Os desafios do MMA feminino

Com um emocionante combate no UFC 157, Ronda Rousey e Liz Carmouche conquistaram o reconhecimento de que as mulheres merecem destaque como estrelas do MMA, mas ainda são muitos os obstáculos a serem vencidos para que as mulheres se consolidem no esporte.

Por Victor Calejon

Foram precisos quase vinte anos até que uma luta feminina fosse realizada no UFC. Em apenas quatro minutos e quarenta e nove segundos, Ronda Rousey e Liz Carmouche mostraram ao mundo o potencial das mulheres no esporte. Realizada na edição de número 157, a primeira luta feminina do evento não poderia ter sido melhor.

A histórica edição, abrigada no Honda Center, em Anaheim (Califórnia), teve casa cheia, com um público de 13.257 pagantes e renda de US$ 1.350.191,00. Em um esporte amplamente dominado por homens, o duelo entre Rousey e Carmouche, ocupando o posto de evento principal da noite, relegou o combate entre Lyoto Machida e Dan Henderson a um segundo plano, gerando controvérsias entre os fãs do esporte. No final, muita gente teve que torcer o nariz depois de uma luta emocionante, reconhecendo que as meninas mereciam o posto de destaque no card do evento.

Até mesmo Dana White, que no passado havia afirmado de forma taxativa que duelos femininos nunca ocorreriam em seu evento, teve que se render, afirmando que nenhuma luta até então havia atraído tamanha cobertura da grande mídia, chegando a veículos de imprensa nunca antes alcançados.

Além de toda mídia envolvida e da casa cheia, estimativas de venda de pay-per-view do evento giram em torno de 400.000 a 450.000 pacotes. A título de comparação, a última luta de Jon Jones no UFC, contra Vitor Belfort, no UFC 152, vendeu aproximadamente 450.000 pacotes de pay-per-view, e o UFC 153, que contou com o combate entre Anderson Silva e Stephan Bonnar, teve uma venda aproximada de 410.000 pacotes.

Nada mau para uma estreia.

Tal promoção da luta deve-se em grande parte à talentosíssima e carismática Ronda Rousey. Carregando status de lutadora a ser batida (Rousey possui cartel de três lutas amadoras e sete profissionais, todas elas vencidas por chave de braço no primeiro round, oito delas finalizadas no minuto inicial), a judoca, medalhista olímpica em 2008, sabe vender bem suas lutas. A atleta possui nível técnico invejável, com um background de judô de primeiríssimo nível, conferindo à lutadora um perigoso jogo de quedas, domínio na luta agarrada e transições impecáveis no chão – sempre em busca da sua (ainda) indefensável chave de braço –, além de mostrar evolução no boxe a cada luta, encurtando com uma facilidade assustadora, lançando jabs em volume e velocidade surpreendentes. Não bastassem suas qualidades técnicas, Ronda sabe criar polêmicas, com declarações no melhor estilo thrash talking, atraindo holofotes da mídia. Mas a lutadora provavelmente não chamaria tanta atenção não fosse por sua beleza, e é aí que reside a fórmula de tamanho sucesso, afinal, é muito fácil admirar uma jovem (e bela) lutadora, espontânea nas entrevistas, invicta na carreira e devastadora contra a concorrência.

Se Ronda Rousey e Liz Carmouche fizeram história na evolução do MMA feminino, não podemos deixar de citar o confronto entre Gina Carano e Cristiane Cyborg no Strikeforce, primeiro a encabeçar o card de um grande evento de MMA, em 15 de agosto de 2009, marco muito importante pela visibilidade alcançada, com audiência superior a 576.000 televisores, recorde para um evento de MMA exibido no canal Showtime até então. Como na luta entre Liz e Ronda, além de duas atletas de ponta, o duelo contou com a beleza de uma das lutadoras (Gina Carano) para promover a luta, questão que apresenta parte do problema: além de boas atletas, infelizmente, as lutadoras também dependem de sua beleza para que tenham a devida exposição na mídia, condição que demonstra o machismo presente no esporte.

Mas os desafios são maiores e mais amplos.

Em primeiro lugar, é necessário pontuar a necessidade de uma melhor promoção das lutas femininas, conferindo lugar de destaque às lutadoras para que novos fãs conheçam o MMA feminino e se fidelizem, conhecendo novas atletas de ponta que não possuem exposição à altura das lutas que proporcionam. Além de Rousey, Carmouche, Cyborg e Carano, podemos falar de Miesha Tate, Marloes Coenen e Sarah Kaufman como exemplos de lutadoras conhecidas entre os fãs de MMA. Mas existem muitas outras lutadoras de bom nível desconhecidas até mesmo do público mais fiel ao esporte por não gozarem do reconhecimento de que são merecedoras.

