Por que chamam o boxe de nobre arte? Vasyl Lomachenko tem a resposta

Velocidade, movimentação ímpar e capacidade gigantesca de aprender e evoluir fazem de Vasyl Lomachenko a maior atração do boxe mundial na atualidade para quem enxerga a modalidade como a Nobre Arte.

No Brasil, o boxe é apelidado de nobre arte. Na língua inglesa, chamam de sweet science. Há quem estranhe apelidos graciosos como estes num esporte em que a meta é socar o adversário. Eu mesmo já me peguei pensando nisso. E então aparece Vasyl Lomachenko para colocar as coisas em ordem.

Aos 28 anos e com apenas sete lutas profissionais no cartel, Lomachenko já causa comoção em parte da comunidade do boxe. Não é para menos. O ucraniano de 28 anos é tão bom que sua chegada ao profissionalismo não precisou das lutas contra “escadas”, lutadores de baixa qualidade que servem para dar experiência a jovens prospectos. O comum é que os boxeadores comecem em combates de 4 a 6 assaltos, passem para 8 e enfim cheguem às lutas de 10 rounds antes de terem chance de disputar títulos em 12. Floyd Mayweather Jr. só disputou o primeiro combate de 10 assaltos em seu 13º compromisso profissional. Esquiva Falcão tem 14-0 e ainda está nas lutas de oito. Para efeito de comparação, Lomachenko já estreou em 10, tornou-se recordista mundial ao disputar cinturão mundial na segunda luta, igualou recorde ao conquistar um título na terceira e chocou o mundo ao se tornar o mais rápido lutador a abocanhar duas coroas em categorias diferentes na sétima luta profissional.

Uma breve observação: esses números têm alguma controvérsia visto que Lomachenko disputou seis combates pela World Series of Boxing, empreitada profissional encampada pela AIBA, a entidade mundial que controla o boxe amador e olímpico. Mesmo que consideremos o WSB, é notável que Vasyl já tenha sido jogado ao experimentado Orlando Salido (41-12-2 na ocasião), que já havia conquistado três cinturões mundiais, na segunda luta e ao invicto Gary Russell Jr. (24-0 na época) na terceira – derrotado por Lomachenko, Russell se recuperou e é o atual campeão mundial dos penas na versão Conselho Mundial de Boxe (WBC). Mesmo contando o WSB, Lomachenko teria disputado seu primeiro cinturão com 7-0 no cartel, o que, no boxe, é uma marca absurda (Money disputou o primeiro com 17-0).

Lomachenko comemora a interrupção contra Russell depois de aplicar um verdadeiro vareio no americano

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A passagem do amadorismo para o profissionalismo esconde diversas armadilhas. Como em qualquer esporte, nem todos os importantes prospectos das categorias de base se tornam profissionais de elite – uma rápida pesquisa nas seleções brasileiras nos Mundiais Sub-17 e 20 de futebol nos últimos 20 anos mostram isso. No boxe, tem quem não se adapte às diferentes regras (Gaydarbek Gaydarbekov, que bateu Gennady Golovkin numa final olímpica e desistiu do profissionalismo); quem se perca no caminho (Mohamed Aly, vice-campeão olímpico, derrotado por Alexander Povetkin, em Atenas); tem quem não cuide da carreira direito – ou tenha problemas pessoais, vai saber (Odlanier Solís); há quem tenha demorado tanto para se profissionalizar que acabou se tornando um lutador pouco atrativo, apesar da imensa habilidade (Guillermo Rigondeaux).

Por outro lado, há quem já fosse fenomenal como amador e faz a transição de modo assombroso. Agora estou falando de Lomachenko. O ucraniano é considerado por muitos o maior boxeador amador de todos os tempos, com um retrospecto de 396-1 (isso mesmo, um revés em quase quatro centenas de combates). A derrota única, acontecida na final do Mundial da AIBA de 2007 para o russo Albert Selimov, foi duplamente vingada no caminho para o bicampeonato mundial (2009 e 2011) e olímpico (2008 e 2012).

Lomachenko é um caso raro em qualquer esporte. Ele une plasticidade com eficiência de um modo que não se vê a toda hora. O “Hi-Tech” domina ataque e defesa como se tudo fosse a mesma coisa – e na verdade, para ele, é mesmo. Sua movimentação é tão fluida e seus punhos são tão rápidos que movimentos defensivos logo viram ofensivos e vice-versa. Em determinado instante, ele faz o rival de trouxa com suas esquivas na longa distância para imediatamente já estar postado no pocket lançando golpes de ângulos tão distintos que dá a impressão que ele domina a arte do teletransporte, sumindo e se reintegrando em outro ponto do ringue, não mais na frente do infeliz oponente, que não faz a menor ideia para onde deve socar e, pior ainda, do que deve se defender. É como se fosse uma mistura de Roy Jones Jr. com Prince Naseem Hamed. Lomachenko é tão rápido que muitas vezes os adversários sequer conseguem ver seus golpes, como foi o caso do durável Rocky Martínez, espacado, brutalizado e nocauteado no último dia 11 de junho.

