MMA Brasil entrevista Wanderlei Silva: “Voltei a lutar para descer o braço no Belfort”

Falamos com o Cachorro Louco na semana seguinte ao combate com Chael Sonnen, no Madison Square Garden. Ele respondeu perguntas sobre o inicio da carreira, o TUF e as desavenças com Sonnen, carreira, novos projetos e fez um desafio a um antigo rival.

Em atividade há mais de 20 anos, Wanderlei Silva foi um dos maiores ídolos brasileiros no período em que o PRIDE FC era a meca do MMA. Com uma carreira vitoriosa e uma trajetória muitas vezes polêmica, Wand desperta a curiosidade de grande parte dos fãs. Procuramos o astro na semana posterior à luta contra Chael Sonnen, no Bellator NYC, para falar não apenas do momento atual do “Cachorro Louco”, mas de toda a sua carreira.

Wanderlei esclareceu, com seu bom humor característico, dúvidas sobre o início no MMA, o período em que era um dos maiores do mundo, as rivalidades. Como era de se esperar, não faltaram provocações. Passado, presente e futuro estão entrelaçados nas respostas de um dos maiores lutadores da história do MMA.

Qual foi o diferencial que permitiu ao Wanderlei Silva alcançar vitórias e sucesso?

Meu diferencial foi a persistência, a força de vontade. Às vezes você ganha uma e perde outra, se anima e se desanima, mas o negócio é a persistência, é você realmente acreditar, pegar o seu sonho, se agarrar nele e fazer o melhor da maneira mais eficiente possível para que você consiga o máximo do seu potencial.

Na sua opinião, quais são os cinco melhores lutadores da história?

Eu acho que é complicado falar de uns e não falar de outros. Cada tempo teve o seu melhor. Em um tempo, um era melhor, e em outro tempo, era outro. Graças a Deus, fico feliz de figurar entre esses, já que eu também tive o meu tempo de ser o melhor. Assim como eu, o (Rodrigo) Minotauro, o Fedor (Emelianenko), o Anderson (Silva), o (Kazushi) Sakuraba e o Royce (Gracie), todos tiveram seus momentos áureos, aquele momento que mudou o nosso patamar dentro do esporte.

E hoje, como você vê a mudança no MMA da época do PRIDE para hoje? Quem são os seus lutadores favoritos na atualidade?

A mudança é que agora temos uma audiência muito boa. Hoje temos as redes sociais. Antigamente nós não as usávamos tanto. É até um absurdo o @wandfc no Instagram ter apenas 500 mil seguidores, vamos seguir lá, pessoal (risos)!

Eu pretendo investir nas redes sociais e aumentar o meu número de seguidores para poder passar a ideia que nós temos de sucesso, perseverança, força de vontade e estilo de vida. É muito legal você ajudar, mesmo que de longe, a melhorar a vida das pessoas.

Wanderlei Silva protagonizou uma rivalidade violenta com Rampage Jackson

Você sentia medo antes ou durante as lutas?

Na realidade não é medo do oponente ou de se machucar. O medo é basicamente de duas coisas: ter uma má apresentação ou de tomar um nocaute rápido, que foi o que aconteceu com o Fedor agora, uma infelicidade tomar uma pancada logo no começo. Eu sei como que é, sei o que ele está sentindo. Então, esses são os medos. O medo é de não fazer o show que o público quer ver. Esse é o medo do Wanderlei Silva, pelo menos. Porque quando eu entro pra lutar, gosto de fazer o povo gritar, o povo pular, fazer o povo sorrir e fazer o povo chorar.

Se você pudesse escolher um adversário para uma última luta, quem seria?

A luta que seria um sonho pra mim é com o Mike Tyson. Imagina a gente meter uma luvinha de 10 onças e fazer um pega só em pé? Eu nunca fiz uma luta de boxe, mas vou muito bem no boxe. Acho que essa seria a minha luta dos sonhos.

Quais foram as suas maiores dificuldades técnicas no início? Como as superou?

Tudo o que você passa na vida serve para alguma coisa. Eu vim de uma família muito humilde e sofria muita discriminação. Por não poder ter o que os outros tinham, eu era tratado de uma forma diferente, as pessoas me olhavam diferente. Eu vi tudo isso mudar na medida que fui crescendo na carreira, fui me tornando um ídolo mundial e vi essas mesmas pessoas me tratando de uma maneira diferente. Então vejo que o fato de eu ter passado por humilhações e discriminação gerou uma ira dentro de mim e se tornou o meu ponto mais forte. Toda vez que eu entro e entrava no ringue, pensava naquela realidade de onde eu vim e que não queria voltar, que eu queria mudar de nível e ter uma vida melhor. Ali era a minha única chance.