Como uma verdadeira estrela, Ronda Rousey distribui autógrafos na sessão de treinos abertos do UFC 157 (Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC)

Como uma verdadeira estrela, Ronda Rousey distribui autógrafos na sessão de treinos abertos do UFC 157 (Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC)

Entretanto, o grande problema do MMA feminino é a desorganização e falta de estrutura e oportunidade às atletas, fazendo com que as lutadoras fiquem muito tempo paradas entre as lutas, um problema que só pode ser enfrentado com a criação de um torneio exclusivo para os duelos femininos. Foi pensando nisto, e com o intuito de colocar as lutadoras como foco das atenções, dando o respeito que merecem, com mais organização e profissionalismo, que o Invicta Fighting Championships foi criado.

Após a compra do Strikeforce pela Zuffa, empresa dona do UFC, criou-se uma grande incerteza em relação ao futuro do MMA feminino, uma vez que o UFC jamais havia promovido uma luta feminina e a extinção do Strikeforce era iminente. Fundado em 2012 por Shannon Knapp, executiva com experiência no King of the Cage, World Fighting Alliance, International Fight League, Affliction Entertaiment, UFC e Strikeforce, e Janet Martin, únicas executivas no ramo do MMA, o Invicta FC nasceu para promover e tirar o MMA feminino do grau de desorganização em que se encontra.

Realizando seu primeiro evento em 28 de abril de 2012, o Invicta FC se prepara para sua quinta edição, a ser realizada no dia 6 de abril deste ano, contando com a parceria japonesa do Jewels e dos indianos do Super Fight League como aliados estratégicos internacionais para promover as melhores lutadoras mundo afora.

A reconhecida falta de profundidade e de número de atletas de alto nível nas divisões de peso femininas pode ser vista como fruto da desorganização e falta de profissionalismo reinantes no MMA feminino, com divisões dispersas pelos eventos – o Strikeforce possuía as categorias pena (até 145 libras, cerca de 66 quilos) e galo (até 135 libras, cerca de 61 quilos); o UFC possui apenas a divisão galo e o Bellator, o peso palha (até 115 libras, cerca de 52 quilos) –, produzindo como resultado poucas oportunidades para as atletas se consolidarem em suas divisões. A falta de solidez nas categorias de peso faz com que as lutadoras tenham dificuldade em se manter em sua categoria (e bater o peso correto) porque as obriga a aceitar lutas em pesos diversos para não ficarem paradas e terem um mínimo de exposição. Esta condição acaba gerando lutas desproporcionais. Por isso, a consolidação das divisões de peso é uma das chaves para o crescimento do MMA feminino.

Somente um torneio dedicado exclusivamente ao MMA feminino poderia dar solidez às divisões de peso e ajudar a corrigir as distorções. É exatamente nisto que o Invicta FC tem trabalhado e, até o momento, conquistado sucesso. Contando com cinco divisões (átomo, palha, mosca, galo e pena), suas três primeiras edições tiveram atletas que não bateram peso – quatro na primeira, uma na segunda e duas na terceira –, com apenas o Invicta FC 4 livre deste problema.

Como o MMA feminino é ainda muito novo e carente de grandes talentos, uma boa estratégia para construir estrelas e ampliar o número de lutadoras de alto nível é migrar atletas de outras modalidades para o esporte, como Ronda Rousey (medalhista de bronze no judô nas Olimpíadas de 2008) e Sara McMann (medalha de prata no wrestling nas Olimpíadas de Atenas, em 2004). Lutadoras como Kyra Gracie têm demonstrado interesse na migração, mas mais atletas precisam fazer este movimento para que as categorias cresçam, algo que se dará mais lentamente.

Outro aspecto a ser avaliado diz respeito à qualidade e ao número de opções de academias para realizar um treino adequado. A este respeito, trazemos a contribuição de Jillian Bullock, em artigo publicado no TheMMAZone.net:

Quando se trata de opções de treinamento, as mulheres estão em desvantagem. Não é que elas não poderiam treinar com homens em seu treino, mas quando se trata de se preparar para uma luta, assim como os lutadores de MMA do sexo masculino, uma mulher precisa treinar e fazer sparring com outra lutadora que está em sua divisão de peso e que tem um estilo semelhante de luta da adversária que ela vai enfrentar no ringue. Além disso, os lutadores do sexo masculino têm inúmeras academias, instrutores, campos de treinamento de ponta, e um suprimento ilimitado de parceiros de formação, mas este não é o caso das mulheres. Como o MMA feminino é mais recente e menos desenvolvido, suas opções são extremamente limitadas. Lutadoras têm menos pessoas para ajudá-las, especialmente considerando que algumas academias ainda não treinam mulheres no mesmo nível e com a mesma dedicação que treinam os lutadores do sexo masculino.

