Por que poucos estrangeiros relevantes lutam no Brasil?

Por Rafael Oreiro | 01/06/2017 01:42

A história tem se repetido há algum tempo: quando o UFC anuncia um card no Brasil, os fãs se entristecem pela baixa possibilidade de assistir de perto a um lutador estrangeiro de elite. Quando falamos dos mais populares, é mais raro ainda. Ronda Rousey foi exceção.

O UFC 212, que acontece neste sábado, no Rio de Janeiro, segue a tendência. Apesar de uma luta principal de nível técnico excelente, o resto do card será composto por estrangeiros em fim de linha, novatos ou de pouco apelo. Mesmo na luta principal, o reconhecimento público de Max Holloway, adversário de José Aldo, é muito baixo fora do círculo de fãs que acompanham o MMA bem de perto.

Neste artigo, tentamos apontar cinco motivos que impedem que os fãs brasileiros vejam Jon Jones, Conor McGregor ou mesmo Dominick Cruz em nosso país.

Lutar no Brasil tem custo extra e mudança na preparação dos lutadores

O UFC normalmente paga pela viagem, pela estadia e pelos vistos do lutador e de um córner no Brasil – lutas de cinturão têm aumento de um córner. Porém, nenhum atleta vai para um evento como o UFC só com um técnico para ajudar na preparação. O dinheiro necessário para vinda dos treinadores restantes costuma sair da bolso do lutador, para abater de pagamentos que não são tão polpudos em muitos casos.

O lutador John Cholish, que enfrentou Gleison Tibau no UFC On FX 8, em Jaraguá do Sul, disse que, naquela oportunidade, teve que pagar por quatro dias de acomodação para dois de seus treinadores, além de bancar os vistos (avaliados pelo próprio em US$ 500 cada) e passagens aéreas (segundo ele, cerca de US$ 1500 para cada um).

“Para mim, como foi feito para o Brasil: eu tinha dois vôos cobertos, para mim e para um técnico, e mais um quarto de hotel. O hotel onde nós ficamos, na verdade, tinha somente duas camas de solteiro e nenhuma cama queen size. Não é que eu quisesse quatro homens adultos dormindo juntos em uma cama.”

Com os valores de Cholish, o custo estimado só para viagem e estadia de dois técnicos no Brasil seria de quase US$ 4.500. Se considerarmos que a bolsa garantida dele (aquela que é paga independentemente do resultado) no combate anterior foi de US$ 8 mil, mais de 50% pode ter sido gasto nesses extras (a comissão atlética do Brasil não divulga os salários dos lutadores, como as entidades americanas fazem).

Um exemplo mais recente que demonstra essa inconveniência aconteceu com Paul Felder, que, para sua luta contra Francisco Massaranduba, em Brasília, decidiu abrir uma campanha de financiamento coletivo para poder arcar com o transporte e estadia de seus córneres. O americano pediu cerca de US$ 7.500, mas conseguiu arrecadar somente US$ 2.900. Pelo menos diminuiu seu prejuízo.

Além disso, lutar no Brasil representa uma mudança na preparação normal que lutadores fazem. A adaptação para o fuso horário e para o clima diferenciado de certas regiões brasileiras sempre é um inconveniente.

Ok, esse problema não é exclusivo para lutas no Brasil, mas demonstra porque é muito mais cômodo atuar perto de casa e porque muitos atletas costumam botar empecilhos para lutar em outros países.

Público médio brasileiro não é atraído por estrangeiros em eventos

O Brasil ainda é um grande mercado de MMA no mundo. Porém, somente responde a lutadores nacionais em seus cards do UFC. Seja José Aldo, Anderson Silva ou Vitor Belfort, os lutadores brasileiros têm que ser, na imensa maioria das vezes, os maiores chamadores de atenção e mídia.

A questão aqui é que o público médio brasileiro, aquele que dá mais lucros para organização, conhece apenas os nomes que são sempre passados pela mídia brasileira. Nosso público em geral desconhece lutadores como Frankie Edgar, Cain Velasquez ou Yoel Romero, por exemplo, para citar alguns que fariam a felicidade extrema dos fãs que acompanham o esporte verdadeiramente de perto.

Como exemplo, vejamos o card do UFC 198, que é tido como o melhor evento de MMA já realizado no Brasil. Tirando Stipe Miocic, vemos que o restante de grandes nomes puxando o card era formado por lutadores nacionais, como Belfort, Ronaldo Jacaré, Cris Cyborg e Maurício Shogun. Enquanto isso, a leva de estrangeiros era formada por Corey Anderson, Matt Brown, Nate Marquardt e Patrick Cummins, por exemplo. Quem quer que fosse enfrentar os brasileiros neste card, não faria diferença para a empolgação da massa de torcedores de MMA no Brasil.

