O “freio de arrumação” que afeta o futuro do peso médio (e meio-médio) do UFC

Os sete primeiros meses do ano mexeram a fundo no peso médio do UFC e a categoria precisava de um "freio de arrumação" para colocar as coisas (e pessoas no lugar). O UFC On FOX 25 começou este trabalho.

Ter uma elite de alto nível, com vários lutadores em momentos dominantes, deixou a impressão incorreta em vários fãs que o peso médio do UFC seria a mais forte das categorias da organização líder do mercado mundial do MMA. Afinal, havia Luke Rockhold, Ronaldo Jacaré, Yoel Romero e, um pouco atrás, Gegard Mousasi, fazendo estragos em torno do reinado de Chris Weidman.

Este cenário escondia o fato de que o peso médio tinha problemas de renovação e que nunca foi possível comparar com o real equilíbrio de forças do peso leve, no qual o 20º do ranking pode ganhar do segundo, ou mesmo do meio-médio. Havia um espaço grande dentro mesmo do top 10 dos 84 quilos, entre os citados no primeiro parágrafo e quem vinha atrás deles. Hoje em dia, até mesmo o peso galo e o pena masculinos ultrapassaram o médio.

O MMA é um esporte maravilhoso porque muda a cada instante. Weidman foi destronado, entrou numa fase negativa de três derrotas seguidas e muita gente passou a duvidar de seu potencial. Rockhold foi ridiculamente deposto por um Michael Bisping ressurgido das cinzas. Os veteranos Jacaré e Romero tomaram choques de realidade de Robert Whittaker, o único real sopro de renovação na elite da divisão. Mousasi meteu o pé do UFC no momento mais agudo de sua carreira, quando finalmente desabrochou seu enorme talento e provavelmente seria apontado como o desafiante número um do cinturão unificado.

De repente, todo aquele cenário de poderio bélico virou pó. O peso médio passou de candidato a melhor categoria (o que nunca foi de verdade) para uma bagunça. Bisping é o campeão e Whittaker tem o cinturão interino porque o britânico quer fazer graça depois de ter passado a vida reclamando quando Anderson Silva fazia o mesmo. Numa categoria com uma elite tão forte, defender cinturão contra Dan Henderson e Georges St. Pierre chega a ser uma ofensa.

Bisping vs. GSP chegou até a ter coletiva de imprensa

Bisping vs. GSP chegou até a ter coletiva de imprensa

Em paralelo a isso tudo, Kelvin Gastelum se apresentou como mais um renovador, ao lado de Whittaker. O mais jovem vencedor do TUF (Whittaker é o segundo) é um sujeito muito talentoso e com muitos problemas para botar a cabeça no lugar. Ele foi “expulso” do peso meio-médio por Dana White após inúmeras falhas dantescas na pesagem. Como castigo, pensaram os chefes, ele vai tomar um susto no peso médio e volta com o rabo no meio das pernas. Só que o matchmaking oferecido apontou para outro lado. E enganou muita gente.

No peso médio, Gastelum enfrentou os quase quarentões Tim Kennedy e Vitor Belfort. Kennedy tinha 37 anos no dia da luta e não atuava havia dois anos e três meses. Belfort estava a um mês de completar 40 anos e era um rascunho de si próprio desde 2015, quando foi proibido de seguir com o TRT. As vitórias, obtidas não só pela juventude, mas pelo enorme talento de Gastelum, deixaram a impressão errada de que o garoto poderia ter sucesso na elite dos médios.

A luta contra Weidman – essa, sim, o “castigo” imaginado a Gastelum – serviu como um freio de arrumação, aquelas horas em que o motorista do ônibus lotado mete o pé no freio do nada, numa reta, e a rapaziada que estava aglomerada no coletivo se rearruma. Treze centímetros mais baixo, 15 a menos na envergadura, Gastelum viu a desvantagem física aumentar a vantagem técnica a favor de Weidman. Fora o final do primeiro assalto, o californiano foi dominado inclusive na troca de golpes em pé.

