MMA-Brasil.com Entrevista: Frederico Mitooka

Por Alexandre Matos | 05/05/2009 18:00

Um técnico de ponta não é feito apenas de conhecimento teórico sobre o esporte. Ter vivido o esporte como atleta ajuda bastante. Além disso, estar aberto às novas tendências e ter relacionamento cordial com os comandados também fazem parte do rol de características de um bom treinador. Frederico Mitooka tem isso e mais. Ex-atleta de Taekwondo, formado em Comunicação, muito inteligente e bem articulado, consciente de suas responsabilidades e muito profissional, desistiu da carreira dentro do tatame para se dedicar à equipe da cidade de Piracicaba, no interior paulista. Lá ele vem construindo uma base que tem tudo para se tornar a referência do esporte no país. Com ele treinam Diogo Silva e Michael Silva, além do preparador físico Claudio Aranda. Conheça um pouco mais sobre Mitooka e preste bastante atenção no que ele tem a dizer, pois vale para qualquer esporte no Brasil. Com certeza Fred tem muito a acrescentar ao esporte nacional.

[MMA-Brasil.com] Como foi o seu começo no Taekwondo? Qual a sua história no esporte?

[Frederico Mitooka] Comecei no esporte na adolescência, quando o MMA (antigo Vale Tudo) ganhou espaço na mídia. Nunca gostei de esporte coletivo e por ter um biótipo adequado para o esporte (Taekwondo), procurei uma arte marcial que usasse as pernas. Tive uma carreira curta como atleta devido às lesões (cirurgia no quadril) e as políticas no esporte, mas posso citar a medalha de bronze no Universíade em 2003 em Daegu, na Coreia do Sul, como um feito, pois foi a primeira medalha do Brasil neste evento. Pude também ter a felicidade de aplicar o primeiro nocaute da história do Taekwondo, também neste campeonato, na luta que me garantiu a medalha. Foi o início de uma parceria de trabalho com o Fernando Madureira, que tenho como meu mestre e mentor. Atualmente, sou faixa preta quarto dan, técnico e treinador de diversos atletas de alto rendimento de todo país que se encontram aqui em Piracicaba em busca do sonho olímpico.

[MMABr] Além do Taekwondo, você teve alguma experiência em outra atividade esportiva?

[FM] Quando criança treinei Judô e depois de adulto um pouco de Jiu-jitsu, mas troquei pelo Hapkido, que se assemelha mais com o Taekowndo pelas raízes coreanas e por não ter ênfase competitiva. Mas tenho um plano de voltar a treinar o Jiu-jitsu. Só está faltando um pouco de tempo e vergonha na cara…

[MMABr] Como surgiu a equipe de Piracicaba, que você treina atualmente?

[FM] Minha carreira de atleta era divida com a de técnico, pois já tinha alguns atletas de alto rendimento e coordenava a equipe da cidade. Formei alguns campeões nacionais, mas no último ano (2008) já tinha quase 10 atletas de diversos estados morando aqui e treinando comigo. Não conseguia ter o mesmo desempenho nas duas funções. Um dia uma atleta da equipe me disse: “Fred, acho você um excelente atleta, inspira os outros com garra e determinação, mas hoje você tem uma equipe e, quando você treina, não consegue dar um bom treino.”. Isso fez com que refletisse e fizesse uma opção. Escolhi então ser treinador e poder oferecer aos atletas tudo o que eu não tive como desportista. A proximidade com os atletas e uma visão profissional do esporte fez com que diversos atletas viessem treinar aqui. Não por dinheiro, mas por estrutura e profissionalismo.

Além do treinamento, oferecemos bolsa de estudo, moradia, alimentação, atendimento médico, hospitalar e odontológico em caso de lesões durante os treinos ou competições, suplementação, entre outros benefícios que nos são dados. Porém tudo é limitado, o que nos obriga a selecionar os atletas com o perfil que possa trazer bons resultados, não importando se é agora, daqui a quatro, oito ou doze anos. Mas só investimos em atletas que se identificam com o grupo: trabalho em equipe, objetivo, disciplina, perseverança, inteligência e determinação. Estas qualidades vem de berço e sem isso não tem como fazer parte dessa equipe.

[MMABr] Como a vinda do preparador físico Claudio Aranda influenciou no seu trabalho técnico na equipe?

