Nunca um boxeador me impressionou tanto quanto Vasyl Lomachenko

Por Alexandre Matos | 27/04/2017

Atenção! O título dessa matéria não é um clickbait fajuto. Vem comigo e acompanha meu raciocínio. Obrigado de nada.

No último dia 8 de abril, Vasyl Lomachenko escreveu mais um capítulo de uma trajetória fantástica. No MGM National Harbor, em Oxon Hill, Maryland, o “Hi-Tech” defendeu pela segunda vez seu cinturão WBO (Organização Mundial de Boxe) do peso superpena. O pobre incauto que dividiu o ringue com o ucraniano foi o americano Jason Sosa.

O combate foi mais do mesmo em relação às atuações de Lomachenko. Porém, neste caso, a expressão “mais do mesmo” não é pejorativa ou com caráter negativo. Mais do mesmo, quando se trata de Lomachenko, significa mais arte, mais plástica, mais magia. Toda vez que este rapaz está para pisar no quadrilátero, minhas expectativas sobem. E ele não para de justificar os anseios.

Jogo de pernas no estado da arte. Movimentação lateral. Ataques em todos os ângulos imagináveis e até em alguns que achávamos que não tinha como. Flexibilidade de quadril e de tronco que gera incontáveis possibilidades de esquivas e contragolpes rápidos sem que ele tenha que desfazer a base de equilíbrio. Enquanto Lomachenko faz os adversários esmurrarem o vento, ele ainda os acerta de volta com velocidade e potência. Quando inicia uma nova combinação, os adversários parecem ainda estar reagindo à anterior.

Eu ia dizer que fazia tempo que não me impressionava tanto com um boxeador. Na verdade, acho que ninguém me impressionou tanto lutando boxe quando Vasyl Lomachenko. Não na fase da carreira em que ele se encontra. O que esse sujeito faz no ringue é arte pura. Seu Anatoly Lomachenko, responsável pela carreira do filho desde o começo até hoje, colocou Vasyl em aulas de dança por um tempo para melhorar o jogo de pernas quando era criança. Resultado: desenvolveu um mágico que faz os adversários saírem do ringue mais machucados na alma do que no corpo.

De acordo com o CompuBox, principal serviço de estatísticas do boxe mundial, Lomachenko reduz os rivais a apenas 16% de acerto, o índice mais baixo entre todos os pugilistas profissionais. Por outro lado, ele atinge o alvo em 50% dos golpes contundentes que lança, o segundo maior índice entre os lutadores ativos. Na diferença entre socos acertados contra os acertados nele pelos adversários, Lomachenko lidera por larga margem, com o maior índice desde Floyd Mayweather Jr.

Dê uma olhada no vídeo abaixo. Quem nunca viu Sosa lutando pode imaginar que é um passa-fome qualquer, tamanho o embaraçamento que Lomachenko o fez passar. No entanto, o americano era o dono do cinturão regular da WBA até fevereiro, quando a organização o forçou a abrir mão do título quando ele optou enfrentar Lomachenko. Só que, pelo visto, quem enfrenta Vasyl sai do ringue parecendo ordinário, um rascunho de si próprio. É como se ele hipnotizasse os adversários.

Sosa era a terceira opção de Lomachenko. Ele queria unificar os cinturões com Jezreel Corrales, que ficou como campeão definitivo da WBA quando Sosa abdicou do título. Outra opção era uma revanche com Orlando Salido, que o venceu em sua segunda luta profissional – Salido era campeão mundial e tinha mais de 40 combates profissionais na ocasião. Nenhum dos dois aceitou. Se não conseguir uma luta de unificação, Vasyl disse que subirá para o peso leve.

Vasyl Lomachenko:

“Na primeira luta (contra Salido), era um aluno do 3ª ano do ensino fundamental contra um do 3º do médio. Agora eu me graduei na faculdade e estou convidando Salido para a minha universidade.”

Salido não bateu o peso e abusou do jogo sujo contra o então inexperiente oponente, que parecia muito preocupado em aguentar os 12 assaltos depois de 396 lutas de apenas três, além de ter que lidar com a velhacaria do mexicano. Ainda assim, a luta foi apertada e de resultado controverso. Numa revanche, Salido corre sério risco de deixar o ringue como os adversários seguintes de Lomachenko. Hoje eles estão em níveis diferentes.

