Outro esporte, mesmo fim: Pat Barry é brutalmente nocauteado em sua estreia no GLORY

Trocar o MMA pelo kickboxing não parece ter sido a melhor escolha para o peso pesado. Em sua primeira luta pelo GLORY, Pat Barry voltou a ser nocauteado de modo violento.

O peso pesado Pat Barry nunca escondeu de ninguém o quanto não gostava da luta agarrada no MMA. Em sua passagem de quase cinco anos no UFC, o americano conseguiu a proeza de ser finalizado por Mirko Cro Cop, assim como ele, um trocador com aversão ao chão. Com o discurso de volta às origens, Barry resolveu se aposentar do MMA para retornar às competições de kickboxing. A intenção, que parecia um erro, provou-se assim neste sábado, na prática.

Apesar de seu desprezo pelo grappling, não era este exatamente o problema de Barry no MMA. Aos 34 anos, o lutador estava sendo submetido a uma sequência de derrotas por nocautes devastadores. Desde quando viu Cheick Kongo ressurgir das trevas para mandá-lo à vala, há três anos, Barry voltou a ser brutalmente nocauteado por Shawn Jordan, Lavar Johnson e Soa Palelei, todos indivíduos enormes e com bigornas em forma de mãos – e, mais importante, nenhum deles com apreço pela luta agarrada. Em todas as oportunidades, Barry acabou com o corpo estendido no chão, em outra dimensão, tendo que receber atendimento médico ainda no octógono.

Qualquer pessoa com um retrospecto recente desta natureza deveria se retirar das competições por um tempo. Para um sujeito da idade de Barry, as derrotas traumáticas eram um aviso de aposentadoria que seu corpo estava lhe dando. Mas ele ignorou os alertas. Ao invés de parar, Pat mudou para um esporte onde existem apenas golpes traumáticos (socos, chutes, joelhadas e cotoveladas), na grande maioria direcionados à cabeça dos competidores.

Barry estreou neste sábado no GLORY, principal organização do kickboxing mundial na atualidade. Seu adversário na luta reserva do torneio do GLORY 16 foi o congolês Zack Mwekassa, um cavalo da mesma estirpe de Kongo, Palelei, Johnson e Jordan. E o negócio voltou a ficar feio para Pat Barry.

O americano começou a luta de modo agressivo, do mesmo jeito que cativou o público no UFC. Porém, as velhas brechas defensivas estavam lá novamente. Ex-boxeador profissional com cerca de 90% de nocautes em seu retrospecto, Mwekassa lançou um cruzado de direita seguido de um uppercut de esquerda a dois minutos de luta. O upper nem colidiu em cheio, mas foi suficiente para deixar Barry de joelhos. Após a contagem protetora, o africano partiu para decidir a contenda. Ele obteve êxito na missão com um uppercut que, este sim, explodiu contra o queixo do americano e o deixou estirado no solo.

Concussão cerebral é um traumatismo craniano considerado leve que provoca perda momentânea da consciência após um indivíduo sofrer um baque na cabeça. Em menor (knockdown) ou maior (nocaute) grau, uma concussão pode produzir consequências como tontura, dificuldade de concentração, perda momentânea de memória, depressão, dentre muitas outras. A maioria dos indivíduos recupera-se completamente em algumas horas ou dias sem precisar de tratamento específico.

O problema da concussão cerebral é o acúmulo de ocorrências, o que vem sendo estudado pela medicina como Síndrome do Segundo Impacto (SSI), que ocorre quando o indivíduo, já tendo sofrido uma concussão (chamada de primária) e sem ter se recuperado integralmente, volta a sofrer no mesmo dia, dias ou semanas após, uma nova concussão (chamada de secundária), conforme estudo publicado no International Journal of Psychiatry.

Ainda que os nocautes sofridos por Barry estejam espaçados no tempo, as concussões não estão. Neste sábado, o intervalo entre duas ocorrências (knockdown e nocaute) foi de menos de um minuto. Isso sem entrar no mérito de quantas vezes ele pode ter sofrido alguma concussão em treinos. As suspensões médicas aplicadas pelas comissões atléticas ajudam a minimizar a ocorrência da SSI, mas não livram completamente os lutadores do risco.

Para se ter uma noção do quão perigosa essa situação pode vir a ser, basta relembrar um acontecimento na carreira do lendário ex-campeão mundial de boxe Max Baer. Em 1932, ele espancou Ernie Schaaf, que foi salvo do nocaute pelo gongo final. Cinco meses depois, Schaaf enfrentou Primo Carnera e foi nocauteado com um simples jab no 13º assalto. Ernie saiu do ringue em coma e faleceu quatro dias depois. Na época, Baer foi considerado o causador indireto da tragédia, visto que o castigo que ele aplicou em Schaaf foi muito maior do que o de Carnera. Para piorar a situação de Max, Frankie Campbell já havia falecido dois anos antes após ser nocauteado por ele.