Chris Weidman não teve trabalho para fazer Kelvin Gastelum parecer um boneco de trapo no chão (Foto: UFC/Getty Images)

Chris Weidman não teve trabalho para fazer Kelvin Gastelum parecer um boneco de trapo no chão (Foto: UFC/Getty Images)

Weidman nem é fisicamente o maior peso médio da casa. Rockhold é mais alto, Romero é mais forte, Whittaker é mais rápido (e mais alto e forte que Gastelum). Provavelmente Kelvin seria derrotado por todos eles, como foi por Chris. A derrota deste sábado fez o garoto tomar a decisão mais sensata de sua carreira: mudar o estilo de vida e voltar ao peso meio-médio já no próximo compromisso. Contra oponentes menores, a vantagem física de Gastelum servirá como catalisador para uma vantagem técnica e ele poderá ser, para a categoria de baixo, o que Weidman foi para ele. No peso médio, Kelvin viraria porteiro do top 5. Um tremendo desperdício. No meio-médio, ele é material para ser campeão – o atual dono do cinturão, Tyron Woodley, cortou um dobrado para vencê-lo e, numa revanche, eu apostaria em Gastelum.

Contudo, o retorno de Gastelum ao meio-médio abre mais um buraco na categoria de cima. Com apenas uma vitória nas últimas quatro lutas, Weidman precisa mostrar mais serviço para voltar a se posicionar como candidato a desafiante. Rockhold foi escalado contra David Branch, matchmaking que o deixa, na teoria, pelo menos a mais um passo de uma chance pelo cinturão – ainda que o retrospecto dele possa encurtar essa distância em caso de espancamento sobre o ex-campeão do WSOF. Jacaré ficou para trás depois de ser atropelado por Whittaker. Romero até fez frente ao agora campeão interino, mas, aos 40 anos, é cada vez mais improvável que consiga êxito na próxima. Para o cubano, uma vitória de Bisping na unificação seria o melhor dos mundos.

Não só para acender a luz de alerta em Gastelum, a luta principal do UFC On FOX 25 serviu também para recuperar a imagem e a estima de Weidman como legítimo integrante da elite do peso médio. Como disse o aposentado meio-pesado Sean O’Connell, “essa questão de você ser apenas tão bom quanto a sua última luta às vezes nos engana”.

Confrontar Weidman com Jacaré agora parece interessante. Tiraria o perdedor do cenário e faria o vencedor se fortalecer. Porém, seria uma boa eliminatória? Caso Weidman vença, disputaria o cinturão com 2-3 no retrospecto recente? Bom, não seria o primeiro, né?

Teria sido melhor se o matchmaker Mick Maynard tivesse escalado Rockhold contra Romero, o que me parece a única eliminatória incontestável no momento. Rockhold tem contas a acertar com Bisping e Romero tem com o inglês e com Whittaker. Qualquer vencedor de Rockhold-Romero se encaixa com qualquer vencedor de Bisping-Whittaker sem precisar de malabarismos argumentativos. E Whittaker-Rockhold já me deixa ouriçado só de imaginar a possibilidade.

O freio de arrumação que o piloto deu espalhou a elite do peso médio pelo busão. Colocou gente sentada na janela, gente em pé aguardando vaga e gente na porta, esperando o próximo ponto para descer e pegar o outro coletivo. Agora fica mais fácil perceber quem é bom de verdade, quem fica pelo caminho, quem surge. A divisão precisa urgentemente se renovar, mas, antes disso, precisa organizar a sua elite. E precisa que o campeão respeite o posto que ocupa.

  • James sousa

    Outro problema é que fora do ufc (exceto o Mousasi) não tem ninguém pra chegar no UFC brigando com essa galera do topo

    • Miguel Fortunato

      McDonald

  • Gabriel Carvalho

    Eu até achava o peso médio uma baita categoria, até que comecei a olhar o que vinha subindo e não tinha nada de decente. Perder o Mousasi na situação atual foi um dos grandes erros da história do UFC.