Repare na vitória sobre Gamalier Rodríguez. Lomachenko lança uma metralhadora de golpes e Rodríguez responde. Porém, Vasyl não está mais no mesmo lugar em que estava. O portorriquenho muda de posição e Lomachenko também não está mais no segundo ponto, tampouco voltou para o primeiro. Quando o “Baby Bird” tenta se recompor, leva mais golpes que ele não tem noção de onde vieram. Quando Rodríguez tenta mais uma ofensiva, volta a levar olé do sistema defensivo de Lomachenko e é novamente bombardeado por braços que parecem válvulas trabalhando orquestradamente.

Ah, o sistema defensivo de Lomachenko. O ucraniano sabe montar o bloqueio com braços para o alto sem que perca a visão do que está acontecendo. Dono de pernas e quadril muito rápidos, bem com suas reações, ele é capaz de antecipar movimentos, o que lhe dá uma considerável vantagem no controle da distância e nos contragolpes usando o pivô. As esquivas e pêndulos muitas vezes são o estado da arte. Para superar esse conjunto, Salido precisou contar a inexperiência de Lomachenko para disparar diversos golpes baixos ignorados pelo árbitro central.

Lomachenko já pode ser considerado no rol dos boxeadores mais completos da atualidade, mesmo tendo disputado apenas sete lutas profissionais na carreira, embora ainda tenha que seguir rumo ao ponto em que Román “Chocolatito” González (45-0) e Andre Ward (29-0) já estão – cabe também a comparação reversa, de onde estavam González e Ward na escala de evolução e talento em suas lutas iniciais. Gennady Golovkin, Sergey Kovalev e Terence Crawford que me desculpem, mas a disputa pelo topo do peso por peso está entre Román, Andre e Vasyl.

Enfrentar Vasyl na longa distância leva ao martírio de ter que acompanhar sua movimentação. Encurtar e trazer a luta para o infighting também não tem rendido frutos aos oponentes, que acabam ruindo perante a velocidade das combinações e a enorme capacidade de produzir potência em curto espaço. Tamanha facilidade em se movimentar no ringue como se estivesse bailando tem um segredo: dos 9 aos 13 anos, Vasyl foi levado pelo pai Anatoly Lomachenko para aulas de dança, no intuito de melhorar seu jogo de pernas. Seu Anatoly acertou gigante.

Na coletiva de imprensa antes do duelo contra Martínez, Lomachenko foi perguntado sobre a possibilidade de subir de categoria e disputar um cinturão do peso leve antes de completar 10 lutas profissionais. O ucraniano respondeu:

“Eu nunca tinha pensado nisso, de lutar como peso leve. Essa é realmente uma ideia muito boa. Obrigado pela dica, vou pensar nisso depois de 11 de junho.”

Anthony Crolla, Terry Flanagan e Dejan Zlaticanin que se cuidem. Os livros de História estão com páginas em branco prontas para serem preenchidas.

  • Pedro Carneiro

    Excelente texto! O número 1 do mundo hoje pra mim é o Ward e acho ele e o Chocolatito em um nível acima do Lomachenko, mas isso é notoriamente pelo tempo de estrada dos dois primeiros. Contudo eu acho que o Lomachenko pode ir mais longe que os dois quando atingir o final da sua estrada de evolução. Ele certamente ainda não é um diamante completamente lapidado, e o talento natural dele é absurdo. O ucraniano tem todos os elementos que um grande campeão precisa ter.

  • Manu

    Vi o Hi-Tech faz um tempo, na luta contra Salido. Não o conhecia muito bem e achei a luta bem equilibrada. Me chamou atenção que ele estava disputando o cinturão apenas na sua segunda luta no cartel e fazendo uma luta em que na opinião de alguns venceu contra um veterano. A partir daí comecei a acompanhá-lo mais de perto. E sinceramente fiquei surpreso com o que vi. É um boxeador extraordinário com uma esquiva fantástica e talvez o melhor footwork do boxe atualmente. Se continuar crescendo como agora, com certeza vai ser alguém difícil de ser vencido.

  • Hericly Andrade Monteiro

    É muito fluidez no movimento, lindo demais

  • Caio Abreu

  • Bruno Moraes da Costa

    Todos os vídeos da matéria e o que postaram nos comentários são assombrosos. Que negócio absurdo. Assisti ao vivo à ultima luta do Lomachenko por ter escutado o nome dele num podcast do site, muito obrigado!

  • Clint

    Fala Alexandre, preciso te mandar um e-mail mas o endereço que eu tenho aqui deve ter mudado, pois a mensagem fica retornando; qual é o teu atual?

  • Henrique Munhoz Moya Gimenes

    Fantástico texto! Lembro de ter visto o Lomachenko pela primeira vez em Londres 2012. Desde a luta com o Salido venho acompanhando, e virou se tornou dos 5 lutadores que não perco por nada, assino embaixo com o que foi dito, acho o jogo defensivo e o trabalho de pernas do Lomachenko incríveis.