Por Rafael Oreiro | 04/04/2019 09:29

No último dia 16 de março, durante evento em Londres, o UFC fez um anúncio que de certa forma não causou muita balbúrdia, mas teve certa repercussão negativa sobre alguns fãs mais puritanos de MMA. Sentado na platéia da O2 Arena, o inglês Michael Bisping recebeu a notícia de que será incluído no Hall da Fama do UFC, em cerimônia a ser realizada durante a International Fight Week, em julho. Assim, o ex-campeão do peso médio se juntará a nomes como Urijah Faber e Ronda Rousey na Ala Moderna – divisão que surgiu na reformulação do Hall, em 2015.

A indicação de Bisping ao Hall da Fama tem sido polemizada, principalmente, por fãs que passaram a odiar o britânico por suas atitudes após conquistar o cinturão, em 2016. Naquela época, Michael buscou se manter o maior tempo possível como campeão, forçando uma defesa contra um pouco merecedor Dan Henderson e travando o topo da categoria ao buscar uma superluta contra Georges St. Pierre, quando acabou perdendo o título, no final de 2017.

Entendo totalmente quem ficou com raiva dele por esse período, mas compreendo também o inglês. Numa organização na qual Conor McGregor tinha (tem) abertura para fazer absolutamente o que quiser, Bisping, um lutador na reta final de sua carreira, viu a oportunidade de forçar situações para receber os maiores cheques de sua vida. É bom lembrar que a diferença de pagamento e patrocínio de um lutador normal para um campeão do UFC pode ser abissal. Isso justifica as atitudes do inglês? Não completamente, mas ajuda a entender o lado humano que o fez tomá-las.

Para se ver o valor que faz Michael Bisping realmente ser merecedor do Hall da Fama do UFC, precisamos olhar para muito antes de seu periodo como campeão. O inglês começou a carreira na organização no longínquo 2006, quando venceu a terceira temporada do reality show “The Ultimate Fighter” ainda no peso meio-pesado. O então ex-campeão do Cage Warriors iniciou sua passagem no UFC vencendo três lutas seguidas, até ser parado por Rashad Evans numa luta bastante parelha – Evans partiria em seguida para conquistar seu icônico nocaute sobre Chuck Liddell e, depois, o cinturão.

Michael Bisping estreia no UFC, vencendo Josh Haynes para conquistar o TUF 3 (2006)

Michael Bisping estreia no UFC vencendo Josh Haynes para conquistar o TUF 3 (2006)

Bisping, então, tomou a decisão de descer para o peso médio, categoria na qual fez o restante de sua carreira na organização, lutando contra a maioria dos melhores lutadores de sua geração. Mantendo-se entre os dez melhores da categoria desde 2010, o inglês acabou conhecido por ser um ótimo lutador, mas sempre falhar nas horas mais importantes, aquelas que poderiam levá-lo a uma disputa de cinturão. Foi assim contra Chael Sonnen e em seu primeiro combate contra Dan Henderson, derrotas que o fizeram nunca enfrentar Anderson Silva em sua melhor fase, quando era um campeão dominante.

Além do rótulo de “pipoqueiro”, Michael também acabou conhecido por ser um striker de pouca potência nos punhos, recebendo a alcunha de “mão de almofada”. Apesar da falta de punch realmente ser verdadeira, Bisping era um trocador muito técnico, que imprimia um ritmo de combate impressionante. Ainda assim, conquistou 17 de suas 32 vitórias por nocaute. Imagine então se ele tivesse poder de derrubar um homem com uma porrada só.

Apesar de muitos o considerarem um lutador de meio de tabela, o “Conde” foi de extrema valia para o UFC. Sempre com seu jeito falastrão, ele cuidava muito bem de sua imagem, fato que o levou a ser convidado a participar duas vezes como técnico do TUF (TUF 9, contra Dan Henderson, e TUF 14, contra Jason Miller). Muito além disso, Bisping foi o maior pilar de expansão da organização para a Europa. Numa época em que o UFC priorizava completamente o mercado americano, o britânico foi o principal responsável pela popularização da promoção na Inglaterra e alguns vizinhos.

É verdade que a organização de Dana White já tinha realizado um evento na Terra da Rainha, o UFC 38, liderado por Matt Hughes em seus tempos de glória, mas somente o surgimento de um ídolo em Bisping fez com que o UFC conquistasse realmente o público britânico – muito antes de ser pensada qualquer expansão ao Brasil. Tendo feito sua estreia no país pela organização no UFC 85, o inglês liderou cinco eventos no Reino Unido desde então, fixando-se como grande estrela do país no esporte. Se não fosse Bisping e sua facilidade em atrair a atenção dos ingleses, provavelmente a expansão europeia do UFC teria sido mais difícil.

