O que falta a Rafael Cordeiro?

Por Alexandre Matos | 15/06/2015 15:24

No último sábado, na luta principal do UFC 188, Fabricio Werdum teve a mais sensacional atuação de sua carreira e se estabeleceu não só como um derrubador de mitos, mas como um dos maiores pesos pesados de todos os tempos.

A coroação definitiva do gaúcho, que já era campeão interino do UFC desde novembro, completou um serviço de reconstrução que começou há alguns anos, quando ele tentava se recuperar e definir um rumo na carreira após sofrer um violento nocaute para o então estreante Junior Cigano. O resultado fez com que o “Vai Cavalo” não aceitasse a proposta de renovação feita pelo UFC e optasse pelo Strikeforce.

Quando viu Cain Velasquez mergulhar em suas pernas e cair numa guilhotina tantas vezes executada, Werdum abriu um sorriso, numa das cenas mais marcantes da história do MMA. Ele sabia que a parada estava definida e era só questão de Velasquez batucar – ou dormir. O americano de raízes mexicanas bateu e entregou o cinturão ao brasileiro. Só o jiu-jítsu salva? Nada disso.

A arte suave fez Werdum ganhar fama no mundo, com títulos mundiais de pano e no ADCC, sem quimono. Ela foi a ferramenta que concluiu as três vitórias mais representativas da carreira de Fabricio, a saber: o triângulo em Fedor Emelianenko, a chave de braço em Rodrigo Minotauro e a guilhotina em Velasquez. Porém, contra este último, o jiu-jítsu foi circunstancial. O aspecto que realmente deu a vitória a Werdum sobre Velasquez foi o muay thai brilhantemente desenvolvido por Rafael Cordeiro, líder da Kings MMA.

O treinador Rafael Cordeiro tem papel fundamental na evolução do jogo de Fabricio Werdum (Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC)

O treinador Rafael Cordeiro tem papel fundamental na evolução do jogo de Fabricio Werdum (Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC)

Voltemos no tempo. Ainda como treinador de muay thai na Chute Boxe, sob o comando do head coach Rudimar Fedrigo, Cordeiro fez de Wanderlei Silva o campeão mais dominante da história do PRIDE e o recordista de vitórias por nocaute da extinta organização japonesa, a principal do mundo na década passada. A arma mais valiosa do “Cachorro Louco” sempre foi o muay thai.

Rafael tem também papel importante na construção do arsenal ofensivo de Anderson Silva, considerado o trocador mais genial da história do MMA por muitos analistas – até hoje o “Spider” dá uns treinos em Huntington Beach com o antigo mestre. Do mesmo modo, Cordeiro desenvolveu a máquina de destruição Cristiane Cyborg.

A lista de pupilos famosos é grande e chegou ao ápice com Maurício Shogun, um jovem curitibano transformado no maior meio-pesado de todos os tempos até o surgimento de Jon Jones. Sob a batuta direta ou indireta de Cordeiro, Shogun venceu um GP antológico no PRIDE e resolveu o enigma Lyoto Machida na conquista do cinturão do UFC.

Entre a falência do PRIDE e o crescimento do UFC como o novo centro do MMA mundial, Cordeiro deixou a Chute Boxe e seguiu seu caminho na Califórnia, fundando a Kings MMA e passando do posto de treinador de muay thai para técnico principal de MMA. Os resultados foram (e estão sendo) assombrosos.

Cordeiro novamente tem dois campeões na maior organização do mundo. Entre 2005 e 2007, Shogun venceu o GP do PRIDE e Wand manteve o cinturão conquistado em 2001. Dez anos depois, Werdum e Rafael dos Anjos são campeões lineares do UFC, conquistas obtidas em atuações fenomenais e com fundamental colaboração do técnico.

Fabricio Werdum e Rafael dos Anjos exibem seus cinturões do UFC

Fabricio Werdum e Rafael dos Anjos exibem seus cinturões do UFC

Em 2008, quando deixou o UFC, Werdum era um jiu-jiteiro de elite, mas que ninguém apostaria que chegaria longe por não se atualizar. No mês seguinte à saída de Fabricio, Dos Anjos estreou no octógono, também com o jiu-jítsu como carro-chefe e igualmente sem confiança em futuro brilhante por conta da ineficiência em outras áreas.

