Por João Gabriel Gelli | 17/12/2020 16:30

Existem lutadores melhores no UFC. Contudo, poucos têm histórias mais interessantes que a de Marlon “Chito” Vera.

Vera estreou como profissional em 2012 e em dois anos acumulou um cartel de 6-1-1 no circuito latino-americano. Isto fez com que conseguisse uma vaga na primeira temporada do The Ultimate Fighter: América Latina. No programa, ficou no time de Fabrício Werdum e foi o primeiro de apenas dois lutadores da equipe a vencer uma luta na competição. Todavia, uma infecção na pele fez com que não pudesse atuar na semifinal.

Marlon Vera (Foto: Jason Silva/MMA Brasil)

Marlon Vera (Foto: Jason Silva/MMA Brasil)

Ao longo da trajetória no reality show, Marlon compartilhou a história de sua filha. Ela sofria com uma doença rara chamada Síndrome de Moebius, que implica em uma paralisia de nervos cranianos. Consequentemente, seu rosto ficava sem expressões. Dessa forma, Chito declarava que seu objetivo era avançar no esporte, chegar ao UFC e assim ter condições de pagar a cirurgia que permitiria fazê-lo ver a filha sorrir.

Esse relato se mistura muito com a trajetória do equatoriano no UFC. Isto pode ser percebido em sua resiliência, no coração enorme e grande evolução. A motivação estava presente para avançar até nos momentos complicados. Mesmo após não poder terminar a participação no TUF, Vera recebeu a notícia de que teria uma chance no evento da final. O problema é que a atuação não foi boa e acabou superado pelo limitado Marco Beltrán. A expectativa era de que não teria vida longa na organização. Entretanto, recebeu outra chance, superou Roman Salazar e ainda levou um bônus de desempenho da noite.

A luta seguinte foi mais uma derrota diante de Davey Grant e o risco de demissão voltou a aparecer. Como sempre, Marlon respondeu bem e bateu Ning Guangyou no único de seus triunfos no UFC por decisão até hoje. Assim, iniciou sua primeira sequência de vitórias na organização. Ele foi o responsável por azedar a despedida de Brad Pickett do MMA ao aplicar um belo nocaute em um chute alto. No compromisso seguinte, uma finalização rápida sobre Brian Kelleher, que vinha em longa série positiva.

Dessa forma, recebeu a maior chance da carreira até aquele momento. Ele foi casado contra John Lineker em São Paulo. O duelo não teve o resultado desejado para o equatoriano, que saiu derrotado em decisão. Isto se repetiu na luta seguinte, contra Douglas D’Silva.

Em meio a uma situação de baixa esportiva, Chito conseguiu a melhor notícia da vida até aquele momento. A cirurgia de sua filha finalmente aconteceria em junho de 2018. O procedimento custava mais de US$ 40 mil e teve cerca de metade do valor custeado por meio de uma campanha de financiamento coletivo. O restante veio do esforço de Marlon ao longo da carreira, seu desenvolvimento e resultados. Em entrevista ao MMA Fighting, ele declarou:

Isso foi como um título que conquistei, foi uma vitória para mim. Agora estou focado em vencer 100% por mim e para proporcionar o melhor para ela.

Com essa mentalidade, Vera chegou ao UFC 227 com o psicológico alimentado pela felicidade de ver a filha sorrir e com a motivação de voltar a vencer. Este contexto iniciou a melhor fase de sua carreira. Foram cinco vitórias por interrupção em sequência. Apesar da concorrência não ter sido a mais forte, Chito mostrou evoluções, um instinto de definição apurado e sempre envolvido em lutas empolgantes.

Marlon Vera e sua filha Ana Paula. (Foto: Instagram/Reprodução)

A seguir, recebeu mais uma boa oportunidade para enfrentar o prospecto ascendente Song Yadong. Em um confronto premiado como o melhor do evento, sofreu mais um revés. No entanto, dessa vez o resultado foi controverso e muitos acreditaram que o equatoriano deveria ter o braço erguido ao final dos três rounds. Apesar do resultado negativo, teve mais uma chance relevante ao ser o adversário do então invicto Sean O’Malley no duelo coprincipal do UFC 252.

Na ocasião, Vera foi entrevistado pelo site oficial do UFC e falou sobre a necessidade de traçar novos objetivos.

No começo, era trazer minha família para cá [Estados Unidos]. Depois, mantê-los aqui. Em seguida, a cirurgia da minha filha e eu fiz isso. Muitas pessoas pensaram que depois da cirurgia eu iria me estabilizar porque essa era a coisa mais importante na minha vida. Não importa o que eu faça da vida, essa sempre será a coisa mais importante, porque foi pela minha filha, pela minha esposa, pelos meus outros filhos. Só de ver o sorriso no rosto dela, não existe preço para isso. Se aquela garota sorri, posso morrer amanhã, minha vida está feita. Só que eu não morreria porque sei que preciso continuar trabalhando por eles. Depois foi a casa, agora é terminar de pagar por ela e, em sequência, quando estiver paga, é o futuro dos meus filhos, as universidades, o que querem fazer, o que querem ser. Vou investir todo o tempo neles. Eu tenho planos. Existe mais além daqui, por isso estou tão faminto.

O esforço foi recompensado e Chito saiu vitorioso com um nocaute ainda no primeiro round. Agora, tem compromisso marcado contra José Aldo em mais uma luta coprincipal contra o maior nome que já enfrentou na carreira.

Toda a história de Vera é um conto de perseverança tanto na busca pelo melhor para a família quanto para cumprir os sonhos na carreira. Os dois aspectos se retroalimentam e geram uma trajetória que merece destaque. Nesse processo, Marlon passou de um lutador absurdamente limitado para um dos nomes mais empolgantes de uma das categorias mais divertidas do UFC. Além disso, realizou sonhos pessoais e segue colocando novos objetivos na mira.

E, o mais importante de tudo, Marlon Vera conseguiu ver a filha finalmente sorrir.