MayMac: Prévia de Floyd Mayweather vs. Conor McGregor

No próximo sábado, os mundos do boxe e do MMA se encontram quando suas galinhas-dos-ovos-de-ouro se encontram para a potencial luta mais lucrativa da história dos esportes de combate.

Há uns seis meses, a luta era tida como impossível de acontecer. Eu mesmo falei algumas vezes. Pois bem, cá estou fazendo a prévia do duelo de boxe entre Floyd Mayweather, o maior pugilista das últimas três décadas, contra Conor McGregor, único campeão de duas categorias simultaneamente na história do UFC. A luta acontecerá neste sábado, na T-Mobile Arena, em Las Vegas, com transmissão ao vivo do canal Combate.

Ao juntar os maiores vendedores de pay-per-view da história do boxe e do MMA, as expectativas para este combate são altas, pelo menos no aspecto financeiro. Especialistas esperam que seja esta a luta que baterá o recorde estabelecido por Mayweather e Manny Pacquiao, combate que vendeu perto de cinco milhões de pacotes em maio 2015.

Antes que alguém pergunte o motivo pelo qual aspectos financeiros fazem parte de uma prévia, lembro que a luta recebeu o codinome de “Money Fight”. O único motivo para esta luta existir é o dinheiro, por mais que o diretor executivo da Comissão Atlética de Nevada tenha tentado ofender nossas inteligências dizendo o contrário. Além de beliscar uma fatia no gordo pay-per-view, Mayweather, como principal promotor da luta, vai tirar participação em absolutamente tudo o que se arrecadar no combate, desde cada cerveja e cachorro-quente consumidos na arena até os acordos de transmissão internacional, passando por merchandising, venda de ingressos e transmissão por circuito fechado e cinema. Mayweather romperá a barreira do bilhão de dólares na carreira, consolidando-o ainda mais como o atleta mais bem pago da história dos esportes.

Apostador inveterado, Mayweather colhe os frutos da aposta mais agressiva que fez na vida. Não foi colocar (e ganhar) US$250 mil em vitória por mais de 15 pontos do Miami Heat no playoff final contra o Indiana Pacers, na NBA, no sétimo e decisivo jogo de uma série muito equilibrada. No meio da década passada, quando era contratado da Top Rank Boxing, Floyd recebeu uma proposta para embolsar US$8 milhões para enfrentar Antonio Margarito. Ao invés de assinar o contrato para a maior bolsa de sua vida, numa luta que ele fatalmente teria vencido com facilidade, o então “Pretty Boy” tirou US$750 mil do próprio bolso para rescindir o contrato com Bob Arum e cuidar da própria vida. Dali para frente, Mayweather liderou as três lutas mais rentáveis da história dos esportes de combate, virou a principal commodity do esporte mundial e mudou o apelido de “Pretty Boy” para “Money”. Em paralelo, terminou de construir uma carreira perfeita de 49 vitórias em igual número de lutas, com um dos sistemas defensivos mais sólidos da história dos esportes de combate profissionais.

É sempre bom reforçar que MayMac será uma luta de boxe (acredite, tem muita gente que não se deu conta). Se McGregor usar algum movimento proibido pelas regras da nobre arte, como chutes, cotoveladas ou quedas, levará uma pesada multa sobre sua polpuda bolsa (90% por contrato e até 100% pelo código disciplinar da NSAC). E é daqui que fazemos a ligação para a análise técnica da luta.

"O 'Money Belt' tem 3.360 diamantes, 600 safiras, 300 esmeraldas, 1.5kg de ouro 24 quilates e couro de jacaré vindo da Itália", informou Mauricio Sulaiman, presidente do Conselho Mundial de Boxe

“O ‘Money Belt’ tem 3.360 diamantes, 600 safiras, 300 esmeraldas, 1.5kg de ouro 24 quilates e couro de jacaré vindo da Itália”, informou Mauricio Sulaiman, presidente do Conselho Mundial de Boxe

Nunca vi McGregor boxeando. Ninguém viu, na verdade, uma vez que ele jamais lutou boxe na vida. Fora algumas imagens vazadas de treinos, não há material para análise. E o que vimos nesses treinos não foi o mais estimulante (para as pretensões do irlandês). Técnica rudimentar, apesar do já bastante conhecido elevado poder de punch. Nas famigeradas cenas que Dana White divulgou dos sparrings com o ex-campeão Paulie Malignaggi, combinações horrorosas, com direito até a cascudos, mas a potência que dá pesadelos até hoje a José Aldo e Eddie Alvarez. Falta de fluidez nos movimentos ofensivos dos punhos, mas a também conhecida precisão.

Sendo absolutamente sincero, Conor tem o que os gringos chamam de puncher’s chance, a chance do pegador. Um sujeito com a mira e a capacidade de empacotar potência que ele tem jamais pode ser totalmente descartado. Ainda mais um camarada capaz de fazer os adversários jogarem o jogo que ele quer. Mas o problema é que agora ele não só estará em território inimigo, mas também contra um sujeito pelo menos tão raro quanto ele.