    O meio-médio tomou três facadas com as saídas de MacDonald, Larkin e Story, mas vem se recompondo lentamente, principalmente com as subidas de nomes como Covington e Ponzinibbio, mas perder um MacDonald também não é nada inteligente.

  • Idonaldo Gomes Assis Filho

    Eu ainda boto fé que possa vir a ter alguns contenders interessantes, olhando meio por cima tem o Cara de Sapato, o cara que ganhou do Sapo, Marreta, Borrachinha, Giles… não são muitos, mas espero que esses ao menos tirem gente do tipo do Tim Boetsch e Uriah Travado Hall do ranking. Bacana a leitura, e talvez com o Whitaker se consolidando com o campeão vencendo o Bisping possa ter uma categoria bem melhor

    • Olha, o Sapato tem que melhorar bastante. Borrachinha, com esse sistema defensivo, não dura dois rounds na mão dos caras da elite. Marreta tem mais a percorrer ainda do que o Sapato, Mousasi já deixou claro.

      • Idonaldo Gomes Assis Filho

        Sim, tem muito a evoluir, mas ainda tem tempo, é o que nos resta pra chamar de prospect

  • Anderson Cachapuz

    “E precisa que o campeão respeite o posto que ocupa.”

    De tudo que foi citado, acho que essa é a parte mais difícil de acontecer. Bisping campeão é como um golfinho, que sobe, faz uma graça e cai de novo na água.

    • Nem é difícil porque eu acho que o reinado dele acaba na próxima luta.

  • Miguel Fortunato

    Whitaker e Rockhold são de elite e devem dominar essa categoria.

    • Tonny Varela

      Tbm acho

    • Sexto Empírico

      Weidman e Romero ainda estão no jogo. Eu queria era ver o Mussa nessa embolera. Torcia pra eke sre campeão.

      • Romero tá com 40 anos e deu sinais que tende a se foder em luta de 5 rounds.

        • Sexto Empírico

          Verdade, mas acho q q ainda rende em alto nível por mais um anito

    • E Weidman.

  • Lucas Santana

    É uma coisa que bato na tecla a uns anos, o peso-médio só tem dois caras abaixo de 30 anos no ranking( Jotko e Whittaker), chegando a perder até para o meio-pesado e pesado em que se encontra prospectos no ranking, mas também uma coisa que atrapalha no processo de renovação dessa categoria, é a distancia de qualidade da elite dos outros lutadores, dando uma falsa impressão que o Middleweight é acirrado(confrontos só entre tops, e o resto é praticamente confronto entre os plebeus).

    • Isso que eu sempre defendi, mas o pessoal só enxergava a elite. Cada vez que alguém dizia que o peso médio era melhor que o leve, morria um panda no Tibet.

  • Weslei Alvarenga

    Bisping conseguiu o que queria, despachou o Romero da reta dele e a própria categoria se arrumou, “Jogada da partida” ( só os fortes saberão ) total pro inglês.

    Eu devendo a tese que o Weidman deva subir de categoria, sejamos cinseros que vida dele de LHW é muito mais simples na corrida pelo cinturão do que ficar esperando pela unificação e ele já é um MITO só de ser da elite, fazendo sparring com o Villante durante toda a carreira, até aqui.

    Mesmo a 6 meses atrás quando tinha 5 caras embalados ( Whittaker, Romero, Jacaré, Moussasi e Gastelum ), nós já comentamos que tirando a elite o resto da categoria é nada e tinha falta de renovação. Agora muito bem colocado no texto, ficou escancarado por toda essa junção de acontecimentos.

    Além de swr um esporte onde o cenário são bem dinâmicos, devemos esperar as transformações do corte de peso causarão e se o UFC adicionará as novas categorias, porque terá muitas mudanças até o final de 2019.

    • Quem despachou o Romero da frente do Bisping foi o Whittaker hahaha

      Weidman faz sparring com o Stephen Thompson também.

      O problema do Weidman subir é que ainda tem Jones e Cormier por lá.

      Sim, muita coisa vai mudar em 2018-2019. Não vejo a hora.

