O que Aaron Pico e Zach Freeman nos ensinaram para Mayweather vs. McGregor?

Por João Gabriel Gelli | 01/07/2017 11:03

O grandioso Madison Square Garden, em Nova York, serviu como palco no último sábado para o Bellator NYC, maior evento que a segunda principal organização do MMA já montou. A ocasião de tamanha proporção marcou a aguardada estreia do super prospecto Aaron Pico. Porém, o investimento promocional do Bellator não surtiu o efeito imaginado de imediato, pois Zach Freeman tratou de finalizar Pico em 24 segundos, após um knockdown.

Agora você deve estar se perguntando: “O que diabos Freeman e Pico têm a ver com o badalado combate entre Floyd Mayweather e Conor McGregor?”

A explicação vem de uma declaração que Freeman deu ao programa MMAjunkie Radio, nesta semana, para comentar sua vitória no Bellator NYC.

“Eu acho que há muito o que aprender com essa luta (entre Mayweather e McGregor). As pessoas querem descartar o McGregor. É uma luta. Basta um soco para mudar tudo. Assim como o meu uppercut. Ele mudou tudo.”

É verdade que qualquer um que entre numa luta terá a chance de acertar um soco e conseguir a vitória. Entretanto, a história já mostrou que a probabilidade disso acontecer quando falamos de competição no mais elevado nível é ínfima. Por mais que Freeman esteja correto em afirmar que há muito o que aprender no muito antecipado confronto entre Mayweather e McGregor, ele está em equivocado no que diz respeito à conclusão que é possível tirar.

Desde que os primeiros rumores da luta entre Mayweather e McGregor surgiram, a visão quase unânime é de que o multicampeão de boxe não terá dificuldade alguma contra o campeão de MMA. Como já foi dito diversas vezes aqui no MMA Brasil, Floyd superou a elite do boxe em diversas categorias de peso e é amplamente considerado como um dos melhores de todos os tempos em um esporte de história muito rica e sesquicentenária. Por outro lado, Conor conseguiu um feito inédito no UFC ao conquistar cinturões simultâneos de duas categorias e partiu para aproveitar a grande chance de faturar um pagamento obsceno, de uma ordem de grandeza impensável até pouco tempo atrás. Tamanha confiança em uma vitória de Mayweather vem justamente da sua qualidade superior como boxeador, mas outro fator parece tão relevante quanto para o seu favoritismo.

Um dos aspectos mais comentados após a zebra do Bellator NYC foi como o matchmaker Rich Chou tinha errado ao escalar um estreante para duelar contra um oponente que já contava com dez lutas em seu cartel, um retrospecto digno (8-2) e uma disputa de cinturão na RFA na bagagem. Apesar de Freeman não ser o lutador de MMA mais talentoso do mundo, sua experiência permitiu com que aprendesse na prática algumas das abordagens que podem ter sucesso em um combate da modalidade. Enquanto isso, Pico, com todas as suas credenciais no wrestling e no boxe, não tinha passado por essas situações na prática, num combate profissional, o que lhe colocava com uma desvantagem clara e que acabou sendo determinante para o resultado final.

Fica fácil dizer, após o desenrolar da situação, que o Bellator deveria ter sido mais conservador ao agendar a estreia de Pico, colocando-o para enfrentar alguém num ponto de desenvolvimento da carreira semelhante ou de qualidade mais duvidosa. Porém, nada impede que o prospecto deixe essa derrota para trás, emende uma sequência de vitórias e mostre que realmente é o grande lutador que se esperava, como foram os casos por exemplo de Cris Cyborg e Renan Barão, apenas para citar alguns exemplos de atletas que foram derrotados em suas estreias profissionais no MMA, mas que se tornaram dos melhores do mundo.

Traçando um paralelo entre Freeman vs. Pico e #MayMac, é possível notar uma semelhança gritante. Ambos os embates envolvem um veterano encarando um estreante na modalidade. Enquanto Pico fez sua primeira luta de MMA, McGregor fará seu primeiro combate de boxe. Do outro lado, Freeman tinha dez lutas na carreira e Mayweather, “modestos” 49 duelos no currículo. Todos com vitórias e mais da metade deles valendo títulos mundiais.

Esta comparação serve para mostrar o tamanho da enrascada na qual o irlandês está metido, sem sequer considerar a qualidade de seu adversário. O valor da experiência é o ponto central deste artigo e é um aspecto de grande importância na avaliação de qualquer tipo de luta. A experiência tem um efeito exponencial quando se trata de um estreante encarando um veterano – até gênios do esporte, como Vasyl Lomachenko, tiveram problemas no começo de suas carreiras ao enfrentarem concorrência de nível qualificado e com um número muito superior de lutas na bagagem.

Dessa forma, o que Freeman realmente nos ensinou, ao contrário do que o próprio imagina, é que as chances de Conor McGregor são mínimas justamente por nunca ter pisado em um ringue para um duelo profissional e não conhecer seus famosos “atalhos”. Some a isso o fato de Floyd Mayweather ser um fora de série, dono de um dos melhores sistemas defensivos da história do boxe e de retrospecto irretocável contra a elite da modalidade e uma vitória do irlandês se aproxima cada vez mais do território das maiores zebras de todos os tempos.

Quem diria que, involuntariamente, Zach Freeman e um de seus combates no MMA nos ensinaria tanto sobre uma luta de boxe?

Matchmaker do MMA Brasil, fanático por esportes, mesmo sem botá-los em grande prática. Fã de MMA, NFL, estudante de Engenharia e viciado em séries.