Por Idonaldo Filho | 07/04/2019 16:29

Os fãs que acompanham o UFC com maior frequência certamente já notaram algumas incongruências no sistema de ranqueamento do líder do mercado de MMA. Utilizado de forma frequente e oficial pela organização, colocando lutadores numerados de primeiro a décimo quinto nas listas, o ranking nunca teve tanta necessidade de reformulação quanto neste momento. Isso se deve a algumas bizarrices que aconteceram, que mostram um descuido com a plataforma e um desrespeito aos adeptos.

Recentemente aconteceu algo de certa forma inacreditável – embora não surpreendente – com o ranking da divisão dos moscas, categoria que vive crise existencial, que nos deixa na dúvida se vai ter fim ou se continuará. Mas o que houve de tão absurdo? Foram adicionados lutadores que não estão no plantel do UFC. Exatamente! Lutadores que atualmente estão em outras organizações e que NUNCA sequer atuaram no octógono até aquele momento.

O site do UFC é claro em dizer como os rankings oficiais de cada divisão são determinados. Membros da imprensa votam nos atletas que eles acham que merecem a posição naquele momento. Está exatamente escrito dessa forma: “Um atleta só poderá ser votado caso esteja em atividade no UFC”, ou seja, o lutador deve estar no plantel da organização e em atividade, com lutas realizadas recentemente, podemos entender.

Informação do UFC sobre como os rankings são feitos.

O lutador em questão que adentrou de penetra no ranking sem nunca ter atuado no UFC no momento da atualização é Casey Kenney, que acabou entrando de última hora para enfrentar Ray Borg no último evento, mas que sequer havia sido anunciado no momento em que apareceu no ranking. O prospecto recém contratado pela organização era, naquele momento, campeão interino do peso mosca e do peso galo na LFA e teve passagem pelo Contender Series, em 2017, quando realizou duas lutas pelo evento que busca revelar talentos para o UFC, vencendo uma e perdendo outra. Kenney não conseguiu o contrato em nenhum dos dois confrontos. Ele foi listado como o 15º da divisão dos moscas, sabe se lá o porquê. O 14º  é Jordan Espinosa, este sim com contrato com o UFC, mas que no momento em que foi inserido na tabela (18/03), ainda não havia estreado.

Na versão antiga do site do UFC, que sempre conta com a atualização adiantada, presente e funcionando em algumas regiões, ainda há a presença de outros lutadores que sequer pisaram no octógono na tabela de alguns jornalistas. São os casos de Carlos Candelario e Jaime Alvarez. O demitido Jenel Lausa e o atualmente peso galo Louis Smolka também estão listados por alguns membros da imprensa no peso mosca.

A questão aqui nem é a falta de quem colocar no ranking, tendo em vista que Raulian Paiva, atleta contratado e com luta realizada no UFC, não esteve presente na lista até o dia 02/04 – Jaime Alvarez passou a integrar a lista oficial do peso mosca no mesmo dia.

A presença do “intruso” no ranking geral

A coincidência é que os três lutadores que apareceram nas tabelas dos jornalistas passaram pelo Contender Series e, portanto, tinham seus perfis cadastrados no site do UFC – a organização insere todos os lutadores do evento que acontece às terças-feiras em seu site oficial, mesmo que não os contratem. O que me surpreende é a escolha dos votantes do ranking por esses lutadores, mostrando desconhecimento do que estão fazendo e proporcionando essas bizarrices.

Dos 14 membros atuais da imprensa que são responsáveis pela listagem, sete colocaram pesos moscas sem contrato. Os responsáveis foram Christoffer Esping, Ken Pishna, Jeff Cain, Rob DeMello, Andreas Hale, Bruno Massami e Grant Gordon. Alguns colocaram mais de um lutador sem contrato e outro chegou a posicionar Kenney como 12º colocado na categoria.

Essa é só uma das lambanças que acontecem com frequência no sistema de classificação, que foi criado para facilitar o entendimento dos novos fãs sobre o esporte e sobre os confrontos no UFC. Em novembro do ano passado, o irlandês Neil Seery apareceu na 15º colocação dos moscas, algo que ele custaria a conquistar em seu auge. O problema: Seery havia se aposentado em julho de 2017, mais de um ano antes de sua adição no ranking. No mesmo mês, o UFC decidiu adicionar 17 lutadores na lista da mesma categoria, com dois lutadores empatados na 14ª posição e dois empatados na 15ª. Para situar algo mais recente, a peso mosca Mayra Bueno acabou entrando como 15ª no peso galo feminino, sendo que sua única luta realizada na organização foi no peso mosca.

Neil Seery adicionado no ranking depois de um ano aposentado

Algo que impacta significativamente tanto os fãs quanto os próprios lutadores, que colocam como objetivo de carreira chegar ao ranking, deveria ser levado com mais seriedade. O UFC realmente nunca pareceu ligar de fato para a ferramenta que foi adicionada em fevereiro de 2013, mas o sistema agoniza de forma impressionante a cada dia que passa. Sem entrar no mérito do merecimento de um lutador estar listado como um dos 15 melhores de sua categoria, é questão de bom senso e respeito com quem acompanha a promoção.

A solução seria a própria organização cuidar por conta própria desse serviço e não deixar na mão de quem não tem ligação com a empresa, resultando no que estamos presenciando. Também acredito que, uma vez que alguém se propõe a tal missão, que é de tamanha relevância, o trabalho deveria ser minimamente bem feito, de forma que fossem listados ao menos atletas que estão no plantel do UFC. Evitar a prática de adicionar lutadores que retornam de suspensão na mesma semana que ele irá lutar apenas para promovê-lo também seria bem vindo.

Sem qualidade, sem respeito e sem lógica. Essas são algumas características que podemos listar sobre a situação de sucateamento que vive o sistema de ranqueamento da maior organização de MMA no mundo. Se preencher o ranking dá trabalho, façam como o nosso editor-chefe, Alexandre Matos, que preferiu deixar a atividade quando o tempo ficou apertado a ter que fazer um trabalho mal feito, sem pesquisa e sem estudo. Embora possa ainda enganar o fã médio, o ranking hoje é visto como piada por quem acompanha de perto.

Até quando isso vai persistir?