O “freio de arrumação” que afeta o futuro do peso médio (e meio-médio) do UFC

Por Alexandre Matos | 24/07/2017 20:03

Ter uma elite de alto nível, com vários lutadores em momentos dominantes, deixou a impressão incorreta em vários fãs que o peso médio do UFC seria a mais forte das categorias da organização líder do mercado mundial do MMA. Afinal, havia Luke Rockhold, Ronaldo Jacaré, Yoel Romero e, um pouco atrás, Gegard Mousasi, fazendo estragos em torno do reinado de Chris Weidman.

Este cenário escondia o fato de que o peso médio tinha problemas de renovação e que nunca foi possível comparar com o real equilíbrio de forças do peso leve, no qual o 20º do ranking pode ganhar do segundo, ou mesmo do meio-médio. Havia um espaço grande dentro mesmo do top 10 dos 84 quilos, entre os citados no primeiro parágrafo e quem vinha atrás deles. Hoje em dia, até mesmo o peso galo e o pena masculinos ultrapassaram o médio.

O MMA é um esporte maravilhoso porque muda a cada instante. Weidman foi destronado, entrou numa fase negativa de três derrotas seguidas e muita gente passou a duvidar de seu potencial. Rockhold foi ridiculamente deposto por um Michael Bisping ressurgido das cinzas. Os veteranos Jacaré e Romero tomaram choques de realidade de Robert Whittaker, o único real sopro de renovação na elite da divisão. Mousasi meteu o pé do UFC no momento mais agudo de sua carreira, quando finalmente desabrochou seu enorme talento e provavelmente seria apontado como o desafiante número um do cinturão unificado.

De repente, todo aquele cenário de poderio bélico virou pó. O peso médio passou de candidato a melhor categoria (o que nunca foi de verdade) para uma bagunça. Bisping é o campeão e Whittaker tem o cinturão interino porque o britânico quer fazer graça depois de ter passado a vida reclamando quando Anderson Silva fazia o mesmo. Numa categoria com uma elite tão forte, defender cinturão contra Dan Henderson e Georges St. Pierre chega a ser uma ofensa.

Bisping vs. GSP chegou até a ter coletiva de imprensa

Bisping vs. GSP chegou até a ter coletiva de imprensa

Em paralelo a isso tudo, Kelvin Gastelum se apresentou como mais um renovador, ao lado de Whittaker. O mais jovem vencedor do TUF (Whittaker é o segundo) é um sujeito muito talentoso e com muitos problemas para botar a cabeça no lugar. Ele foi “expulso” do peso meio-médio por Dana White após inúmeras falhas dantescas na pesagem. Como castigo, pensaram os chefes, ele vai tomar um susto no peso médio e volta com o rabo no meio das pernas. Só que o matchmaking oferecido apontou para outro lado. E enganou muita gente.

No peso médio, Gastelum enfrentou os quase quarentões Tim Kennedy e Vitor Belfort. Kennedy tinha 37 anos no dia da luta e não atuava havia dois anos e três meses. Belfort estava a um mês de completar 40 anos e era um rascunho de si próprio desde 2015, quando foi proibido de seguir com o TRT. As vitórias, obtidas não só pela juventude, mas pelo enorme talento de Gastelum, deixaram a impressão errada de que o garoto poderia ter sucesso na elite dos médios.

A luta contra Weidman – essa, sim, o “castigo” imaginado a Gastelum – serviu como um freio de arrumação, aquelas horas em que o motorista do ônibus lotado mete o pé no freio do nada, numa reta, e a rapaziada que estava aglomerada no coletivo se rearruma. Treze centímetros mais baixo, 15 a menos na envergadura, Gastelum viu a desvantagem física aumentar a vantagem técnica a favor de Weidman. Fora o final do primeiro assalto, o californiano foi dominado inclusive na troca de golpes em pé.

Chris Weidman não teve trabalho para fazer Kelvin Gastelum parecer um boneco de trapo no chão (Foto: UFC/Getty Images)

Chris Weidman não teve trabalho para fazer Kelvin Gastelum parecer um boneco de trapo no chão (Foto: UFC/Getty Images)

Weidman nem é fisicamente o maior peso médio da casa. Rockhold é mais alto, Romero é mais forte, Whittaker é mais rápido (e mais alto e forte que Gastelum). Provavelmente Kelvin seria derrotado por todos eles, como foi por Chris. A derrota deste sábado fez o garoto tomar a decisão mais sensata de sua carreira: mudar o estilo de vida e voltar ao peso meio-médio já no próximo compromisso. Contra oponentes menores, a vantagem física de Gastelum servirá como catalisador para uma vantagem técnica e ele poderá ser, para a categoria de baixo, o que Weidman foi para ele. No peso médio, Kelvin viraria porteiro do top 5. Um tremendo desperdício. No meio-médio, ele é material para ser campeão – o atual dono do cinturão, Tyron Woodley, cortou um dobrado para vencê-lo e, numa revanche, eu apostaria em Gastelum.

Contudo, o retorno de Gastelum ao meio-médio abre mais um buraco na categoria de cima. Com apenas uma vitória nas últimas quatro lutas, Weidman precisa mostrar mais serviço para voltar a se posicionar como candidato a desafiante. Rockhold foi escalado contra David Branch, matchmaking que o deixa, na teoria, pelo menos a mais um passo de uma chance pelo cinturão – ainda que o retrospecto dele possa encurtar essa distância em caso de espancamento sobre o ex-campeão do WSOF. Jacaré ficou para trás depois de ser atropelado por Whittaker. Romero até fez frente ao agora campeão interino, mas, aos 40 anos, é cada vez mais improvável que consiga êxito na próxima. Para o cubano, uma vitória de Bisping na unificação seria o melhor dos mundos.

Não só para acender a luz de alerta em Gastelum, a luta principal do UFC On FOX 25 serviu também para recuperar a imagem e a estima de Weidman como legítimo integrante da elite do peso médio. Como disse o aposentado meio-pesado Sean O’Connell, “essa questão de você ser apenas tão bom quanto a sua última luta às vezes nos engana”.

Confrontar Weidman com Jacaré agora parece interessante. Tiraria o perdedor do cenário e faria o vencedor se fortalecer. Porém, seria uma boa eliminatória? Caso Weidman vença, disputaria o cinturão com 2-3 no retrospecto recente? Bom, não seria o primeiro, né?

Teria sido melhor se o matchmaker Mick Maynard tivesse escalado Rockhold contra Romero, o que me parece a única eliminatória incontestável no momento. Rockhold tem contas a acertar com Bisping e Romero tem com o inglês e com Whittaker. Qualquer vencedor de Rockhold-Romero se encaixa com qualquer vencedor de Bisping-Whittaker sem precisar de malabarismos argumentativos. E Whittaker-Rockhold já me deixa ouriçado só de imaginar a possibilidade.

O freio de arrumação que o piloto deu espalhou a elite do peso médio pelo busão. Colocou gente sentada na janela, gente em pé aguardando vaga e gente na porta, esperando o próximo ponto para descer e pegar o outro coletivo. Agora fica mais fácil perceber quem é bom de verdade, quem fica pelo caminho, quem surge. A divisão precisa urgentemente se renovar, mas, antes disso, precisa organizar a sua elite. E precisa que o campeão respeite o posto que ocupa.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.