Carlos Condit vence Thiago Pitbull com atuação primorosa no segundo round no UFC Goiânia

Outro exemplo que podemos usar é o card liderado por Thiago Pitbull e Carlos Condit, realizado há dois anos, em Goiás. A luta principal era claramente puxada pela presença de Condit, ex-campeão interino e lutador muito empolgante, enquanto Pitbull era um nome não tão reconhecido no Brasil e tido como o azarão para a luta. O resultado foi uma arena praticamente vazia, com um público de 3.500 em um ginásio com capacidade para 15.000 pessoas, o comparecimento mais baixo dentre todos os eventos já realizados no Brasil.

Em resumo, não é interessante economicamente para o UFC fazer com que alguns de seus principais lutadores voem para o Brasil, já que eles não chamariam tanta atenção por aqui como chamariam em outras localidades.

A torcida brasileira é conhecidamente mal educada

Esse é um fato comum nos comentários de lutadores estrangeiros durante eventos no Brasil. O clima de guerra criado pelos gritos de “Uh, vai morrer!” e a pressão colocada sobre atletas que enfrentam brasileiros, que são vistos como normais para a maioria dos torcedores, nem sempre são bem aceitos pelos lutadores gringos. No ambiente das artes marciais, que normalmente pregam respeito e calma, as vaias direcionadas para os estrangeiros são estranhas.

Não faltam casos que demonstram essa falta de educação. É só lembrar do UFC 198, quando Matt Brown chegou a ser agredido no caminho do octógono. Tudo bem que as atitudes do americano com a torcida em Curitiba foram erradas, mas nada justifica o que foi feito com ele, e as consequências desse ato poderiam ser até piores do que foram.

Conor McGregor, que esteve no Rio somente para uma sessão de perguntas e respostas no Maracanãzinho, foi alvo de uma enorme quantidade de desaforos pelos torcedores presentes – e olha que o irlandês nunca chegou a ser desrespeitoso com o público brasileiro especificamente. Isso até nem foi um problema para Conor, que é brilhante em situações de provocação, mas outros lutadores do UFC assistindo à coletiva devem ter tido uma péssima impressão da torcida brasileira.

Não são só os estrangeiros que sofrem com a torcida brasileira. Podemos lembrar que inclusive Anderson Silva foi alvo dessa falta de educação no UFC 134, o primeiro evento da fase moderna do UFC no Brasil. Naquela noite, durante sua entrada, um torcedor conseguiu roubar seu boné, mesmo com vários seguranças em volta.

Infelizmente, a torcida brasileira é conhecida internacionalmente por ser incrivelmente mal educada, e não só no MMA. Casos de falta de respeito acontecidos em outros esportes, inclusive nos Jogos Olímpicos, são bastante comuns e estão longe de acabar no país que acha que todo esporte tem que ser torcido como o futebol.

Comissão atlética brasileira é conhecida por polêmicas

A Comissão Atlética Brasileira de MMA (CABMMA) já foi alvo de diversas polêmicas. A entidade teve sua seriedade questionada em várias oportunidades e ficou com má fama internacionalmente. Sem entrar no mérito do julgamento das lutas, polêmica que acontece no mundo todo, podemos lembrar de algumas ocasiões em que a CABMMA foi muito contestada.

Mantendo o foco apenas no UFC, pode-se lembrar da memorável falha de Eduardo Herdy na luta entre Leandro Buscapé e Drew Dober, na qual o árbitro interrompeu e declarou Buscapé vencedor por finalização sem que qualquer posição estivesse encaixada. Logo em seguida ao acontecido, a CABMMA soltou o seguinte comunicado:

“Como determinado, neste momento, a CABMMA não irá mudar a decisão tomada ao final de nenhum resultado ou exibição sem que (i) se prove que houve alguma armação afetando o resultado da luta, (ii) o somatório dos placares dos juízes revele um erro mostrando que a decisão foi dada ao atleta errado, ou (iii) o resultado de um erro de interpretação de uma disposição de nossas regras e regulamentos fizesse com que o juiz tomasse uma decisão incorreta.

A paralização de Silva-Dober não se enquadra em (i) ou (ii) e, além disso, não está dentro do escopo de (iii), uma vez que não se baseia em uma interpretação incorreta das regras e regulamentos que conduziu o resultado da luta, mas sim por um julgamento de um árbitro treinado e experiente baseado na finalização do Sr. Leandro ‘Buscapé’ Silva, confirmada pelo Sr. Eduardo Herdy. Consequentemente, não há nenhuma ação que a CABMMA possa tomar neste momento e o resultado será mantido.”

