Precisamos falar sobre as regras do MMA

Por Pedro Carneiro | 12/09/2017

A história do MMA está repleta de lutas apertadas e com resultados controversos. Quantas vezes não ouvimos ou participamos de debates quase intermináveis sobre quem venceu ou perdeu uma peleja? O debate é bom e certamente é um fator que intensifica o apreço do fã pelo esporte. Contudo, certos argumentos usados e repetidos exaustivamente se tornaram o ponto capital para que alguém determine quem é o vencedor de uma luta de MMA. E não falamos apenas dos fãs. Diversas vezes, os mesmos argumentos são usados por lutadores, treinadores e até pela mídia especializada. Como afirmou Goebbels, a mentira dita mil vezes se torna verdade e as colocações ganham um peso de como se fossem oficiais. Só há um grande problema: elas não estão nas regras.

Tomamos como regras as Regras Unificadas de Conduta do MMA, ou seja, o conjunto de normas estabelecidas no ano 2000 pela Comissão Atlética do Estado de New Jersey, que, usando o projeto iniciado pela Comissão Atlética do Estado da Califórnia e as faltas aproveitadas pela Comissão Atlética do Estado de Nevada, revisadas posteriormente pela ABC Boxing, sancionaram as regras que regem o MMA.

O objetivo deste artigo não é exaurir todas as falácias que são repetidas por aí, mas apenas trazer três exemplos para a luz da regra e desejar que todos os fãs, lutadores, treinadores e integrantes da mídia, especializada ou casual, procurem e conheçam o regulamento. Como um antivírus, que detectem tantos outros critérios fora da regra que circulam por aí.

“Ele andou mais pra frente”

Os golpes precisos de Conor McGregor frearam o ímpeto de Nate Diaz

Os golpes precisos de Conor McGregor frearam o ímpeto de Nate Diaz

Uma luta de MMA é julgada basicamente através de quatro critérios:

1) Trocação efetiva, isto é, o dano de golpes legais aplicados no adversário, observando que a contundência recebe um peso maior que o volume. Entende-se então que um soco de alto impacto normalmente terá um valor maior que cinco jabs ou chutes baixos, por exemplo. No caso de a quantidade de golpes contundentes ser equilibrada, o volume de golpes será o diferencial.

2) Agarramento efetivo, que considera o número de quedas, passagens de guarda, tentativas de submissão, reversões e montadas que um lutador faz. Também é considerada a guarda ofensiva, quando o lutador em posição por baixo busca finalizar o adversário. As tentativas de submissão que chegam mais perto de acabar a luta recebem um peso maior que as que não chegam, assim como as quedas de grande amplitude são mais valorizadas que as quedas simples.

3) Agressividade, que é quando um lutador avança sobre o oponente utilizando golpes válidos ou tentando finalizações. Perceba: há a necessidade de que o avanço do lutador possua golpes válidos.

4) Domínio da área de luta, critério que privilegia o atleta que tenha o domínio territorial da área de luta. É preciso deixar claro que esse é o último critério a ser analisado e só será o fiel da balança quando todos os outros acima estiverem rigorosamente empatados. Mais importante ainda é deixar claro que domínio do octógono não significa necessariamente quem está andando para frente, mas sim quem utiliza o espaço do octógono para agir ofensivamente. Um lutador que usa esse critério muito bem sem necessariamente andar para frente é Lyoto Machida. Outro exemplo nítido é o da luta entre Carlos Condit contra Nick Diaz, no qual Condit exerceu o domínio dos espaços andando lateralmente, enquanto Diaz, mesmo andando para frente, não conseguia acertá-lo. Há ainda outro caso claro, e mais recente, o da revanche entre Conor McGregor contra Nate Diaz.

Os dois primeiros critérios (striking e grappling efetivos) passaram a ter peso igual na reforma das Regras Unificadas que entrou em vigor no ano passado. Já o terceiro e o quarto recebem um peso menor que os outros dois, sendo que o último é ainda menos relevante que o terceiro. Todavia, a agressividade e o domínio da área de luta necessariamente devem contemplar golpes válidos, o que significa que o famigerado “andar pra frente” não é um critério de avaliação numa luta. Sem a presença de golpes válidos, não há diferença entre um atleta que anda pra frente, um outro que faz um moonwalk ou o curupira durante a peleja.