  • Gabriel Fareli

    ” E precisa que o campeão respeite o posto que ocupa.”
    Já seria um baita resumo dessa categoria, se o texto só tivesse essa frase.

    Eu sou um dos que a pouco tempo atrás, achava que a categoria dos médios era uma das mais fortes, mas pelo visto era apenas um bom momento. Depois de Weidman destronado, Mousassi indo pro Bellator, Romero e Jacaré em baixa, creio que a categoria voltou ao seu normal. Acompanho MMA a pouco tempo, mas pelo meu pouco conhecimento, acho que essa categoria nunca foi uma das mais vastas ou fartas de talento. O periodo que o Anderson foi campeão, ele enfrentou nomes que até poderiam estar numa boa fase ou ser bons, mas ele enfrentou poucos acima da média, vide exemplos de Thales Leites, Marquardt, James Irvin, Sonnen (que o enfrentou mais pelo trash talk do que necessariamente pelo talento), Okami e outros mais.

    No momento temos um top 5 bem respeitavel, e um top 10 decente, tudo normal, tirando o fato de que diferente de anos anteriores, não temos um campeão acima da média.

    • A questão do peso médio nem era momento, mas sim pouca gente. A categoria dos leves é a mais forte porque tem um exército de cara de alto nível, possibilitando um sem-número de duelos equilibrados. Isso nunca aconteceu no peso médio. A história ali sempre ficou reservada a seis nomes, no máximo.

      Aí você pega Cain Velasquez, Fabricio Werdum, Stipe Miocic, Alistair Overeem, Junior Cigano e percebe que a parada no peso médio não era tããão melhor que a pior categoria. O peso médio tem uma elite forte (enfraquecida hoje em dia), um top 15 ok, um ou outro prospecto e o resto… resto.

  • Sexto Empírico

    Passando aqui pra dar um alô pro David. Seu trabalho é bárbaro, amigo. O Renato chutou meu ass lá do 6r, mas continuo lendo o site e seguindo cada traço seu. A propósito, a capa do livro do Alonso ficou show.

    Whitaker é o sopro q essa categoria precisa. Espero q Rockhold, Weidman e Romero voltem fortes. Essa categoria pertence a eles. Borrachinha vem por fora e pode ser surpresa pro ano q vem. Bisping tem q cair e Spider decidir o q quer da vida.

    • A capa do livro não é dele, mas as 25 ilustrações de dentro são. Tudo que o David faz fica muito bom.

      Borrachinha é o Thominhas grande. Tem que melhorar bastante o sistema defensivo se quiser pensar na elite da divisão.

      • Sexto Empírico

        Sério?! Os desenhos tem a mesma pegada do David. Achei q fosse.

        • Obrigado, Sexto.
          Sim, a capa é de Renato Aroeira. Fiz as charges internas do livro.
          Valeu a força!!

  • Ricardo Sedano

    Ok, sei que estou vindo comentar com quase 1 mês de atraso mas finalmente conseguindo por as matérias em dia…
    O problema desse freio de arrumação dos médios é que uma boa parte da população desse ônibus era de idosos e bom… Sabemos que isso não é a melhor coisa para um senhor. Minha grande questão sobre os médios é que apesar dessa arrumação, dos atletas citados na matéria (e bom, agora posso acrescentar o GSP na conversa).

    Dos 9 (8 da matéria + GSP) temos: 2 com menos de trinta anos, mas um tem (e provavelmente irá) baixar de categoria; 3 entre 30 e 35 anos, já não são garotos mas conseguem mais alguns anos no alto nível porém, só 2 ainda no UFC; Os 4 restantes já tem mais de 35 anos e não devem ter mais tanto tempo assim de carreira e ficariamos assim em uns 2 ou 3 anos, poderiamos ficar só com uns 3 caras de altissimo nível (Weidman, Luke e Whittaker) ou 4 com uma eventual volta do Moussassi.

    Será que essa categoria pode voltar aos tempos de Okami e Travis Lutter* disputando o cinturão? Ou vocês veem alguma esperança de renovação na categoria (incluindo gente fora do UFC)?