Personalidade e punhos de concreto: Conor McGregor chegou ao UFC

Por Alexandre Matos | 07/04/2013 14:56

Na prévia do card preliminar do UFC On FUEL TV 9, Diego Tintin havia alertado para “uma das mais aclamadas promessas do MMA na atualidade“. Nos comentários, tentei avisar que Conor McGregor era um candidato sério ao posto de futura estrela do MMA, mas meu dedo nervoso fechou a janela no lugar de enviar o comentário.

O irlandês, que foi tema de um documentário da MTV britânica intitulado “The Rise Of Conor McGregor”, chegou ao UFC com cartel de 12-2, sendo onze vitórias por nocaute, nove delas no primeiro round. Estreando no principal palco do MMA mundial, o “Notório” parecia um veterano, tamanha a calma e o talento demonstrados no octógono sueco. O resultado foi mais um nocaute no round inicial.

Como é de seu feitio, Brimage partiu para cima logo no começo do combate. Mostrando um jogo de pernas sensacional e muita calma, McGregor movimentou-se e disparou socos de toda sorte de ângulos imaginados, mostrando o talento da escola irlandesa de boxe. Guarda baixa, mostrou também boa capacidade de absorção de golpes ao ser atingido por alguns petardos de Brimage. A partir de então, lançou combinações precisas e machucou Marcus mesmo postado em posição teoricamente defensiva, com o peso do corpo apoiado na perna de trás. Confiando em terríveis uppercuts e ganchos, McGregor deu cabo do oponente em apenas um minuto e sete segundos de combate com um script parecido com o que conduziu Junior Cigano em sua trilha no UFC.


O documentário “The Rise Of Conor McGregor”, produzido pela MTV UK

Anderson Silva fez talvez a mais espetacular estreia de um lutador na história do UFC. Segundo as estatísticas oficiais, o “Spider” conectou simplesmente 100% dos golpes significativos (85%, 17 em 20, do total) nos 49 segundos do massacre sobre Chris Leben, em 2006. McGregor errou mais golpes que Anderson (foram 22 acertos em 36 tentativas), mas apenas um dos golpes conectados não foi contundente, de acordo com o relatório do FightMetric.

Assim como Anderson, Conor também estreou contra um oponente minimamente respeitado. Enquanto Leben foi semifinalista do TUF 1, uma das melhores gerações da história do reality do UFC, e tinha 4-0 na organização quando encarou o brasileiro, Brimage foi semifinalista do TUF 14, que divide com a temporada inicial o posto de melhor elenco de todos os TUF’s, e encarou McGregor com 3-0 no UFC, incluindo uma vitória sobre o altamente considerado Jimi Hettes.

“Estou encantado. Antes de mais nada, foi sua primeira luta no UFC e ele foi lá e ganhou o octógono como se estivesse em sua centésima luta pelo UFC”, disse Dana White. “Desde o minuto que o gongo soou, ele estava tranquilo e relaxado, movendo-se. Mesmo após conseguir o nocaute, era como se ele tivesse feito aquilo centenas de vezes antes. O garoto estava totalmente relaxado. Ele é uma fera. Estou impressionado”, derreteu-se o presidente do UFC. Perguntado se McGregor estará no próximo evento que será realizado em Boston, cidade com a maior presença de irlandeses nos Estados Unidos, Dana confirmou a escalação de Conor no UFC On FS1 1, evento de lançamento do canal FOX Sports 1: “A resposta é sim, se você quer saber se vou colocar McGregor naquele card“.

Não só de talento é feito McGregor. O irlandês tem o carisma das grandes estrelas e a capacidade de arrebatar fãs também fora do octógono. “Acho que Brimage se incomodou com a pressão que os fãs irlandeses fizeram nele nas redes sociais”, disse Conor após a luta. “Cada um de vocês poderiam ficar na minha frente, cuspir em mim, jogar tijolos em mim, fazer o que vocês quisessem. Não faz diferença para mim. Não tenho emoções lá dentro. Você não pode levar emoções lá para dentro.”

O uppercut foi uma ferramenta importante para Conor McGregor nocautear Marcus Brimage no UFC On FUEL TV 9

O uppercut foi uma ferramenta importante para Conor McGregor nocautear Marcus Brimage no UFC On FUEL TV 9

O estreante falou também sobre os bônus pagos pelo UFC. Para ele, os bônus de luta da noite não o interessam.

“Eu sempre vejo os caras falando ‘vamos lá ganhar o bônus de luta da noite’. Eu não entendo isso. Para mim é como uma derrota, ‘Luta da Noite’ é uma derrota, porque significa que o duelo foi apertado e eu não estou procurando duelos apertados. Eu quero dominar e vencer. Acho que os caras que dizem que querem ganhar a luta da noite estão se vendendo por pouco. Você pode dizer para onde suas carreiras estão indo apenas por este comentário.”

Pupilo de John Kavanagh, primeiro irlandês a conseguir a faixa preta de jiu-jítsu, na Straight Blast Gym, onde treina com o também prospecto do UFC Gunnar Nelson, McGregor é uma versão irlandesa de um caso muito conhecido pelo povo brasileiro: o atleta que vive em condições financeiras abaixo da crítica e que vencem na vida através do talento, mesmo com tudo para dar errado.

“Eu acabei de chegar aqui e fiquei sabendo que vou ganhar 60 mil dólares. Estou pensando em como vou gastar isso. Talvez um carro carro e algumas roupas. Ainda na semana passada eu estava ligado ao serviço de bem-estar social do governo. Eu não tinha porra de dinheiro antes desta luta. Recebia 188 euros por semana do serviço de bem-estar social e agora aqui estou com um bônus de 60 mil, além do meu próprio pagamento. Eu não sei que porra está acontecendo, pra ser honesto.”

O jovem de 24 anos conquistou os cinturões dos leves e penas do Cage Warriors Fighting Championship, o principal evento europeu da atualidade, além de ter chegado ao UFC e estreado com louvor sem um puto no bolso, provavelmente treinando em camps muito aquém do desejado para um lutador da maior organização de MMA do mundo. Agora, com dinheiro no bolso, o céu é o limite.

“Nós amamos este esporte na Irlanda. Foi muito bom ver todos a galera irlandesa lá fora. Foi inacreditável. Espero que isso convença Dana a voltar a Dublin. Existem grandes lutadores em nossa área. Espero que possamos mostrar isto. É um momento de orgulho para mim e para meu país. Eu os represento. É disso que os sonhos são feitos. Este é apenas o começo para mim.”

Nada diferente do que o próprio McGregor já havia dito a Ariel Helwani, quando avisou que forçaria o UFC a voltar à Irlanda e que já se considerava uma lenda irlandesa viva. Com a iminente subida de José Aldo para a categoria dos leves, não é demais supor que McGregor venha a disputar o cinturão dos penas em 2015. Olho nele!

Fotos: Josh Hedges/Zuffa LLC

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.