“O rosto dele saiu mais machucado”

Como vimos, o maior critério para se julgar uma luta de MMA é o dano que um lutador inflige sobre o outro. Contudo, é preciso ter em mente que os dois lutadores não são iguais. Isso significa que o corpo de cada um possui características diferentes. Alguns se cortam, criam inchaços e hematomas com maior facilidade e frequência do que outros.

Dois exemplos esclarecem essa situação perfeitamente. No primeiro encontro entre Anderson Silva e Chael Sonnen, o americano derrubou o então campeão no solo em todos os rounds e aplicou 320 golpes em Anderson, sendo 89 golpes contundentes. Enquanto isso, Anderson aplicou apenas 29 golpes contundentes de um total de 64 aplicados. É sabido que Anderson finalizou Chael, mas, caso a luta tivesse ido para a decisão, nao teria sido nem um pouco difícil julgá-la e ter declarado Sonnen como vencedor por larga margem. Porém, se olharmos para o semblante dos dois, Sonnen saiu com o rosto muito mais machucado que Anderson.

Nem parece que o da esquerda apanhou por mais de 20 minutos

Nem parece que o da esquerda apanhou por mais de 20 minutos

Outro caso interessante envolve o ex-campeão Johny Hendricks. Na verdade são duas situações emblemáticas. Ele enfrentou Georges St. Pierre numa dura batalha de cinco rounds. A luta foi extremamente parelha, com alguns enxergando a vitória para Hendricks e outros para o canadense. Até mesmo dentro do MMA Brasil houve discordância, com o nosso editor-chefe dando a vitória para Hendricks e esse que vos escreve dando a vitória para St. Pierre.

Todavia, um dos argumentos usados pelo próprio Hendricks após a derrota – e de vários outros que entenderam que o americano era o vencedor – foi que o rosto de GSP saiu mais machucado da luta do que o dele próprio. Como a língua é o chicote da alma, não tardou para que, em outra disputa de cinturão parelha, a situação se invertesse. No segundo encontro entre Hendricks e Robbie Lawler, mais uma luta de resultado controverso, Johny saiu derrotado num combate em que muitos o viram vitorioso, inclusive o MMA Brasil. O interessante é que, nesse caso, o rosto de Hendricks saiu muito mais machucado do que o de Lawler. Parece que o jogo virou, não é mesmo?

O critério para avaliar uma luta deve ser sempre os previstos nas regras unificadas do MMA. Cortes, hematomas e inchaços nem sempre significam superioridade. Como de praxe, as aparências enganam.

“O desafiante tem que fazer algo a mais para vencer o campeão”

Este é o argumento falacioso usado recentemente, após a revanche entre Amanda Nunes e Valentina Shevchenko, no UFC 215. Mais uma vez tivemos uma luta apertada, na qual a vitória é aceitável para qualquer um dos lados. O que não é aceitável é analisar uma disputa de cinturão com um critério que não existe.

O que é necessário para que um desafiante vença uma disputa de cinturão é apenas e unicamente que ele vença a luta por nocaute, submissão ou faça mais pontos que o adversário ao longo de cinco rounds. Não é necessário categoricamente que o desafiante, durante a luta, faça nada além do que em qualquer outra luta de cinco rounds. Se a vantagem do desafiante for pequena no fim do tempo regulamentar, por mínima que seja, será essa vantagem que determinará que o cinturão troque de mãos. O desafiante não precisa fazer nada a mais para vencer do que o próprio campeão precisaria. Isso foi uma lenda que surgiu no mundo da luta e algumas pessoas infelizmente acreditaram e a propagaram. Este critério simplesmente non ecziste nas regras. Os critérios que devem ser usados para julgar um combate, seja disputa de cinturão ou não, são sempre os mesmos.

A regra é clara

Evidentemente não foram expostos aqui todos os argumentos falaciosos que rotineiramente são usados para julgar uma luta, tampouco são os mais importantes. O importante é que o MMA possui regras claras e é necessário que os fãs, lutadores, treinadores e mídia especializada que se propõem a julgar lutas conheçam essas regras e tenham embasamento para reconhecer todas as falácias que existem ou que porventura venham a existir. E não há dificuldade para isso, já que as Regras Unificadas do MMA estão a apenas um clique de distância: http://www.nj.gov/oag/sacb/docs/martial.html.