Por Alexandre Matos | 22/05/2019 15:48

A origem do boxe é muito antiga. Tão antiga que não há uma definição exata do começo, apenas indícios de que o esporte era praticado na Grécia Antiga, durante os Jogos Olímpicos da Antiguidade, pelo menos oito séculos antes de Cristo. No século IV, durante o período do Império Romano, o boxe foi proibido por excesso de brutalidade (risos para quem vetou o boxe por brutalidade para apoiar a “suave” luta de gladiadores). O esporte voltou apenas entre os séculos XVI e XVII, em Londres.

Em seu retorno, o boxe ficou conhecido como London Prizefighting ou bare-knuckle boxing (algo como boxe de mãos nuas), o que alguns infelizes estão trazendo de volta à tona, em pleno século XXI. Como se pode ver, a Inglaterra desempenhou papel fundamental na evolução, desde as regras escritas por Jack Broughton, em 1743, passando pelas London Prize Ring Rules, de 1838, chegando às Regras do Marquês de Queensberry, de 1867, pacote que deu origem às Regras Unificadas do Boxe e ao Muhammad Ali Boxing Reform Act, conjunto de regras que regem a nobre arte nos dias de hoje.

O boxe era duro quando o inglês Tom Cribb venceu o ex-escravo americano Tom "The Moor" Molineaux em 35 rounds para se tornar campeão mundial em 1810

O boxe era duro quando o inglês Tom Cribb venceu o ex-escravo americano Tom “The Moor” Molineaux em 35 rounds para se tornar campeão mundial em 1810

Esta rápida história de introdução foi apenas para explicar porque as comunidades de luta chamam o boxe de “boxe inglês”, o que dá uma ideia da importância da Terra da Rainha na nobre arte. No entanto, apesar do peso histórico, o Reino Unido sempre teve dificuldade de exercer alguma hegemonia no boxe, assim como, aliás, acontece em outros esportes inventados por eles, como o futebol, o tênis e o rúgbi, por exemplo. Pelo visto, parece que o jogo está virando.

A Era de Ouro com diversos campeões mundiais e futuras estrelas

O boxe no Reino Unido está vivendo uma Era de Ouro já há alguns anos. Nunca houve tantos campeões mundiais britânicos em época alguma da história da modalidade como de poucos anos para cá (confira nossa lista de Campeões Mundiais de Boxe da atualidade). Nunca houve uma quantidade tão grande de canais de televisão exibindo boxe na ilha. O público presente às arenas cresce a cada ano, chegando ao maior público esportivo da história do Estádio de Wembley para o duelo entre Anthony Joshua e Wladimir Klitschko, em 2017, que bateu o recorde anterior, também de uma luta de boxe, entre os britânicos Carl Froch e George Groves, que aconteceu em 2014.

A Era de Ouro do boxe britânico colocou o Reino Unido entre os Estados Unidos e o México, as principais nações do boxe mundial ao longo das últimas décadas. Contando com os títulos interinos, atualmente existem 24 campeões mundiais americanos, somando os títulos da WBA (Associação Mundial de Boxe), WBC (Conselho Mundial de Boxe), IBF (Federação Internacional de Boxe) e WBO (Organização Mundial de Boxe); oito britânicos, sete mexicanos e seis japoneses. Quando retiramos os interinos da contagem, temos 21 americanos, sete ingleses, sete mexicanos e cinco japoneses.

Para se ter uma ideia, os países que formavam a antiga União Soviética contam com nove campeões mundiais (com lutadores do Cazaquistão, Rússia e Ucrânia). A América Latina (sem o México), um tradicional reduto de campeões das categorias mais leves, somam apenas quatro (Venezuela, Argentina, Porto Rico e Nicarágua). Há pouco menos de dois anos, a diferença que os Estados Unidos colocavam na dianteira era de menos de cinco cinturões. Neste tempo, a Inglaterra perdeu campeões como Tyson Fury, Tony Bellew, Anthony Crolla, Carl Frampton e Ricky Burns, por exemplo.

É insuficiente dizer que a profusão de entidades sancionando títulos mundiais em 17 categorias de peso fez este número crescer. O quadro inchado já vem desde os anos 1990, com a criação e crescimento da WBO desde 1988. Neste intervalo de 30 anos, o boxe britânico nunca havia chegado ao patamar atual. O ponto máximo tinha acontecido em 2007, com os cruzadores David Haye e Enzo Maccarinelli, o meio-pesado Clinton Woods, o supermédio Joe Calzaghe, o meio-médio Junior Witter e o superleve Gavin Rees.