Como você reagia emocionalmente nas vitórias e nas derrotas?

Tanto as vitórias quanto as derrotas dizem que você tem 72 horas pra rir ou pra chorar. Então você tem que lidar com a sua carreira não como um pique, mas como uma maratona. Se soubesse que ia ganhar dinheiro só no final, eu tinha segurado um pouquinho mais. Acho que o lutador tem que se cuidar, cuidar do corpo e da mente pra poder ter uma longevidade maior. Porque eu tô vendo que agora as lendas do esporte estão ganhando muito bem. É muito bom ver o nosso esporte chegando nesse patamar, trazendo caras que estavam parados e que podem fazer shows melhores que essa rapaziada nova. A nossa obrigação é se apresentar bem. É isso que as lendas têm que pensar. Temos que voltar pra fazer show, e não para ficar se agarrando.

Você pretende lutar por mais quanto tempo? Tem alguma preocupação com os problemas de saúde que a luta pode te trazer no longo prazo?

Com relação a ter problema de saúde, eu acho que não, porque mudei completamente a minha alimentação, estou tentando comer pouco produtos industrializados e comer mais arroz, feijão, carne. Tentando comer coisas mais orgânicas, pegar sol, comer e dormir bem, treinar bem. Isso está me dando saúde de um jovem de 20 anos. Estou me sentindo muito disposto, aguentando fazer dois treinos por dia bem feitos. Se o cara não quisesse ficar só me agarrando, a luta teria sido muito melhor. Aguentei fazer os três rounds no pau, passando pelo pior, e na hora que vir o melhor, vocês vão ver que delícia vai ser.

Você tem uma grande rixa com o Vitor Belfort e saiu derrotado da luta que fizeram no UFC. O que você faria diferente naquela luta se pudesse voltar no tempo?

Eu voltei a lutar para enfrentar o Belfort. Eu queria enfrentar o Sonnen, já lutei com ele e agora quero lutar com ele de novo, quero lutar com o Rampage, que está 1 a 1 (na realidade está 2 a 1 para Wanderlei). Mas o que eu quero mesmo é pegar o Belfort. Ele é em quem eu quero descer o braço. E dessa vez não quero saber de mão quebrada, não.

Você venceu uma diversas lendas do esporte, como Dan Henderson, Rampage, Liddell e Ricardo Arona. Em algum momento você ficou nervoso por enfrentar grandes nomes?

Eu tive oportunidade de enfrentar os melhores do mundo, entrei até como azarão contra alguns deles e me saí muito bem. Eu acho que você enfrentar um cara conhecido não te deixa mais ou menos nervoso, mas aumenta a responsabilidade. Você sabe que ali do outro lado está um adversário que é tão bom quanto você, mas, se você ganhar, a sua carreira pode disparar. Então esse é o momento da raça, da coragem, de ir para cima de um cara que você sabe que pode apanhar. Ir pra cima de um cara que você sabe que vai bater é uma coisa, mas enfrentar um cara que tem mais nome, que é maior, e ir pra cima desse cara é que mostra realmente a sua coragem.

Qual foi o adversário que você enfrentou que batia mais pesado?

O Mark Hunt tinha uma mão muito pesada. É um cara campeão mundial de muay-thai. Então teve ele, o Chuck Liddell também batia pesado. Eu enfrentei muito lutador bom.

Wanderlei Silva e Chuck Liddell travaram uma das mais memoráveis batalhas da história do UFC

Chuck Liddell e Wanderlei Silva travaram uma das mais memoráveis batalhas da história do UFC

Alguns desses foi a luta mais difícil da sua carreira?

Acho que o Chuck Liddell foi uma das mais difíceis que tive na minha carreira.

Como foi a experiência de gravar o TUF Brasil?

A experiência foi ótima. Foi muito bom colocar o MMA na TV aberta, mostrar a nossa arte, a preparação, poder mostrar um pouquinho como é a vida de um lutador, ver que, por trás do lutador, tem toda uma vida, uma pessoa com erros e acertos iguais aos seus. E que o lutador supera as dificuldades da vida usando a disciplina da arte marcial, é isso que a arte marcial ensina para você. As edições que eu participei foram as que tiveram as maiores audiências e fico feliz de ver que o povo realmente adora quando o Wanderlei Silva aparece.

