Passa ou repassa?

De uma vez por todas: o UFC é entretenimento ou é uma organização esportiva?

A pergunta habita as rodas de discussão faz tempo, e há argumento para tudo. São pontos de vista. Mas, convenhamos: parece que nem o próprio UFC sabe o que quer.

Se por um lado há um notório esforço em prol da profissionalização e da consolidação do MMA como modalidade esportiva, por outro, são evidentes os contornos de espetáculo que ainda rondam o UFC.

Tomo por gancho a recém-casada luta entre Michael Bisping e Kelvin Gastelum, marcada para o dia 25 deste mês, no UFC Xangai.

Vamos à cronologia?

O inglês colocou seu cinturão à prova contra Georges St. Pierre, no último dia 4. O desfecho da memorável noite do UFC 217 está imortalizado na história do esporte (ou do espetáculo, como queiram). Depois de ser finalizado por GSP (a.k.a. Homão da Porra), Bisping pegou suspensão médica de 30 dias.

A matemática é simples: lutou no dia 4 de novembro + 30 dias de suspensão = Bisping liberado para treinar no dia 4 de dezembro. Isso, claro, se a medida não fosse vista como mera burocracia e se o UFC realmente fizesse valer seu papel de entidade esportiva. Como não é o que ocorre… Michael de volta à ativa num intervalo de 21 dias depois de levar um knockdown (concussão menor) e ser estrangulado até ficar inconsciente.

Baita cuidado com o atleta, não?

“Ah, mas tiraram o Mark Hunt do card de Sydney por precauções médicas”, podem argumentar. Ok. O veterano saiu, é verdade, e deu lugar a Fabricio Werdum no duelo contra Marcin Tybura.

Hunt deu uma declaração de que estava sofrendo de perda de memória recente, o que disparou o alarme na ala hospitalar do UFC. Na época, apesar do chilique do peso pesado, a grande maioria aplaudiu a posição do UFC de priorizar a saúde do atleta em detrimento do aporte financeiro. A retirada do neozelandês do card, aos olhos do mundo do MMA, foi um golaço.

Mas aí vem o supracitado Caso Bisping. E o gol, que parecia ter sido a favor, é visto pela câmera reversa e constata-se que foi contra. Um tiro no peito do profissionalismo.

Se, por um lado, a aliança com a USADA foi um importante passo rumo à “esportização” do UFC, por outro, ainda vale a máxima do money talks. Visto que funciona da seguinte maneira: o cara é suspenso depois de uma luta. No caso do inglês, por 30 dias. O correto seria que fosse cumprida a determinação médica, de um mês sem contato. Só que aí entra o migué safado que todo mundo já deu. Quem nunca arrumou aquele atestado médico maroto pra poder usar a piscina do clube? Pra ir no passeio do colégio? Pra se inscrever na Smart Fit?

Pois é.

O atleta recebe a suspensão. Beleza. Mas basta o aval de um médico particular para que seja liberado pra voltar à academia. E como na China não tem comissão atlética, o UFC deita e rola – a organização faz autorregulamentação nesses casos.

E tu pensava que o jeitinho era exclusividade nossa, né? Tolinho.

Aqui, neste texto, me atenho ao duelo saúde do atleta x dinheiro. Mas se abrirmos o leque para a esportividade do UFC de modo geral, vira covardia. Além de rankings sem sentido e sem tanta importância prática, estamos na iminência de um absurdo chamado Tyron Woodley vs. Nate Diaz, especulado para o UFC 219.

Só um parêntese aqui, rapidinho: Nate não está nem ranqueado. Vocês têm noção disso?

Sério: VOCÊS TÊM NOÇÃO DISSO?

Enfim.

Voltando ao viés inicial, o UFC prova que continua colocando em primeiro plano o dinheiro. E isso não é surpresa pra ninguém.

Saúde do atleta, bicho… Meramente secundário.

O Ultimate Fighting Championship é show, espetáculo, megalomania, histeria, cifras.

Esporte? Passo.

Alguém repassa?

  • James sousa

    Complicado essa situação do Bisping e da suspensão o problema é que o UFC quis fazer um card para a estreia da organização na China continental com apenas uma grande luta e só um grande nome se o card tivesse sido mais recheado retilava o Gastelum do Card e subia o co main event esse é um dos problemas de fazer alguns cards bem fortes como os próximos ppvs. Acaba que colocando todos os ovos em apenas algumas cestas e deixando os demais cards enfraquecidos

  • Gui Castro

    Tem uns @ já querendo justificar Woodley x Nate

  • Marcio Lennon

    Nate na verdade está ranqueado, no peso leve, sexto se não me engano, ainda assim essa luta é absurda.

