O Boxe e a Máfia: quando as lutas eram realmente combinadas

Tem sido recorrente nos últimos anos a famosa afirmação de que determinada luta foi “combinada” ou “roubada”. O MMA Brasil trabalha desmitificando essas declarações mesmo sabendo que a missão é como enxugar gelo. Em mais uma dessas iniciativas, levamos o leitor a um tempo em que isso realmente acontecia para demonstrar o abismo entre as duas épocas.

“Eu vou fazer uma oferta que ele não pode recusar” – Don Vito Corleone, O Poderoso Chefão.

“Michael, somos mais poderosos do que a indústria siderúrgica norte-americana” – Hyman Roth, O Poderoso Chefão II.

O MMA vive o seu maior período de popularidade no Brasil desde o boom do esporte no país, alavancado pela luta entre Anderson Silva e Vitor Belfort. Porém, como nem tudo são flores, junto com a popularidade, vieram os famigerados protestos e suspeitas de lutas “compradas”, sempre que um resultado controverso ocorre – fenômeno esse que na maior parte das vezes ocorre quase que exclusivamente no Brasil. Contudo, houve uma época em que esse clamor era verdadeiro, as lutas realmente eram “compradas” e uma das organizações mais famosas do mundo ditava o que acontecia no cenário da luta. Estamos falando da Máfia.

Antes de mais nada, é necessário definir o que é máfia. Palavra usada erroneamente com frequência nos noticiários e no nosso imaginário, a máfia é uma organização criminosa italiana que possui três supostas origens. A primeira diz que se originou em 1282, durante a invasão francesa da Sicília, com o provérbio “Morte Alla Francia Italia Anela” (morte aos franceses é desejo da Itália) ou MAFIA. A segunda versão diz que refugiados sicilianos, durante a invasão árabe na Itália, no século IX, criaram a organização baseada em costumes de “honra” locais. A palavra “máfia” significa refúgio, inclusive.

Por fim, há a versão em que lavradores arrendatários de terras pertencentes a senhores feudais, motivados pelo desejo de dividir as terras, começaram a depredar as plantações e a cobrar pela “proteção” dos que queriam proteger suas plantações. Sim, isso mesmo, cobravam para que protegessem as plantações deles mesmos. As regras da máfia eram rígidas e a consequência para quem as descumprissem era a morte. Dentre essas regras, destacam-se a omertà, lei que proibia que um membro delatasse o outro, e a “lei da origem”, que determina que somente filhos de pai e mãe italianos pudessem fazer parte da máfia. Os criminosos que se relacionavam e agiam juntamente com a máfia, mas não eram italianos puros, eram conhecidos como associados ou gângsteres. Com o advento do período da grande imigração europeia para a América, a máfia se estabeleceu nos Estados Unidos e encontrou no boxe uma grande oportunidade para os seus negócios.

Em busca de lucros com a nobre arte, a máfia designou Frankie Carbo (foto acima), da família Genovese, para gerir a infiltração dos criminosos. Carbo já era envolvido com o mercado de apostas e se destacava no meio por ser um assassino eficaz. Juntamente com Frankie, estava um associado da máfia que atuava no ramo de jogos ilegais na Filadélfia, Frank “Blinky” Palermo.

Billy Fox

Juntos, Carbo e Palermo agenciaram grandes nomes do boxe: Babe Risko (ex-campeão dos médios), Clarence Henry, Ike Williams (um dos melhores pesos leves da história). Um dos mais famosos casos foi o de Billy Fox.

LaMotta-Fox-fix

A história é tão famosa que foi eternizada por Martin Scorsese no filme “Touro Indomável”. Fox iniciou sua carreira de modo assustador, com 36 vitórias em sequência, até perder a disputa dos meios-pesados. Com mais algumas vitórias, Billy Fox teve uma luta marcada contra o lendário Jake LaMotta, em 1947. Jake era um dos maiores atletas do seu tempo e recusava reiteradas vezes os convites da máfia; todavia, não conseguia uma oportunidade de disputar o título. A oferta da máfia era simples: LaMotta entregaria a luta contra Billy Fox e, após Fox disputar o cinturão, Jake seria o contemplado com a oportunidade. Jake LaMotta aceitou.

