MMA Brasil Entrevista: Paulo Sebba – A importância da Fisioterapia no MMA

Por Pedro Carneiro | 29/12/2020 10:02

O MMA é um esporte com uma exigência alta, e os lutadores são cercados de profissionais que trabalham em diversas especialidades, todos visando que ambos estejam prontos para o momento em que a porta do octógono se fecha. Hoje a coluna MMA Brasil Entrevista conversa com Paulo Sebba, fisioterapeuta e proprietário da cliníca REFICC, onde lutadores de Brasília, como Vicente Luque, Vivi Araújo, Rani Yahya e Renato Moicano, se tratam. O tema da conversa é a importância da fisioterapia no MMA.

Qual o papel do fisioterapeuta no MMA?

O MMA é uma modalidade versátil. Existem vários estilos de luta, e ao mesmo tempo que existe a versatilidade de modalidades, também existem de valências físicas. Em virtude disso, existe uma exigência muito grande do corpo. Um atleta de MMA está sempre com dores por causa da intensidade dos treinos e frequentemente exausto fisicamente. A fisioterapia coopera com a manutenção dos treinos. O atleta consegue treinar regularmente, pois sem a fisioterapia ele treina o primeiro dia, sente dores no segundo, onde a intensidade é afetada e no terceiro ele já não consegue mais treinar. Ele não conseguindo treinar, perde a sequência de treinamentos e com a interrupção da sequência, o atleta não consegue atingir o primor físico. Isso ocorre porque os treinos sempre sofrem interrupções, e assim não há desenvolvimento para se atingir o ápice físico e técnico. A fisioterapia dá manutenção e qualidade para se atingir o maior nível possível sem interrupções.

O índice de lesões do MMA é tão grande quanto o dos esportes com que você teve experiência?

Renato Moicano vence Cub Swanson no UFC 227

Renato Moicano é um dos lutadores atendidos por Sebba. Foto: UFC.

No futebol as lesões predominantes são de membros inferiores, o MMA além de um mix de artes marciais também é um mix de lesões. Elas são diversificadas, mas o Instituto de Performance do UFC lançou recentemente o primeiro livro científico do UFC e ele aponta que as maiores incidências de lesões nos combates são de mão e face. Nos treinos os joelhos e ombros tem uma grande incidência. É comum os atletas se machucarem quando treinam as modalidades que não são a de origem. Mas diferentemente do futebol, não há uma predominância tão grande, logo o profissional de fisioterapia que trabalha com MMA precisa ter um conhecimento sobre o corpo inteiro.

O profissional de fisioterapia precisa ter alguma outra especialização ou somente o diploma universitário é exigido?

Além da formação universitária, eu acho importante o profissional fazer a especialização em ortopedia e traumatologia e em seguida a especialização em fisioterapia esportiva. A diferença entre eles é que na primeira você aprende a ortopedia nua e crua, as patologias e traumas ortopédicos, já na segunda você abrange o conhecimento para questões físicas, nutricionais, aperfeiçoamento técnico, relações de multidisciplinaridade com outras áreas como educação física, nutrição, fisiologia do exercício etc. Por exemplo, eu agrego ao meu trabalho a especialidade do otorrino. Isso é necessário porque os atletas têm lesões frequentes no nariz, as vezes chegando ao ponto de ele não conseguir mais respirar pelo nariz. Surge então a sinusite crônica que gera dor de garganta, febre, e ambas tiram o atleta do treino. Alguns atletas não ouvem por razão de lesões na orelha. Há também as concussões cerebrais, problemas oftalmológicos. Há uma amplitude de questões que vão além dos traumas comuns, logo eu preciso estar a atento e não restringir o conhecimento a uma área só.

Estamos falando de esporte em um país pobre e embora seja esperado que os atletas de ponta já tenham uma estrutura para se tratar, os atletas provavelmente vêm com lesões antigas, de uma época em que não tinham dinheiro. Qual o prejuízo que essas lesões antigas, sem o acompanhamento fisioterápico, trazem para o atleta?

