MMA Brasil entrevista Royce Gracie: “Se um promotor me oferecer luta, eu aceito”

A coluna de entrevistas retorna com uma lenda. Royce Gracie, o vencedor de três dos quatro torneios iniciais do UFC, conversou com o MMA Brasil sobre os tempos de ouro, sua carreira no Bellator e sobre o panorama atual do jiu-jítsu.

O primeiro ídolo brasileiro do MMA até hoje provoca questionamentos nos fãs, até porque, depois do retorno no Bellator MMA, no ano passado, não está totalmente claro que Royce Gracie está aposentado.

Esta foi uma das dúvidas que o MMA Brasil levou ao caçula da família real do MMA. O que fez com que o clã o escolhesse para representar a modalidade e o sobrenome na criação do UFC, os motivos que fizeram com que ele nunca mais lutasse no octógono, que não tivesse acontecido o acerto de contas com Matt Hughes ou o desempate com Kazushi Sakuraba. Qualidades e defeitos como lutador. Medo e tranquilidade.

Royce falou também sobre a arte que sua família desenvolveu e espalhou pelo mundo. Contou quem são seus lutadores favoritos e como ele vê a evolução da competição do jiu-jítsu.

Qual foi o seu diferencial para se destacar entre seus irmãos e primos e ser o escolhido para representar a família no UFC?

O meu diferencial foi o meu pai (Hélio Gracie) e meu irmão Rorion terem me escolhido por ser um cara tranquilo. Eu não tenho o profile, o biótipo de um lutador, de um casca-grossa. Eu nunca briguei na rua, então todo mundo ficou assustado quando meu pai e o Rorion me escolheram para lutar. Eles falaram: “Ele nunca saiu na porrada na rua, não é um cara nervoso, não é um cara agressivo, é tranquilo, é calmo”. Mas isso é uma boa qualidade para um lutador, meu pai sempre disse isso. Um cara que não fica emocionado, não se emociona, mas é tranquilo.

Qual foi a luta mais difícil da sua carreira?

A luta mais difícil está dentro da minha cabeça. O que eu quero dizer com isso? É a minha imaginação. Não é o adversário, o adversário em si é só mais um. Por isso que eu sempre digo que você ganha a luta nos treinamentos, no camp. Eu luto com um adversário que é bem maior, bem mais forte, que sabe o que está fazendo, que é a minha imaginação.

Você sentia medo antes ou durante as lutas?

Não, não sentia medo antes das lutas. Eu deito e durmo antes de todas as lutas, o Royler sempre tinha que me acordar uma hora antes da luta para me aquecer. Eu estou tão tranquilo que durmo.

Muito se fala entre os fãs sobre a terceira luta que nunca aconteceu entre você e Kazushi Sakuraba. O que realmente aconteceu e por que a luta não ocorreu?

Nunca me ofereceram essa terceira luta com o Sakuraba. A primeira luta durou 1:45h, seis rounds de 15 minutos com dois minutos de descanso. Na segunda luta, foram três rounds de cinco minutos. Na primeira, eu perdi; na segunda, ganhei, mas nunca houve uma oferta para a terceira luta. Eu acho que aquilo que o Sakuraba leva acabou um pouco com a carreira dele.

Por que você nunca mais voltou ao UFC depois da luta com o Matt Hughes, mas decidiu retornar no Bellator?

Não retornei para o UFC porque não houve uma oferta. Eu até pedi para lutar com o Hughes de novo, mas eles acharam que não havia necessidade e o Bellator me ofereceu um emprego, me colocaram como o representante deles. O representante do show.

Você ainda sente vontade de lutar profissionalmente ou está oficialmente aposentado?

Eu estou tentando me aposentar nos últimos 10 anos, mas eles não deixam! (risos). Eu estou querendo parar já, mas eles continuam me chamando, tem uma porção de gente que está querendo lutar comigo. Então cabe ao promotor. Se ele me oferecer, eu sou lutador e aceito.

Como você vê o jiu-jítsu no MMA atual? Quais são os seus lutadores favoritos no MMA?

Se você retirar o jiu-jítsu do MMA, as lutas viram como eram antigamente, karatê contra kung fu, luta livre olímpica contra boxe. O jiu-jítsu é a parte fundamental de unir todos esses estilos de luta no MMA.

Os meus lutadores favoritos hoje são o Demian Maia, que eu adoro ver lutando, luta certinho. O Neiman Gracie também, está usando o jiu-jítsu muito bem.

Na sua opinião, quais são os cinco melhores lutadores de jiu-jítsu da história?

O meu pai (Hélio Gracie), o Royler Gracie, o Rickson Gracie, o Renzo e o quinto lugar eu vou deixar em aberto.

Mas quem foi o melhor lutador de jiu-jítsu: Carlos, Hélio, Rolls, Royce, Rickson ou Roger?

O melhor lutador de jiu-jítsu pra mim foi o Helio Gracie, claro! Foi o cara que criou praticamente isso tudo. Ele aprendeu com o tio Carlos, mas foi ele quem colocou o dele na reta, foi ele quem desafiou todo mundo, foi ele quem criou uma arte, adaptando para ele, para um franzino poder se defender contra os gigantes.

Royce Gracie e seu pai Helio no UFC

Você acredita que a mentalidade do jiu-jítsu de hoje, voltada para a busca por pontos e não para as finalizações, tem desvirtuado o esporte?

Eu sou contra campeonatos de qualquer tipo de arte marcial. Não acredito que a arte marcial foi feita para você marcar um ponto, mas sim pra você nocautear ou finalizar o adversário. Para acabar com a luta, não para marcar ponto. Eu acho que esse esquema de fazer campeonatos marcando pontos está arruinando a arte marcial.

Quais qualidades como lutador o Royce herdou do pai? E os defeitos?

Das qualidades que eu herdei, acho que foram a paciência e a persistência. Eu não me deixo ficar emocionado durante a luta. Os defeitos? Não sei, não vou dizer que meu pai tinha defeitos, né?

Pelo dinheiro certo, se você pudesse escolher um adversário para uma última luta, quem seria?

Eu nunca escolhi adversário, então não vai ser hoje que vou escolher. Quando você está lá em cima, você não escolhe, você é escolhido (risos).

Qual conselho você daria para as novas gerações que estão começando no jiu-jítsu e no MMA?

O que mais existe no esporte é o atleta com talento, o casca-grossa. Mas isso um dia acaba, então você tem que ter disciplina para levantar e fazer o que tem que ser feito. Você tem que treinar.