Precisamos falar sobre as regras do MMA

Após a polêmica vitória de Amanda Nunes na revanche contra Valentina Shevchenko, o debate sobre o que é ou não necessário para se vencer uma luta voltou à tona. Porém, esses argumentos têm um grande problema; eles simplesmente não fazem parte das regras.

A história do MMA está repleta de lutas apertadas e com resultados controversos. Quantas vezes não ouvimos ou participamos de debates quase intermináveis sobre quem venceu ou perdeu uma peleja? O debate é bom e certamente é um fator que intensifica o apreço do fã pelo esporte. Contudo, certos argumentos usados e repetidos exaustivamente se tornaram o ponto capital para que alguém determine quem é o vencedor de uma luta de MMA. E não falamos apenas dos fãs. Diversas vezes, os mesmos argumentos são usados por lutadores, treinadores e até pela mídia especializada. Como afirmou Goebbels, a mentira dita mil vezes se torna verdade e as colocações ganham um peso de como se fossem oficiais. Só há um grande problema: elas não estão nas regras.

Tomamos como regras as Regras Unificadas de Conduta do MMA, ou seja, o conjunto de normas estabelecidas no ano 2000 pela Comissão Atlética do Estado de New Jersey, que, usando o projeto iniciado pela Comissão Atlética do Estado da Califórnia e as faltas aproveitadas pela Comissão Atlética do Estado de Nevada, revisadas posteriormente pela ABC Boxing, sancionaram as regras que regem o MMA.

O objetivo deste artigo não é exaurir todas as falácias que são repetidas por aí, mas apenas trazer três exemplos para a luz da regra e desejar que todos os fãs, lutadores, treinadores e integrantes da mídia, especializada ou casual, procurem e conheçam o regulamento. Como um antivírus, que detectem tantos outros critérios fora da regra que circulam por aí.

“Ele andou mais pra frente”

Os golpes precisos de Conor McGregor frearam o ímpeto de Nate Diaz

Os golpes precisos de Conor McGregor frearam o ímpeto de Nate Diaz

Uma luta de MMA é julgada basicamente através de quatro critérios:

1) Trocação efetiva, isto é, o dano de golpes legais aplicados no adversário, observando que a contundência recebe um peso maior que o volume. Entende-se então que um soco de alto impacto normalmente terá um valor maior que cinco jabs ou chutes baixos, por exemplo. No caso de a quantidade de golpes contundentes ser equilibrada, o volume de golpes será o diferencial.

2) Agarramento efetivo, que considera o número de quedas, passagens de guarda, tentativas de submissão, reversões e montadas que um lutador faz. Também é considerada a guarda ofensiva, quando o lutador em posição por baixo busca finalizar o adversário. As tentativas de submissão que chegam mais perto de acabar a luta recebem um peso maior que as que não chegam, assim como as quedas de grande amplitude são mais valorizadas que as quedas simples.

3) Agressividade, que é quando um lutador avança sobre o oponente utilizando golpes válidos ou tentando finalizações. Perceba: há a necessidade de que o avanço do lutador possua golpes válidos.

4) Domínio da área de luta, critério que privilegia o atleta que tenha o domínio territorial da área de luta. É preciso deixar claro que esse é o último critério a ser analisado e só será o fiel da balança quando todos os outros acima estiverem rigorosamente empatados. Mais importante ainda é deixar claro que domínio do octógono não significa necessariamente quem está andando para frente, mas sim quem utiliza o espaço do octógono para agir ofensivamente. Um lutador que usa esse critério muito bem sem necessariamente andar para frente é Lyoto Machida. Outro exemplo nítido é o da luta entre Carlos Condit contra Nick Diaz, no qual Condit exerceu o domínio dos espaços andando lateralmente, enquanto Diaz, mesmo andando para frente, não conseguia acertá-lo. Há ainda outro caso claro, e mais recente, o da revanche entre Conor McGregor contra Nate Diaz.

