Outro esporte, mesmo fim: Pat Barry é brutalmente nocauteado em sua estreia no GLORY

Por Alexandre Matos | 05/05/2014 00:09

O peso pesado Pat Barry nunca escondeu de ninguém o quanto não gostava da luta agarrada no MMA. Em sua passagem de quase cinco anos no UFC, o americano conseguiu a proeza de ser finalizado por Mirko Cro Cop, assim como ele, um trocador com aversão ao chão. Com o discurso de volta às origens, Barry resolveu se aposentar do MMA para retornar às competições de kickboxing. A intenção, que parecia um erro, provou-se assim neste sábado, na prática.

Apesar de seu desprezo pelo grappling, não era este exatamente o problema de Barry no MMA. Aos 34 anos, o lutador estava sendo submetido a uma sequência de derrotas por nocautes devastadores. Desde quando viu Cheick Kongo ressurgir das trevas para mandá-lo à vala, há três anos, Barry voltou a ser brutalmente nocauteado por Shawn Jordan, Lavar Johnson e Soa Palelei, todos indivíduos enormes e com bigornas em forma de mãos – e, mais importante, nenhum deles com apreço pela luta agarrada. Em todas as oportunidades, Barry acabou com o corpo estendido no chão, em outra dimensão, tendo que receber atendimento médico ainda no octógono.

Qualquer pessoa com um retrospecto recente desta natureza deveria se retirar das competições por um tempo. Para um sujeito da idade de Barry, as derrotas traumáticas eram um aviso de aposentadoria que seu corpo estava lhe dando. Mas ele ignorou os alertas. Ao invés de parar, Pat mudou para um esporte onde existem apenas golpes traumáticos (socos, chutes, joelhadas e cotoveladas), na grande maioria direcionados à cabeça dos competidores.

Barry estreou neste sábado no GLORY, principal organização do kickboxing mundial na atualidade. Seu adversário na luta reserva do torneio do GLORY 16 foi o congolês Zack Mwekassa, um cavalo da mesma estirpe de Kongo, Palelei, Johnson e Jordan. E o negócio voltou a ficar feio para Pat Barry.

O americano começou a luta de modo agressivo, do mesmo jeito que cativou o público no UFC. Porém, as velhas brechas defensivas estavam lá novamente. Ex-boxeador profissional com cerca de 90% de nocautes em seu retrospecto, Mwekassa lançou um cruzado de direita seguido de um uppercut de esquerda a dois minutos de luta. O upper nem colidiu em cheio, mas foi suficiente para deixar Barry de joelhos. Após a contagem protetora, o africano partiu para decidir a contenda. Ele obteve êxito na missão com um uppercut que, este sim, explodiu contra o queixo do americano e o deixou estirado no solo.

Concussão cerebral é um traumatismo craniano considerado leve que provoca perda momentânea da consciência após um indivíduo sofrer um baque na cabeça. Em menor (knockdown) ou maior (nocaute) grau, uma concussão pode produzir consequências como tontura, dificuldade de concentração, perda momentânea de memória, depressão, dentre muitas outras. A maioria dos indivíduos recupera-se completamente em algumas horas ou dias sem precisar de tratamento específico.

O problema da concussão cerebral é o acúmulo de ocorrências, o que vem sendo estudado pela medicina como Síndrome do Segundo Impacto (SSI), que ocorre quando o indivíduo, já tendo sofrido uma concussão (chamada de primária) e sem ter se recuperado integralmente, volta a sofrer no mesmo dia, dias ou semanas após, uma nova concussão (chamada de secundária), conforme estudo publicado no International Journal of Psychiatry.

Ainda que os nocautes sofridos por Barry estejam espaçados no tempo, as concussões não estão. Neste sábado, o intervalo entre duas ocorrências (knockdown e nocaute) foi de menos de um minuto. Isso sem entrar no mérito de quantas vezes ele pode ter sofrido alguma concussão em treinos. As suspensões médicas aplicadas pelas comissões atléticas ajudam a minimizar a ocorrência da SSI, mas não livram completamente os lutadores do risco.

Para se ter uma noção do quão perigosa essa situação pode vir a ser, basta relembrar um acontecimento na carreira do lendário ex-campeão mundial de boxe Max Baer. Em 1932, ele espancou Ernie Schaaf, que foi salvo do nocaute pelo gongo final. Cinco meses depois, Schaaf enfrentou Primo Carnera e foi nocauteado com um simples jab no 13º assalto. Ernie saiu do ringue em coma e faleceu quatro dias depois. Na época, Baer foi considerado o causador indireto da tragédia, visto que o castigo que ele aplicou em Schaaf foi muito maior do que o de Carnera. Para piorar a situação de Max, Frankie Campbell já havia falecido dois anos antes após ser nocauteado por ele.

Esportes de combate são fascinantes, porém perigosos, assim como o futebol americano, rúgbi, hóquei no gelo e outros. Há um certo limite para tudo e a hora de parar chega para todo mundo. Talvez a de Pat Barry tenha chegado.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.