Mundial de Judô, dia 5: Mayra Aguiar leva o Brasil de volta ao pódio e mito francesa se aposenta

Chave masculina no peso médio coloca os quatro líderes do ranking mundial na semifinal. Entre as mulheres, Lucie Décosse se aposenta e faz a comunidade do judô chorar.

Depois do único dia sem subir ao pódio no Campeonato Mundial de Judô Rio 2013, a equipe brasileira conquistou um novo pódio nesta sexta-feira. E mais uma vez através das meninas. A gaúcha Mayra Aguiar se recuperou da derrota nas quartas-de-final, precisou passar pela repescagem e conquistou a medalha de bronze com uma atuação agressiva.

Esta foi a terceira medalha de Mayra em campeonatos mundiais. A jovem de 22 anos já havia sido bronze em 2011 e prata em 2010, além de ter ganhado a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de 2012. Ela ajudou a manter o Brasil na terceira posição do quadro de medalhas, atrás da França e do líder Japão, que não subiu ao pódio pelo segundo dia seguido.

Mayra Aguiar comemora a conquista de sua terceira medalha em campeonatos mundiais aos 22 anos (Foto: Agência Reuters)

Mayra Aguiar comemora a conquista de sua terceira medalha em campeonatos mundiais aos 22 anos (Foto: Agência Reuters)

Líder do ranking mundial, Mayra saiu de bye na primeira fase e estreou já nas oitavas-de-final. Contra a italiana Assunta Galeone, a brasileira viveu uma situação curiosa. Como Maria Portela já estava lutando em outra área de luta, Mayra ficou sem técnico para acompanhá-la. Rosicléia Campos, técnica titular da seleção feminina que está de licença maternidade, desceu das arquibancadas para acompanhar a gaúcha. Mayra forçou a adversária a sofrer três shido e venceu com um wazari a 38 segundos do fim.

Nas quartas-de-final, a impressão dada foi que Mayra travou. Contra a holandesa Marhinde Verkerk, décima terceira do ranking, o combate seguia equilibrado e a brasileira recebeu o segundo shido a 39 segundos do fim. Como Verkerk não lhe dava espaço, empurrando Mayra com a mão na gola, a gaúcha precisou atacar e acabou errando uma entrada, ficando à mercê de uma imobilização. A holandesa encaixou a finalização e Aguiar bateu.

Na repescagem, a conhecida agressividade da brasileira voltou. Ela conseguiu uma queda que só não resultou em yuko porque a ucraniana Viktoriia Turks, décima oitava do ranking, caiu de frente. Mayra trabalhou o ne waza (combate de solo) e conseguiu o osaekomi waza (técnica de imobilização) com um tate shiho gatame, uma espécie de katagatame na montada que garantiu o ippon e a vaga para a disputa da medalha de bronze.

Mayra encarou a última luta como se fosse uma final, pressionando a canadense Catherine Roberge, sete vezes medalhista pan-americana e oitava do ranking mundial. Liderando o combate por três shido a um, aproveitando-se da postura muito defensiva de Roberge (que seria desclassificada com mais uma punição), Mayra aplicou um harai goshi, uma das quedas mais bonitas do judô, garantindo o ippon e sua terceira medalha em Mundiais.

Lucie Décosse, a “Zidane do judô”, se aposenta sem medalha e faz a comunidade do esporte chorar

Francesa multicampeã  Lucie Décosse encerrou sua carreira no Mundial do Rio (Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP)

Francesa multicampeã Lucie Décosse encerrou sua carreira no Mundial do Rio (Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP)

Campeã olímpica em Londres-2012 e vice em Pequim-2008. Campeã mundial no Cairo-2005, Tóquio-2010, Paris-2011 e vice no Rio-2007. Campeã europeia em 2002, 2007, 2008, 2009, vice em 2006, bronze em 2005 e 2011. Os resultados da francesa Lucie Décosse a colocam facilmente entre as maiores judocas de todos os tempos. Nesta sexta-feira, uma das carreiras mais brilhantes da história do judô feminino chegou ao fim.

Décosse estava na chave D da categoria até 70 quilos. Ela venceu três lutas até se encontrar com a colombiana Yuri Alvear, eliminada pela própria francesa da corrida pela medalha de ouro na Olimpíada de Londres. Alvear, última campeã mundial antes do bi seguido de Décosse, conseguiu se vingar com um yuko e jogou Lucie para a repescagem, seguindo caminho para seu segundo título mundial.