Os dois primeiros critérios (striking e grappling efetivos) passaram a ter peso igual na reforma das Regras Unificadas que entrou em vigor no ano passado. Já o terceiro e o quarto recebem um peso menor que os outros dois, sendo que o último é ainda menos relevante que o terceiro. Todavia, a agressividade e o domínio da área de luta necessariamente devem contemplar golpes válidos, o que significa que o famigerado “andar pra frente” não é um critério de avaliação numa luta. Sem a presença de golpes válidos, não há diferença entre um atleta que anda pra frente, um outro que faz um moonwalk ou o curupira durante a peleja.

“O rosto dele saiu mais machucado”

Como vimos, o maior critério para se julgar uma luta de MMA é o dano que um lutador inflige sobre o outro. Contudo, é preciso ter em mente que os dois lutadores não são iguais. Isso significa que o corpo de cada um possui características diferentes. Alguns se cortam, criam inchaços e hematomas com maior facilidade e frequência do que outros.

Dois exemplos esclarecem essa situação perfeitamente. No primeiro encontro entre Anderson Silva e Chael Sonnen, o americano derrubou o então campeão no solo em todos os rounds e aplicou 320 golpes em Anderson, sendo 89 golpes contundentes. Enquanto isso, Anderson aplicou apenas 29 golpes contundentes de um total de 64 aplicados. É sabido que Anderson finalizou Chael, mas, caso a luta tivesse ido para a decisão, nao teria sido nem um pouco difícil julgá-la e ter declarado Sonnen como vencedor por larga margem. Porém, se olharmos para o semblante dos dois, Sonnen saiu com o rosto muito mais machucado que Anderson.

Nem parece que o da esquerda apanhou por mais de 20 minutos

Nem parece que o da esquerda apanhou por mais de 20 minutos

Outro caso interessante envolve o ex-campeão Johny Hendricks. Na verdade são duas situações emblemáticas. Ele enfrentou Georges St. Pierre numa dura batalha de cinco rounds. A luta foi extremamente parelha, com alguns enxergando a vitória para Hendricks e outros para o canadense. Até mesmo dentro do MMA Brasil houve discordância, com o nosso editor-chefe dando a vitória para Hendricks e esse que vos escreve dando a vitória para St. Pierre.

Todavia, um dos argumentos usados pelo próprio Hendricks após a derrota – e de vários outros que entenderam que o americano era o vencedor – foi que o rosto de GSP saiu mais machucado da luta do que o dele próprio. Como a língua é o chicote da alma, não tardou para que, em outra disputa de cinturão parelha, a situação se invertesse. No segundo encontro entre Hendricks e Robbie Lawler, mais uma luta de resultado controverso, Johny saiu derrotado num combate em que muitos o viram vitorioso, inclusive o MMA Brasil. O interessante é que, nesse caso, o rosto de Hendricks saiu muito mais machucado do que o de Lawler. Parece que o jogo virou, não é mesmo?

O critério para avaliar uma luta deve ser sempre os previstos nas regras unificadas do MMA. Cortes, hematomas e inchaços nem sempre significam superioridade. Como de praxe, as aparências enganam.

“O desafiante tem que fazer algo a mais para vencer o campeão”

Este é o argumento falacioso usado recentemente, após a revanche entre Amanda Nunes e Valentina Shevchenko, no UFC 215. Mais uma vez tivemos uma luta apertada, na qual a vitória é aceitável para qualquer um dos lados. O que não é aceitável é analisar uma disputa de cinturão com um critério que não existe.

O que é necessário para que um desafiante vença uma disputa de cinturão é apenas e unicamente que ele vença a luta por nocaute, submissão ou faça mais pontos que o adversário ao longo de cinco rounds. Não é necessário categoricamente que o desafiante, durante a luta, faça nada além do que em qualquer outra luta de cinco rounds. Se a vantagem do desafiante for pequena no fim do tempo regulamentar, por mínima que seja, será essa vantagem que determinará que o cinturão troque de mãos. O desafiante não precisa fazer nada a mais para vencer do que o próprio campeão precisaria. Isso foi uma lenda que surgiu no mundo da luta e algumas pessoas infelizmente acreditaram e a propagaram. Este critério simplesmente non ecziste nas regras. Os critérios que devem ser usados para julgar um combate, seja disputa de cinturão ou não, são sempre os mesmos.