[FM] O Claudio é um excelente preparador físico, com bagagem internacional. É faixa preta terceiro dan e conversamos muito sobre as planificações dos treinos. Ele me acompanha nos treinos técnicos e táticos e desenvolve exercícios específicos para uma melhor performance de nossos atletas. Um diferencial em um país onde realmente as coisas ainda são amadoras.

[MMABr] Mudando um pouco de assunto: os critérios de escolha do técnico da seleção brasileira adulta não são exatamente um primor de justiça, uma vez que é apontado o técnico que mais levou atletas para a seleção. Isso pode fazer com que técnicos prefiram contratar estrelas a formar talentos? O que acha deste critério e qual seria o ideal, na sua opinião?

[FM] Aqui entramos em um assunto delicado, pois todos tem o seu valor profissional. Professores e Treinadores. Porém temos que saber diferenciar uma coisa da outra. Atletas brotam em academias e floram em centros de treinamento. Mestre é uma coisa, Treinador é outra.

Um atleta faixa preta, treinando no alto rendimento, leva em torno de oito anos pra alcançar um nível olímpico. O Brasil tem atualmente cerca de 600 mil praticantes da modalidade, porém só enviou 7 representantes aos Jogos Olímpicos em toda sua história e trouxe apenas uma medalha de bronze. Isso porque o atleta insiste em permanecer treinando em sua academia de origem, um local onde se desenvolve a base e não o alto rendimento e passam da idade de acreditar no sonho olímpico. Aqui em Piracicaba os atletas não convivem com os alunos de academia. São coisas separadas, treinam em local separado e tem objetivos diferentes. Impossível desenvolver as duas coisas no mesmo lugar.

Sobre contratar ao invés de formar atletas, tenho a seguinte visão: aqui não damos dinheiro e sim estrutura. São poucos os que recebem ajuda de custo aqui, pois nosso objetivo é dar condições para o desenvolvimento do atleta. Se todos os professores que se acham técnicos tivessem esta mesma preocupação, não haveria esta demanda de atletas nos procurando para treinar aqui. É importante lembrar que, na maioria das vezes, eles que nos procuram e quase sempre não podemos ajudá-los, pois são limitados os números de vagas na equipe.

Na minha opinião o critério mais justo para se escolher o técnico é deixar o próprio atleta escolher com quem tem mais afinidade. A função do técnico é auxiliar o atleta. Não é um cargo de luxo e sim de responsabilidade, que faz total diferença dependendo do grau da sintonia entre ambos durante o combate.


[MMABr] Estamos começando a viver uma mudança no esporte provocada pela tecnologia, com os sensores nas competições, por exemplo. Como você vê a influência da tecnologia no Taekwondo, tanto nos treinos como nas competições?

[FM] O Brasil vive uma realidade diferente dos seus principais adversários, que contam com enorme suporte financeiro. O uso dos protetores eletrônicos em treinos é uma exclusividade longe de termos aqui no país. Porém tive o privilégio de estar presente no Panamericano de 2008, onde foi feita a estreia dos protetores em eventos oficiais e já estamos adequando a parte tática para podermos entrar na briga por medalhas nos eventos oficiais esse ano.

[MMABr] Há mais ou menos 15 anos o Taekwondo era um esporte mais plástico, pelo menos no ponto de vista do espectador. Atualmente o esporte vem se tornando cada vez mais eficiente, em detrimento da beleza e plasticidade. O que influenciou esta mudança e como você vê isso?

[FM] Quando o esporte chega ao status olímpico, o importante é superar limites e não dar show. Melhorar e aperfeiçoar a precisão do golpe em busca de pontos acaba inibindo técnicas mais acrobáticas. Mas com as mudanças nas regras (2 pontos para o chute em giro e 3 pontos para chutes no rosto), acredito que o esporte vai passar por transformações.

[MMABr] Infelizmente, sempre que pesquisamos sobre notícias do Taekwondo brasileiro nos deparamos com confusões, brigas na CBTKD e etc. Como você acha que isso interfere na evolução do esporte? Como afeta o trabalho dos atletas e técnicos?

[FM] Acho que a política é necessária para tudo, porém as vezes atrapalha realmente nosso trabalho. A falta de critérios para escolha dos atletas para determinados eventos e a inexistência de um calendário fixo dificultam a programação dos treinos.

[MMABr] Como você enxerga o Taekwondo brasileiro hoje e o que espera para o futuro?