Como não temos muito material de McGregor no boxe, temos que adaptar o que vimos no MMA, ainda que seja um erro comparar esportes tão diferentes. Na modalidade em que é rei, o irlandês mostra um estilo calmo, metódico, de arruinar os adversários paulatinamente – a não ser que um deles cometa um erro infantil, como fez Aldo. Conor é conhecido por impor volume de golpes, por sufocar o adversário, mas somente depois de obter controle da distância com uma movimentação econômica e exata, que deixa os oponentes na posição que ele quer para então fuzilá-los com golpes potentes e precisos. Ele é simplesmente genial produzindo essas janelas de oportunidade. O problema é que striking no MMA é bastante diferente do boxe puro.

Sabe quando que essa abordagem dará certo contra um sujeito do naipe de Mayweather no boxe? Talvez daqui a uns 20 anos, quando o americano for um sessentão cansado.

Floyd pegou vários dos maiores pegadores de sua geração. Oscar de la Hoya, Manny Pacquiao, “Sugar” Shane Mosley, Miguel Ángel Cotto, Saúl Canelo Álvarez, Juan Manuel Márquez, Arturo Gatti. Lutadores que estão ou que estarão no Hall da Fama do boxe internacional. Lutadores habilidosos, que sabem combinar golpes, que conhecem os meandros do boxe, os atalhos do ringue. Diferentes de McGregor. Nenhum chegou perto de nocautear Mayweather. Vários – quase todos – foram humilhados pela habilidade absurda que Mayweather tem de negar o jogo do rival e impor o seu próprio, praticamente sem buracos.

Quando analisamos os momentos de perigo que Mayweather passou, lembramos automaticamente de Jose Luis Castillo e Marcos Maidana, não por acaso os dois únicos dos 47 rivais da carreira profissional de Mayweather que receberam revanche. Lutadores clássicos de pressão, capazes de imprimir um alto volume de socos durante os 12 assaltos. Lutadores diferentes de McGregor.

O irlandês tem se mostrado mortal quando encurrala os adversários contra a grade do octógono, deixando-os sem ter para onde fugir. Teoricamente, lutar num ringue, com córneres ainda mais acentuados, mais fácil de encurralar, seria uma vantagem que Conor poderia obter. O problema, maior do que a falta de experiência do “Notório” com o quadrilátero, é que Mayweather é um mestre na arte de se deixar encurralar nas cordas e dali escapar magistralmente, fazendo o adversário errar e pagar caro com contragolpes limpos.

Então nós temos um cenário de um lutador que nunca lutou boxe – ainda que tenha aprendido alguma coisa neste último ano – e que não é exatamente um impositor de pressão ou um primor defensivo, visto que todo mundo acertou McGregor. Além disso, é um lutador que gasta muita energia quando não tem o controle da distância. Este é exatamente o quadro de uma vítima potencial de Floyd Mayweather Junior.

Conor McGregor vs Floyd Mayweather Jr odds - ProBoxingOdds

McGregor tem dois rounds para acertar sua canhota no queixo de Mayweather antes que o americano compute as informações necessárias para conduzir o combate ao seu feitio. Esta é basicamente a única chance do irlandês. E, como eu costumo dizer, se sua chance no mais alto nível é “acertar uma mão”, é melhor nem sair de casa. McGregor vai sair de casa porque uma mala abarrotada de dólares o aguarda, perdendo ou não, sendo varrido ou não. Acho que ele vai subir no ringue com uma única missão: se tornar o primeiro a fazer Mayweather beijar oficialmente a lona (noves fora o polêmico knockdown sofrido pelo então Pretty Boy contra Zab Judah).

Jogos mentais não funcionam contra Mayweather. Na verdade é sempre ele quem faz isso. Poderíamos supor que o desejo desenfreado de Floyd por dinheiro poderia fazer com que a luta se desenrolasse numa dificuldade maior do que o necessário, a fim de justificar uma revanche. Porém, a vaidade do americano é tão grande quanto e, numa luta em que ele não tem nada a ganhar além de (muito) dinheiro, sua reputação está em jogo. Mais do que isso, a marca TBE (The Best Ever), que ele criou para arrecadar numa pretensa classificação de “Melhor de Todos os Tempos”, seria arruinada em caso de derrota para um estreante.

Pelos primeiros seis minutos, teremos a ansiedade de ver McGregor tentando fazer o cabaré pegar fogo. Acho que ele não vai conseguir furar a defesa de Mayweather, mas será engraçado, até porque Mayweather costuma fazer os adversários pagarem quando se empolgam no ataque. A partir do terceiro assalto, a tendência é que Floyd tome conta das ações até decidir quando vai acabar o combate. Eu aposto em decisão ou nocaute técnico no último quarto de luta.