A regra é clara

Evidentemente não foram expostos aqui todos os argumentos falaciosos que rotineiramente são usados para julgar uma luta, tampouco são os mais importantes. O importante é que o MMA possui regras claras e é necessário que os fãs, lutadores, treinadores e mídia especializada que se propõem a julgar lutas conheçam essas regras e tenham embasamento para reconhecer todas as falácias que existem ou que porventura venham a existir. E não há dificuldade para isso, já que as Regras Unificadas do MMA estão a apenas um clique de distância: http://www.nj.gov/oag/sacb/docs/martial.html.

  • Caio Andrade

    Muito boa matéria, Pedro! Concordo com tudo, menos o resultado da luta do GSP x Hendricks, mas deixa pra lá hahahaha.

    Em se tratando de regras, mesmo com a equiparação do grappling efetivo com o striking efetivo, você acha que os juízes continuam a dar muita ênfase, na hora de pontuar, às quedas no final de round, especialmente aquelas que não são seguidas de desenvolvimento na luta de chão ou ground and pound?

    • Pedro Carneiro

      hahaha. Temos critérios diferentes, em caso de luta apertada eu desempato dando a vitória pro lutador que já me mandou um video me mandando um abraço, e o Hendricks nunca fez isso! hahaha
      É complicado olhar para os árbitros porque por mais que as regras mudem, eles não sabem aplica-la. Nesse caso, a solução é as comissões investirem em árbitros mais capacitados.

  • James sousa

    Muito bom e bem explicativo . Outro exemplo de “o rosto delete saiu mais machucado ” foi a revanche entre Aldo x Mendes aonde o Aldo venceu e saiu com o rosto mais ferido que o Americano e ninguem duvida que o brasileiro
    ganhou

    • Pedro Carneiro

      Obrigado, mito. Belo exemplo e em uma luta que foi muito clara pro Aldo que saiu com o olho fechado.

  • Cássio Rafael Guimarães Nascim

    Cara, baita texto mesmo! Muito bem escrito e exemplificado e em um time perfeito. Show de bola!

    • Pedro Carneiro

      Obrigado, fera! Foi motivado pelo debate da luta da Amanda contra a Valentina mesmo.

  • Isabella Kida

    Ótimo texto Pedro!

    • Pedro Carneiro

      Se quem tá arbitrando luta falou, tá falado.

  • Bruno Coelho

    “Esse texto a Globo não mostra!!!!!!!!”. Kkkkkkkkkkkk. Brincadeiras à parte, isso é que é texto!, isso é que é mídia especializada!, porra!

    Tem que espalhar esse texto por aí, galera! Dando o devido crédito obviamente. Sensacional, Pedro! “Educar” fãs ( e eu me incluo entre os educandos) faz parte da evolução de um esporte, ainda mais num esporte tão recente como é o MMA. Se a qualidade do debate melhora, é possível que, no futuro, casamentos bizarros como GSP x Bisping sejam cada vez mais raros e que o ranking não pareça tão sem pé nem cabeça.

    PS. Os haters vão dizer que sou fanboy, mas no meu coração, o Cormier ganhou do Jones na primeira luta e o Cruz foi garfado contra o Cody!

    • Pedro Carneiro

      Muito obrigado, Bruno
      Vamos espalhar mesmo! hahaha

      PS. Se acalme…

    • Marco antônio

      Bem nessa, Bruno. Textos como esses, devem ser lidos antes de cada evento, principalmente quando aquele lutador preferido vai lutar, quando aquele sujeito que não sabe defender queda fica de costas no chão o round inteiro e no final levanta simulaindo uma ginga de capoeira e aplica um chute frontal na barriga do adversário. Para não sair por aí dizendodizendo que o primeiro só amarrou, que o segundo foi gênio por causa do gingado e UM chute no corpo que o adversário aparentemente sentiu.

