O futuro chegou?

Por Alexandre Matos | 17/05/2010 19:30

Em fevereiro e março do ano passado publicamos uma série de artigos fazendo um panorama da evolução do MMA. Dividimos a linha do tempo em quatro partes, desde a fase inicial (que chamamos de MMA versão beta), até uma perspectiva de futuro, batizada de MMA 3.0. Nesta “previsão” eu apontei um caminho que parecia apenas um sonho distante na época: colocar os campeões das principais organizações para se enfrentar em eventos com co-promoção, fazendo lutas de unificação de cinturões, como vemos no boxe. Fui criticado por alguns, mas tinha a convicção que o sonho era viável. E não é que, pouco mais de um ano depois, o sonho começa a ganhar contornos de realidade?

O Bellator Fighting Championship – sempre ele! – deu o pontapé inicial para o MMA 3.0 começar a brotar. Através de seu presidente Bjorn Rebney, a organização conversou com a maior estrela da companhia, o campeão dos pesos leves Eddie Alvarez (foto ao lado), 26 anos, dono de cartel profissional no MMA de 20 vitórias e 2 derrotas, que conquistou o cinturão ao vencer o torneio da temporada de estreia do Bellator, sobre uma luta contra Gilbert Melendez, dois anos mais velho, campeão unificado do Strikeforce na mesma categoria e que apresenta recorde profissional de 18 triunfos com as mesmas 2 derrotas. Alvarez se mostrou bastante empolgado e de pronto aceitou o desafio:

“Gilbert é um grande lutador, que está em uma grande fase neste momento. Este encontro é tudo o que os fãs querem ver e seria uma vergonha se não acontecer. Eu quero, Bjorn quer e me parece que Gilbert também quer. Se eu pudesse resumir meus pensamentos em quatro palavras, seriam: ‘Vamos fazer isto acontecer.”

Coube então ao presidente do Bellator a missão de convencer não só o lutador da organização rival, como o próprio presidente do Strikeforce, Scott Coker. A primeira parte foi fácil. Verdadeiro guerreiro que não foge ao combate, “El Niño” também ficou radiante com a possibilidade de mais esta unificação. Ele, que acabou de vencer Shinya Aoki, campeão do DREAM, em evento com co-promoção entre Strikeforce e M-1 Global, enxerga a luta como uma grande oportunidade para quem quer dar mais um passo rumo ao topo do ranking mundial dos penas (mesmo que este ranking não exista oficialmente):

“Eu acho que ele é um lutador maravilhoso e é por isso que quero enfrentar Eddie Alvarez. Vamos unificar estes títulos. Eu adoraria lutar contra este cara e me testar. Acho que, se eu posso vencê-lo, posso me tornar o número um. E vice-versa. Estou quase lá e quero provar isso.”

Faltava então a parte mais complexa, conversar com o outro lado interessado não só esportivamente, mas principalmente financeiramente no assunto. Sobre isso, Rebney disse:

“Como fã de MMA, em primeiro lugar, esta luta é fantástica e precisa que seja feita, merece ser vista. Gilbert tem o coração de um guerreiro, assim como nosso campeão Eddie. Eu farei tudo o que puder para dar a Gilbert o que ele pediu. Gilbert quer a luta, Eddie quer a luta e eu quero a luta. Tudo o que temos a fazer é sentar à mesa com Scott Coker e, juntos, fazer isso acontecer. Eddie quer lutar contra os melhores e Gilbert também quer enfrentar os melhores. Não há razão para que qualquer promotor ou rede fique no caminho disso.”

Coker na verdade já tinha concordado. Para ter Fedor Emelianenko em seu elenco, o chefão do Strikeforce precisou costurar um acordo com a M-1 Global, que é a detentora dos direitos do Last Emperor e de outros campeões do DREAM, que passaram também a lutar no Strikeforce. Além de Aoki, vimos Marius Zaromskis, campeão dos meio-médios da organização japonesa, enfrentar Nick Diaz e Gegard Mousasi, campeão dos médios, disputar com Renato Babalu (como meio-pesado) os respectivos cinturões na organização americana. Além destas unificações, Coker já havia liberado alguns atletas, como Rudy Bears, a competir no Bellator. Por outro lado, o CEO do Strikeforce tentou trazer Roger Huerta do Bellator também “por empréstimo”, mas não fechou acordo. Ainda assim Coker disse que “seria um prazer trabalhar com eles (do Bellator)”. Dann Stupp, editor-chefe do conceituado MMAjunkie.com, mostrou confiança em seu Twitter:


Está certo que o UFC tem uma fortíssima divisão até 70kg, onde desfilam o ex-campeão BJ Penn, o atual Frank Edgar, Kenny Florian, Gray Maynard, além do ex-campeão do PRIDE, Takanori Gomi. Mas, como eu havia dito mais de um ano atrás, esta divisão é a que contabiliza a maior quantidade de atletas talentosos fora do UFC. Esta grande luta entre Alvarez e Melendez pode chamar muita atenção da mídia e público, fazendo com que os irmãos Fertitta e Dana White começassem a pensar com carinho nesta possibilidade. O público adoraria ver Fedor Emelianenko enfrentar Brock Lesnar (ou Shane Carwin, não é?).

Alvarez, que venceu dez das últimas onze lutas, está de prontidão para fazer sua primeira defesa do cinturão do Bellator contra Toby Imada ou Pat Curran, que vão disputar a final do torneio dos leves da segunda temporada. Melendez, que venceu quatro das últimas cinco lutas e vingou suas duas únicas derrotas, defendeu seu cinturão contra Aoki.

Na verdade o Bellator dá mais uma prova que nasceu com o rosto virado para o futuro. Utilizando técnicas de marketing viral, lançando vídeos de nocautes e submissões espetaculares de modo gratuito no seu canal no YouTube, a organização consegue chamar atenção do grande público e da midia especializada. Mas nada disso seria possível sem talentos em ação. O Bellator apostou na garimpagem de atletas que tem tudo para se tornar estrelas do esporte, como já é o caso de Alvarez e possivelmente será de Patrício Pitbull, finalista do torneio dos penas da atual temporada.

Daqui do meu cantinho, só tenho que torcer para que as coisas continuem evoluindo neste sentido e que Alvarez e Melendez façam um grande duelo, com casa cheia e muitos pacotes de pay-per-view vendidos. Para o bem do esporte que mais cresce em todo o mundo.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.