Só depois da repercussão amplamente negativa da declaração, de Dober entrar com recurso e de Herdy assumir o erro publicamente, a CABMMA acabou por mudar o resultado da luta para no contest, quase deixando um dos maiores erros de arbitragem do MMA acontecer sem consequências.

Outro caso no qual podemos ver a falta de critério da CABMMA é na mudança do resultado da luta entre Francimar Bodão e Darren Stewart, que aconteceu no final de 2016, em São Paulo. Na ocasião, Bodão alegou que um choque de cabeças com Stewart o abalou e, como o árbitro não interveio, o brasileiro acabou sendo nocauteado por causa disso. Considerando que é difícil medir a força de uma cabeçada pelo olhar, não é absurdo que Bodão apele à comissão atlética. O pior, neste caso, foi que o diretor de arbitragem da CABMMA disse, logo após o combate, que viu o replay e julgou o lance não intencional.

A CABMMA teve outro julgamento com polêmica similar na luta entre Jussier Formiga e Scott Jorgensen. Após um choque de cabeças muito mais claro do que o da luta de Bodão, Jorgensen foi finalizado. Na ocasião, a comissão julgou que a cabeçada não pôde ser julgada por não ter sido observada no momento da luta e que esta não teve influência no resultado final da disputa, negando o recurso impetrado por Jorgensen. Naquela época, o uso do replay era proibido pela CABMMA.

Analisando os dois casos e sabendo que a luta entre Formiga e Jorgensen aconteceu em 2014, é difícil entender qual foi a diferença de critério usada nos julgamentos dos casos e fica a dúvida do que aconteceria caso tivesse sido Formiga o finalizado após a cabeçada. Tanto no caso de Formiga quanto de Bodão, os brasileiros foram favorecidos pelas decisões da CABMMA.

Enquanto isso, no mesmo evento no qual aconteceu Bodão-Stewart, a brasileira Claudia Gadelha acertou um chute ilegal na cabeça de Cortney Casey quando esta estava deitada no chão. Depois da luta, um membro da CABMMA foi questionado sobre a razão pela qual não tinha sido deduzido nenhum ponto de Gadelha. Ele respondeu que Casey tinha fingido que o golpe tinha acertado e usado o tempo para descansar, e que sua conduta tinha sido antidesportiva e errada.

De novo a CABMMA demonstrou falta de critério de julgamento, declarando que o golpe sobre Casey não tinha surtido efeito nenhum enquanto declarava que a força da cabeçada entre Bodão e Stewart não podia ser medida pelo olhar. Mais uma vez um atleta estrangeiro foi prejudicado.

Bolsas de lutadores sofrem com impostos pesados

Talvez o motivo mais forte para afastar lutadores de peso em eventos no Brasil são os impostos deduzidos das bolsas dos atletas, o que não afasta somente lutadores estrangeiros, mas também muitos brasileiros que residem fora do país.

Em 2013, logo após sua vitória sobre Massaranduba, no UFC 153, no Rio de Janeiro, Gleison Tibau declarou:

“Profissionalmente, eu gosto de lutar no Brasil, mas, financeiramente, acho absurdo. O Brasil cobra muitos impostos sobre nossas bolsas e eu me sinto desmotivado em lutar lá por isso. É uma taxa de impostos muito pesada, eu e outros amigos que lutamos no Brasil reclamamos… nós perdemos 30% de nossas bolsas.”

O valor deduzido é o mesmo para lutadores brasileiros com residência no país, mas estes podem pedir a restituição parcial em sua declaração anual do Imposto de Renda, enquanto atletas residentes em outros países não têm essa opção. A situação piora ainda mais visto que, após a bolsa ser taxada no Brasil, o valor que sobra será taxado novamente no país de moradia do lutador, diminuindo ainda mais o montante recebido.

Para um estudo de caso, podemos usar uma luta que chegou a ser cogitada para o UFC 212, entre Eddie Alvarez e Dustin Poirier. O duelo acabou acontecendo no UFC 211 e terminou sem resultado. Com isso, nenhum dos dois ganhou bônus de vitória, recebendo somente suas bolsas garantidas, que foram declaradas após o evento como sendo de US$ 150 mil para Alvarez e de US$ 59 mil para Poirier. Com o valor declarado por Tibau, de 30% de taxa, Eddie Alvarez deixaria US$ 45 mil no Brasil, enquanto Poirier deixaria US$ 18 mil.

Com quase um terço da bolsa cortada em impostos e o dinheiro restante sendo taxado novamente no retorno para seu país, além das despesas extras detalhadas no primeiro tópico, os lutadores sofrem muito prejuízo vindo lutar no Brasil.

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Editor do MMA Brasil. Carioca, flamenguista, projeto de músico que nunca deu certo e estudante de engenharia nas horas vagas. Orgulhosamente parte da "geração TUF Brasil".