      Ps 2; Se acalme muito, fanboy. Rsss

    • William Oliveira

      Essas 2 lutas não foram nem tão competitivas, você viu outras, só se for.

      • Também achei relativamente fácil de pontuar pro Jones e pro Garbrandt (principalmente esta).

  • Vinicius Maia

    Rapaz, excelente texto. Eu tenho uma imensa dúvida quanto esse assunto. As novas regras unificadas que desvalorizaram as quedas sem ser efetivas, o domínio do cage sem golpear. Fora as mudanças na pontuação foram aprovadas mas elas não estão sendo aplicadas em nenhum evento. Nem a flexibilização da pontuação, tirando a obrigação de pontuar 10-9.
    Desde que mudaram as regras, eu não lembro de cabeça (posso estar errado) de nenhum lutador que tenha perdido pontos por dedadas no olho – Struve tentou cegar o Volkov – e também não vi nenhum sendo punido por tentar medir a distância com a mão espalmada várias vezes durante a luta.
    Acho que os árbitros laterais e centrais ainda são muito mal instruídos. Principalmente os laterais.

    • Pedro Carneiro

      Pois é, não adiante ter uma ótima regra se ela não for aplicada.

    • Tem vários locais que já estão com as regras novas. Alberta mesmo estava, onde rolou o UFC 215.

    • Cansei de dizer aqui que não dá pra ter tolerância com dedo no olho.

  • Laís

    O mais surpreendente é saber que você escreveu um texto incrível desse enquanto assistia televisão (risos). Você não precisa se esforçar para ser excelente, já nasceu assim. Tenho orgulho de ti! Amo você! Ótimo texto!

    • Pedro Carneiro

      Você quem precisa se esforçar pra achar motivos pra me elogiar. Obrigado, meu amor! Vc é demais!

      • Fernando Cruz

        Fiquei enjoado com mel nesta troca de elogios. Hahahs

  • Idonaldo Gomes Assis Filho

    Não sei se cola como exemplo, mas muitas vezes em uma luta que o cara tá deitando e rolando no grappling, passando guarda, quase pegando pescoço e braço, e no final toma um knockdown, mesmo falando que ambas tem o mesmo peso, geralmente é o que deu o knockdown que rouba o round, lendo o texto fez eu pensar bastante o quanto errado as vezes eu pontuava as lutas, dava vitória pra um bando de Diego Sanchez da vida que buscava mais a luta que o outro, embora esse outro estivesse acertando contragolpes e o outro não. Enfim belo texto que fez eu mudar um pouco minha concepção, bem esclarecedor,

    • Pedro Carneiro

      Se somente você mudasse a sua concepção já teria valido a pena escrever o texto, meu camarada!

    • Supervalorizam demais o knockdown no MMA.

      • Vinicius Maia

        Um exemplo disso é a luta do Shogun x Corey Anderson. Que o Shogun aplicou um knockdown no final do R1 e “roubou” o round. Sendo que não tinha feito além disso. Tudo bem que o Corey foi burro e pecou na ofensividade mas lembro de ter pontuado a peleja em favor do americano.

        • Gabriel Carvalho

          Eu acho que o R1 foi roubado pelo Showgun, mas o R2 não dá não.