Essa é uma boa pergunta porque entra dentro de uma questão social. Eu faço uma análise comparativa com outros países com um desenvolvimento esportivo maior. Aqui no Brasil, nós realmente vamos perder vários atletas para as lesões. Isso infelizmente é inevitável e é algo que eu vejo todos os dias. Eu já vi vários atletas com grande potencial se perderem por aí em decorrência de lesões. No nosso país, acaba se tornando um processo de seleção natural. O atleta que começa a evoluir no esporte se perde porque começa a ter lesões que não são tratadas e muitas vezes a única coisa que permite o seu prosseguimento é a sorte de não ter lesões graves. É por falta de estrutura que o Brasil começou a perder força no MMA quando os outros países começaram a investir no esporte. Começamos a sair dos cinturões porque Estados Unidos, Rússia, começaram a encarar o MMA com seriedade. A American Top Team, a Sanford são equipes de excelência. Esses países dão estrutura para os atletas desde a base, sem saber se eles terão sucesso ou não. Eles dão espaço para que o potencial de atletas possa ser desenvolvido e isso aumenta as possibilidades de surgirem grandes atletas. É uma questão numérica e estatística. Quando eu estive na ATT eu fiquei impressionado com a estrutura oferecida, a mesma coisa no Instituto de Performance do UFC que é liberado para qualquer atleta do UFC. No nosso país ainda há a necessidade de uma estrutura básica de saúde para todos, imagina para os atletas. Não conseguimos oferecer o mínimo nem para o cidadão. Muitos atletas ficam parados porque não conseguem fazer exames simples, como uma ressonância. Nós temos algumas instituições privadas no Brasil que dão apoio, por exemplo, aqui em Brasília o UniCEUB dá assistência a atletas.

Esse problema ocorre porque os atletas tiveram algum tipo de prejuízo na formação física durante a infância e adolescência?

Nós chamamos isso de base física. Um atleta americano estuda e no horário contrário ele já é inserido em uma modalidade esportiva, onde ele é preparado nas valências físicas desde o início. A prevenção de lesões não é aguda, de atuação imediata, mas de base, porque o atleta com histórico de preparação física tem uma possibilidade de lesão muito menor que um atleta com nenhuma preparação e que de repente começa a lutar. Esse segundo tipo de atleta apresenta o maior índice de lesões e aqui no Brasil é característico o início da preparação física com 23, 24 anos e com o acúmulo de exigência física há uma perda de desempenho técnico. Um atleta com uma base física desde a infância tem menos chances de ter lesões porque ele tem uma maior adaptação física.

E como são os casos de concussões no MMA, os índices são realmente menores do que no Boxe?

O atleta de boxe, treina o boxe todos os dias e quando ele luta o foco principal dos golpes é a cabeça. Então ele faz treinos, sparings e luta apenas uma modalidade. No MMA é diferente, a planilha de treinamento de um atleta de MMA é diversificada com striking, Wrestling, jiu-jitsu, as manoplas individuais e o sparring. Além disso a luta em si não é 100% de trocação, há uma distribuição das modalidades, no boxe não. O alvo maior é a cabeça e isso coopera para o desenvolvimento de concussão. A questão da contagem após o knockdown aumenta as chances de síndrome do segundo impacto e por fim ainda há o peso da luva. O peso da luva do MMA é menor e apresenta mais escoriações de face, já o dano no boxe está mais relacionado ao impacto na cabeça e o maior peso nas mãos contribui com isso.

Como foi a sua trajetória depois de formado até chegar no meio do MMA?

