Mike Tyson, o produto inacabado de Cus D’Amato

Por Alexandre Matos | 03/04/2018

Um dos questionamentos que mais recebo dos fãs de luta, especialmente os mais novos, que não viveram o período entre a segunda metade dos anos 80 e a primeira dos 90, é sobre Mike Tyson. Nada mais natural, visto que trata-se de uma das figuras mais emblemáticas, controversas e curiosas do século passado, não só no boxe ou no esporte em geral.

Também é grande o número de pessoas que não puderam acompanhar Iron Mike de perto que se espantam quando dou minha opinião de que não se trata do maior lutador de todos os tempos, tampouco o melhor peso pesado. Eu não escalo Tyson nem no top 10 da divisão mais nobre do boxe. Esta visão vai de encontro a uma espécie de consenso popular que lança o americano no topo da montanha. E eu entendo perfeitamente por causa do fascínio que Tyson, um dos mais intimidadores artistas do nocaute que a humanidade já viu, causa até hoje. Porém, na minha função, preciso separar as coisas.

Neste artigo, não vou entrar no mérito da qualidade da oposição enfrentada por Tyson ou da entressafra que a categoria dos pesados vivia – ainda que sejam temas relevantes. Aqui a avaliação será a mais técnica possível. Não é que Tyson tenha sido ruim, longe disso. Ninguém entre o, sei lá, décimo e vigésimo melhor de todos os tempos em seja lá o que for é ruim. Tyson foi um lutador muito bom, especialmente em seu apogeu, entre 1985 e 1989. Porém, tecnicamente inacabado.

Michael Gerard Tyson foi o último grande produto do lendário técnico Cus D’Amato. Nascido e criado em comunidades barras-pesadas de Nova York, o lutador encontrou no treinador uma espécie de tutor e estabeleceu uma relação tão forte que o considerava um pai – Tyson nunca conheceu o pai biológico; o padrasto largou a família quando ele nasceu e sua mãe faleceu quando o pugilista tinha 16 anos. Foi quando Cus oficialmente obteve sua guarda legal.

Mike Tyson e Cus D'Amato tinham uma relação muito além de atleta e treinador

Mike Tyson e Cus D’Amato tinham uma relação muito além de atleta e treinador

Não foi muito fácil tornar Tyson um lutador de sucesso, mas D’Amato era o gênio para a missão. Em seu livro “Championship Fighting: Explosive Punching and Aggressive Defense”, o ex-campeão dos pesados Jack Dempsey disse que você consegue perceber quem está vencendo uma luta observando o trabalho dos jabs. Tyson nunca adotou o jab como ferramenta, tampouco o direto, lançando mão quase sempre dos golpes curvos como o gancho, o uppercut e o cruzado, especialmente os dois primeiros. Baixinho para a divisão, isso faria de Tyson um lutador de curta distância. Realmente foi assim que ele dizimou várias de suas vítimas. Mas era a aproximação que tornava Mike perigoso de verdade. Foi assim que ele compensou a falta do jab, mas foi assim também que ele viu sua ruína diante de oposição mais qualificada – e uma nem tanto.

D’Amato desenvolveu um método chamado peek-a-boo para proteger seus lutadores e fazê-los produzir ofensivamente de modo definitivo. Para o treinador, era preciso se manter em constante movimentação e mexer muito a cabeça após executar um golpe, pois Cus achava que um boxeador fica mais vulnerável no processo de retorno do braço após um soco. D’Amato transformou o peek-a-boo em potência defensiva e ofensiva e Tyson usou este expediente para compensar o jab e a desvantagem na altura.

Confira no gif abaixo uma perfeita execução do peek-a-boo por Tyson. Com as mãos escondendo o rosto (que é a brincadeira do peek-a-boo das crianças), ele executa um pêndulo muito baixo, fazendo com que o jab de Robert Colay passe sobre seu ombro. Imediatamente, ele desliza para a diagonal e sobe num movimento explosivo para largar um canhão em forma de gancho de esquerda, promovendo o encontro entre Colay e o capiroto.