    • Marcos Luca Valentim

      Sim, eu quis dizer que ele não está ranqueado no meio-médio. Foi mal…

    • Ricardo Sedano

      E esse ranking do Nate ta na mesma categoria do Belfort em 12 dos médios… é mais pelo nome. Belfort desde 2015 estaria 1-4 (ficou 1-3-1 por causa do dopping por maconha do gaestelum) e só ganhou Marquadt, que no mesmo periodo está 2-6. Ou seja, de 2015 para cá belfort não fez muita coisa para merecer essa posição

  • André Guilherme Oliveira

    As suspensões são preventivas e passiveis de liberação medica. Se um medico foi la e liberou, o atleta teve interesse e foi lutar de boa vontade, não sou eu quem vai apontar o dedo e dizer que estão errados.

    • Marcos Luca Valentim

      Concordo, mas questão aqui não é se o UFC está errado ou não: é sobre bater no peito e se declarar como organização esportiva…

    • Ricardo Sedano

      A questão é, o médico que liberou era um médico independente do UFC ou há alguma chance de eles terem uma relação? É um médico que tem alguma relação com o atleta ou não tem nenhuma relação? Essa suspensão é aplicável na China, onde é o próprio UFC que sanciona a luta??

      É importante lembrar que o Tim Heague, o CJ Hanckock, o Dada 5000 e o Kimbo foram todos liberados para lutar por um médico e vimos uma fatalidade em um dos casos, quase fatalidade em outros dois e o Kimbo morreu com um tumor no fígado e problemas cardicos, mas lutaria 1 mês depois. Tem que se analisar com cuidado essa questão da liberação pois o médico pode estar atendendo a interesses de alguma das partes…

  • Marcio Rodrigues

    Claro que não é esporte.
    Em que esporte pode-se ESCOLHER quem vai disputar o título? Em que esporte condutas antidesportivas são incentivadas e premiadas?
    Eu ja a algum tempo vejo como show apenas. Evita aborrecimentos com furadas de fila, trash talking, entre outros. Não vou me adimirar se Nate lutar pelo cinturão da 77 e tenho quase certeza que Covington fará main event na proxima luta.
    A falta de esportividade do UFC é tanta que ja começo a pensar de faz sentido um controle antidoping tão rigoroso. Por que cobrar profissionalismo dos lutadores se os próprios chefes não tem nenhum?

  • Hudson Paulo Dias

    Texto foda demais! Concordo com tudo! Esta aberração que tá pra acontecer nos meio-médios é só mais uma na terra de Bisping x Hendo valendo título, Jones x Sonnen entre outros… Trata-se de negócio, e por se tratar de negócio que eu torço demais para que o Bellator cresça muito!

    • Lero

      aquela empresa que coloca Kimbo Slice vs Dada 5000 de co-main event de Royce vs Shamrock em pleno 2016?

      • Hudson Paulo Dias

        Como eu disse, eu torço para que o Bellator cresça, e já tá melhorando. As lutas freak deram uma diminuída e eles estão reforçando mt bem o plantel. Quero que ele cresça sim, para que o novos fãs parem de confundir lutador de MMA com “lutador de UFC”.

    • Ricardo Sedano

      Sério que vc acha o Bellator valoriza mais o esporte mesmo com o que eles fizeram em Kibo Vs Dada e com esse torneio dos meio pesados??

  • William Oliveira

    Um pouco dos dois é a resposta correta, uma vez que é uma organização de MMA, que é um esporte e isso é um fato.

    A questão é que a organização (UFC) trata mais como negócio, mas ainda sim se dissermos que é somente “show, espetáculo, megalomania, histeria, cifras”, estaremos sendo injustos e diminuindo o esforço e mérito esportivo dos atletas que dão duro pra caralho e são da mais alta da qualidade.

    • Marcos Luca Valentim

      Fala, William. Beleza?
      Concodo contigo que oss atletas são de altíssima qualidade e merecem todo o respeito esportivo do mundo. Isso é inquestionável, amigo! Só que eles são operários do MMA – que, esse, sim, é um esporte.
      O UFC que é show, espetáculo, megalomania etc… E isso nada tem a ver com os lutadores que trabalham na organização.
      MMA ≠ UFC
      Abraço!