Callum Smith é o supermédio número um do mundo na atualidade

Callum Smith é o supermédio número um do mundo na atualidade

O quadro britânico chegou a dobrar em dez anos, dos seis campeões de 2007 para os 12 de 2017. No peso pesado, Anthony Joshua reina em três organizações e tem o compatriota Tyson Fury tentando se recuperar. Há ainda Callum Smith, Billy Joe Sauders e Joe Ryder cercando Canelo Álvarez no peso supermédio; Josh Taylor, no vácuo deixado por Terence Crawford no superleve; Josh Warrington, no peso pena; Khalid Yafai, no supermosca e Charlie Edwards, no peso mosca. São seis categorias com britânicos no topo, como era em 2007, mas com mais campeões.

Ainda há diversos britânicos rondando os donos de cinturões ou com belas possibilidades de futuro, como o vice-campeão olímpico de 2016 Joe Joyce, no peso pesado. Lawrence Okolie desponta entre os cruzadores como campeão europeu; Anthony Yarde, próximo desafiante de Sergey Kovalev nos meios-pesados; Josh Kelly, campeão internacional da WBA no meio-médio; Josh Taylor, o campeão olímpico de 2012 Luke Campbell e Jack Catterall, número um da WBO, no superleve; o ex-campeão dos penas Lee Selby, nos leves; Sam Bowen, campeão intercontinental dos superpenas pela WBO; Abdul-Bari Awad, o “Kid Galahad“, que cumpriu suspensão de doping e vai desafiar o compatriota Josh Warrington, no peso pena; e Isaac Dogboe, que subiu ao pena depois de perder o cinturão dos supergalos. Um cenário fantástico, que pode fazer os súditos de Elizabeth sonharem em um dia desbancar os americanos da ponta.

O efeito olímpico e o apoio da TV acelerando a evolução do boxe britânico

Ter sido agraciado como sede dos Jogos Olímpicos de 2012 disparou uma série de investimentos que fez do Reino Unido uma das principais potências esportivas da atualidade. Londres foi escolhida em 2005, um ano depois de o país ter terminado em décimo no quadro de medalhas de Atenas, mesmo resultado de Sydney, quatro anos antes.

Como consequência, as 30 medalhas de 2004 (9-9-12) viraram 47 em 2008 (19-13-15), deixando o Reino Unido em 4º no quadro geral; 65 em casa (29-17-19), rendendo a terceira colocação geral; e 67 no Rio de Janeiro (27-23-17), o que valeu a incrível vice-liderança, à frente da poderosa China. Não só o número de medalhas e as posições subiram, como o total de medalhas de ouro se tornou maior que as de prata e de bronze.

O boxe acompanhou esse crescimento, saindo da prata solitária de 2004 para um ouro e dois bronzes, em 2008; três ouros, uma prata e um bronze, em 2012; um ouro, uma prata e um bronze, em 2016. Dos campeões dos últimos três Jogos Olímpicos, Joshua e Daniel DeGale já conquistaram títulos mundiais profissionais, enquanto Luke Campbell desafiou o cinturão dos leves.

A TV desempenha papel fundamental nesta evolução. Hoje há a BoxNation, afiliada da Boxing Channel Media, inteiramente dedicada à nobre arte, além da ITV, do Channel 5 e da Eurosport levando o boxe consistentemente para os britânicos, dando maior exposição aos lutadores, facilitando a tarefa dos promotores de investir em carreiras e em criar oportunidades. Até mesmo a Sky Sports, que andou rejeitando o boxe, hoje tem na modalidade o carro-chefe de sua programação no país. O Brasil tem os canais SporTV, ESPN, FOX Sports e BandSports exibindo boxe, mas sem a regularidade e muito menos o apoio ao esporte visto nas redes britânicas. Para piorar, ainda perdeu o Esporte Interativo.

Esta sinergia de investimentos e transmissão reflete nos públicos – de acordo com alguns promotores ingleses, o faturamento com bilheteria bate 70% do dinheiro envolvido num evento, com 30% proveniente das televisões, fora o pay-per-view. O ponto de virada aconteceu quando Carl Froch surpreendeu Lucien Bute e conquistou o cinturão mundial dos supermédios, em 2012. O “Cobra” alcançou tamanha popularidade local que, na revanche com George Groves, levou 80 mil fãs ao Estádio de Wembley, num combate que rendeu 22 milhões de libras esterlinas de renda (ingresso médio a 275 libras, o que equivale a pouco mais de 1.400 reais) e vendeu 900 mil pacotes de pay-per-view no Reino Unido, gerando mais 15 milhões de libras.