O peek-a-boo de Mike Tyson em ação

O peek-a-boo de Mike Tyson em ação

Tyson tinha duas características fundamentais para o sucesso do peek-a-boo: velocidade absurda para um peso pesado e explosão para gerar potência fora do normal. O pêndulo baixo força o erro do jab. A subida em diagonal impede que o próximo soco de uma combinação acerte o alvo – imagine o estrago que seria receber uma pancada enquanto se ergue daquele modo. Esta subida também abre uma avenida no sistema defensivo do oponente. Para um pegador como Tyson, isso é praticamente o atestado de óbito do cidadão.

Contudo, há uma terceira característica para o peek-a-boo dar certo, tão ou mais importante que as duas supracitadas: o condicionamento cardiorrespiratório, que nunca foi o forte de Mike Tyson. É muito desgastante passar a luta toda se abaixando daquele jeito e se levantando de modo explosivo para tentar acertar a cabeça do rival. Como era um cavalo, Tyson conseguiu dar cabo de muita gente rapidamente, pois bastava um gancho ou upper proveniente do peek-a-boo para o sujeito cair em colapso. Porém, e quando o primeiro, o segundo, o terceiro não davam certo?

Apesar de ser um movimento nada ortodoxo, o peek-a-boo tinha um certo padrão que lutadores mais inteligentes percebiam. Mais inteligentes e corajosos. O melhor modo de evitar esse ataque era se aproximar de Tyson para não dar espaço para o soco. Daí a coragem, porque é praticamente ir para cima do soco de um dos mais violentos nocauteadores de todos os tempos. Um erro e você seria enviado para as profundezas escuras da vala.

Quando um adversário se aproximava de Tyson nesses momentos, era comum choques de cabeça, nem sempre involuntários, ou clinches, situações que tiravam Mike do sério. Irritação mina o gás. Mais cansado e com o adversário pegando o tempo de sua movimentação, como fazer para mudar o jogo? Qual seria o plano B?

Não deu tempo para Cus D’Amato perceber a falha no gás e criar opções para o pupilo. O treinador morreu no final de 1985, antes mesmo de Tyson mutilar Trevor Berbick na conquista do cinturão do Conselho Mundial de Boxe (WBC) e de unificar com os títulos da Associação Mundial e Federação Internacional de Boxe, com as vitórias sobre James “Quebra-Ossos” Smith e Tony Tucker, respectivamente, ambas em 1987.

Um estudo de caso perfeito para esse problema de Tyson foi a sequência final que acabou com a sua invencibilidade, em fevereiro de 1990, na antológica zebra diante de James “Buster” Douglas. O desafiante passou a luta anulando o que restou do peek-a-boo, tornando Tyson cada vez mais cansado e irritado, até chegar ao ponto de não saber o que fazer. O peek-a-boo lento até evitou um jab. Então Douglas lançou cinco em sequência. Sem conseguir se aproximar, Tyson não encontrou resposta e foi vitimado por um uppercut que acabou com a sua raça.

Kevin Rooney, preparado por D’Amato para ser seu sucessor, tampouco conseguiu trabalhar as deficiências de Tyson até eles se separarem, em 1988. Depois de Rooney, a impressão era que os treinadores subsequentes sequer faziam ideia de como Tyson lutava. A promessa de lutador antes de Buster Douglas virou um rascunho após a prisão, entre 1992 e 1995. Mike voltou muito diferente, mais plantado, mais brawler, contragolpeando menos. Sem o peek-a-boo, Tyson se tornou uma presa fácil para Evander Holyfield e Lennox Lewis, os mais talentosos oponentes que ele enfrentou.

A morte de D’Amato e a briga com Rooney acabaram de lançar Tyson na lama. Envolto num casamento problemático, sem o tutor o apoiando e sem alguém que conhecesse suas limitações e tivesse moral para trabalhar nelas, Tyson não só não conseguiu evoluir como ainda regrediu tecnicamente. Sem o jab, sem o peek-a-boo e contando apenas com a potência descomunal, Tyson seria suficiente para os Bruce Seldons ou Frank Brunos da vida, que subiam ao ringue se borrando de medo da besta-fera. Era o clássico “se a mão entrar…” em seu mais claro sentido. Contra rivais tecnicamente mais qualificados como Holyfield e Lewis, não teria jeito, como não teve.