Por que não?

Por Diego Tintin | 29/09/2016 21:38

Costumo dizer que sou péssimo em exercícios de futurologia. Na verdade, “péssimo” é pouco. Se houvesse um troféu para o sujeito que mais dá palpite furado em todas as áreas possíveis, tal premiação receberia meu nome de forma a não deixar dúvidas sobre tal condição. Desde os números da próxima mega-sena, até questões banais como em que lado o jogador do time adversário baterá o pênalti, o mais prudente é sempre apostar no oposto do que palpitei.

Porém, ainda assim costumo me superar, como em uma edição de podcast que “gabaritei” com todos os fonemas: “CRISTIANE CYBORG NUNCA LUTARÁ NO UFC”. Cerca de dez dias depois, todos os portais davam a notícia que a curitibana iria participar do UFC 198, disputado em sua cidade natal. Como leitores e ouvintes do MMA Brasil são muito mais gentis do que nós da equipe merecemos, não houve apedrejamento moral deste errático escriba após a confirmação da peleja de Cristiane contra Leslie Smith.

Então Cyborg lutou no UFC. E lutou de novo. E, como era de se esperar, atropelou suas adversárias sem passar nenhum tipo de dificuldade. Porém, todo o perigo que não chegou perto do octógono assombrou Cris durante o processo de corte de peso para as duas apresentações. Como o acordo com a organização exigia que a brasileira se apresentasse em um peso combinado abaixo dos 66 quilos que ela costuma alcançar, um processo desgastante e degradante fez parte de sua rotina. Procedimento este, testemunhado pelas câmeras, logo viralizando nas redes sociais e causando um sentimento de angústia e, talvez, certa admiração à bravura da atleta.

Toda essa ladainha para chegar à pergunta-título deste texto: por que não este esforço ser recompensado com a chance que todos os demais 473 atletas contratados pelo UFC têm, que é disputar um cinturão da organização?

Vale a pena a maior organização de MMA do mundo contratar a melhor lutadora da atualidade para fazer lutas sem nenhum valor esportivo e – ainda mais grave – desperdiçando um potencial comercial que uma nocauteadora implacável pode ter em um esporte no qual os fãs eventuais clamam por vitórias acachapantes e nocautes avassaladores?

Óbvio que a questão não é tão simples. Analistas e fãs mais envolvidos com o esporte argumentam que não há atletas de bom nível em número suficiente para a criação do peso-pena feminino, o que atualmente é uma verdade. No entanto, a proposta deste texto não é para a criação imediata da divisão dentro do UFC, mas a criação do cinturão inaugural, com um duelo, por exemplo, entre Cris Cyborg e Holly Holm, encabeçando um card numerado com potencial promissor de penetração nos Estados Unidos para alcançar um número de pacotes vendidos superior a 400 ou 500 mil se bem promovido pela organização.

Diante do sucesso de uma eventual disputa pelo cinturão inaugural, mais atletas podem almejar sua chance de lutar pelo cinturão. Em um curto prazo, nomes como Miesha Tate, Amanda Nunes, Julianna Peña, Cat Zingano podem se animar a receber um pouco mais para tentar a conquista do cinturão, que sempre alavanca a carreira e os rendimentos de um lutador profissional. Em um longo prazo, atletas com potencial podem se empolgar com a chance de lutar pelo título do UFC e passarem a se dedicar com mais afinco e em maior quantidade ao MMA, algo hoje pouco motivador devido à ausência da divisão na maior organização mundial.

Já fui alertado que as meninas citadas do peso galo jamais dividiriam a jaula com a fera de Curitiba. Concordo plenamente se estivermos falando de lutas sem valor esportivo e/ou em peso combinado. Mas com uma disputa de cinturão, bolsa maior e posição principal de card numerado na jogada, a situação muda completamente de figura. Ou alguém aqui acha que Conor McGregor teria algum interesse de enfrentar um atleta como Eddie Alvarez – que sempre voou abaixo do radar do grande público – se não valesse o título?

Outro contra-argumento é que Cyborg não tem popularidade suficiente para liderar eventos por ser pouco conhecida nos Estados Unidos. É tentador pensar desta forma, mas que tal arriscar uma cartada diferente? Uma rápida pesquisa no Google para páginas em inglês traz retorno de 1,87 milhão para “Cris Cyborg”, 1,82 milhão para “Holly Holm” e 430 mil para “Miesha Tate”. Todas longe de “Ronda Rousey”, é claro, com sua marca de 6,51 milhões. É óbvio observar que isso não é um instrumento confiável de medição de popularidade, mas qual seria? Quem pode ser dono da verdade neste caso?

Por que não dar uma chance? É provável que Cris garanta ótimas vendas em lutas imediatas contra Tate e Holm (muito por causa das americanas, é verdade), mas caso as derrote com boa atuação, é bem razoável supor que consiga popularidade suficiente para seguir em diante, mais popular que alguns campeões como Demetrious Johnson, Tyron Woodley ou Eddie Alvarez.

O argumento de base desta dissertação é que Cris Cyborg já luta pelo UFC. Suas próximas lutas serão em peso casado (espero que não, pelo bem de sua saúde), ou em uma divisão que não existe. Isto já é estranho e não vai mudar. Acrescentar uma disputa por um cinturão não tornará mais estranho, mas deve tornar mais lucrativo para a organização e para as atletas envolvidas. Ficará mais atrativo para o público, que sempre demonstra mais interesse quando há algo relevante esportivamente em jogo. Talvez quem não goste deste cenário seja o fã mais hardcore, que pode rejeitar a ideia de um cinturão sem lutas periféricas na divisão que o dê sustentação.

Outros que podem ficar contra são os analistas, estes chatos por natureza. Mesmo este analista (de meia-tigela, como diz a descrição após o fim do texto) que sempre foi incrédulo quanto às chances de alguma mulher lutar no UFC com mais de 61 quilos. E foi lindamente surrado com luvas de pelica (ainda bem) pela valentia de Cris Cyborg e sua popularidade ainda subestimada.

A conclusão aqui não é definitiva, acredito que nem mesmo o UFC tenha dados estatísticos suficientes para chegar a uma resposta para a pergunta-título, ou apenas evite a fadiga de arriscar tempo e dinheiro para um retorno incerto. Na verdade, o primeiro pensamento é que tal cinturão ou nova divisão podem não ser muito atraentes, mas por que não nos livrarmos de pensamentos automatizados? O que dá para imaginar é que o investimento a ser feito neste caso não seria dos maiores e a possibilidade de retorno é real, tanto a curto quanto a longo prazos.

Que fique a pergunta para reflexão: Por que não? Esperamos as suas opiniões na caixa de comentários abaixo.