O problema é que LaMotta não fez a menor questão de fingir que a luta não havia sido combinada, se deixando acertar e não atacando o adversário até o juiz encerrar o teatro no quarto round. Após a “vitória”, Billy Fox recebeu sua disputa de título e foi derrotado pelo campeão Gus Lesnevich. Já Jake LaMotta recebeu a prometida luta pelo cinturão e tornou-se campeão ao vencer Marcel Cerdan, em 1949.

Johnny Saxton

O americano Johnny Saxton era um lutador com boa carreira amadora. Após se profissionalizar, seu empresário vendeu seu contrato para Frank “Blinky” Palermo. Após algumas dezenas de vitórias, Saxton disputou o título contra Kid Gavillan, no ano de 1954. A peleja foi para a decisão e Johnny foi declarado como vencedor, em um resultado muito controverso. Gavillan declarou aos prantos que a luta havia sido comprada – praticamente toda a mídia especializada viu a vitória do campeão. Algumas lutas depois de perder o cinturão, Saxton recebeu nova disputa pelo título contra Carmen Basílio. Mais uma decisão e mais uma controvérsia. Houve uma revanche, em que Johnny Saxton foi nocauteado. Os dois resultados polêmicos e as suspeitas de envolvimento com criminosos tornaram o ex-campeão um lutador extremamente impopular até o fim de sua carreira, em 1958.

Sonny Liston

Muhammad-Ali-Sonny-Liston-Phantom-Punch

O mais famoso caso de destaque é o do ex-campeão dos pesos pesados e lenda do boxe, Sonny Liston. Desde a sua primeira luta, Liston já era empresariado pelo mafioso John Vitale e, algum tempo depois, Blinky e Frankie Carbo compraram a maior parte dos direitos contratuais do lutador. Apesar de suas relações com a máfia, Sonny era um pugilista muito talentoso, inclusive é subestimado até hoje por boa parte da mídia especializada, e chegou ao título de modo avassalador. O caso de maior destaque, porém, foi na revanche contra Muhammad Ali. Os dois lutadores declararam estar sendo ameaçados pela máfia e o modo como a luta terminou é alvo de intermináveis debates até hoje. O soco derradeiro que Ali nocauteou Liston é acusado de não ter potência suficiente para nocautear e acabou apelidado de Phantom Punch (Soco Fantasma). Outros dizem que o golpe sequer acertou o alvo.

O fim de uma era

Após anos de domínio da máfia sobre o cenário americano do boxe, surgiram casos em que algumas pessoas passaram a não se intimidar com os criminosos. O primeiro de grande repercussão dentre eles foi quando um grupo de associados, a mando de Frankie Carbo, surraram Ray Arcel, um dos melhores treinadores que o esporte já viu, por recusar um contrato oferecido pela máfia. Diante do ocorrido, mais pessoas começaram a se rebelar contra a opressão mafiosa. E o caso de Jack Leonard foi o catalizador para o sepultamento do envolvimento da máfia no boxe americano.

Leonard era um empresário de boxeadores que estava sendo ameaçado de morte por um gângster por causa de um contrato da luta entre o campeão dos meios-médios Don Jordan e Alvaro Gutierrez. Acuado pelas ameaças, Leonard passou a usar uma escuta e gravar suas conversas com Frankie Carbo, que continham além das ameaças, provas do envolvimento de Carbo e da máfia com a nobre arte. Pouco tempo depois, Don Jordan e Jake LaMotta testemunharam contra Frankie Carbo e Blinky Palermo sobre as lutas armadas. Em 1959, ambos foram presos juntamente com vários outros mafiosos, gângsteres e associados. Carbo e Palermo foram condenados a 25 anos de prisão.

Carbo e Palermo amargaram um quarto de século de cadeia pelas atividades criminosas da máfia

Carbo e Palermo amargaram um quarto de século de cadeia pelas atividades criminosas da máfia

A operação que prendeu Carbo e Palermo praticamente encerrou as operações mafiosas no boxe americano. Ocorreu um ou outro caso isolado, porém sequer chegou perto do envolvimento e poder que a máfia chegou a ter um dia dentro do boxe americano.

O trauma causado pela máfia no boxe americano foi tão grande que instituições como a Internacional Boxing Club (IBC), dentre outras, buscam combater os menores casos e vestígios de lutas compradas, simplesmente pelo temor de reviver os dias em que mafiosos dominavam o cenário da nobre arte. É por esse e por outros maiores motivos, como a própria inviabilidade financeira, que esses casos são praticamente inviáveis no meio do MMA e em grande parte do boxe. Não é que não possam existir, mas certamente não são como no imaginário de muitos fãs e certamente não são como nesse período.

