MMA Brasil nos Jogos Olímpicos Rio 2016: Prévia das competições de boxe

Seleção brasileira tenta repetir o ótimo desempenho de Londres. Americanos chegam com chance de sair da seca de ouro no masculino, mas têm no feminino a maior candidata a estrela da modalidade nos Jogos. Time cubano dá sinais de voltar aos melhores dias.

Presente no cardápio olímpico há 112 anos, o boxe passou por mudanças drásticas em sua organização amadora, que tende cada vez mais a apontar para o profissionalismo. Depois de apresentarmos as novas regras para os Jogos Olímpicos Rio 2016, chegou a hora de uma prévia da modalidade para que nossos leitores saibam em quem mirar nos ringues cariocas, alguns dos favoritos a levar para casa uma das 52 medalhas que estarão em jogo.

Não há disputa de terceiro lugar no boxe olímpico, os dois derrotados das semifinais recebem medalhas de bronze. Como se trata de um esporte hostil, os combates são disputados a cada três ou até quatro dias. Por este motivo, a competição começa no primeiro dia dos Jogos e termina no último – as demais modalidades de luta levam de 5 a 7 dias para finalizar as competições olímpicas. As lutas masculinas são disputadas em três assaltos de três minutos, enquanto as femininas têm quatro rounds de dois minutos.

Ganhar uma medalha olímpica no boxe é um bom começo para sucesso na carreira profissional. Fazem parte do rol de medalhistas olímpicos no boxe gente do naipe de Floyd Patterson (ouro em 1952), Ingemar Johansson (prata em 1952), Muhammad Ali (como Cassius Clay, ouro em 1960), Joe Frazier (ouro em 1964), George Foreman (ouro em 1968), Teófilo Stevenson (ouro em 1972, 1976 e 1980), Sugar Ray Leonard (ouro em 1976), Pernell Whitaker (ouro em 1984), Evander Holyfield (bronze em 1984), Lennox Lewis (ouro em 1988), Roy Jones Jr. (prata em 1988), Oscar de la Hoya (ouro em 1992), Wladimir Klitschko (ouro em 1996) e Floyd Mayweather Jr. (bronze em 1996). Entre os boxeadores ativos, temos os casos de Guillermo Rigondeaux (ouro em 2000 e 2004), Andre Ward (ouro em 2004), Gennady Golovkin e Amir Khan (prata em 2004), Deontay Wilder (bronze em 2008), Vasyl Lomachenko (ouro em 2008 e 2012), Anthony Joshua (ouro em 2012), dentre outros.

As maiores equipes que competirão no Rio são oriundas da ex-União Soviética. A seleção do Cazaquistão tem 12 boxeadores, enquanto a da Rússia, do Azerbaijão e do Uzbequistão chegam com 11 cada. O time da Grã-Bretanha tem os mesmos 12 dos cazaques, enquanto a China terá 11 lutadores em ação. A delegação cubana classificou um lutador para cada categoria masculina, mas não terá representante alguma nas chaves femininas. O time americano, maior medalhista da história do boxe olímpico, tem apenas 8 atletas (seis homens), sem ninguém nas três categorias mais pesadas do masculino. Nenhum país classificou uma equipe inteira de 13 atletas.

A equipe brasileira

Robson Conceição é o principal nome da seleção brasileira de boxe

Robson Conceição é o principal nome da seleção brasileira de boxe

O Time Brasil, conduzido pelo diretor técnico cubano Otilio Toledo, terá nove atletas na competição olímpica de 2016. Por ser o país-sede, o Brasil teve direito a cinco vagas no masculino e uma no feminino. Entre os homens, Patrick Lourenço (mosca-ligeiro), Julião Neto (mosca), Robenílson de Jesus (galo), Joedison Teixeira (meio-médio-ligeiro) e Michel Borges (meio-pesado) foram os pré-classificados, enquanto a medalhista de Londres Adriana Araujo (ligeiro) ficou com a vaga das mulheres. Juntaram-se a eles Robson Conceição (ligeiro, que se classificou no Mundial de 2015), Juan Nogueira (pesado) e Andreia Bandeira (médio), que conquistaram vagas no Pré-Olímpico das Américas.

Conceição, prata no Mundial da AIBA de 2013 e bronze no de 2015, é a principal aposta de medalha na equipe brasileira. Robenílson tem chance de melhorar o quinto lugar de Londres, brigando pelo bronze no Rio, mas está numa categoria muito forte. Da nova geração, Joedison também luta por pódio. Dependendo de como saia o sorteio das chaves, Patrick pode surpreender, assim como Andreia.

