MMA Brasil entrevista Wanderlei Silva: “Voltei a lutar para descer o braço no Belfort”

Por Pedro Carneiro | 02/07/2017

Em atividade há mais de 20 anos, Wanderlei Silva foi um dos maiores ídolos brasileiros no período em que o PRIDE FC era a meca do MMA. Com uma carreira vitoriosa e uma trajetória muitas vezes polêmica, Wand desperta a curiosidade de grande parte dos fãs. Procuramos o astro na semana posterior à luta contra Chael Sonnen, no Bellator NYC, para falar não apenas do momento atual do “Cachorro Louco”, mas de toda a sua carreira.

Wanderlei esclareceu, com seu bom humor característico, dúvidas sobre o início no MMA, o período em que era um dos maiores do mundo, as rivalidades. Como era de se esperar, não faltaram provocações. Passado, presente e futuro estão entrelaçados nas respostas de um dos maiores lutadores da história do MMA.

Qual foi o diferencial que permitiu ao Wanderlei Silva alcançar vitórias e sucesso?

Meu diferencial foi a persistência, a força de vontade. Às vezes você ganha uma e perde outra, se anima e se desanima, mas o negócio é a persistência, é você realmente acreditar, pegar o seu sonho, se agarrar nele e fazer o melhor da maneira mais eficiente possível para que você consiga o máximo do seu potencial.

Na sua opinião, quais são os cinco melhores lutadores da história?

Eu acho que é complicado falar de uns e não falar de outros. Cada tempo teve o seu melhor. Em um tempo, um era melhor, e em outro tempo, era outro. Graças a Deus, fico feliz de figurar entre esses, já que eu também tive o meu tempo de ser o melhor. Assim como eu, o (Rodrigo) Minotauro, o Fedor (Emelianenko), o Anderson (Silva), o (Kazushi) Sakuraba e o Royce (Gracie), todos tiveram seus momentos áureos, aquele momento que mudou o nosso patamar dentro do esporte.

E hoje, como você vê a mudança no MMA da época do PRIDE para hoje? Quem são os seus lutadores favoritos na atualidade?

A mudança é que agora temos uma audiência muito boa. Hoje temos as redes sociais. Antigamente nós não as usávamos tanto. É até um absurdo o @wandfc no Instagram ter apenas 500 mil seguidores, vamos seguir lá, pessoal (risos)!

Eu pretendo investir nas redes sociais e aumentar o meu número de seguidores para poder passar a ideia que nós temos de sucesso, perseverança, força de vontade e estilo de vida. É muito legal você ajudar, mesmo que de longe, a melhorar a vida das pessoas.

Wanderlei Silva protagonizou uma rivalidade violenta com Rampage Jackson

Você sentia medo antes ou durante as lutas?

Na realidade não é medo do oponente ou de se machucar. O medo é basicamente de duas coisas: ter uma má apresentação ou de tomar um nocaute rápido, que foi o que aconteceu com o Fedor agora, uma infelicidade tomar uma pancada logo no começo. Eu sei como que é, sei o que ele está sentindo. Então, esses são os medos. O medo é de não fazer o show que o público quer ver. Esse é o medo do Wanderlei Silva, pelo menos. Porque quando eu entro pra lutar, gosto de fazer o povo gritar, o povo pular, fazer o povo sorrir e fazer o povo chorar.

Se você pudesse escolher um adversário para uma última luta, quem seria?

A luta que seria um sonho pra mim é com o Mike Tyson. Imagina a gente meter uma luvinha de 10 onças e fazer um pega só em pé? Eu nunca fiz uma luta de boxe, mas vou muito bem no boxe. Acho que essa seria a minha luta dos sonhos.

Quais foram as suas maiores dificuldades técnicas no início? Como as superou?

Tudo o que você passa na vida serve para alguma coisa. Eu vim de uma família muito humilde e sofria muita discriminação. Por não poder ter o que os outros tinham, eu era tratado de uma forma diferente, as pessoas me olhavam diferente. Eu vi tudo isso mudar na medida que fui crescendo na carreira, fui me tornando um ídolo mundial e vi essas mesmas pessoas me tratando de uma maneira diferente. Então vejo que o fato de eu ter passado por humilhações e discriminação gerou uma ira dentro de mim e se tornou o meu ponto mais forte. Toda vez que eu entro e entrava no ringue, pensava naquela realidade de onde eu vim e que não queria voltar, que eu queria mudar de nível e ter uma vida melhor. Ali era a minha única chance.

Como você reagia emocionalmente nas vitórias e nas derrotas?

Tanto as vitórias quanto as derrotas dizem que você tem 72 horas pra rir ou pra chorar. Então você tem que lidar com a sua carreira não como um pique, mas como uma maratona. Se soubesse que ia ganhar dinheiro só no final, eu tinha segurado um pouquinho mais. Acho que o lutador tem que se cuidar, cuidar do corpo e da mente pra poder ter uma longevidade maior. Porque eu tô vendo que agora as lendas do esporte estão ganhando muito bem. É muito bom ver o nosso esporte chegando nesse patamar, trazendo caras que estavam parados e que podem fazer shows melhores que essa rapaziada nova. A nossa obrigação é se apresentar bem. É isso que as lendas têm que pensar. Temos que voltar pra fazer show, e não para ficar se agarrando.

Você pretende lutar por mais quanto tempo? Tem alguma preocupação com os problemas de saúde que a luta pode te trazer no longo prazo?