A evolução do trabalho no mercado interno culminou nos incríveis 90 mil presentes a Joshua-Klitschko, que ainda estabeleceu o recorde britânico de venda de pay-per-view, que era de 1,5 milhão de pacotes para Floyd Mayweather vs. Manny Pacquiao. Para efeito de comparação, durante seu auge, o superastro filipino atraiu 83.577 torcedores quando atuou duas vezes seguidas no Cowboys Stadium, nas lutas contra Joshua Clottey e Antonio Margarito. Ah, esqueci de frisar: foram 83.577 somando os dois públicos.

Lotar estádios e ginásios pelo país tem sido a base encontrada pelos promotores britânicos para catapultar o boxe no Reino Unido. Além da atmosfera no local, que faz com que quem pagou ingresso queira voltar e ainda convencer quem não foi, o visual numa transmissão de TV cativa qualquer um – quem não se emocionou com Wembley lotado para Joshua-Klitschko? O dinheiro arrecadado permite que os promotores tragam ao país lutadores internacionais de ponta para disputas de títulos mundiais, além de melhorar as bolsas de seus compatriotas.

Enquanto isso, a TV brasileira vai na contramão, aguçando a lamentável característica de nação monoesportiva que o Brasil tem. O futebol toma cada vez mais espaço nas programações, numa atitude de quem tem medo de apostar e deixa a audiência decidir. Como resultado, intermináveis programas de discussões futebolísticas, jogos de séries inferiores estaduais, de campeonatos de pouca expressão e até canal ignorando outros esportes. Neste cenário, sabe quando o Brasil dará um passo parecido com o Reino Unido? Nunca.

A base do investimento parece com o Brasil, mas a execução…

Não existe milagre. Após o fiasco britânico nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, quando ficou em 36º lugar no quadro geral de medalhas, atrás até do Brasil, o então primeiro-ministro John Major começou um programa de incentivo ao esporte, que ganhou novos ares depois que a capital do reino foi indicada como sede olímpica. O governo dividiu o esporte britânico em duas frentes de apoio, uma para o alto rendimento, visando resultados em competições internacionais, e outra para a base. A primeira frente recebeu o aporte financeiro de loterias e de incentivos à iniciativa privada, com uma política de meritocracia para as modalidades que obtêm melhores resultados, exatamente o mesmo modelo que o Brasil implementa (ou implementava, sabe-se lá o que será disso após a dissolução do Ministério dos Esportes). A segunda frente, bem mais ampla, é mais voltada ao bem-estar comunitário, mas que pode acabar revelando talentos para o primeiro grupo. Aqui há um abismo na comparação com o Brasil.

Se o plano britânico na elite parece com o brasileiro, por que não conseguimos uma fração da evolução deles? Bom, pelo que vemos dia sim, outro também, no noticiário, o gerenciamento da verba aqui não é tão sério e transparente como lá. Em segundo lugar, não há a mesma parceria com escolas e universidades, que são os locais mais óbvios para garimpar talento. A iniciativa privada também não se sente à vontade de investir num país confuso e corrupto como o Brasil, onde escândalos envolvendo confederações esportivas pululam aos montes e onde os veículos de comunicação de massa costumam boicotar os investidores que não lhes pagam. Com o dinheiro entrando, as federações britânicas investiram em centros e metodologias de treinamento, tecnologia esportiva, alimentação – e o boxe no Reino Unido hoje é elite nestes campos. O Brasil também diz que fez isso, mas quanto não foi desviado para onde não deveria?

Anthony Joshua deve ser a estrela que faltava

Neste cenário, faltava um expoente de popularidade para alçar o boxe britânico ao topo. Não falta mais. Anthony Joshua é um poço de carisma, tem um estilo de luta que agrada os fãs e passou com louvor em seu batismo de fogo contra Klitschko, no confronto que é apontado como o catalisador para a ressurreição da mais nobre categoria do boxe.

Anthony Joshua enloqueceu os fãs de boxe ao bater Wladimir Klitschko em Wembley

Anthony Joshua enloqueceu os fãs de boxe ao bater Wladimir Klitschko em Wembley

Joshua provavelmente vai superar Ricky Hatton, o mais popular boxeador da região da história, e fincar a bandeira do boxe britânico definitivamente no topo. Aliás, não é à toa que, 12 anos depois da inesquecível vitória de Hatton sobre Kostya Tszyu, Manchester produziu outros campeões como Fury, Crolla e Terry Flanagan, que eram adolescentes na época de Hatton-Tszyu.

O Reino Unido hoje possui um número enorme de academias de boxe amador. Provavelmente deve-se encontrar pôsteres de Joshua na grande maioria delas. Com mais duas vitórias específicas, numa unificação contra Deontay Wilder e um encontro de proporções bíblicas com Tyson Fury, Joshua pode até tirar de Canelo Álvarez o posto de lutador mais popular do mundo na atualidade. Então o boxe britânico terá chegado ao apogeu.