  • Marco antônio

    Ótimo texto, Carneiro. Galera precisa se atentar ao que realmente é critério de avaliação e o que é lenda urbana, separar efetividade real, de bordão do locutor da transmissão. Pessoal tem que se ligar que luta não é esporte para definir que é mais machão, ou quem aguenta mais porrada, que em uma luta, maior do que qualquer valência dentro da modalidade, estratégia é fundamental para alcançar o objetivo no final. Quem sai correndo pra cima do adversário, defendendo golpe com a cara e continua andando pra frente, não é necessariamente o agressor, pelo contrário, é o agredido. O adversário que se evadiu dos ataques do “machão” e esperou um pouco mais para criar um ângulo para contragolpear de maneira efetiva, não está correndo da luta, ele não merece ser mal interpretado pelos juízes porque é um contragolpeador, mas infelizmente ainda acontece de, não só o torcedor ou os veículos de imprensa, julgarem isso de maneira equequivocada e se impressionarem com o cara que só andou pra frente, como os próprios juízes ainda se atrapalharem um pouco nas avaliações.

    • Pedro Carneiro

      Exatamente. O único critério aceitável para se avaliar uma luta são as regras pelas quais a luta é regida.

    • William Oliveira

      Concordo no geral do texto, mas entenda que o que muitos querem dizer com “andou mais pra frente” geralmente é que na verdade a luta estava empatada nos outros quesitos e esse lutador foi o que não só buscou mais as ações (o que na verdade entra em agressividade) como também controlou o local onde elas ocorriam, pois ao andar pra frente era ele que escolhia quando, onde e como.

      Claro que um cara que foi totalmente humilhado em todas as trocas, mesmo andando pra frente e procurando a luta, deve perder. Mas em uma luta parelha onde um teve uma queda a mais, sem efetividade, e o outro foi o cara que ditou onde e como a luta se deu, eu fico com o segundo.

      • Diego Sanchez contra Ross Pearson estava muito longe de estar empatada em todos os critérios pra alguém achar que “andar pra frente” tem que ser levado em conta. E dá pra ser agressivo e efetivo andando pro lado, por exemplo. Dá pra fazer até andando pra trás, fazendo o oponente que avança errar tudo e acertá-lo de volta nos contragolpes.

        • William Oliveira

          Sempre tem os juízes estúpidos que são campeões em resultados igualmente estúpidos, Sal D’ Amato e Glenn Trowbridge mesmo parecem que estão como juízes há uma década e ainda não aprenderam a fazer seu trabalho, incrível mesmo.

          Sobre andar pra frente, sim, com certeza tem quem consiga fazer isso de outros jeitos, o Conor mesmo é um, mas entenda que o mais comum é ser agressivo andando pra frente, isso é o que geralmente acontece. Os demais são a exceção, não a regra.

          Agora também tem outra coisa: luta exatamente empatada não existe, então vai ter que ser PRÓXIMA DE pra considerar o 4º critério, ele é de fato um último recurso pra não dar empate, mas tá aí pra ser usado em lutas muito próximas, e as vezes até eu faço isso, uma que me lembro agora de cabeça foi Moraes VS Davi Ramos (péssima luta inclusive), não sei como não consideraram isso na hora de pontuar, pois de resto, a luta foi super igual.

          • Mas a recomendação da ABC Boxing é clara: os demais critérios devem estar absolutamente empatados. Eles não falam de empate com margem de erro. Se eles fizeram isso, é um sinal claro que não querem ninguém usando isso como critério pra pontuar uma luta, até porque é virtualmente impossível ver empate em tudo.

            • William Oliveira

              Mas se assim fosse o quarto critério sequer existiria, uma vez que é impossível que a luta tenha sido completamente empatada, convenhamos; durante 5 minutos ninguém levou uma mínima vantagem? O juiz não conseguiu ver a balança tender nem que seja por algo desprezível? A verdade é que fazem uso do quarto critério para lutas perto de empatadas e eu pelo menos considero isso absolutamente correto, ao invés de dar vitória por 1 soco a mais, melhor analisar o quarto critério.

              De qualquer jeito, entendo que o que você está dizendo é o que está no regulamento, agora é fato que não o seguem a risca e nem deveriam, ao meu ver.