Esportes de combate são fascinantes, porém perigosos, assim como o futebol americano, rúgbi, hóquei no gelo e outros. Há um certo limite para tudo e a hora de parar chega para todo mundo. Talvez a de Pat Barry tenha chegado.

  • Cotoveladas sao permitidas no Glory? Apenas estou comecando seguir, mas achava que nao.

    • Ao invés de parar, Pat mudou para um esporte onde existem apenas golpes traumáticos (socos, chutes, joelhadas e cotoveladas)“. Eu estava me referindo ao esporte (kickboxing), não à organização (GLORY). Depois que parou com o MMA, Barry lutou kickboxing em março, antes da estreia no GLORY.

      • Entendi :D

        o chute no joelho a la Spider e JJ é valido no Glory ou no kickboxing em geral?

        Outra coisa, lembro da Hype machine do Joe Rogan falando que o K1 proibiu as joelhadas no clinch por causa do Overeem que estava machucando geral… Quanto de certo tem isso?

        • Qualquer tipo de chute direcionado diretamente ao joelho é proibido no GLORY.

          O GLORY permite joelhada no clinch, mas algumas organizações (a WKBF, por exemplo) não permitem sequer clinch com duas mãos. Tenho que ver como estão as regras atuais no K-1.

        • Suruhito

          Pô, Sacanagem! Se proibirem algum golpe só porque um lutador consegue ser mais contundente com ele que os outros é (se realmente foi feito isso) uma tremenda palhaçada.

          • Pedro Lins

            Concordo! Mas se existem experiências que eu não gostaria de passar na vida, elas são o clinch com o Overeem, tomar uma queda do Lesnar, um low kick do Shogun e principalmente um gancho do Fedor

            • Suruhito

              Pedro, esqueçeu o H-Bomb do Hendo, um arm-lock do Mir, um Leg Lock do Toquinho, uma blitz do Carwin e um Hail Mary do Nelson (e entrar no ringue com o Cain de adversário).

  • voltando no tema, não sei que é pior para a saude, se sofrer tantos nocautasos desse jeito, ou estar 9 rounds sendo massacrado por o Cain Velasquez…

    • Suruhito

      Lero, tu tocou num ponto ótimo, mas tem (MUITA) gente que achou mais vergonhoso apanhar 9 rounds de um monstro como o Velasquez (e praticamente se auto-nocautear) do que se tivesse tomado um golpe e apagado igual o Barry fez nas últimas lutas. Sinceramente, depois destas, não vejo ninguém, nem o próprio Velasquez capazes de aguentar tantos golpes como ele mesmo aplicou e o Cigano recebeu.

      Mas sim, acho que foi bem danoso sim (ao menos, os comentários do Cigano antes da terceira luta denotaram isso, hahaha)

      • Pedro Lins

        O problema desse tipo de lesão é que as consequências não aparecem de imediato, são de longo prazo. As surras que o Cigano tomou podem gerar consequências na velhice dele. Por isso que muitas vezes eu sou a favor de interrupções que são consideradas prematuras. A saúde deve vir sempre em primeiro lugar.

      • Luiz Gustavo

        Llek pra vc ter uma ideia…nas duas lutas antes do 3º round,Cigano não sabia onde tava…ele axava q a luta tinha terminado.É algo totalmente bizarro.
        Com certeza no minimo em 5,6 rounds ele lutou no automatico,tomando dezenas d saraivadas do Velasquez,q é um ser anormal…
        Será q foi danoso?

        Qnto ao Pat Barry…nada mudou.Como gosto dele,só nao gostaria d ve-lo passando pelo q o Maguila passa hj

  • Ella

    Texto bem escrito…estou começando agora a tomar gosto por esta modalidade que pra mim antes era apenas violência.
    Mas existe mais muito mais….#meapaixonando

    • Certamente você vai se apaixonar mais ainda, Ella. Luta é um troço que fascina. Não há a menor dúvida que é perigoso (como o é futebol americano, automobilismo e etc), mas exatamente essa questão de lidar com o perigo é um dos fatos que causa fascínio. Só temos que ter sempre em mente que há um limite e que não devemos voltar aos tempos de barbárie, ainda que tenha gente por aí que ache bacana linchar e espancar os outros na rua.