Os principais erros e acertos do UFC no Brasil

Por Alexandre Matos | 16/05/2018 23:41

No último sábado, o UFC realizou sua nona edição no Rio de Janeiro desde que retornou ao Brasil, em agosto de 2011. Antes, apenas um evento, em São Paulo, há 20 anos, anterior à criação das Regras Unificadas e da compra da organização pela Zuffa. Na Era Moderna do UFC, já são 30 edições em território nacional, 17 deles nas regiões metropolitanas das duas maiores cidades do país (São Paulo/Barueri e Rio).

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A ocasião rendeu uma matéria de capa na revista VIP de maio. Minha amiga Cláudia de Castro Lima, editora da publicação, conversou com alguns integrantes da mídia nacional de lutas para debater os principais erros e acertos do UFC no Brasil neste retorno que teve momentos avassaladores. Eu fui um dos que conversaram com a Clima e obtive dela a permissão para trazer para cá parte do debate.

Como jornalista de primeira que é, Clima ouviu o nosso lado (da imprensa) e também o UFC. O CCO (diretor de comunicações) Lawrence Epstein explanou os pontos da organização a respeito dos seis erros elencados na matéria. Embora seja totalmente compreensível que Lawrence defenda os interesses da empresa que paga seu salário, a maioria das respostas do executivo foi bem abaixo do desejável, daquelas de a gente torcer para, internamente, os problemas estarem sendo tratados com a devida importância.

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Nesta matéria, vou trazer ao debate os pontos que coloquei para a Clima e outros que não couberam na matéria. Para saber todos os assuntos que foram debatidos, procurem a revista VIP nas bancas (é fácil de achar com a Giovanna Ewbank na capa).

Principal acerto do UFC no Brasil: expansão nacional

Quando o UFC anunciou seu retorno ao Brasil, no fim de 2010, muita gente achou que a organização se fixaria no Rio de Janeiro, cidade que, já na época, tinha os melhores ginásios do país devido aos investimentos para os Jogos Pan-Americanos de 2007. A HSBC Arena, hoje rebatizada de Jeunesse Arena, foi o palco escolhido pelo UFC para os dois primeiros eventos em seu retorno.

Gennady Golovkin e Cenlo Álvarez se enfrentaram pela primeira vez em 2017

Gennady Golovkin e Cenlo Álvarez se enfrentaram pela primeira vez em 2017)

A primeira tentativa de sair de solo carioca foi no UFC 147, que abrigou as finais do popular TUF Brasil 1. O Ginásio do Mineirinho foi o local escolhido. Porém, apesar de ser imenso, as estruturas antiquadas da arena mineira fizeram o UFC retornar ao balneário de São Sebastião no UFC 153. Três de quatro eventos realizados no Rio era um mau sinal. Felizmente o UFC não caiu na armadilha e ainda conseguiu manter o foco no Rio, que hoje ostenta pelo menos cinco ginásios de nível internacional por causa dos Jogos Olímpicos de 2016. Ou seja, manteve um foco no Rio, mas não se prendeu à cidade.

Tentar levar eventos à maior quantidade possível de cidades e regiões diferentes foi um tremendo acerto do UFC. Agora que a organização fechou em três eventos no Brasil por ano, tem um fixo no Rio, um em São Paulo e outro que vai para Belém (Região Norte), Curitiba (Sul), Brasília (Centro-Oeste), Fortaleza (Nordeste), etc. Isso dá a chance de expandir nacionalmente a base de fãs. E essa dinâmica pode sofrer alteração, pois, depois de ver sua equipe de funcionários ser assaltada no Rio de Janeiro, penso que há a possibilidade de a organização não voltar tão cedo à cidade.

Um acerto que na verdade foi um erro: o “nós contra eles”

Uma característica dos cards montados no Brasil, com algumas exceções, é a de forçar para que todas as lutas tenham o mote do “nós contra eles”, ou seja, colocar um brasileiro para enfrentar um estrangeiro em todos os confrontos. As exceções ficam nos casos de brasileiros contra brasileiros, para diminuir custos, e nos raros grigo contra gringo – foram menos de dez duelos assim em mais de 350 lutas realizadas aqui.

Como o brasileiro é esportivamente xenófobo, a estratégia parecia um acerto, já que o “nós contra eles” tenderia a atrair público. Na verdade, a estratégia acabou se tornando um erro baseado nos pontos que vêm a seguir.

Um erro enorme: abrir mão de promover o esporte em si

Pelo menos aqui no país, o UFC parece focar muito mais na promoção dos atletas, deixando a marca da organização e o esporte em si meio de lado.

Mais uma vez, parecia algo correto, visto o comportamento do patriotismo barato do torcedor brasileiro. Porém, o UFC esqueceu – ou não ficou sabendo – de outra característica da nossa audiência, que é gostar de quem ganha, e não do esporte em si. E isso não é exclusividade do MMA.

Quando tínhamos Anderson Silva, José Aldo, Junior Cigano e Renan Barão campeões simultaneamente, era o cenário perfeito. A audiência bombava na TV e os ginásios estavam sempre lotados. Chegamos a ter seis ou sete eventos num único ano (prefiro os atuais três, para não deixar cair no lugar-comum). E, frise-se, promover os atletas é sempre uma atitude correta, pois eles são os donos do espetáculo. O problema é que há muito no entorno que deveria ser fortalecido.