Com apenas nove lutas profissionais em sua conta, Lomachenko já tem um retrospecto único na história do boxe, catapultado pela maior carreira que o boxe amador já viu (apenas uma derrota em 396 lutas). A soma dos carteis de todos os adversários profissionais do “Hi-Tech” é de 267 vitórias e 25 derrotas, uma média de quase 30-3. Ou seja, ele tem enfrentado gente de nível bem mais decente do que os demais boxeadores com tão pouca experiência profissional, que ainda estão nos combates de seis ou oito rounds, sem pretensão de disputar um título mundial antes de 15 ou 20 lutas. Lomachenko tem em sua casa cinturões mundiais nos pesos pena e superpena. Ele é o pugilista que mais rapidamente conquistou títulos mundiais em duas categorias na história do boxe.

Já está difícil encontrar gente disposta a enfrentá-lo, mesmo tendo um grande número de lutadores de excelente nível ao redor. Na categoria de baixo, o peso pena, há Leo Santa Cruz (33-1-1), Carl Frampton (23-1), Abner Mares (30-2-1), Scott Quigg (32-1-2) – Gary Russell Jr. já foi vitimado por Lomachenko. É bem difícil que ele opte por voltar no peso. No cenário mais provável, subir ao peso leve, há Mikey Garcia (36-0), Jorge Linares (42-3), Terry Flanagan (33-0), Rances Barthelemy (25-0), o prospecto Félix Verdejo (23-0). No superleve, provavelmente a luta que eu venderia um rim para assistir, contra Terence Crawford (30-0).

Não falta gente de peso para dar trabalho a Lomachenko, mas quantos deles já se prontificaram a encará-lo? Linares andou dizendo que Vasyl não é invencível. Frampton, que não foge de uma boa guerra, foi bastante sincero ao site do jornal The Irish News:

Carl Frampton:

“Certo, vou falar para você sobre Lomachenko. Ele é um lutador inacreditável. Eu lutaria com qualquer um dentro e ao redor de minha categoria de peso. Você tem que ser pago e recompensado neste jogo. As pessoas podem dizer: ‘E quanto a Rigo (Guillermo Rigondeaux)?’ ou qualquer outro, mas não há dinheiro numa luta com Rigo, senão eu lutaria com ele. Eu lutaria com Lomachenko. Com uma mão no coração: eu não venceria, mas lutaria. Ele é incrível, tem um estilo único. Ele simplesmente é um talento incrível.”

Lomachenko demorou muito a se profissionalizar, mas esse tempo desempenhou papel fundamental para moldar um talento absurdo. Nunca vi um pugilista que tenha chegado ao profissionalismo num nível técnico tão alto quanto Lomachenko – nem Mayweather, Roy Jones Jr., Oscar de la Hoya ou Manny Pacquiao.

Na famigerada discussão do peso por peso, os principais concorrentes têm retrospectos mais fortes que o dele, o que é óbvio. No entanto, quem está acima no ranking ou andou perdendo – casos de Román “Chocolatito” González e Sergey Kovalev – ou tendo lutas muito duras e parelhas, como Andre Ward e Gennady Golovkin. Se Lomachenko subir e vencer Linares ou Garcia, já fica no bolo dessa discussão. Se ele subir mais uma vez e vencer Crawford, é capaz de encerrar o debate. Porém, o que parece ser ponto pacífico é que Vasyl é o mais talentoso boxeador do planeta na atualidade.

Para um dia definir Vasyl como uma lenda, é preciso esperar para ver o que esse talento vai transformar em conquistas. Porém, já é possível afirmar que Lomachenko faz parte de um grupo seletíssimo de atletas dotados de colossal talento natural, capazes de transformar um esporte tão duro em algo que parece ser fácil. Ele ainda não tem os títulos de Roger Federer, por exemplo, mas vê-lo em ação lembra a classe do suíço numa quadra de tênis. Roger e Vasyl são daqueles que fazem seus esportes parecerem fáceis.

Acompanhar até onde Vasyl Lomachenko pode chegar é um grande momento para se estar vivo.