              • É exatamente o que a ABC Boxing quer: será que não é possível ver a balança pender minimamente para algum lado antes de usar o famigerado controle de área de luta? Mas, sim, você está coberto de razão quando diz que nem todos seguem à risca. Aliás, são poucos juízes que seguem as regras à risca. Como você mesmo citou ali em cima, o que não falta é cego ou barbeiro julgando luta de MMA por aí.

  • William Oliveira

    4) Domínio da área de luta

    Andar pra frente/controlar o meio do octógono, onde geralmente acontece mais trocações, é basicamente isso. É sim o critério menos importante, mas pontua.

    • Só pontua se todos os critérios anteriores empatarem. Caso contrário é pra ser ignorado.

    • Pedro Carneiro

      domínio do octógono não significa necessariamente quem está andando para frente, mas sim quem utiliza o espaço do octógono para agir ofensivamente.

      • William Oliveira

        mas veja bem, o lugar onde mais ocorre ações é geralmente o centro, pois os lutadores, em geral, evitam ficar na grade, então controlar o centro é geralmente controlar a área de luta

        • Pedro Carneiro

          mas vc não pode colocar como regra o que “geralmente” acontece. O critério tem que ser objetivo e valer pro caso mais abrangente de situações possíveis.

          • William Oliveira

            sim, claro, mas nessa situação Valentina X Amanda por exemplo, quem estava restringindo o espaço de ação da outra? A Amanda, sem duvida, era ela quem dava inicio as trocações e assim sendo ela que decidia onde isso ocorreria, sendo geralmente perto da grade (onde ela atacava mais), por isso se fossemos usar o quarto critério, a marcação positiva teria de ir pra Amanda

            • Pedro Carneiro

              Valentina é contragolpeadora, ela também decidia se manter ali, onde se sente mais confortável. Fora que todos os avanços da brasileira eram contidos pelos contragolpes da Valentina. Lyoto prefere ficar de costas pra grade e vários outros lutadores também e isso é a decisão deles de onde a luta vai transcorrer e pode e já foi muitas vezes confundido com o adversário quer a luta no centro, logo o domínio territorial é dele, quando não o era.

            • A Valentina joga no contragolpe. Então, pra ela, é interessante que a Amanda avance para que a Valentina a faça errar e devolva os contragolpes. Pontuar a favor da Amanda uma situação dessa é um erro.

        • Depende muito do estilo do lutador. O cara que pressiona no clinch luta na grade. Não existe essa de ocupar o centro. É uma generalização injusta.

  • Gabriel Fareli

    Que ótimo texto, Pedro ! Me senti numa sala de aula, sendo educado por um professor. Algumas das “falacias” do texto, eu já cometi, é muito enriquecedor aprender sobre o esporte que a gente tanto ama.
    Esse texto tinha que ser divulgado em todos os sites que se dizem especializados em MMA.

    Meus parabéns !

    • Pedro Carneiro

      Obrigado, meu querido!

    • Muita gente boa já repetiu alguns argumentos. Capaz de encontrar até um de nós um dia falando algo parecido. Estamos todos, sem exceção, aqui para aprender.

  • Raphael Pinheiro

    O texto é muito bom, parabéns! Porém, no caso do mito “o desafiante tem de fazer algo mais para tirar do campeão”, apesar da regra não contemplar tal fato me parece que há um pensamento entranhado não só por quem assiste as lutas, mas também pela banca de julgadores. Me vem à cabeça imediatamente a primeira defesa de cinturão de Lyoto Machida contra Shogun. E ainda parece existir certa reticência em pontuar as lutas de forma mais contundente conforme o compêndio de regras do MMA revisado neste sentido. Mas claro, estou falando apenas do ponto de observador, os especialistas são vocês. Continuem com o ótimo trabalho!

    • Pedro Carneiro

      Pois é, mas ai é uma questão de se ter juízes mais capacitados para julgarem as lutas. A regra está ai esperando pra ser bem usada.