Conforme os cinturões foram indo embora, o interesse caiu porque nunca foi feito um trabalho para os fãs gostarem de MMA. Num cenário em que o público prefere vencedores ao esporte, quando o número de vencedores diminui, o interesse pelo esporte diminui. Isso é refletido no público presente aos ginásios (o UFC 224 igualou o pior público do UFC na Jeunesse Arena) e na audiência na TV. Nunca foi feito um trabalho para que o público brasileiro gostasse de MMA como gosta de futebol americano, esporte que tem crescido o interesse no país mesmo sem jamais ter tido uma estrela brasileira.

Sobre esse assunto, o CCO do UFC comentou à revista VIP. “Queremos que o atleta seja tão grande quanto pode ser”, disse Epstein. “A fórmula cria estrelas – e isso faz o UFC crescer”, completou.

Bem, ele não poderia estar mais equivocado. A fórmula até cria estrelas enquanto vencem, mas ela não tem ajudado muito o UFC a crescer, pelo menos no Brasil. Gente como Conor McGregor, Ronda Rousey, Brock Lesnar ou Georges St. Pierre foram/são tão grandes quanto podem ser, mas tem muito mérito pessoal deles. O UFC forneceu o palco – o que é ótimo – e eles fizeram suas partes.

No entanto, a organização não consegue transformar Demetrious Johnson, que não tem o mesmo talento de autopromoção, em estrela. E isso é inconcebível. Demetrious é o Lionel Messi do MMA em vários aspectos. O argentino também é fraco em se promover, mas o ambiente gigantesco do futebol faz com que o talento sobrenatural dele lhe garanta o estrelato merecido. O “Mighty Mouse” não deve ser reconhecido nas ruas nem no bairro vizinho de sua casa e o UFC pouco o ajuda – no máximo o escalou na FOX há alguns anos, quando ele ainda não era o monstro que se tornou.

O UFC transformou Anderson Silva em estrela – e isso aconteceu na aba da popularidade de Vitor Belfort, que era uma estrela sem a ajuda do UFC. Porém, foi só o “Spider” perder o cinturão, ser nocauteado, cair em más atuações e ser pego duas vezes no antidoping para o estrelato sumir. Anderson ficou esquecido porque não é mais um vencedor. A fórmula não segura essas situações.

O UFC 224 foi um evento sensacional, repleto de lutas que entregaram o que prometiam. Ainda assim, o ginásio recebeu um público baixo. Culpa da crise econômica? Não. O Brasil se arrasta na lama há alguns anos e o público do evento anterior no Rio foi uns 35% maior que o de sábado, apesar de ter tido um card menos promissor. O UFC 212 foi liderado por José Aldo, que foi estrela de um filme produzido pela Globo Filmes e exibido até na TV Globo aberta em formato de minissérie.

Um erro decorrente dos outros: a falta de lutas históricas no país

Uma das maneiras de gerar interesse no público é fazê-los entender que estão diante de um momento histórico. Pelo modo com que o UFC trata nosso mercado, isso só vai acontecer quando um dos protagonistas for brasileiro.

Deste modo, o UFC perde a oportunidade de trazer combates históricos para cá. O americano Jon Jones enfrentou o sueco Alexander Gustafsson no Canadá, enquanto as americanas Ronda Rousey e Holly Holm lutaram na Austrália. Qual teria sido o impacto positivo na base de fãs brasileiros se um desses momentos históricos acontecesse aqui? Aposto que seria bom. Ainda: quando veremos grandes disputas de título, lideradas por grandes campeões, por aqui? Só quando tiver brasileiro envolvido?

Um acerto: TUF Brasil

Essa dá até para usar estatística do MMA Brasil: as maiores audiências da história do site foram decorrentes do reality show The Ultimate Fighter Brasil.

Brasileiro adora esse tipo de programa e o TUF Brasil serviu para firmar aqui o seu propósito de humanizar os lutadores. A Globo cometeu vários deslizes para se adequar ao gosto de seu público – competição de octagon girl foi lamentável e o horário de exibição era péssimo -, mas ainda assim o programa ajudou a popularizar o MMA e a própria marca do UFC. Porém, acabou do nada.

Trazer Chael Sonnen para liderar um TUF Brasil contra Wanderlei Silva foi uma grande sacada do UFC

Trazer Chael Sonnen para liderar um TUF Brasil contra Wanderlei Silva foi uma grande sacada do UFC

Lawrence Epstein novamente se pronunciou sobre o assunto. “O TUF foi um sucesso, mas a missão do UFC é sempre inovar em seus produtos”, comentou à revista VIP. “Vem aí o Contender Series”.

O dirigente se referiu ao Dana White’s Tuesday Night Contender Series, que já começou nos Estados Unidos e tem uma edição brasileira a caminho. Porém, diferentemente do TUF, o Contender Series tem, sim, a intenção de revelar novos talentos. E só isso. Tanto que, na TV americana, o TUF e o DWTNCS coexistem, pois o último revela talentos e o primeiro reforça os laços afetivos do público com o esporte. Aqui, com o fim do TUF Brasil, não teremos essa tão importante parte.

O TUF realmente precisava (e ainda precisa) ser repensado, mas sua fórmula não estava desgastada no Brasil. Talvez jogar o programa para o SporTV, onde poderia ser mais bem trabalhado, fosse uma boa. Na Globo, apesar da audiência maior mesmo nas madrugadas de segunda-feira, o alvo é esparso demais e o MMA ainda é um produto de nicho. No SporTV, a audiência seria menor, mas provavelmente chegaria mais ao nicho, o que seria benéfico para fincar o gosto pelo MMA no público brasileiro. Assim a ESPN (e agora o Esporte Interativo também) tem feito com o futebol americano.

Vocês apontam outros erros e acertos do UFC no Brasil? Concorda com o que eu apontei? Vamos ao debate na caixa de comentários!

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.