Passa ou repassa?

Por Marcos Luca Valentim | 21/11/2017 10:02

De uma vez por todas: o UFC é entretenimento ou é uma organização esportiva?

A pergunta habita as rodas de discussão faz tempo, e há argumento para tudo. São pontos de vista. Mas, convenhamos: parece que nem o próprio UFC sabe o que quer.

Se por um lado há um notório esforço em prol da profissionalização e da consolidação do MMA como modalidade esportiva, por outro, são evidentes os contornos de espetáculo que ainda rondam o UFC.

Tomo por gancho a recém-casada luta entre Michael Bisping e Kelvin Gastelum, marcada para o dia 25 deste mês, no UFC Xangai.

Vamos à cronologia?

O inglês colocou seu cinturão à prova contra Georges St. Pierre, no último dia 4. O desfecho da memorável noite do UFC 217 está imortalizado na história do esporte (ou do espetáculo, como queiram). Depois de ser finalizado por GSP (a.k.a. Homão da Porra), Bisping pegou suspensão médica de 30 dias.

A matemática é simples: lutou no dia 4 de novembro + 30 dias de suspensão = Bisping liberado para treinar no dia 4 de dezembro. Isso, claro, se a medida não fosse vista como mera burocracia e se o UFC realmente fizesse valer seu papel de entidade esportiva. Como não é o que ocorre… Michael de volta à ativa num intervalo de 21 dias depois de levar um knockdown (concussão menor) e ser estrangulado até ficar inconsciente.

Baita cuidado com o atleta, não?

“Ah, mas tiraram o Mark Hunt do card de Sydney por precauções médicas”, podem argumentar. Ok. O veterano saiu, é verdade, e deu lugar a Fabricio Werdum no duelo contra Marcin Tybura.

Hunt deu uma declaração de que estava sofrendo de perda de memória recente, o que disparou o alarme na ala hospitalar do UFC. Na época, apesar do chilique do peso pesado, a grande maioria aplaudiu a posição do UFC de priorizar a saúde do atleta em detrimento do aporte financeiro. A retirada do neozelandês do card, aos olhos do mundo do MMA, foi um golaço.

Mas aí vem o supracitado Caso Bisping. E o gol, que parecia ter sido a favor, é visto pela câmera reversa e constata-se que foi contra. Um tiro no peito do profissionalismo.

Se, por um lado, a aliança com a USADA foi um importante passo rumo à “esportização” do UFC, por outro, ainda vale a máxima do money talks. Visto que funciona da seguinte maneira: o cara é suspenso depois de uma luta. No caso do inglês, por 30 dias. O correto seria que fosse cumprida a determinação médica, de um mês sem contato. Só que aí entra o migué safado que todo mundo já deu. Quem nunca arrumou aquele atestado médico maroto pra poder usar a piscina do clube? Pra ir no passeio do colégio? Pra se inscrever na Smart Fit?

Pois é.

O atleta recebe a suspensão. Beleza. Mas basta o aval de um médico particular para que seja liberado pra voltar à academia. E como na China não tem comissão atlética, o UFC deita e rola – a organização faz autorregulamentação nesses casos.

E tu pensava que o jeitinho era exclusividade nossa, né? Tolinho.

Aqui, neste texto, me atenho ao duelo saúde do atleta x dinheiro. Mas se abrirmos o leque para a esportividade do UFC de modo geral, vira covardia. Além de rankings sem sentido e sem tanta importância prática, estamos na iminência de um absurdo chamado Tyron Woodley vs. Nate Diaz, especulado para o UFC 219.

Só um parêntese aqui, rapidinho: Nate não está nem ranqueado. Vocês têm noção disso?

Sério: VOCÊS TÊM NOÇÃO DISSO?

Enfim.

Voltando ao viés inicial, o UFC prova que continua colocando em primeiro plano o dinheiro. E isso não é surpresa pra ninguém.

Saúde do atleta, bicho… Meramente secundário.

O Ultimate Fighting Championship é show, espetáculo, megalomania, histeria, cifras.

Esporte? Passo.

Alguém repassa?