  • Fernando Cruz

    O cara demora para escrever mais quando escreve, mando um texto sensacional como este. Já compartilhei no grupo de uns amigos meus que usam os mesmos argumentos falaciosos para opinar sobre quem venceu quem numa luta.

    • Pedro Carneiro

      Obrigado, Fernando. Espero demorar menos pra escrever novamente! Compartilha mesmo e the treta has been planted!

    • Espalha mesmo, vamos ajudar a esclarecer as regras.

  • João Lucas

    No podcast de vocês falaram o seguinte: Se o lutador ganhar por um pontinho é vitória. Não precisa impressionar. Ok a regra é essa, mas no mesmo podcast vocês disseram que Amanda não convenceu em nenhuma das duas lutas e sendo assim esse argumento serve pra ter a terceira. Se a primeira questão precisa ser praticada, então não se pode reclamar de duas vitórias que “não convenceram” e usar como argumento para uma terceira luta. Acho que no podcast vocês pisaram na bola quando disseram que Amanda tinha sim que fazer terceira luta com a Valentina porque não convenceu nas duas. Ao dizer isso é como apoiar que o vencedor precisa dominar completamente pra “convencer”, o que não é verdade. Vitória é vitória. Não que sou contra a uma terceira luta, o que sou contra é usar o papo de “não convenceu” como argumento para terceira luta, entendo que a crítica era direcionada a Amanda que disse que dominou (o que é uma fantasia), mas de qualquer forma isso não é argumento válido. Afinal vitória por um ponto de diferença ainda é vitória. Se a outra quer terceira luta, terá que ralar de novo pra conseguir isso.

    • Pedro Carneiro

      Existem 2 coisas distintas aqui: 1- os critérios para se julgar uma luta de acordo com as regras. 2- O desempenho de um atleta durante uma luta. Isto é, o que é necessário para que a Valentina derrotasse a Amanda era nocautear, finalizar ou ir melhor depois de 5 rounds. Para alguns ela fez isso, para outros não. Mas de acordo com a regra se ela foi melhor em qualquer grau, ela deveria ter sido declarada campeã. Outra coisa é analisar o desempenho da Amanda como lutadora durante esse combate. E em uma analise de desempenho, é possível avaliar se ela fez pouco ou muito e qual deve ser o próximo passo dela na categoria. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Cada um no seu quadrado.

      • João Lucas

        Até quem fim um lugar junto com a sexto round que os moderadores não apagam o que escrevo hahaha. Obrigado, sim eu entendo completamente o que vocês queriam dizer e concordo, mas é legal ler a respostas dos próprios sobre o que foi dito no podcast. Abraços e parabéns belo ótimo trabalho.

        • Claro que não vamos apagar seus comentários. Você não faltou com o respeito com ninguém. Sempre aparece alguém discordando de alguma coisa. Se fizer com respeito e educação, o debate vai seguir saudável.

          • João Lucas

            Certamente, não entendo porque apagavam meus comentários. No caso da página de tecnologia, recebia mensagem que meu comentário foi excluído por ser spam. Eu achei que tinha feito alguma coisa errada no cadastro. Mas era só o dono do site que provavelmente não curtiu o que comentei. hahahaa. Acompanho vocês no facebook e por aqui tbm. Foi uma das melhores coisas que eu fiz. Um grande abraço a todos!

    • João, vamos lá. São coisas diferentes.

      Primeiro: apesar de eu ter achado que a Valentina venceu a segunda luta, não desmereci a vitória dela em momento algum. Eu acho que é possível a visão de que ela fez o mínimo para vencer, assim como é possível a visão de que a Shev fez o mínimo pra vencer. Em ambos os casos, não importa quem era campeão ou desafiante, se alguém fez o mínimo para vencer, deve vencer.