Você acha que a edição do TUF te prejudicou?

Eu acho que a edição do TUF me ajudou muito, me promoveu. Todo seminário que dou, se ficar vazio, vão 150 pessoas. Já fiz seminário para 300 pessoas e vejo esse interesse que eu desperto nos praticantes e até nos não-praticantes. Fico feliz de poder chegar em cidades mais distantes e o ginásio estar cheio. Gosto muito de contar as histórias dos bastidores, o que acontece dentro da luta e se eu aparecer na sua cidade, aparece lá para me dar um abraço, tirar uma foto comigo. Eu tenho estudado bastante, quero melhorar a minha oratória para fazer boas palestras sobre motivação, perseverança, porque é isso que a arte marcial traz.

Você consegue compreender a importância que teve para o esporte? Como você reage com o respeito que tem no meio da luta e por ser reconhecido como uma lenda do esporte?

É muito boa essa pergunta, porque esse é o meu maior troféu. Quando vejo caras com o Georges St. Pierre, o Jon Jones chegarem pra mim e dizerem que são meus fãs, pedindo pra tirar foto comigo e falando que começaram a treinar inspirados nas minhas lutas, acho que não existe um troféu maior para um lutador. Esse respeito, esse reconhecimento, ver que essa nova geração está levando pra frente esse ensinamento de respeito, de perseverança da arte marcial, é algo que me deixa muito feliz.

É isso que eu quero fazer agora, quero fazer grandes combates para atrair a atenção de muita gente, para que, com isso, a gente possa ter mais academias, mais praticantes de artes marciais e mais lutadores. É um dos meus sonhos colocar um professor de arte marcial em cada escola do Brasil, para que a gente possa ensinar arte marcial de graça. Com isso, o jovem vai conseguir ter foco, concentração, saber que ele consegue enfrentar as dificuldades da vida através da arte marcial. Meu plano é tentar passar a arte marcial para o maior número de pessoas possível. Já vou conseguir colocar o primeiro professor de artes marciais aqui em Curitiba. O pessoal que me patrocina, da Ford Center, vai bancar esse professor. Pediram pra eu ver quanto custaria, porque eles vão colocar um professor de artes marciais dentro de uma escola. Nós vamos escolher a escola, vamos escolher o professor e vamos colocar um banner da Ford Center, que está apoiando porque quem tiver na escola e quiser treinar, vai fazer tudo de graça. Vamos fazer essa escola de Curitiba com piloto e ver os erros e acertos para depois espalhar para o Brasil inteiro.

Você poderia mandar um recado para os leitores do MMA Brasil?

  • Ótima matéria.
    A ideia do melhor lutador por época eu concordo com. o Wand.

    • Pedro Carneiro

      É um modo de se enxergar esse debate. Mais ai vem um espirito de porco e diz: tá bom, e dentre os melhores de cada época, quem foi o melhor? Hahahaha

    • Sim, é um ponto válido.

  • Patrick Santos

    Excelente entrevista. Apesar de não gostar de ver ídolos como Wand, Fedor e BJ lutando em idade avançada, entendo o argumento do Wand de que, agora que os lutadores estão sendo melhor remunerados, eles também querem uma fatia do bolo. Só torço para que nesses casos não ocorra uma disparidade entre as idades do lutadores, como ocorreu com o Belfort x Gastelum e o BJ x Pantera.

    • Pedro Carneiro

      Sim, tem esse lado financeiro e ninguém tá errado de tentar arrumar um jeito honesto de colocar feijão na mesa. A única preocupação é com a saúde desses atletas na velhice, já que sofreram muitas concussões ao longo da vida.

    • Tomara que eles não gastem a fatia do bolo reparando a saúde.

  • Tonny Varela

    Showww ! Parabéns pela entrevista..

    • Pedro Carneiro

      Valeu, fera!

  • James sousa

    Wanderlei Silva x Belfort seria uma boa em um Bellator no Brasil

    • Idonaldo Gomes Assis Filho

      Se bem divulgado enche arena.

    • Pessoal quer ver Wand x Belfort, Anderson x Belfort. Então tem mercado pro Belfort continuar por um tempo.

  • Idonaldo Gomes Assis Filho

    Excelente entrevista, achei engraçado de quando você perguntou sobre se o Wand estava preocupado com saúde ele veio com negócio de comida e tal… acho que não era bem isso que estavamos querendo saber né Wand kk.