Além de lutar pelo MMA feminino, Liz Carmouche ainda defendeu a bandeira da luta contra a homofobia (Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC)

Além de lutar pelo MMA feminino, Liz Carmouche ainda defendeu a bandeira da luta contra a homofobia (Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC)

As mulheres têm ainda que lidar com a falta de investimentos e patrocínios, obrigando-as a ter jornada dupla (às vezes tripla), acumulando além dos treinamentos, outro emprego e muitas vezes as tarefas domésticas (quem viu o UFC Primetime Rousey vs Carmouche deve ter notado que a vida de Liz Carmouche não é das mais fáceis, trabalhando em tempo integral numa academia, além dos treinos para as lutas e do cuidado com a sua dieta), o que faz com que a maioria das mulheres tenham uma dificuldade tremenda em dedicarem-se exclusivamente aos treinamentos, além da falta de uma equipe adequada para a preparação para as lutas, impedindo um maior aprimoramento técnico das lutadoras. Em se tratando de praticantes amadoras de artes marciais, é muito comum vermos mulheres sem acompanhamento adequado nos treinos e menos rigor por parte dos professores, sem igualdade no tratamento com os homens. Isso sem falar em eventuais abusos, quando homens aproveitam para “tirar uma casquinha” das companheiras de treino, afastando-as do mundo das lutas. Tudo isso contribui para uma queda na evolução técnica das mulheres no MMA em comparação às categorias masculinas.

Ilustrativo desta realidade desigual, entre tantos outros, é o caso de Junior Cigano, sustentado por sua esposa durante o período inicial de sua carreira, podendo se dedicar exclusivamente aos treinos e evoluindo. Quantas lutadoras na condição de Junior Cigano poderiam contar com tal incentivo por parte de seus maridos? Difícil imaginar tal condição.

Há ainda uma forte barreira cultural a ser vencida, pois boa parte das pessoas possui dificuldade de mudar sua mentalidade de resistência em ver mulheres lutando, machucadas e com cortes e sangue no rosto. Ícone do esporte, Georges St-Pierre, durante os treinos abertos para o UFC 154, declarou que não era fã de MMA feminino: “Talvez seja a maneira como eu cresci, mas minha mentalidade é diferente. Eu sou da velha guarda, tenho dificuldades em ver garotas lutando; é difícil para mim. Eu nunca vi uma luta feminina inteira, mas eu sei que elas são muito boas”.

St. Pierre foi corajosamente respondido por Miesha Tate em seu blog pessoal:

“Acho que o problema da visão de GSP quanto ao MMA feminino é que ele não tem uma visão. Se ele nunca assistiu a uma luta, ele não pode dizer como realmente se sente sobre isso, porque ele é ignorante. Não há problema em ser antiquado. Mas nós, garotas modernas, não estamos pedindo por sua proteção, mas sim por sua aceitação, e estamos lutando por igualdade. Se todos se sentissem sobre o MMA como GSP acha que se sente sobre o MMA feminino, então ele não teria um emprego. Espero que Georges St-Pierre abra a sua mente e assista a algumas lutas femininas. Estamos chegando ao UFC por uma razão, e seria legal ter o apoio de um dos meus lutadores favoritos de todos os tempos.”

Se até mesmo um campeão como GSP, admirado dentro e fora do octógono, tem reservas em relação ao MMA feminino, o que esperar do público comum? Tal mudança de mentalidade se dará aos poucos e somente conforme as lutas femininas forem ganhando destaque nos grandes eventos.

Temos que reconhecer que há ainda muitas barreiras a serem destruídas devido ao machismo imperante na sociedade e, consequentemente, no esporte. Desde o fato de a mídia dar uma maior exposição às atletas por seus atributos físicos (para eles, tão ou mais importantes do que os esportivos), até o papel atribuído às mulheres no mundo da luta, em que ring girls recebem maior destaque do que lutadoras e lutadores de verdade.

O que está em jogo, na minha opinião, é o futuro do MMA. O crescimento do MMA feminino deve levar o esporte a outro patamar de popularização e aceitação. Trata-se não apenas de ampliar o número de atletas e de categorias, mas de aceitar o fato de que o esporte é bom para todos, homens ou mulheres.