O que não esperar do sistema de rankings do UFC

Por David William | 25/06/2013 18:00

“Uma luta que faça sentido”. Quantas vezes você já ouviu isso? Este parece ser o anseio de lutadores, treinadores, empresários e fãs de MMA. E, claro, se você questionar Dana White ou um de seus representantes, todos dirão que trata-se de um critério razoável, digno de menção. Mas em si mesmo, “luta que faça sentido” é um critério incompleto, sujeito a interpretações diversas, resultantes de análises subjetivas que, por natureza, são potencialmente polêmicas. Afinal, como definir o que é “fazer sentido”?

Como é do conhecimento de todos, em fevereiro de 2013, o UFC introduziu o seu sistema próprio de rankings. Foram convidados 90 membros da mídia para votar nos lutadores que cada um considerasse aptos para integrar o top 10 de cada categoria e também na listagem peso-por-peso.

Dana White reconhece que os rankings poderiam ser usados por interessados em certas lutas como instrumento de negociação e que isso inclusive não o incomodava, pois, se não fosse os rankings, os lutadores arrumariam outro instrumento. Sem dar muitos detalhes, foi assim que o UFC apresentou seu novo sistema.

Os matchmakers do UFC Joe Silva (esq.) e Sean Shelby são os responsáveis pelos casamentos de lutas (Foto: Heavy.com)

Os matchmakers do UFC Joe Silva (esq.) e Sean Shelby são os responsáveis pelos casamentos de lutas (Foto: Heavy.com)

O fator subjetividade está presente em todo o processo de definição de lutas, que é cíclico, pois alteram os rankings. Estes, por sua vez, podem influenciar as lutas futuras. Não foram estabelecidos critérios oficiais para serem utilizados pelos membros da mídia ou sequer divulgada uma metodologia de análise e sobretudo aplicação dos resultados dessa votação. Há apenas algumas regras sobre a elegibilidade dos lutadores.

Seria difícil acreditar que o UFC abriria mão do poder supremo de definir lutas, hierarquias de desafiantes a títulos e afins, confiando este ofício a uma interpretação objetiva dos resultados dos rankings. Aliás, Dana White se pronunciou diversas vezes para se mostrar contrário ao conceito dos rankings como ocorre em outros esportes e modalidades. Sendo assim, então por que o UFC criou um sistema de rankings próprio e qual o seu papel na organização? Teria Dana White mudado de idéia assim tão excepcionalmente?

A inexistência de um sistema de rankings no UFC foi até pouco tempo motivo de muito debate e reclamação, principalmente entre os que acreditam que a organização deveria promover aos lutadores uma ascensão lógica, legítima e concisa ao título de uma forma que isso ficasse claro para o público. Todavia, em uma de suas entrevistas antes da inauguração do novo sistema, Dana confirmou o que por muitas vezes já havia pontuado:

“Eu sempre promoverei as lutas que os fãs querem ver. Eu realmente acredito que esse é o meu trabalho: casar lutas que as pessoas querem assistir.”

O presidente do UFC admitiu que resistiu o quanto pôde à ideia dos rankings, a ponto de declarar que, independentemente da existência dos mesmos ou do que estes pudessem representar, ele sempre promoveria as lutas que os fãs quiserem assistir. Segundo Dana White, este princípio está acima da constatação de uma luta fazer sentido ou não. O dirigente citou o exemplo do combate entre Anderson Silva e Jon Jones, o qual os fãs aguardam ansiosamente e o UFC vem trabalhando para promover sem se importar com qualquer critério técnico que o justifique. Dana afirmou que sempre tentaria buscar um certo senso comum para suas decisões, mas que no final das contas, o que os fãs querem ver será o fator principal que definirá os combates.

Por essa razão, nomes como Urijah Faber, Frank Edgar, Nick Diaz e Chael Sonnen poderão surgir a qualquer momento para lutas de grande destaque ou até mesmo disputas de cinturão, independentemente da situação de cada um nos rankings ou até mesmo na organização. Isto vai acontecer por se tratar de lutadores extremamente populares e com grande apelo para a promoção de eventos, ainda que isso represente uma escandalosa furada de fila. Também é possível que o UFC priorize superlutas inusitadas (como Anderson Silva vs Roy Jones Jr), enquanto potenciais disputas de cinturão fundamentadas na realidade dos rankings recebam menor atenção (como Anderson Silva x Vitor Belfort 2).

A popularidade deixa Urijah Faber em posição confortável no cenário de disputas de cinturão no UFC

A popularidade deixa Urijah Faber em posição confortável no cenário de disputas de cinturão no UFC

Não se deve esperar mais do sistema de rankings do UFC do que a própria organização estabeleceu como seu propósito. Os rankings oferecem uma referência aos fãs casuais, aqueles que não são totalmente inteirados do dia a dia do esporte, que não acompanham com afinco a evolução dos carteis. Os rankings são bons para se ter um panorama da situação dos lutadores dentro da organização. Em certo sentido, auxilia lutadores e empresários em suas negociações contratuais, captação de patrocínios e demais ações comerciais. E, claro, registram e dão visibilidade aos lutadores que estão conquistando vitórias, brindando-os com uma posição que será útil na escalada ao título de alguma forma.

Dana White explicou que o sistema de rankings foi criado para ajudar na compreensão de quem quer acompanhar o UFC, uma vez que o público em geral já está acostumado a acompanhar outros esportes que possuem algum tipo de ranking ou tabela de classificação. Porém não é, de forma alguma, o critério que, via de regra, define os combates e as disputas de título. Não se deve colocar este tipo de expectativa sobre os rankings do UFC.

O MMA se tornou um esporte tremendamente prestigiado em todo o mundo e o UFC não só contribuiu para isto como também tem aproveitado para transformá-lo continuamente em um extraordinário espetáculo. Tal status de show traz consigo suas demandas. O lutador agora não pode se preocupar apenas em lutar bem. É necessário desenvolver habilidades de microfone, cuidar da imagem, conquistar a simpatia do público e saber promover suas lutas. Popularidade é uma moeda forte no MMA e isto supera qualquer análise de posições no sistema de rankings.