Boxe Masculino no Rio 2016

O jovem Shakur Stevenson é a esperança americana de acabar com o jejum de 12 anos sem medalha de ouro no boxe masculino

O jovem Shakur Stevenson é a esperança americana de acabar com o jejum de 12 anos sem medalha de ouro no boxe masculino

Os Estados Unidos são a maior potência olímpica também no boxe, mas o país só conquistou uma medalha de ouro em Londres, a primeira americana desde Ward, em 2004. O time masculino passou o vexame de não subir ao pódio em 2012. Para sair da seca, a aposta americana para medalha no Rio-2016 é Shakur Stevenson, peso galo de 19 anos, invicto em competições internacionais, batizado em homenagem ao rapper Tupac Shakur, assassinado meses antes de seu nascimento. Canhoto, habilidoso e um craque no uso do jab, Stevenson terá no irlandês Michael Conlan, número um do ranking mundial, o maior rival na busca pela medalha de ouro. Conlan conquistou medalha de bronze em Londres e é o atual campeão mundial da categoria, enquanto Stevenson venceu o Mundial Júnior. A divisão ainda tem no cubano Robeisy Ramírez Carrazana, atual campeão olímpico, um forte candidato, assim como o russo Vladimir Nikitin. Correm por fora o indiano Shiva Thapa, o uzbeque Murodjon Akhmadaliev e o bielorrusso Dzmitry Asanau. É contra esse pessoal que Robenílson tentará a sorte.

O selecionado americano traz uma história curiosa. O meio-médio-ligeiro Gary Antuanne Russell é o caçula de seis irmãos que se chamam Gary Russell, cinco deles boxeadores. Antuanne, Gary Allen Jr., Gary Allen III e Gary Antonio formam o único quarteto de irmãos que venceram a Golden Gloves nacional nos Estados Unidos. De quebra, Gary Jr., que disputou os Jogos de Pequim, em 2008, é o atual campeão peso pena da WBC.

Outra potência que passava por entressafra era o time cubano, mas já mostrou alguma recuperação em Londres, com quatro medalhas. Para o Rio, liderando uma forte equipe, o meio-pesado Julio César la Cruz, tricampeão mundial, bi dos Jogos Pan-Americanos, pugilista do ano de 2015 da AIBA, dono de um estilo lindo de se ver, é a principal aposta de Cuba para um ouro no boxe. “La Sombra” terá no camaronês Hassan N’Dam N’Jikam, ex-campeão interino do peso médio no boxe profissional, no irlandês Joe Ward, no cazaque Adilbek Niyazymbetov e no azerbaijano Teymur Mammadov seus maiores adversários na disputa olímpica.

Julio César La Cruz já faz sucesso no circuito profissional do World Series of Boxing, da AIBA

Julio César La Cruz já faz sucesso no circuito profissional do World Series of Boxing, da AIBA

Uma categoria acima de La Cruz está Erislandy Savón, sobrinho do lendário tricampeão olímpico Félix Savón. Erislandy disputou os Jogos de Londres na categoria superpesado, mas acabou eliminado pelo futuro campeão Anthony Joshua, numa luta controversa. Agora como pesado, Savón é o favorito ao ouro no Rio, tendo o russo Evgeny Tishchenko como seu maior rival. O argentino Yamil Peralta corre por fora.

Outro nome forte do time caribenho é Lázaro Álvarez Estrada, tricampeão mundial e que tirou Robenílson da disputa de medalha em Londres. No Rio 2016, Lázaro está na chave de Robson Conceição. Com eles, teremos a volta de Albert Selimov, único ser humano que venceu Lomachenko em 396 lutas amadoras. No ano passado, Selimov venceu Robson na semifinal do Mundial e caiu para Lázaro na decisão. O peso ligeiro é uma categoria tão forte que terá ainda a participação de dois profissionais, o italiano Carmine Tommasone e o tailandês ex-campeão mundial do peso mosca Amnat Ruenroeng.

Entre os grandalhões do peso superpesado, um nome interessante a ficar de olho é o francês Tony Yoka. Apelidado de “O Artista”, ele mostra incrível habilidade, jogo de pernas e velocidade de punhos para um sujeito de 1,98m, graças ao corpo leve que dificilmente chega aos 105 quilos. É esperado que ele repita a final do Mundial de 2015 contra o cazaque Ivan Dychko, enquanto o britânico Joe Joyce corre por fora.

O enorme Tony Yoka é um nome a ficar de olho não só no Rio 2016, mas também no profissionalismo (Foto: L'Èquipe)

O enorme Tony Yoka é um nome a ficar de olho não só no Rio 2016, mas também no profissionalismo (Foto: L’Èquipe)

No peso mosca, vejam só, teremos um Muhammad Ali em ação. O jovem britânico tinha apenas um mês de vida quando seu lendário homônimo acendeu a pira olímpica em Atlanta, em 1996, numa das mais emocionantes cenas olímpicas. Aos 20 anos, Ali, que também é muçulmano, vai tentar homenagear o ídolo, falecido recentemente, vai colocar sua velocidade estonteante e combinações tão rápidas que parecem fazer os punhos sumirem para adicionar mais uma medalha na coleção que já conta com o Mundial Juvenil (quando foi derrotado na final por Shakur Stevenson), o Europeu Adulto, o Júnior e os Jogos Olímpicos da Juventude (ocasião em que foi novamente derrotado por Stevenson). Nesta categoria, o favorito é o cubano Yosvany Veitía. O chinês Hu Jianguan, o russo Misha Aloyan e o azerbaijano Elvin Mamishzada também são nomes fortes.

