Por Alexandre Matos | 26/11/2017 01:58

Na última quinta-feira, 23 de novembro, a segunda luta da inesquecível trilogia entre Arturo Gatti e Micky Ward completou 15 anos. Este foi o menos espetacular dos três combates travados por eles, o que está longe de ser demérito – o primeiro e o terceiro foram premiadas como os melhores de 2002 e 2003. Porém, o aniversário me fez lembrar de um detalhe, que conto neste artigo.

Gatti e Ward guerrearam por 30 selvagens rounds entre maio de 2002 e junho de 2003. No entanto, vou me ater a 3% dessa história. O foco será em apenas um assalto, o nono da primeira luta. O melhor round que eu vi na vida, talvez ao lado do primeiro entre “Marvelous” Marvin Hagler e Thomas Hearns.

Quando anunciaram o primeiro combate entre Gatti e Ward, ninguém se empolgou. Gatti já era um lutador consolidado, ex-campeão mundial dos superpenas versão Federação Internacional de Boxe (IBF, na sigla em inglês), mas que precisava se recuperar do nocaute sofrido para Oscar de la Hoya um ano antes.

Ward parecia o adversário ideal, sete anos mais velho, já em fim de carreira. Ele viveu seu maior momento em março de 2000, na conquista do cinturão da fajuta União Mundial de Boxe, vencendo o esquecível Shea Neary. Este trecho da vida de Ward foi contado no ótimo filme O Vencedor.

Micky nunca pertenceu à elite, mas, com seu estilo de jamais se entregar, certamente daria um bom show contra Arturo, um dos mais agressivos boxeadores de todos os tempos. Na cabeça da promotora Kathy Duva, seria um divertido entretenimento para os fãs e uma vitória tranquila para recolocar o canadense no trilho. Bem, não foi exatamente assim que aconteceu.

Cabe aqui um aparte sobre a curiosa origem de ambos. Apesar de naturalizado canadense, Gatti nasceu na cidade italiana de Cassino, ao sul da região de Lazio. Esta área da Itália está na história da humanidade por ter sido palco da Batalha de Monte Cassino, o mais violento embate da Segunda Guerra Mundial. Havia lugar mais adequado para um lutador como Gatti nascer?

Ward também tem uma origem interessante. Seus ancestrais integraram as forças rebeldes da Irlanda massacrada pela opressão do Império Britânico no século XIX. Eles fugiram da fome rumo aos Estados Unidos. Estabeleceram-se em Massachussets, onde há grande colônia irlandesa até hoje. Ward nasceu num desses guetos, em Lowell, e seu estilo de luta lembrava o de alguém disputando um prato de comida.

Bem, voltando à luta, Arturo e Micky trocaram socos como se não houvesse amanhã. Ao final do oitavo assalto, Gatti vencia por um ponto na contagem não-oficial de Harold Lederman, comentarista da HBO. O narrador Jim Lampley terminou o oitavo assalto em choque: “Oh my god! Oh my goodness! What a fight!” Se tivesse acabado no oitavo round, a luta já teria sido histórica. Porém, o melhor ainda estava por vir.

Soa o gongo para o início do nono round e Ward sai como alucinado para cima do adversário. O público presente à Mohegan Sun Arena, que já estava vibrando, enloqueceu de vez. Numa blitz feroz, o descendente de irlandeses largou couro na linha de cintura de Gatti. O ítalo-canadense tentou resistir, mas Ward estava insano. Três uppers depois, Gatti ajoelha na lona. A expressão de dor em sua face é comovente. Somente aqueles 15 segundos garantiriam que Gatti iria urinar sangue por uma semana.

Então, meus amigos e minhas amigas, o que aconteceu pelos 165 segundos posteriores é até difícil de descrever. Gatti e Ward se engajaram numa troca de socos doentia. Ward caçou o adversário mandando bombas. Sabe-se lá como, Arturo não caiu. Talvez possuído por uma entidade paranormal, Gatti não só não caiu como encontrou forças para devolver fogo cerrado. Ward era o adversário sob medida. Na verdade, eles foram feitos um para o outro.

Ward era um honesto brigador, no melhor estilo Rocky Balboa. Embora não fosse um artista como Apollo Creed, Gatti era mais talentoso, mais técnico. Porém, ele estava sempre a uma centelha de jogar tudo pelos ares e mergulhar na pancadaria franca. Ward acionou essa centelha.

Gatti então mandou a defesa para os quintos dos infernos. A partir dali, era impossível assistir à luta sentado. Foi a vez de Arturo espancar Ward, que também não foi à lona por intervenção de outra entidade. Os deuses da luta definitivamente estavam se divertindo.

Quando Gatti parecia dar a última pá na cova para deitar o rival, foi a vez de Ward devolver fogo. Afinal, por que não? O árbitro Frank Cappuccino ainda separou os dois malucos para os últimos 30 segundos de anarquia. Ward e Gatti plantaram sobre a marca da Budweiser no centro do ringue e trocaram pau até o gongo salvar suas vidas. Enquanto os lutadores se arrastavam para seus córneres ao final do Round Nove, ouve-se a voz do saudoso Emanuel Steward: “Este é o round do século!” Ainda faltam 83 anos para acabar o século (98 naquela época), mas creio que ele estava certo. Quando Steward não estava certo?

Depois de quase se matarem por 30 rounds, Gatti e Ward estabeleceram uma bela relação. Após a primeira luta, foi detectado um cisto embaixo da caixa torácica de Gatti. “Eu chamo isso de nódulo Micky Ward”, disse Gatti à revista Esquire, levantando a camisa para mostrar o cisto. Ele teve também que colocar uma placa de platina na mão esquerda. Já o americano teve um tímpano perfurado na segunda luta e a visão permanentemente danificada na terceira.

O respeito provocado pelas guerras virou amizade. Ward se aposentou após a terceira luta e passou a integrar a equipe técnica de Gatti. Eles também viraram parceiros de golfe e de birita. Gatti morreu em 2009, em Pernambuco, sob circunstâncias misteriosas – sua esposa brasileira chegou a ser presa, mas foi liberada quando chegaram à conclusão que Arturo havia cometido suicídio.

No funeral de Gatti, Ward, segurando as lágrimas, deu uma pancada de leve no caixão e falou:

“Eu bati em você por último”.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.