Por Rodrigo Rojas | 29/02/2020 12:45

Na sexta-feira, a falha de Deiveson Figueiredo na balança reacendeu um dos maiores debates que cercam o MMA: o corte de peso. O brasileiro juntou-se a Yoel Romero e Travis Lutter ao não bater o peso ante uma disputa de cinturão, perdendo a chance de conquistar o título. Com o debate em voga, diversas opiniões sobre o assunto surgiram, além de inúmeras questões sobre como resolver o problema que assola nosso esporte. Aqui, não pretendo solucionar a questão. Na verdade, o intuito é levantar mais perguntas do que respostas, instigando o debate.

As divisões de peso foram implementadas no UFC 12, em 1997. Na ocasião, os lutadores foram divididos em duas categorias de peso: leve e pesado, até 200 lbs e acima. O intuito da separação era evitar injustiças nos casamentos de luta devido à disparidade de tamanho entre lutadores, como na bizarra disputa entre Daiju Takase e Emmanuel Yarborough. Em 2000, as Regras Unificadas do MMA trouxeram as divisões de peso como as conhecemos hoje, com 14 categorias distintas, desde o peso palha feminino (criado apenas em 2005) até o peso super-pesado (!), acima de 120 kg.

Entendendo porque as divisões de peso foram criadas, pode-se depreender que sua função original – o motivo de sua existência – é a de fazer com que apenas lutadores de tamanhos parecidos enfrentem-se, tornando as disputas mais justas. Assim, os lutadores deveriam escolher a categoria de peso mais próxima a seu peso natural e manter-se nela. Assim, encontrariam apenas adversários com um tamanho (ou, pelo menos, peso) parecido ao seu.

Porém, em um movimento natural e consequente da implementação das divisões de peso, em parte propulsionado pelos wrestlers, acostumados a fazer isso no colegial e na faculdade, os lutadores passaram a fazer cortes de peso, levando seu corpo ao limite, depletando-se, para depois recuperarem o peso. A ideia desse processo é lutar em uma categoria inferior ao seu peso real, supostamente obtendo uma vantagem de tamanho sobre o adversário.

O corte de peso, geralmente, passa por um processo de desidratação e depletação do corpo. O resultado disso são lutadores com físicos bastante fragilizados, muitas vezes diminuindo sua capacidade de absorção de golpes e sua resistência física. Portanto, a real proposta das categorias de peso foi subvertida, já que os lutadores acabam atingindo pesos totalmente não naturais na balança, muito distantes de seu peso normal. Um exemplo notório desse caso é o peso médio Paulo Borrachinha, que, em sua última luta, bateu 186 lbs na sexta-feira, e subiu no octógono com 214 lbs – superando, inclusive, o limite da categoria de cima, 205 lbs – , uma diferença de 15% em seu peso total. Isso causa inúmeros malefícios à saúde, tendo ocasionado, inclusive, mortes, sem contar os diversos casos de lutadores com atuações pífias causadas por um corte extenuante.

Mais recentemente, alguns lutadores fugiram à norma, mostrando que evitar o corte de peso pode ser benéfico. O melhor exemplo é o de Robert Whittaker, outrora um meio-médio regular que acabou subindo para os médios e conquistando o cinturão e emendando oito vitórias seguidas na divisão até 84kg. Dustin Poirier foi outro exemplo de lutador mediano – esse, na categoria dos penas – que, ao desistir do corte de peso, conquistou o cinturão (interino, é verdade) da categoria de cima. Ainda podemos citar Anthony Johnson, Thiago Marreta, Anthony Smith, Jorge Masvidal, Kelvin Gastelum, Conor McGregor, Daniel Cormier, e por aí vamos. Muitas vezes, desistir do corte de peso, que na verdade é prejudicial, pode alavancar a carreira de um lutador, revelando seus reais talentos.

Portanto, defendo que o problema do corte de peso, hoje, é causado por lutadores que buscam subverter a lógica das divisões de peso, tentando atingir um peso não natural para seus corpos em busca de uma vantagem imaginária. A solução, ainda que não seja prática ou viável no curto-médio prazo, seria mudar a mentalidade do esporte, levando-a de volta a seus primórdios, em que as categorias de peso intuíam dividir os lutadores por tamanhos parecidos. Admito que não tenho uma solução concreta, e busco apenas apresentar um panorama do problema.

Por isso, pergunto: o que você acha dos cortes de peso no MMA? Qual seria a solução para o problema? Dissertem nos comentários!