Para onde foi o meu cinturão?

Para onde foi o meu cinturão?
MMA

Os tempos modernos do MMA permitirão cada vez menos longas hegemonias, apostando no equilíbrio, no trabalho duro superando o talento, até que o talento volte a definir o "algo mais".

No início do ano, pudemos observar uma forte tendência já anunciada aqui no MMA Brasil: os campeões estão caindo, grandes hegemonias estão sendo quebradas. Tem muito ex-campeão por aí perguntando “Onde foi parar meu cinturão?”.

Observa-se, naturalmente, uma tendência de rodízio para esta cobiçada peça de ouro e couro. E a tendência é que este movimento se acentue ainda mais.

Ronda Rousey tinha a hegemonia no peso galo feminino. Perdeu para Holly Holm. Que perdeu para Miesha Tate. Que já havia perdido duas vezes para a própria Ronda. O cinturão está agora na casa da brasileira Amanda Nunes. Quatro lutas, quatro campeãs diferentes.

Rafael dos Anjos, Fabricio Werdum, Chris Weidman, TJ Dillashaw… quantos campeões já caíram de lá para cá? Quais seriam as falhas deles? Será que realmente falharam em algo?

Recentemente, temos outra personificação, bem emblemática até, dessa nova tendência. Michael Bisping, o lutador que mais lutou e que venceu na história do UFC, conquistou o cinturão contra todos os prognósticos e o manteve diante de Dan Henderson, no último sábado. Acusado (injustamente) de mãos de almofada, de “sem punch”, dentre outros impropérios, o inglês prova a cada dia que passa que com esforço e dedicação, trabalhando duro, pode-se conseguir alçar vôos bem altos, inclusive conquistar o cinturão da maior organização de MMA do mundo aos 37 anos.

Não sabemos até quando, mas, pela lógica criada neste texto, em breve o cinturão mudará de mãos. E de novo, e de novo.

Michael Bisping se agarra ao cinturão enquanto pode (Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC)

Michael Bisping se agarra ao cinturão enquanto pode (Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC)

Houve uma época em que apenas o talento bastava. Essa época acabou. Em uma safra de jovens talentosos que se renovam a cada dia, em que lutadores já começam seus treinos no MMA, sem uma modalidade de base, é natural que apenas os mais talentosos avancem e consigam projeção.

O “velho” está caindo para dar lugar ao novo. E o novo já chegou. Começamos a transição com sucesso, em que o trabalho duro embasará aqueles que são talentosos e alçará muita gente a lugares que jamais imaginaram chegar. Ou alguém (além do Alexandre, que anunciou há tempos que isso aconteceria) imaginaria que Chris Weidman destronaria Anderson Silva tão categoricamente? Alguém imaginaria que José Aldo, campeão soberano no peso pena, seria nocauteado em apenas 13 segundos?

Entra em campo outro fator importante, que até então ficava em segundo plano no mundo das lutas: as preparações estão sendo cada vez mais específicas. O mundo atual produz lutadores bem condicionados fisicamente, com toda uma estrutura gigantesca para seus treinos e com treinadores que, respaldados por uma equipe forte de inteligência, estudam seus adversários e traçam as melhores estratégias. Os pontos fortes e fracos são analisados, o treino é otimizado e direcionado para que eles sejam explorados ao longo da luta.

Isso está ligado diretamente ao crescimento do esporte, ao aumento de investimentos e, consequentemente, das bolsas pagas aos lutadores, que os permitem realizar tudo isso.

Contudo, engana-se quem pensa que o talento ficará esquecido e relegado ao segundo plano. Haverá um outro tempo, que não tardará a chegar, em que esses lutadores estarão nivelados novamente. Equipes de ponta os embasarão, estudos minuciosos serão feitos, excelentes estratégias serão traçadas e será aí que o talento voltará a fazer diferença, exatamente como era antigamente, quando somente ele já garantia uma história de sucesso.

A capacidade que um lutador tem de “tirar um coelho da cartola”, ou seja, de colocar sua genialidade em jogo, enxergando durante a luta brechas que só os mais talentosos conseguem, será um diferencial que irá separar os homens dos meninos.

Então, senhoras e senhores, sentem-se em seus sofás e presenciem a história sendo escrita. A evolução chegou.

  • Fannine

    Excelente texto. Isso está ocorrendo em todas modalidades esportiva. Talento cada vez mais está sucumbindo perante ao trabalho árduo. Há quem diga que as novas políticas anti doping também tem interferência nesse rodízio de cinturão.

  • Gabriel Carvalho II

    Belo texto!

  • Weslei Alvarenga

    Falou tudo….. Daqui a 10 anos a maioria dos atletas virão sem vícios da arte-mãe e farão direto o MMA. Daí veremos movimentos q não são mto utilizados atualmente e estratégias q são diferentes do q imaginamos previamente.

    Ps : Koe Cachapuz faz a segunda parte das “entidades do mma” pq de lá pra cá, já surgiu o bastante pra um novo post.
    #TheZueiraNeverEnds

    • O texto das entidades foi do Guilherme Pontes. Vou mandar o recado pra ele.

      • Weslei Alvarenga

        Ahhhh ss, mto obg Alexandre. Como uso o app do Disqus, n aparece o autor por aqui.
        Mas parabéns pro Guilherme pq aquele texto é genial.

  • Lero

    Só Jon Jones para ainda no MMA moderno, conseguir fazer o que ele faz sem muito treino. Só no talento mesmo.

    Not quite human

    • Lero

      Só comprendemos que ele é humano, quando ele está fora do octogono.
      O negao é burro demais.

      • Anderson Cachapuz

        Verdade… kkkkkkkk

  • James sousa

    excelente texto