O velho problema do boxe de volta à tona

Em luta disputada no último sábado e que teve o resultado final recheado de polêmica, o americano Juan Diaz, apelidado de “Baby Bull”, venceu o compatriota Paulie Malignaggi, “The Magic Man”, por decisão unânime e conquistou o cinturão meio-médio junior – categoria também chamada de superleve, com limite de 140lbs/63,5kg – da NABO (North American Boxing Organization, afiliada à Organização Mundial de Boxe), título este que estava vago.

Juan Diaz venceu Paulie Malignaggi em luta controversa

Semanas antes da luta, Malignaggi, ex-campeão mundial pela FIB, queixou-se para quem quisesse ouvir que talvez estivessem armando contra ele. O Magic Man aceitou lutar em Houston, cidade natal do oponente. Aceitou que a luta se desse em peso intermediário de 138,8lbs/62,8kg. Concordou até mesmo em lutar num ringue de dimensões reduzidas, o que favorece o lutador que atua na pressão, caso de Diaz. Tudo o que ele pediu em troca, mas não recebeu, foram juizes neutros. A luta ocorreu com um juiz texano, um californiano (estado da promotora de Diaz, a Golden Boy Promotions) e um terceiro que não tinha experiência suficiente para julgar uma disputa neste nível.

Como a luta foi bastante parelha, o vencedor declarado nem foi tão absurdo, apesar de muitos, MMA-Brasil.com inclusive, terem achado que Malignaggi venceu, mesmo contra tantas adversidades. O absurdo maior foram os julgamentos (115-113, 116-112 e principalmente um 118-110, sempre favorável a Diaz), que tornaram o resultado final praticamente uma palhaçada. O ex-campeão mundial dos pesados Lennox Lewis, que trabalhou como comentarista da HBO na transmissão da luta, falou que o trabalho de jabs e movimentação lateral de Paulie fora mais efetivo, levando ao domínio da luta. Harold Lederman, juiz não oficial da HBO que fica ao lado do ringue, marcou 115-113 para Malignaggi. Kevin Iole, renomado comentarista do Yahoo! Sports, cravou o mesmo resultado.

O problema é quando até mesmo o presidente da Golden Boy Promotions, Oscar De La Hoya, diz que o placar de 118-110 a favor de Diaz, somado ao veredicto de David Sutherland de 100-89 a favor de Danny Jacobs (um dos principais prospectos da Golden Boy) sobre Ishe Smith, numa das lutas do card preliminar, foram largos demais e que não fizeram bem ao boxe, fica claro que a situação mancha ainda mais o já poluido esporte.

Que Juan Diaz, ex-campeão mundial dos leves, não se iluda com o resultado enganador. Ele é um excelente lutador e não nos traz boas recordações, depois da surra que aplicou em Acelino “Popó” Freitas, em 2007, que aposentou nosso campeão, mas Malignaggi mostrou que a categoria de cima é muito mais dura do que a original, dos leves. Os americanos Timothy Bradley e Devon Alexander, bem como o britânico Amir Khan, detentores dos cinturões mundiais entre os meio-médio juniores/superleves, serão testes muito mais difíceis do que foi Malignaggi. Bradley, campeão pela OMB, é muito mais forte e mais bem condicionado. A movimentação lateral de Khan, dono do cinturão da AMB, flui de modo que faz com que os passos de Malignaggi pareçam de elefante. E o trabalho de jabs e contra-ataque de Alexander, que conquistou recentemente o título pelo CMB, já lhe deu muitas vitórias. Ou seja, os campeões são versões vitaminadas de Paulie Malignaggi. Isso para não falar no dono do cinturão da The Ring, ninguém menos que o número um peso por peso, Manny Pacquiao.

Vamos torcer para que Paulie tenha sua revanche, de modo honesto. Que Juan consiga se estabelecer na categoria de cima sem se enganar (e sem enganar o público). E que promotores, juizes, árbitros e demais envolvidos parem de uma vez por todas de avacalhar com a Nobre Arte.

Foto: AP Photo/Houston Chronicle, Johnny Hanson