A inserção no meio esportivo é muito difícil. Eu sempre tive o sonho de trabalhar com o esporte. Eu comecei no basquete, trabalhando de graça para o time do Universo porque a minha vontade de trabalhar no meio era maior, independente do dinheiro. A satisfação em trabalhar tem que ser maior que a do dinheiro, de outro modo você não tem sucesso com o que você trabalha. O dinheiro é uma consequência. No Universo eu tive a sorte de trabalhar com profissionais muito experientes, mas o meu sonho era trabalhar com o futebol. E aí um colega de lá me deu a oportunidade de trabalhar com futebol e eu fui ser estagiário no Vasco da Gama. Quando voltei para Brasília com essa experiência, fui trabalhar nos times pequenos daqui, comecei no Legião e depois para um outro time pequeno daqui cujo a proposta era fazer intercâmbio com times europeus para vender jogadores, então fui trabalhar na Holanda. Eu era fisioterapeuta lá com o objetivo de deixar os atletas em estado de prontidão, sem lesões, para uma eventual proposta. Assim eu fui crescendo no mercado de Brasília, até chegar ao maior clube daqui que é o Brasiliense. Como eu era professor no UniCEUB e tínhamos um projeto de atendimento para a comunidade, muitos atletas da luta, exatamente por não terem condições financeiras para a fisioterapia, me procuravam e eu os ajudava. Comecei tratando alguns e como um conhece o outro, principalmente por treinarem na mesma academia, os pacientes foram aumentando. O Vicente (Luque) eu conheci assim, quando ele tinha por volta de 16 anos, o Renato Moicano também e aí as coisas foram evoluindo. Quando eu vi que as coisas estavam crescendo e esses atletas estavam entrando no UFC, eu vi que eles precisavam de uma estrutura profissional. Na época eu ainda trabalhava com o futebol, e no Brasil de todas as modalidades esportivas, o futebol é a mais profissional. Um atleta de futebol aqui é igual um funcionário de qualquer empresa, com obrigação de cumprir horário, a legislação do clube e quando não acontece, são multados. Eu vi que o MMA era muito amador no que se refere a estrutura, os atletas faziam o que queriam, eles sequer tinham planilhas para eu saber qual era o volume de treinos deles. Então comecei a adotar a experiência que tive no futebol com eles. Levar o MMA a sério, profissional. Os atletas precisam ter planilhas de treinamento, cumprir os horários e levar a gestão da vida deles como qualquer outro profissional. Isto é necessário para que ele tenha êxito na atividade dele. Sucesso é 100% de doação.

Esse controle não entra em conflito com os treinadores e headcoaches das equipes?

Um dos motivos do sucesso atual aqui em Brasília é que o headcoach daqui da Cerrado MMA comprou a ideia. O headcoach precisa escutar, sair daquele padrão “raiz” e se modernizar. O Brasil começou a perder cinturões também em decorrência disso. Perdemos culturalmente, os treinadores ainda estão naquela mentalidade do “porradeiro” e não dão ouvidos para os profissionais que circundam os atletas no que se refere as suas especialidades. O Daniel Evangelista, headcoach da Cerrado MMA, deu ouvidos para isso e trouxe uma nova visão para o negócio dando ouvidos aos especialistas. Eu não tenho 10 anos de MMA, mas tenho de futebol, de fisioterapia e posso agregar. Posso dizer o que é amador no MMA e falar da minha experiência em outras modalidades profissionais que tem 100 anos na frente. O MMA é um esporte novo, o futebol tem mais de um século. Eu devo muito disso ao Daniel, porque ele teve visão para que nós possamos contribuir em uma evolução maior aos atletas. O Vicente Luque se tornou uma referência aqui e começou a levar a ideia para toda a equipe. Temos fisioterapeuta, psicólogo, preparador físico, nutricionista e a equipe foi sendo montada pelo relato dos atletas. Isso tudo não é possível se o líder da equipe não der abertura.

Além dessa visão de profissionalização, o que a sua experiência em outras modalidades trouxe de novo para o MMA?

O MMA é um esporte muito novo, logo ainda há muito para se conhecer. O que acontecia no Brasil é que os atletas se machucavam muito. Houve um período no UFC em que as lutas com brasileiros não aconteciam porque os lutadores machucavam antes. Algo estava errado. Outra coisa é que os atletas até chegavam nessas lutas, mas o rendimento não era o mesmo, eu tinha a impressão de que eles já chegavam desgastados para a luta. Eu vou usar mais uma vez o futebol como parâmetro porque ele é um esporte extremamente cultural. Se você falar em um vestiário que o jogador precisa correr após uma partida, você vai ser demitido. Você precisa do conhecimento teórico, mas precisa se adaptar as situações de fato.