      Segundo ponto: uma terceira luta para mim é totalmente válida. A Valentina deixou claro duas vezes que é capaz de vencer a Amanda. Dito isso, de modo algum quer dizer que o fato de eu apoiar uma terceira luta significa que eu acho que o campeão tem que passar o carro. Se as duas lutas fossem duas passadas de carro, ninguém pediria a terceira. Ninguém quer ver mais o BJ Penn enfrentar o Frankie Edgar depois das duas coças que ele levou, mas a segunda luta fazia muito sentido porque a primeira foi muito apertada.

      • João Lucas

        Concordo com você, mas vamos lá. a primeira luta foi até boa já a segunda foi muito chata ao ponto de ser vaiada e tudo durante o combate. Acho que li aqui mesmo que a galega quer descer né, finalmente afinal acho que todo mundo tá querendo isso. Seria interessante ela descer já disputar a cinta e tendo a cinta acho que seria mais interessante ela desafiar a Amanda depois. Seria muito lucrativo em PPV e tudo mais.

        • Eu não achei a revanche chata, mas entendo que meu gosto não é o reflexo popular. Eu gosto de quase tudo.

          • João Lucas

            Eu pessoalmente falando, gosto de ver lutas técnicas estudas tbm Alexandre, assisti tudo sem piscar. Mas o público em geral realmente prefere ver nocautes, finalizações mesmo. Ou seja, alguém com uma certa vantagem em relação ao outro lutador. A “Violência sempre tem o maior número numero de ppv”.
            No futebol galera prefere ver golaços (e quem não prefere?), não quer saber de gol de pênalti, ainda que uma disputa de pênaltis é bastante emocionante principalmente em um mata-mata. Abraços

          • William Oliveira

            Já eu acho que não cabe uma terceira luta entre elas tão cedo justamente por causa dessa última luta. Ficou claro que a Amanda não estava a vontade no octógono e que se sentia desconfortável com a estratégia adotada pra vencer a Valentina. Ela não luta desse jeito, a agressividade sempre foi característica marcante da Amanda mas isso ficou pra trás em nome de uma postura metódica afim de preservar o gás.

            Na minha opinião, uma Amanda lutando de forma calculista contra uma Valentina contra golpeadora e sem muito poder de punch não tem como sair mais emocionante do que isso que tivemos, e eu pelo menos não gostei, a primeira luta foi melhor porque vimos as duas fazendo exatamente o que sabem, aproveitando de seus pontos fortes. O casamento de estilos até poderia proporcionar algo agradável, mas depois dessa vitória da Amanda duvido que ela tente fazer diferente, teremos mais do mesmo e não será agradável, reforço.

            Eu iria preferir assistir até mesmo a Amanda X Pennington, que evoluiu sim pra caralho desde a última derrota. Ela simplesmente não deu chance pro azar contra a Tate, foi uma baita vitória e em razão da situação atual da divisão, deve ser o suficiente pra titleshot se a Amanda vier a lutar novamente em 2018.

  • Nicolas P S

    Outro argumento falacioso que rotineiramente é usado é que MMA não tem espirito marcial, que não tem regras, etc. Na França, aonde o MMA ainda esta proibido, e a prensa sobre o assunto não é de bom nível, lendo esse articulo, com essos ajustamentos das regras, poucou a pouco, fico com o sentimento de ver a historia do MMA sendo feita frente aos meus olhos. E muita joia ! Muito obrigado desde Europa, Pedro !!!

    • Pedro Carneiro

      Obrigado, Nicolar. Nós que nos sentimos lisonjeados pelo reconhecimento que vem de tão longe daqui do Brasil.
      Sim, existe muita desinformação em relação ao MMA e esse tipo de pensamento arcaico de que o MMA é valentia e briga só atrapalham o desenvolvimento e crescimento do MMA como esporte. É uma pena.

    • Tem mais outros argumentos falaciosos, Nicolas. Esse que você colocou é muito importante. Se fizermos de todos, ficaremos até o ano que vem falando disso hahaha

      Sobre o que você falou, a própria imprensa muitas vezes atrapalha. Mas vamos aos poucos tentando ajudar aqui do nosso canto.