Por fim, o que tornou realmente inquestionável – para mim – o seu merecimento de fazer parte do Hall da Fama do UFC veio no final de sua longa carreira. Quando muitos já o consideravam decadente, em fase na qual havia perdido três das suas cinco lutas mais recentes, Bisping mostrou uma força de vontade admirável. Treinando com Jason Parillo e emendando duas vitórias, ele finalmente teve a oportunidade de enfrentar Anderson Silva, já ex-campeão da categoria, no quintal de sua casa, em Londres. Com o apoio da torcida britânica, Michael sobreviveu a uma joelhada que poderia tê-lo levado para a vala e acabou vencendo em decisão justa – só relembrar os placares do MMA Decisions – com direito a knockdown no superastro.

Vindo da maior vitória de sua carreira, uma chance inesperada caiu no colo de Bisping: disputar o cinturão do peso médio contra Luke Rockhold, com somente duas semanas de preparação, substituindo Chris Weidman. Depois de dez anos de casa, o inglês finalmente iria fazer uma luta pelo título mundial, contra um oponente que já o havia vencido facilmente dois anos antes. Então, quando menos se esperava, Michael surpreendeu. Considerado nas bolsas de apostas como forte azarão, pagando praticamente 5 para 1, o inglês chocou os fãs ao nocautear Rockhold no primeiro round, no UFC 199, em um dos momentos mais sensacionais que eu, como fã de MMA, tive o prazer de assistir. Depois de anos de trabalho duro e sendo considerado um lutador mediano, Bisping concluiu uma linda história de superação ao alcançar seu sonho de conquistar o cinturão.

O “Conde” saiu do octógono ovacionado pelos fãs. Talvez, se tivesse parado ali, fosse lembrado com muito mais carinho por aqueles que o criticam hoje. Mas, como comentado lá em cima, apesar de suas atitudes como campeão realmente terem causado um desgaste grande com os fãs do UFC, elas não deixaram de ser compreensíveis.

Depois de ganhar o maior cheque de sua vida e perder o cinturão para St. Pierre, Michael Bisping concluiu sua carreira sofrendo um nocaute para o muito mais jovem Kelvin Gastelum. Com mais uma lesão no olho – problema que já tinha sofrido anteriormente em sua carreira – o inglês desistiu da ideia de fazer uma luta de despedida e pendurou suas luvas no começo de 2018, aos 39 anos, 14 desses dedicados à carreira de lutador profissional.

Bisping nunca foi um lutador especial ou considerado um dos maiores ou mais geniais a ter passado pelo octógono do UFC. Mas, mesmo sendo um lutador normal, passou anos disputando contra os melhores de sua categoria e, quando recebeu a chance de coroar a carreira, protagonizou uma das maiores zebras da história do UFC em lutas por cinturão. Maior ídolo do MMA inglês, ele é um exemplo de que suor e trabalho duro rendem frutos e que, mesmo não sendo um lutador extraordinário, qualquer um pode chegar no topo.

Natural que, com a entrada de um atleta menos conhecido pela habilidade como o “Conde”, fãs voltaram a questionar a legitimidade do Hall da Fama do UFC. Pedindo por outros nomes, eles tentam desqualificar o merecimento de Bisping mostrando o merecimento de outros. Porém, a entrada do inglês no Hall da Fama em nada desmerece as conquistas de outros – e haverá outras oportunidades para adições no panteão do UFC. Inclusive, muitos dos nomes pedidos por fãs, como Marco Ruas, sequer seriam elegíveis para a Ala Moderna, na qual Bisping será inserido, e sim para a Ala dos Pioneiros, que recebeu nos últimos anos Bas Rutten e Don Frye.

Por fim, a condição de Hall da Fama do UFC ainda é muito confundida com a de um Hall da Fama do MMA como um geral. Como maior organização mundial do esporte há anos, a diferenciação de UFC para MMA é por vezes esquecida. Bisping pode não ter sido um dos maiores de todos os tempos do esporte, mas foi indiscutivelmente importante a ponto de ser incluído no Hall do UFC.

Depois de doze anos de carreira, Michael Bisping conquistou cinturão peso médio no UFC 199 (2016)

Depois de doze anos de carreira, Michael Bisping conquistou cinturão peso médio no UFC 199 (2016)

Como o debate é estimulado no MMA Brasil, você pode ler o argumento oposto aqui.