[FM] Acho que em relação a alguns anos atrás, o esporte evoluiu muito graças ao status olímpico da modalidade e à participação da mesma nos Jogos Abertos do Interior, que na minha opinião é onde se apresentam os principais atletas do país. Não posso falar pelo futuro do esporte no Brasil porque não está sob o meu comando, mas aqui em Piracicaba trabalhamos um grupo de atletas para o próximo ciclo olímpico (2009 – 2012) e outro grupo para o outro ciclo (2013 – 2016). Temos como meta dois intercâmbios internacionais por ano para auxiliar no desenvolvimento através da vivência e troca de experiências, principalmente visando o desenvolvimento destes atletas que visam encerrar a carreira no final do próximo ciclo. Atletas como o Diogo e o Washington auxiliam no desenvolvimento de promessas do nosso esporte, como o Michael e o Guilherme. Atletas como a Débora e a Laura auxiliam no desenvolvimento de outras meninas como a Fernanda, a Talisca e a Hellorayne. Espero que, com este trabalho, possamos conquistar nesses dois ciclos olímpicos resultados mais expressivos do que anteriormente.

[MMABr] Fale sobre a Natalia Falavigna

[FM] Uma vencedora que não mede esforços, sacrifícios e as consequências para alcançar seus objetivos.

[MMABr] Você disse que começou no esporte motivado pelo MMA. Qual a vantagem de um praticante de Taekwondo numa eventual migração para o MMA?

[FM] Não sei… o Taekwondo atual visa pontos. No MMA se visa o nocaute e a imobilização. Acho que não combina muito.

[MMABr] Sobre sua vida fora do esporte: o que pensava em fazer da vida antes do Taekwondo? Qual a sua formação?

[FM] Sou formado em Comunicação Social mas cheguei a cursar Educação Física e mestrado em Educação, mas parei porque vi que ambas não se enquadravam com o meu trabalho. Quando era atleta, pensava em fazer programas de TV, vídeos-aula e filmes sobre o Taekwondo, pois tinha muita dificuldade em conseguir material didático e de competição. Gastava fortunas em cursos e fitas de VHS para aprimorar meus conhecimentos, pois treinava sozinho e a política do esporte não possibilitava nossa participação em muitos eventos. A política do pensamento arcaico de não poder treinar com outros grupos me irritava profundamente. Então decidi por essa área. Tenho uma visão do esporte diferente. Penso que o treinador não necessita especificamente ser formado em educação física. Esta obrigação é do preparador físico. O treinador tem que ser inteligente e entender da estratégia do combate. Saber se comunicar e transmitir seu conhecimento ao seu atleta, para que haja uma perfeita sincronia na comunicação para alcançar bons resultados.

[MMABr] Bom, espero que muitos tenham acesso ao que foi dito… Quer falar sobre algo que não foi perguntado?

[FM] Sim. O Taekwondo no Brasil precisa parar de ser AMADOR. E para isso precisamos de profissionais e atletas comprometidos com o alto rendimento, para que a mídia nos dê mais valor e os patrocinadores nos vejam como uma modalidade que pode dar retorno. E para isso precisamos de bons atletas e bons dirigentes.


[MMABr] Para finalizar, deixamos espaço para você fazer seus agradecimentos.

[FM] Em primeiro lugar agradeço aos meus pais, que me dão todo suporte para eu dar suporte a equipe. Em segundo, gostaria de agradecer ao mestre Fernando Madureira, que cumpre perfeitamente a sua função de Mestre… aprendi muito com ele e continuo aprendendo com sua experiência de técnico olímpico nessa minha nova caminhada. Em terceiro, a SELAM (Secretaria de Esportes e Lazer de Piracicaba), AMHPLA, UNISA, FRIOS PAULISTA, BIOTIPO, NUTRIACTIVE, MULTISERVICE e FLEX TRAINING, que são nossos parceiros nesta jornada em busca do alto rendimento. E por último, minha segunda família: a equipe. Pois são com eles que passo todos os dias da minha vida e dedico todo meu tempo para que possamos juntos alcançar um sonho. Todos aqui dentro tem uma função com que faz que sejamos um expoente da modalidade e essa união faz a diferença. São integrantes dessa família: Claudio, Natalia, Laura, Talisca, Leidiane, Débora, Fernanda, Hellorayne, Herrison, Michael, Charles, Washington, Diogo, Guilherme e Ricardy. Agradeço a todos pela parceria e confiança.

Agradecimento especial ao site MMA-Brasil.com pelo espaço. A informação não pode ser um privilégio apenas de alguns, por isso esse site está de parabéns e desejamos todo sucesso do mundo.