      • William Oliveira

        Prefiro ver eles como praticantes de MMA, parceiros/operários do UFC, pois é onde de fato se apresentam. De qualquer jeito concordo parcialmente, abraço!

  • Gabriel Fareli

    Que texto foda !
    Bom, o UFC é como aquele vendedor metido a malandro das praias da zona sul do RJ, vai de acordo “com a cara do freguês”.
    Então, quando convém, o Ultimate se posta como organização esportiva que preza pelo desenvolvimento e crescimento do esporte e blá blá blá. Quando não convém, casam lutas sem sentido nenhum, aceitam atitudes que não condizem com o esporte pra poder vender mais PPV, aceitam xingamentos, racismo e outras coisas ruins nas entrevistas pré luta.

    No final, tudo o que importa são os valores…. do lucro da empresa, obviamente.

  • Isabella Kida

    Tem muita decisão do UFC que realmente nos faz pensar nessa questão de entretenimento x esporte, a real é que o dinheiro acaba comandando boa parte do show . :(

  • Yuri

    Belo texto

  • Lero

    eu até que estou moderadamente satisfeito com a labor esportiva do UFC recentemente.
    -Tirou o cinturão pena do McGregor.
    -Alias, esse cinturão só chegou depois de ganhar do Poirier, do Chad Mendes e do campeão. Não teve nada de presente.
    -Fez a merda de Bisping vs GSP, mas arrumou com o cinturão interino do Withaker. Agora o GSP tem que enfrentar ele e aí sim vamos ter um campeão de verdade.
    -Alias, é o Withaker e não o Jacaré ou Romero porque o australiano ganhou bem deles. Rockhold teve umas ferias longas e Weidman andava perdendo geral. Mousassi foi embora, se não ele estaria no bolo com certeza.
    -Fez e fez a promoção correta de Dillashaw vs Garbrandt. A luta a ser feita no peso galo.
    -Maia tem sua chance pelo cinturão. Agora não tem um desafiante numero 1 nessa categoria. Não me importo com Woodley vs Nate sempre que o próximo da fila seja RDA vs o capeta.
    -Amanda, Mighty Mouse e Joanna lutaram sempre com o melhor desafiante disponível.
    -A luta de Overeem vs Ngannou me parece muito correta para ver o desafiante número 1 do Miocic.
    -Só não achei correto passar o Oezdemir na frente do Gustafsson. Acho que 3 lutas para um TS foi muito pouco. Nem Mcgregor lutou tão pouco para chegar até la. Mas o destino já corrigiou isso.
    -McGregor é o único que pode chegar de volta e dizer que quer lutar com quem quiser. Mesmo tendo o Ferguson de campeão interino. Alias, tem Nurmagomedov vs Barboza para saber o próximo da fila. Muito merecido. Seria uma merda que chegara o Nate a estragar a fila. Então prefero ele vs Woodley já que nessa categoria de acima não tem desafiante definido. Porém. Eu acho o Nate um desafio maior para o Conor do que o Ferguson. El Cucuy é atingível demais. Se vanatta e Lee fizeram o que fizeram com o Tony, agora imagina o Conor que não perdoa. Suma isso com o Herb Dean de referi e vamos ter mais um TKO cedo no round 1 com o Tony ainda na luta. Acharia muito chato isso.

  • Vicente Fernandes

    Eu nunca vi o UFC como somente uma organização esportiva,sempre vi como os dois tanto organização esportiva como de entretenimento,eles promovem lutas de MMA e lá todos os lutadores são profissionais e as lutas são com regras que seguem todo um aparato profissional ou seja a parte esportiva fica aí,a.maneira como eles promovem os eventos,os lutadores as lutas e certos casamentos de lutas são a parte de entretenimento dá empresa,e eu particularmente gosto disso,claro prefiro quando os casamento de lutas seguem um molde profissional,mas até agora as money fights não tem me incomodado,e.independente de ser uma money fight ou luta que não faça sentido quando a porta do cage fecha são dois lutadores profissionais tentando superar um ao outro seguindo todas as regras de um esporte profissional.

  • Josney Stocch Ramos

    Ótima matéria, parabéns!!!