A francesa então conseguiu a vaga na disputa da medalha de bronze ao superar a brasileira Maria Portela com um ippon via o soto gari no Golden Score, num combate sensacional. Na luta pelo bronze, a sul-coreana Seong-Yeon Kim começou forte, conseguiu um yuko com um deoi nage em apenas 12 segundos e conduziu o combate até conquistar a medalha e se tornar a última pessoa a vencer Décosse.

A aposentadoria da lutadora nascida na Guiana Francesa deixou a comunidade do judô emocionada. Muita gente chorou enquanto Décosse deixava o dojo em direção à zona de imprensa. O jornalista francês Éric Frosio, da Agence France Presse, deu a ideia à equipe do SporTV:

“Perdemos a nossa Zinedine Zidane do judô. Lucie é carismática, tricampeã mundial, campeã olímpica. É uma referência para o esporte na França. Por isso essa comoção. Os jornalistas que cobrem o dia a dia do judô, confesso, estão um pouco desnorteados com a aposentadoria dela. Perde-se uma referência no esporte do país entre as mulheres.”

O mito dos tatames agradeceu o apoio, mas disse que, aos 32 anos, não conseguirá disputar as Olimpíadas de 2016, também no Rio de Janeiro.

“Eu lamento, mas não posso mais. É o fim da minha estrada. Eu não posso ir para 2016. Não posso mesmo. Sei que as pessoas gostam de mim também no Brasil, agradeço a todos os fãs. Mas não dá. Eu amo o judô, as pessoas que amam o judô também gostam de mim, mas minha carreira acabou. Foi muito especial tudo que aconteceu aqui no Rio de Janeiro, nesta sexta-feira. Tive uma carreira grande, longa, vencedora. Fui três vezes campeã mundial, campeã olímpica. Perdi hoje, não conquistei a medalha de bronze na minha última competição, mas tenho muito orgulho da minha carreira.”

Chave masculina do peso médio só tinha monstro na semifinal

O quarteto fantástico da categoria peso médio ocupa o pódio no Mundial do Rio (Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP)

O quarteto fantástico da categoria peso médio ocupa o pódio no Mundial do Rio (Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP)

Na categoria peso médio masculina, até 90 quilos, as quatro chaves eliminatórias foram vencidas pelos quatro líderes do ranking mundial, que completaram a semifinal. Na chave B, o russo Kirill Denisov, quarto do ranking, despachou quatro oponentes por ippon e se classificou para tentar a vaga na decisão contra o georgiano Varlam Liparteliani, número dois da classificação mundial, que estreou na chave A de bye e passou com um wazari e dois ippon.

Do outro lado da chave, o cubano Asley González, atual campeão mundial, vice olímpico e líder do ranking, também cravou dois ippon e um wazari para enfrentar na semifinal o grego Ilias Iliadis, campeão olímpico em Atenas-2004, duas vezes campeão mundial e número 3 do ranking.

Em luta duríssima, González e Iliadis chegaram ao Golden Score empatados em 3 a 3 nas punições. Empurrado pela torcida brasileira, o cubano conseguiu o yuko com um morote seoi nage em 48 segundos da prorrogação e chegou à decisão. Na outra semi, Liparteliani não tomou conhecimento de Denisov e aplicou dois wazari com sensacionais uchi mata em sequência, um em 30 segundos de luta e o definitivo, 50 segundos depois. A soma dos wazari rendeu o ippon ao georgiano.

Nas disputas das medalhas de bronze, Denisov e Iliadis venceram o húngaro Krisztián Tóth e o sueco Joakim Dvarby, que eliminara o brasileiro Eduardo Santos na estreia, respectivamente. Denisov bateu o jovem húngaro de 19 anos com um ko soto gake no contragolpe mortal em apenas 33 segundos. Iliadis demorou mais, mas venceu de modo espetacular depois de abrir a pontuação com um yuko via sode tsurikomi goshi a 1min10s, conquistando o ippon e a medalha com um espetacular o goshi a 39 segundos do fim.

Já na grande decisão entre os dois melhores judocas do mundo na categoria, luta travada, decidida nas punições. Liaparteliani sofreu dois shido por falta de combatividade, enquanto González recebeu um por falsa entrada. Como ninguém pontuou, o cubano ficou com a medalha de ouro ao final dos cinco minutos regulamentares.