Os casos de doping de Lyoto Machida, Frank Mir e Yoel Romero

Três casos de doping, três justificativas, três punições. O que podemos tirar de lição dos problemas de Lyoto Machida, Frank Mir e Yoel Romero no UFC?

Quando o UFC anunciou uma maior rigidez em sua política antidoping, o sentimento geral era de que muita gente seria flagrada e/ou apresentaria quedas bruscas de rendimento. Somente na última semana, dois ex-campeões do UFC tiveram problemas de doping. O primeiro foi Frank Mir e ontem foi a vez de Lyoto Machida.

Por mais que a afirmação “todos no MMA se dopam” seja repetida por muitos fãs, não há como negar que a notícia do flagrante de Machida pegou o mundo do MMA de surpresa – menos Gegard Mousasi, que havia afirmado em fevereiro que o brasileiro é trapaceiro por “usar vaselina de modo indevido” e “parecer ter 15 anos a menos do que um camarada de 38”. Quando até Machida tem problemas com doping, a afirmação do começo do parágrafo parece ganhar força.

Interessante notar nos casos do ex-campeões e no de Yoel Romero uma diferença de posturas e explicações. Frank Mir usou a tática batida de negar o uso, levantando até a possibilidade de ter ingerido carne contaminada de canguru, uma vez que ele foi flagrado na Austrália, quando foi derrotado por Mark Hunt. O curioso é que o físico de Mir dá a impressão de alguém que realmente tem feito uso constante de churrascos e não de esteroides anabolizantes. O americano relembrou seu histórico de nunca ter sido pego antes, embora tenha “deixado pra lá” o fato de ter apresentado grande aumento de massa muscular entre enfrentar os gigantes Brock Lesnar e Shane Carwin e de ter virado usuário do famigerado TRT depois.

Frank Mir já esteve em melhor forma

Frank Mir já esteve em melhor forma

Mir pode até estar falando a verdade, mas sua postura é a mesma de a grande maioria dos flagrados, que também não assumem e não conseguem provar a inocência. Caso seja punido, como deve acontecer, Mir provavelmente pegará dois anos de gancho, o que representará o fim de seus dias como lutador profissional de MMA.

Temos então o caso de Romero, outro que também negou o uso – embora o físico deixe a impressão contrária – e saiu-se com uma desculpa também já usada sem sucesso em outras oportunidades. O cubano disse que usou um suplemento alimentar legal, mas que estava contaminado. A probabilidade disso acontecer é tão baixa e tantos outros usaram a justificativa sem sucesso anteriormente que muitos achavam que Romero estava mentindo. Mas o apelidado de “Filho de Deus” incrivelmente provou seu ponto quando a USADA comprou um suplemento do mesmo lote do apresentado pelo lutador e constatou a contaminação. Yoel acabou pegando apenas seis meses de suspensão, praticamente um afago nas duras novas regras. Foi como se a USADA dissesse: “Temos que puni-lo porque havia algo ilegal em seu organismo, mas acreditamos na sua inocência”.

O caso de Romero lembra muito o do nadador Cesar Cielo, flagrado antes do Campeonato Mundial de Desportos Aquáticos de 2011. Cielo também conseguiu provar que o suplemento estava contaminado e pegou apenas algumas semanas de pena, tendo inclusive competido no Mundial. Desde então, porém, os resultados de Cesão caíram do nível de Super-Homem para o de um excelente nadador. Vejamos os resultados subsequentes de Romero para um paralelo.

Falando em inocência, temos o caso de Lyoto. O “Dragão” teve sua falha divulgada na semana da luta contra Dan Henderson, que aconteceria neste sábado. A USADA anunciou primeiro que ele violou uma regra antidoping (algo tão vago que pode variar entre encher a cara de anabolizantes e se atrasar para a coleta de um exame). Em seguida, foi divulgado que o brasileiro teria usado DHEA. E aqui entra a curiosidade e o absurdo da história de Machida, que se reflete em vários outros profissionais.

Machida declarou num vídeo publicado em suas redes sociais que não sabia que o DHEA, um suplemento vendido normalmente nos Estados Unidos, havia sido proibido pela WADA (Agência Mundial Antidoping) em 2016. É mais uma desculpa comum utilizada por atletas, mas que no caso de Lyoto há um ponto bastante relevante: ele declarou o uso espontaneamente.

Todo lutador, ao chegar na cidade de um combate, precisa se apresentar à comissão atlética local (ou ao órgão regulador responsável pelo evento) e preencher um formulário médico onde precisa informar todo e qualquer medicamento, suplemento ou substância que estiver usando, mesmo que seja para uma dor de cabeça. Lyoto colocou o DHEA na maior inocência, crente que não havia violado regra alguma. O ponto dele é válido, uma vez que nenhum lutador dopado se entrega nestes formulários – sim, eles mentem e omitem. Lyoto não seria maluco de cometer um erro primário desse.

No entanto, ele cometeu outro tão primário quanto. A lista de substâncias proibidas está ao alcance de qualquer ser humano alfabetizado e com acesso à internet. Existe até um aplicativo oficial da WADA, disponível na App Store, com a lista atualizada. Ou seja, consumir algo sem consultar esta lista é um erro tão grave e inadmissível quanto absurdo, especialmente para um ex-campeão mundial. E o pior: o DHEA é proibido pela WADA desde antes dos Jogos Olímpicos de Londres, quatro anos antes de Lyoto ficar sabendo.

É aqui que entra a diferença fundamental entre o que aconteceu com Romero e o que pode ocorrer com Machida. Enquanto o cubano consumiu um suplemento legal, mas contaminado, Machida fez uso de um ilegal. Por mais que ter assumido culpa provavelmente atenue sua pena, Lyoto não deve pegar apenas os seis meses do inocente Romero.

Machida até merece um atenuante para que sirva de exemplo para atletas que mentem na maior cara dura depois de serem flagrados. Ao mesmo tempo, sua pena não pode ser curta demais para que todos os lutadores (e seus assessores) tomem um pingo de vergonha na cara e acessem o site oficial da WADA em busca da lista de substâncias proibidas. É muito fácil, não toma mais de 15 minutos e evita um monte de contratempos.