Por Gustavo Bizzo | 21/03/2020 15:32

O novo coronavírus, COVID-19, é real. Não é histeria, não é alarmismo. O mundo, há um século, não vê uma doença se espalhar com essa velocidade de contágio. Me refiro à gripe espanhola – entre 1918 e 1920, que matou, inclusive, um presidente brasileiro. Os efeitos da pandemia, que foi caracterizada por líderes internacionais como o maior desafio enfrentado pela humanidade desde a segunda guerra mundial, já são evidentemente claros na economia, no mercado e, claro, no mundo esportivo.

As principais ligas dos Estados Unidos foram paralisadas (NBA, MLS, NHL e MLB) e os principais campeonatos estaduais de futebol no Brasil foram na mesma linha. Até as Olimpíadas de Tóquio, mesmo que sem cancelamento oficial, vem sofrendo pressão de comitês olímpicos nacionais. Na contramão do bom senso, das recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e de toda responsabilidade que o mundo esportivo mostrou, o UFC decidiu, até agora, não fazer muitas concessões.

Uso esse espaço, como colaborador do MMA Brasil, para tentar dar um passo junto à comunidade maravilhosa de amantes das artes marciais que construímos ao longo de anos de atividades e, quem sabe, com o restante da mídia dedicada ao esporte.

O presidente da organização, Dana White, precisa abrir os olhos para o mundo real. O primeiro sinal de irresponsabilidade do executivo foi a manutenção do UFC Brasília que, mesmo acontecendo com portões fechados, expôs os atletas e demais profissionais envolvidos, como cutmen, treinadores e comissários, a riscos desnecessários. Os lutadores e lutadoras, a mando do empregador ou por vontade própria, contrariaram todas orientações da OMS, trocando sangue, suor e contatos. Isso sem considerar a reunião de todo corpo de profissionais envolvidos no evento e o vai e vem em aviões.

Um aceno à responsabilidade foi feito: foram adiados UFC Londres, UFC Columbus e UFC Portand. A postura não durou muito. A mais recente declaração de White, no entanto, foi a mais grave, mais irresponsável e o que me fez redigir esse artigo de opinião. Aspas para o careca, dirigindo-se às pessoas, especialmente da imprensa especializada, que o estão criticando pela disposição em manter as atividades do UFC: “Os fracotes do planeta Terra”. Além disso, ele diz que, nesses dias, o que tem feito é “lidar com essa babaquice”.

Dono de grande visibilidade, White deveria usar o espaço que tem de forma responsável nesse momento, divulgando informações pertinentes ao combate da crise e como sua organização vem se mobilizando nesse sentido. Infelizmente, o dirigente não é o único que pensa dessa forma. Um dos atletas que vai brigar pelo cinturão dos médios, e que pode quebrar o jejum de brasileiros campeões, Paulo Borrachinha também fez pouco caso da pandemia. Em entrevista ao site do canal Combate, publicada nesse 19 de março, o pupilo de Wallid Ismail ironizou a consciência da população de Belo Horizonte, Minas Gerais: “Vocês deveriam ficar em casa, no mínimo, uns quatro meses”, fazendo referência às ruas e trânsito mais vazio. Borrachinha, no entanto, não se deu conta de que ele não coloca apenas a sua saúde em risco, mas a de outras pessoas. O mineiro, na semana da entrevista, continuava frequentando a academia – algo que, em São Paulo, por exemplo, já é proibido por decreto do governador –, dando aula para crianças, consideradas grupo de risco pela OMS.

No Twitter, o atleta reagiu à matéria do Combate atacando jornalista e veículo, chamando-os de “Canhotos Raivosos”. No mínimo, o momento não é próprio para polarização política de esquerda x direita. Não agrega, não impede transmissão e não contém a crise. Todo mundo aqui gosta de luta, mas só dentro do octógono.

Vocês acham que eu também não estou louco para assistir a uma luta entre Khabib Nurmagumedov e Tony Ferguson, peleja que já foi agendada e desmarcada vezes e mais vezes? Claro que sim. Quero assistir também a José AldoHenry Cejudo, Jessica AndradeRose Namajunas e muitas outras que devem ser espetáculos para quem ama MMA. Também quero continuar assistindo ao Boston Celtics, quero continuar passando sufoco (na verdade, tristeza) com o Vasco da Gama e vou querer assistir às Olimpíadas. Mas não vou. O devido peso e prioridade deve ser dados às coisas, especialmente em um esporte no qual a média de frequência dos atletas é de dois ou três eventos por ano. O peso financeiro virá pra todos nessa crise, não tenha dúvida. A NBA, por exemplo, está paralisada e eles fazem vários jogos TODOS OS DIAS. Claro que devem ser consideradas também as estruturas, parceiros, patrocinadores e contratos que cada organizações ou ligas têm para se apoiar, mas é um cenário em que todos vão sangrar.

O tamanho dessa p***

Caminhões do exército precisam transportar excedente de corpos em Bergamo, na Itália — Foto: Sergio Agazzi.Fotogramma via Reuters

Para dar uma dimensão do cenário que enfrentamos e da urgência que deve guiar todas as organizações, vou dar alguns indicadores de confirmações de COVID-19 e mortes pela doença. Hoje, dia 20 de março, primeiro mês no qual nosso país enfrenta a pandemia, o Brasil acumula 904 casos confirmados – entre eles, ministros de Estado, presidente do Senado e artistas famosos, por exemplo – e nove mortes. Em comparação à Itália, país que tem maior registro de mortes pela doença (3.405) e que mais vem sofrendo com a pandemia nos últimos dias, o Brasil teve seu vigésimo dia de contágio (18 de março) mostrando tendências desanimadoras. Aqui, neste dia, tínhamos registrado 291 casos; Itália, 3. Hoje, necrotérios e crematórios de regiões italianas não dão conta do número de corpos. Uma situação que lembra relatos da Peste Negra, doença que devastou a população europeia no século XIV.

Veja abaixo a curva de crescimento de novos casos registados oficialmente pelo Ministério da Saúde.

Crédito do gráfico: Estadão; fonte: Ministério da Saúde.

A ideia desse artigo não é criar pânico. Quero mostrar que situação exige SERIEDADE e RESPONSABILIDADE. O UFC não tem entregado isso. Espero que o faça, porque amo MMA, amo escrever e acompanhar os eventos. Porém, a organização de Dana White precisa se atentar à realidade. Não são apenas entidades esportivas que estão fazendo concessões. Companhias aéreas enfrentam a maior crise de sua história, governos estão fechando fronteiras, comércios e escolas estão sendo paralisados.

O UFC é especial para nós, amantes de MMA, mas não é mais especial do que as vidas que precisam ser preservadas. Pode parecer meio piegas, frase de efeito, mas é isso que está em jogo. É um momento que demanda união. Entre civis, companhias, governos, ONG’s, nações, órgãos internacionais e quem mais puder contribuir para a prevenção de novos casos do COVID-19. Como símbolo dessa união, deixo aqui embaixo a belíssima ação realizada no Cristo Redentor, no meu querido Rio de Janeiro, cidade que, apesar dos muitos pesares recentes, segue maravilhosa e permaneço amando e, por isso, tenho desejo de proteger.

Se cuidem. Não se aglomerem. Quem puder, fique em casa.