Uma categoria abaixo de Ali, na mais leve de todas, o russo com cara de criança Vasilii Egorov deve chegar à final do peso mosca-ligeiro. O menino da Sibéria terá como o mais forte rival o cubano Joahnys Argilagos, que o venceu na final do Mundial de 2015. O irlandês Paddy Barnes, medalhista de bronze em Pequim e Londres, o uzbeque Hsanboy Dusmatov, além do cazaque Birzhan Zhakypov, campeão no Mundial de 2013, devem brigar pelas medalhas de bronze.

A divisão que promete a busca mais intensa pela medalha de ouro provavelmente é o peso médio. O cubano Arlen López é o principal favorito ao ouro, enquanto o uzbeque Bektemir Melikuziev, o egípcio Hosam Bakr Abdin, o ucraniano Dmytro Mytrofanov e o russo Artem Chebotarev chegam fortes na disputa pelas medalhas. Outro candidato forte era o irlandês Michael O’Reilly, mas ele está fora dos Jogos por doping, de acordo com o noticiado nesta quinta-feira pelo Irish Examiner.

Boxe Feminino no Rio 2016

Nas competições femininas, as três campeãs em Londres-2012 estão de volta para defender seus títulos. As três são favoritas para o bi, ainda que uma delas seja mais do que as outras duas. Aliás, é uma pena que só tenham três divisões femininas, visto que elas foram responsáveis pelos melhores momentos no boxe em Londres.

Katie Taylor é a golden girl do boxe olímpico

Katie Taylor é a golden girl do boxe olímpico

Porta-bandeira da delegação irlandesa nos Jogos Olímpicos há quatro anos, provavelmente a maior boxeadora amadora de todos os tempos, pentacampeã mundial e hexa europeia, Katie Taylor segue no papel de máquina de ganhar títulos. A questão é que agora o peso leve vive um novo momento de competitividade. A francesa Estelle Mossely venceu Katie na semifinal do Mundial de 2016, a única derrota da irlandesa em competições de grande porte na carreira – Taylor havia vencido Mossely em três finais anteriormente. A americana ex-modelo Mikaela Mayer, a russa Anastasia Beliakova e a azerbaijana Yana Alekseevna também são apontadas como candidatas a medalhas no Rio. Por fora temos a brasileira Adriana Araujo, bronze em Londres, mas que não vive o mesmo momento de quatro anos atrás, e a finlandesa Mira Potkonen, bronze no último Mundial.

Curiosidade: Mossely é noiva de Yoka. Os lutadores planejam se casar após os Jogos Olímpicos, preferencialmente com um par de medalhas de ouro para abrilhantar a cerimônia.

Mikaela Mayer superou uma infância em bairro barra-pesada antes de tentar a vida como modelo e trocar pelos ringues

Mikaela Mayer superou uma infância em bairro barra-pesada antes de tentar a vida como modelo e trocar pelos ringues

No peso mosca, o domínio segue com a sorridente e veloz britânica Nicola Adams, que conquistou o Mundial da AIBA em maio, completando o Grand Slam do boxe feminino – ela também é campeã olímpica, europeia e da Comunidade das Nações. Em caso de título, Adams será a primeira britânica bicampeã olímpica no boxe desde Harry Mullin, em 1920 e 1924. A americana Virginia Fuchs, a canadense Mandy Bujold e a tailandesa Peamwilai Laopeam são suas principais adversárias. A lendária chinesa Ren Cancan já está na fase descendente da carreira, mas nunca se pode descartá-la numa briga por medalha. A cazaque Zhaina Shekerbekova, batida na semifinal do Mundial por Adams, pode surpreender.

No entanto, quem mais carrega o favoritismo para os ringues do Rio de Janeiro não só para a medalha de ouro, mas para ser o maior nome da competição, no masculino ou feminino, é a americana Claressa Shields (foto de destaque da matéria), no peso médio. Em 2012, a “T-Rex” foi apontada como a mais dominante boxeadora do torneio olímpico mesmo com apenas 17 anos. No Rio, aos 21, a expectativa é que Shields, campeã mundial em 2014 e 2016, seja ainda mais retumbante. A holandesa Nouchka Fontijn, a canadense Ariane Fortin, a britânica Savannah Marshall (única que venceu Shields até hoje) e a representante da Taipé Chinesa Chen Nien-chin são algumas das candidatas a brigar pelos demais postos no pódio.

  • Pedro Carneiro

    Holyfield e Roy Jones Jr ganharam o bronze porque foram roubados descaradamente. Na torcida pelo Robson ou Selimov, Michael Conlan, La Cruz, Savón, Yoka, Mayer e a Shields. Essa olímpiada promete!

  • Fala, Alexandre. Tudo bom? Parabéns pelo ótimo texto. Quais os atletas do judô que valem a pena ficar de olho nessa olimpíada?

    • James sousa

      Teddy Riner

      • Sim, sim. Os lutadores de elite, como Tagir Khaibulaev, Dae-Nam Song, Idalys Ortiz e o próprio Teddy Riner, eu conheço. Queria saber outros bons nomes pra ficar de olho mesmo.

  • James sousa

    excelente previa eu que não sou o maior conhecedor de boxe já estou animado para as lutas da nobre arte nestes jogos