Quando eu percebi que no UFC, o evento pode te chamar para uma luta em qualquer momento, principalmente quando você não é um top 15, e o atleta não vai querer negar a oportunidade, eu entendi que ele precisa estar sempre preparado. O planejamento deixou de ser para uma luta, mas para o ano.

O lutador vai fazer um planejamento para fazer 3 lutas no ano e vai estar pronto a qualquer momento que o UFC resolva chamar e isso inclui o peso. Eu reparei que os atletas que tinham lutas marcadas com muita antecedência só começavam a treinar intensamente nos últimos 2, 3 meses anteriores a luta. O processo de preparação física possui o início, a crescente física e em determinado momento o corpo entra em desgaste e há o declínio em decorrência da exaustão física e mental. Em um camp de 90 dias a capacidade de fazer dieta, rotina é extenuante, eles cansam e o que ocorre é que ou o atleta machuca antes ou chega na luta desgastado. No futebol os clubes pequenos começam ganhando porque já estão na crescente e justamente no final entram em declínio, enquanto os grandes fazem o contrário. O lutador de MMA tem que chegar no dia da luta na crescente física, não no declínio. Essa crescente me traz resultados e evita lesões. Eu não o deixo chegar no declínio e consigo evitar lesões e maximizar o desempenho na luta. O outro ponto é que os atletas só buscavam fisioterapia quando se machucavam e eu mostrei que se ele se manter na fisioterapia com a mesma regularidade dos treinos, eu consigo fazer uma atuação nas lesões de modo que elas não evoluam. O motor esquenta e eu esfrio. Assim o lutador consegue cumprir o seu planejamento sem parar em decorrência de alguma lesão. Ele irá treinar a semana inteira e vai chegar no final para fazer um bom sparing, ao invés de chegar lá todo quebrado. Eu inseri a fisioterapia na planilha semanal de treinos dos atletas e nos dias em que há o maior desgaste, eles comparecem aqui. O Vicente fez quatro lutas em um ano, isso é algo que é difícil de ver. Aconteceu porque isso foi programado dentro do cronograma anual, ele sempre lutou na crescente e fez intervenções constantes para que não houvesse níveis de exaustão e declínio físico. Assim logo depois das lutas, ele tem um período de descanso e já volta para a dieta e os treinamentos porque acabou essa história de “vou comer e me preparar quando o UFC me chamar”. Quando retorna, ele não recomeça do zero e eu posso fazer camps menores, apenas acrescentando volume aos treinos na reta final. Se o UFC funciona assim, eu vou prepará-los para esse formato, não esperar um mundo ideal.

Como esses atletas fazem no período em que não estão em Brasília?

Apesar dos Estados Unidos ter toda essa estrutura, eles têm pecado na reabilitação. Além disso lá as equipes são muito grandes e muitas vezes eles precisam de uma atenção personalizada. Com isso os lutadores preferem ficar aqui, porque lá ele é mais um em uma equipe de 40, já aqui eu consigo dar uma assistência que ele não tem lá fora. O suporte passa a ser individual e específico. Por exemplo, eu sei que alguns dos meus atletas que não vem do wrestling sentem a lombar após o treino, então eu faço um fortalecimento da área e regeneração de acordo com os treinos dele. Os que não são do jiu-jitsu sentem o joelho quando treinam, então eu sou responsável por saber a especificidade do atleta e agir com base nela.

Depoimento Vicente Luque: O diferencial do Paulo é que com ele eu sinto o meu corpo saudável em qualquer época e eu só comecei a ficar assim depois de passar a ser acompanhado com ele, porque eu não faço mais tratamento de lesões, mas prevenção delas. Eu consegui fazer várias lutas no UFC em um curto período porque estou sempre bem.

Gostou da entrevista? Já havia pensado no papel da fisioterapia no MMA? Diga para nós nos comentários!