O tempo passou. Rafael dos Anjos perdeu as duas primeiras lutas e percebeu que precisava mudar. Aproveitou uma parceria entre Roberto Gordo, seu treinador de jiu-jítsu, e a Evolve MMA, equipe repleta de campeões de muay thai, e se mandou para Cingapura para evoluir na arte tailandesa. Em seguida, se juntou a Rafael Cordeiro e se fixou na Kings MMA.

Dos Anjos entrou numa das mais inacreditáveis sequências de resultados e evolução que o MMA já viu. Desde o nocaute sobre George Sotiropoulos, o primeiro da carreira, Rafael venceu 9 de 11 lutas. As duas derrotas, vejam só, aconteceram contra os dois adversários (Gleison Tibau e Khabib Nurmagomedov) que o suplantaram na luta agarrada.

Enquanto isso, o muay thai foi o responsável pelas atuações magistrais sobre Donald Cerrone, Ben Henderson, Nate Diaz e, a mais surpreendente, Anthony Pettis. Nesta última, inclusive, Rafael não só se tornou o primeiro brasileiro campeão dos leves no UFC como se consolidou definitivamente como lutador completo. Os tempos de unidimensionalidade estavam esquecidos no passado.

Werdum traçou caminho bem semelhante. São 9 vitórias nas últimas 10 apresentações desde a saída do UFC, em outubro de 2008. A única derrota, aliás, só aconteceu porque o gaúcho não tinha a confiança de hoje. Contra o campeão do K-1 Alistair Overeem, pelo torneio dos pesados feito pelo Strikeforce, Werdum era melhor na troca de golpes em pé, mas insistiu em se jogar no chão, implorando para que o inglês naturalizado holandês mergulhasse em sua guarda. Tivesse optado por seguir em pé e provavelmente Werdum estaria com 10 vitórias consecutivas.

Desde aquele 18 de junho de 2011 até o último 13 de junho de 2015, a única vez que os fãs lembraram da origem de Werdum foi na final do TUF Brasil 2, quando ele passeou no chão e finalizou Minotauro, seu concorrente como treinador do reality show. Porém, o desfecho foi possível graças ao desgaste que Werdum submeteu o adversário num trabalho excelente de thai clinch na grade.

Campeão de jiu-jítsu nocauteia campeão do K-1 usando o muay thai

Campeão de jiu-jítsu nocauteia campeão do K-1 usando o muay thai

Em novembro de 2014, Werdum conseguiu o que não fez no Strikeforce: nocauteou um campeão do K-1. Num movimento que só lutadores completos conseguem, Fabricio fintou uma entrada nas pernas de Mark Hunt e emendou com uma joelhada assinada por Rafael Cordeiro. O “Super Samoano” foi à lona e a bateria de socos no ground and pound deu o título interino ao brasileiro e o colocou definitivamente no caminho de Velasquez.

A maior conquista da carreira de Werdum ficará marcada pela guilhotina sorridente. Porém, não foi o jiu-jítsu que garantiu a vitória. Quando mergulhou no double-leg e ficou preso no estrangulamento, Velasquez já estava vencido. A circunstância fez o mundo relembrar que se trata do melhor jiu-jiteiro da categoria, mas foi o muay thai de Rafael Cordeiro que levou Werdum ao triunfo, assim como aconteceu em todas as lutas desde o seu retorno ao UFC.

Combinações em um volume que não deixou Cain à vontade em momento algum da luta. Jabs que entraram como britadeira, chutes baixos que desestabilizaram o equilíbrio do wrestler, joelhadas que desfiguraram o rosto do agora ex-campeão, thai clinch que dizimou o gás do sujeito que virou um monstro exatamente por este aspecto. Um título com a assinatura de Rafael Cordeiro, assim como tinham sido as conquistas de Wand, Shogun e Dos Anjos.

Tanto Werdum quanto Dos Anjos conquistaram seus cinturões cercados de dúvidas. Os dois eram azarões por ampla margem. Natural, afinal, não fazia muito tempo que eles eram considerados apenas mais um por aí. Dois “mais um” que chocaram o mundo. Dois “mais um” transformados em melhores do mundo pelo melhor técnico do mundo.

Alguns reclamam que falta a Cordeiro um prêmio para coroar sua carreira. Os resultados, porém, colocam o nome do paranaense como forte candidato a maior técnico da história do MMA. Se recuperar (mais uma vez) a carreira de Shogun, que voltou a treinar com ele, talvez seja hora de juntar Rafael Cordeiro a Bernardinho como os maiores treinadores da história do esporte brasileiro.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.