Com relação a ter problema de saúde, eu acho que não, porque mudei completamente a minha alimentação, estou tentando comer pouco produtos industrializados e comer mais arroz, feijão, carne. Tentando comer coisas mais orgânicas, pegar sol, comer e dormir bem, treinar bem. Isso está me dando saúde de um jovem de 20 anos. Estou me sentindo muito disposto, aguentando fazer dois treinos por dia bem feitos. Se o cara não quisesse ficar só me agarrando, a luta teria sido muito melhor. Aguentei fazer os três rounds no pau, passando pelo pior, e na hora que vir o melhor, vocês vão ver que delícia vai ser.

Você tem uma grande rixa com o Vitor Belfort e saiu derrotado da luta que fizeram no UFC. O que você faria diferente naquela luta se pudesse voltar no tempo?

Eu voltei a lutar para enfrentar o Belfort. Eu queria enfrentar o Sonnen, já lutei com ele e agora quero lutar com ele de novo, quero lutar com o Rampage, que está 1 a 1 (na realidade está 2 a 1 para Wanderlei). Mas o que eu quero mesmo é pegar o Belfort. Ele é em quem eu quero descer o braço. E dessa vez não quero saber de mão quebrada, não.

Você venceu uma diversas lendas do esporte, como Dan Henderson, Rampage, Liddell e Ricardo Arona. Em algum momento você ficou nervoso por enfrentar grandes nomes?

Eu tive oportunidade de enfrentar os melhores do mundo, entrei até como azarão contra alguns deles e me saí muito bem. Eu acho que você enfrentar um cara conhecido não te deixa mais ou menos nervoso, mas aumenta a responsabilidade. Você sabe que ali do outro lado está um adversário que é tão bom quanto você, mas, se você ganhar, a sua carreira pode disparar. Então esse é o momento da raça, da coragem, de ir para cima de um cara que você sabe que pode apanhar. Ir pra cima de um cara que você sabe que vai bater é uma coisa, mas enfrentar um cara que tem mais nome, que é maior, e ir pra cima desse cara é que mostra realmente a sua coragem.

Qual foi o adversário que você enfrentou que batia mais pesado?

O Mark Hunt tinha uma mão muito pesada. É um cara campeão mundial de muay-thai. Então teve ele, o Chuck Liddell também batia pesado. Eu enfrentei muito lutador bom.

Wanderlei Silva e Chuck Liddell travaram uma das mais memoráveis batalhas da história do UFC

Chuck Liddell e Wanderlei Silva travaram uma das mais memoráveis batalhas da história do UFC

Alguns desses foi a luta mais difícil da sua carreira?

Acho que o Chuck Liddell foi uma das mais difíceis que tive na minha carreira.

Como foi a experiência de gravar o TUF Brasil?

A experiência foi ótima. Foi muito bom colocar o MMA na TV aberta, mostrar a nossa arte, a preparação, poder mostrar um pouquinho como é a vida de um lutador, ver que, por trás do lutador, tem toda uma vida, uma pessoa com erros e acertos iguais aos seus. E que o lutador supera as dificuldades da vida usando a disciplina da arte marcial, é isso que a arte marcial ensina para você. As edições que eu participei foram as que tiveram as maiores audiências e fico feliz de ver que o povo realmente adora quando o Wanderlei Silva aparece.

Você acha que a edição do TUF te prejudicou?

Eu acho que a edição do TUF me ajudou muito, me promoveu. Todo seminário que dou, se ficar vazio, vão 150 pessoas. Já fiz seminário para 300 pessoas e vejo esse interesse que eu desperto nos praticantes e até nos não-praticantes. Fico feliz de poder chegar em cidades mais distantes e o ginásio estar cheio. Gosto muito de contar as histórias dos bastidores, o que acontece dentro da luta e se eu aparecer na sua cidade, aparece lá para me dar um abraço, tirar uma foto comigo. Eu tenho estudado bastante, quero melhorar a minha oratória para fazer boas palestras sobre motivação, perseverança, porque é isso que a arte marcial traz.

Você consegue compreender a importância que teve para o esporte? Como você reage com o respeito que tem no meio da luta e por ser reconhecido como uma lenda do esporte?

É muito boa essa pergunta, porque esse é o meu maior troféu. Quando vejo caras com o Georges St. Pierre, o Jon Jones chegarem pra mim e dizerem que são meus fãs, pedindo pra tirar foto comigo e falando que começaram a treinar inspirados nas minhas lutas, acho que não existe um troféu maior para um lutador. Esse respeito, esse reconhecimento, ver que essa nova geração está levando pra frente esse ensinamento de respeito, de perseverança da arte marcial, é algo que me deixa muito feliz.

É isso que eu quero fazer agora, quero fazer grandes combates para atrair a atenção de muita gente, para que, com isso, a gente possa ter mais academias, mais praticantes de artes marciais e mais lutadores. É um dos meus sonhos colocar um professor de arte marcial em cada escola do Brasil, para que a gente possa ensinar arte marcial de graça. Com isso, o jovem vai conseguir ter foco, concentração, saber que ele consegue enfrentar as dificuldades da vida através da arte marcial. Meu plano é tentar passar a arte marcial para o maior número de pessoas possível. Já vou conseguir colocar o primeiro professor de artes marciais aqui em Curitiba. O pessoal que me patrocina, da Ford Center, vai bancar esse professor. Pediram pra eu ver quanto custaria, porque eles vão colocar um professor de artes marciais dentro de uma escola. Nós vamos escolher a escola, vamos escolher o professor e vamos colocar um banner da Ford Center, que está apoiando porque quem tiver na escola e quiser treinar, vai fazer tudo de graça. Vamos fazer essa escola de Curitiba com piloto e ver os erros e acertos para depois espalhar para o Brasil inteiro.

Você poderia mandar um recado para os leitores do MMA Brasil?