartel de 24-11-2 (um no contest), fará sua segunda luta pelo Strikeforce. Ele vencera, em 2008, o ex-UFC Joe “Diesel” Riggs.

O caminho óbvio para Misaki será levar a luta para o chão, evitando o confronto direto. Para isso, vai precisar contar com muita movimentação para evitar um contragolpe definitivo e encontrar o tempo certo para derrubar. A tarefa não será das mais fáceis, visto que “Semtex” melhorou no quesito defesa de quedas. Mas, aos 35 anos e lutando pela primeira vez como meio-médio, o gás do japonês poderá não ser mais o mesmo da guerra de dois anos atrás contra Santiago.

Mais cedo ou mais tarde, uma combinação de Daley vai acabar entrando, abrindo caminho para o nocaute. A torcida fica para que Misaki resista pelo menos por meia luta, para que possamos nos deleitar com mais alguns minutos violentos, antes de um corpo terminar estirado no solo no final.

Ronaldo Souza (BRA) vs Bristol Marunde (EUA)

Integrante da elite da divisão mais forte do Strikeforce, Jacaré volta ao cage pela primeira vez depois de ser surpreendido por Luke Rockhold, que lhe tomou o cinturão em setembro passado.

Junto com Tim Kennedy, o brasileiro é o maior prejudicado pela confusão que se transformou o Strikeforce desde a compra pela Zuffa. Depois que venceu o próprio Tim na disputa do cinturão vago, em agosto de 2010, esta será apenas a terceira luta do amazonense. Ele venceu Robbie Lawler em janeiro e perdeu para Rockhold. Enfrentaria o invicto e perigoso Derek Brunson, que não passou nos exames médicos e foi substituído dez dias antes do evento.

Faixa preta de judô, multicampeão de jiu-jitsu e submission, Jacaré nada tem a provar neste ramo da luta, afinal, 11 de suas 14 vitórias vieram por finalização. Nas vitórias sobre Joey Villasenor e Kennedy, mostrou enorme evolução tanto na trocação quanto no wrestling. Nestas duas lutas, somadas com as seguintes (Lawler e Rockhold), provou que o condicionamento físico já não era mais um problema. Desenhou-se assim o perfil de um lutador completo, que ocuparia sem pedir favor um lugar entre os dez melhores da categoria no UFC, onde seu parceiro de equipe Anderson Silva reina soberano há quase seis anos.

Marunde não é exatamente um mau lutador. Pelo contrário, tem seus créditos. Mas não será o mesmo desafio que Brunson levaria ao brasileiro. Vinte e nove anos, 1,85, nascido no Alasca, ele fará sua estreia no Strikeforce vivendo um momento bem melhor na carreira. Depois de um péssimo início, quando venceu apenas duas de sete lutas, a maior parte delas na extinta IFL, Marunde encaixou uma série de nove vitórias em dez combates desde 2008. Perdeu para o talentoso Jordan “Mata Ele” Smith em 2009 e venceu o ex-UFC Jay Silva em sua última apresentação, chegando ao Strikeforce com o cinturão do Superior Cage Combat.

O que se pode esperar de um camarada não tão experiente, pouco acostumado com os grandes eventos, que aceitou a luta de última hora e vai enfrentar um dos maiores mestres da história da luta agarrada? Se Marunde resistir ao primeiro round sem dar os três tapinhas, poderá considerar uma vitória. Se ele ganhar, merecia até um title shot direto.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.