  • Provavelmente o melhor texto do Pedro.

    • Pedro Carneiro

      Não sei se foi o melhor, mas juntamente com o do Fedor, o do Hurricane, o dos 5 maiores boxeadores que vc não conhece e o se wrestling fosse fácil se chamaria jiu jitsu foram os que eu mais gostei de escrever.

    • James sousa

      não só provavelmente o melhor texto do Pedro como um dos melhores textos do site ,

      • Pedro Carneiro

        Rapaz, esse site já teve muito texto bom, hein?

  • Thiago Kuhl

    Faltou o caso óbvio da venda do título dos médios para o Weidman….

    Falando sério, baita texto!

    • Pedro Carneiro

      hahahaha
      meu medo é concordar na brincadeira e ter gente que vai levar a sério!

  • Bruno Moraes da Costa

    Sensacional o texto! Parabéns pelas citações iniciais retiradas dos melhores filmes da história!

    Acho que a galera que fala sobre “lutas vendidas” no UFC não faz a menor ideia de como aconteciam essas paradas.

    Vou salvar nos favoritos pra reler depois.

    • Pedro Carneiro

      Obrigado, Bruno! Cara, não faz ideia mesmo. UFC teria que ter uma estrutura extremamente cara pra fazer esse tipo de esquema,,,

  • Isabella Kida

    Pedro, que texto legal! Muito bom, parabéns!

    • Pedro Carneiro

      Obrigado, juiza! Que bom que gostou.

  • Gabriel Carvalho II

    ”Your ass goes down in the fifth”

    Brincadeiras a parte, um ótimo texto. Sempre fui curioso pra saber dos esquemas de armação no boxe, mas sempre tive preguiça de procurar.

    • Pedro Carneiro

      O período de ouro da máfia tem muita história maneira. Sem contar que o melhor filme de todos os tempos é sobre a máfia.

  • Patrick Santos

    Para um amante de história e lutas, assim como o Pedro, esse texto foi prazeroso do início ao fim. E ainda me lembrou que tenho que assistir Touro Indomável, de hoje não passa! Parabéns pelo ótimo texto, Pedrão

    • Pedro Carneiro

      Curti muito escrever. E ai, o que achou do filme?

      • Patrick Santos

        Lembro de já ter visto no Netflix e até tinha colocado na minha lista, mas ontem não achei mais, devem ter retirado! Era minha unica opção com exceção dos links corsários

  • Rafael Oreiro

    Texto sensacional Pedro, parabéns!

    • Pedro Carneiro

      Tamo junto, meu parça de podcast

  • Henrique Munhoz Moya Gimenes

    Que texto excelente, Pedro! Parabéns mesmo, interessante do começo ao fim, e é muito bom ver mais conteúdo relacionado ao boxe. Esse período do boxe abordado no texto rendem ótimas histórias.

    • Pedro Carneiro

      Valeu, fera! E essas não são as únicas histórias, somente as mais importantes. A máfia é um tema que sempre desperta interesse.

  • Juan

    Legal.

  • Malk Suruhito

    Pedrão, grande texto. Já tinha lido antes em Crying Freeman – o mangá que deu origem ao (bom) filme do Christopher Gans – que o significado de Máfia realmente era este de milícias combatentes da invasão Francesa.
    Pergunta que eu tenho: Don King, o que temos contra (e sobre) esta famigerada figura dentro deste tema?

    • Pedro Carneiro

      Don King quase gabaritou a lista de crimes previstos em lei, mas dentro da máfia a única coisa que sabemos é que ele tinha conexões com o John Gotti (chefe da família Gambino) mas nada mais profundo que isso. O Don King é um cara tão detestável que não conseguiu manter ligações com ninguém por muito tempo, acredito que com a máfia não deve ter sido diferente…

  • Gabriel Fareli

    Só não estou aplaudindo de pé, porque estou lendo esse texto no trabalho e minha chefe está por perto, mas é sem duvidas um dos melhores textos que eu já li aqui no MMA Brasil e quiça na internet desde quando eu comecei a gostar de lutas.
    Meus parabens, Pedrão !

    • Pedro Carneiro

      Obrigado, fera! A ideia é sempre seguir melhorando