    E Wand x Tyson de co-main event de Mayweather x McGregor pra ontem kkkk, show de bola.

    • Pedro Carneiro

      aquela famosa saída lateral pela direita. hahaha

    • Não era exatamente isso hahaha

  • Sexto Empírico

    Wanderlei Silva foi o melhor de uma época selvagem quando mesmo lutadores gabaritados tinham medo de experimentar esse tal Vale Tudo.
    Quem não viveu aquela atmosfera, não respirou pesado, com o coração descompassado, enquanto Wand aquecia os pulsos com as mãos entreleçadas, ou encarava o oponente, com um olhar direto e assassino, fica difícil entender a dimensão desse guerreiro vendo, friamente, vídeos seus no Youtube. Ele e o Minotauro eram os dois únicos lutadores q eu sempre torcia a favor.
    Durante cinco anos, Wand reinou absoluto em sua categoria no MMA mundial. Estraçalhava quem cruzasse seu caminho. E ele era respeitado não pela técnica, mas por sua violência e agressividade. Sua presença era incômoda, era um ser humano que causava calafrios, dava medo. Seu reinado foi de absoluto terror.

    • Sexto Empírico

      Concordo com o Wand. Lutador pra ser grande tem que reinar em sua época. Poder olhar e dizer: “sim, esse cara é bom hoje, mas, em minha época, ninguém me batia. Eu era o melhor”. É engraçado ficar listando GOATs, humanos, sociais q são, amam hierarquizar, criar ídolos para adorar e fazer listas. Só q o importante mesmo é o fato de ter dominado uma categoria monstruosa, ser o melhor do mundo em seu tempo. Especulações posteriores são apenas passatempo da mídia e dos fãs.

  • felipe

    show de bola. parabens pelo conteudo sempre de primeira galera do MMA brasil

    • Pedro Carneiro

      Muito obrigado e volte sempre, amigão!

    • Eduardo Kovasc

      vou te meter tapão na boca, bicho feio.

    • Eduardo Kovasc

      Metlaladola.

  • Rafael Oreiro

    Baita entrevista do Wand. Eu tinha uma impressão ligeiramente negativa dele desde o primeiro TUF, mas algumas das respostas dele nessa entrevista me fizeram ver um outro lado do Cachorro Louco.

    • Pedro Carneiro

      Ele mudou completamente a opinião que eu tinha sobre ele quando o conheci pessoalmente. É um baita sujeito gente boa

  • Lero

    Da época quando o lutador falava: luto contra qualquer um, em qualquer momento. Nao era só um papo para fazer manchetes.

    E olha que de repente ele já tem alguma coisa fudida na cabeca. Esquecer alguma da suas lutas contra o Rampage é crime. Imagina se voce é o protagonista. As tres lutas nos proporcionaram tres dos nocautes mais violentos da historia do MMA.

    • Pedro Carneiro

      Tem isso mas se tu parar pra pensar, a gente também esquece um monte de coisa que viveu há 10 anos atrás.

  • Fannine

    Wand entra naquele grupo: Ame ou odeie…
    Mas não tem como não admitir que o cachorro louco foi um dos maiores… Baita entrevista!

    • Pedro Carneiro

      Ele é um cara muito gente boa. É fácil de amar depois que se conhece

  • André Guilherme Oliveira

    Wand é um figurão, transita entre o babaca e o gente fina numa facilidade imensa. Dizem ser um cara super solicito e muito atencioso. Quem viu o lutador é fã, um dos mais empolgantes que já colocaram uma luva de 4 onças, e entre os que lutaram sem luvas também.

    • Pedro Carneiro

      Wand era certeza de empolgação e luta frenética, ganhando ou perdendo. Como pessoa é um cara muito gente boa mesmo. Te trata como se fosse seu amigo no dia que te conhece e todas as vezes que eu o encontrei ele me tratou bem demais.

  • Anderson Cachapuz

    Adorei a foto de capa!!! UM MITO…. e ao lado dele, o Wanderlei…

  • Marco antônio

    Só me preocupo quando ele diz que “mudou completamente a alimentação, que por causa disso está com a saúde de um jovem”.

    • Pedro Carneiro

      Sim, é preocupante mesmo. Até mesmo porque existem muitas outras consequências a longo prazo que são mais prejudiciais pra saúde.

      • Marco antônio

        E ele deveria saber disso.