Maurício Shogun diz que pode voltar à sua melhor fase – e os fãs querem acreditar nele

Por Alexandre Matos | 04/11/2014 13:29

No próximo sábado, um dos maiores nomes da história do MMA subirá ao octógono montado em Uberlândia. Maurício Shogun, ex-campeão dos meios-pesados do UFC de 2010 a 2011 e vencedor do GP do PRIDE em 2005, fará a luta principal do UFC Fight Night 56 contra Ovince St. Preux tentando sair da fase negativa de 1-3 no retrospecto recente.

Quando chegou ao UFC em 2007, após a organização ter comprado a massa falida do PRIDE, Shogun apresentava cartel de 16-2, com vitórias maiúsculas sobre Rogério Minotouro (considerada amplamente uma das cinco melhores lutas da história do MMA), Ricardo Arona, Alistair Overeem (massacrado duas vezes nos ringues japoneses), Rampage Jackson e Kevin Randleman. Pisões voadores e tiros de meta eram fartamente distribuídos na concorrência e fizeram do jovem fenômeno da Chute Boxe o melhor lutador do mundo em 2005, com apenas 23 para 24 anos.

A mudança para o UFC mostrou um Shogun que o público não estava acostumado a ver. Em 13 lutas disputadas no octógono, o curitibano perdeu mais do que ganhou (6-7) e só conseguiu duas vitórias seguidas contra veteranos quarentões em fim de carreira. É verdade que este é o lado do copo meio vazio, pois o meio cheio diz que estas duas vitórias tornaram Maurício o único a ter nocauteado dois integrantes do Hall da Fama (Mark Coleman, vingando uma das únicas derrotas pré-UFC, e Chuck Liddell) consecutivamente, além de o lutador ter conquistado o cinturão e abocanhado seis bônus de performance, três de melhor luta e outros três de melhor nocaute.

Ainda assim, a impressão geral de Shogun no UFC é negativa. Mesmo nas vitórias sobre Coleman e Brandon Vera, ele teve atuações apagadas. Momentos como ter sido o primeiro a desvendar o enigma Lyoto Machida, o atropelamento sobre Forrest Griffin (vingando a derrota na estreia no UFC) e quase ter arrancado a cabeça de James Te Huna parecem exceções. Para os fãs mais recentes – que são a maioria –, é difícil acreditar que o lutador que padeceu contra Dan Henderson e Alexander Gustafsson, que foi massacrado por Jon Jones e finalizado (!) por Chael Sonnen possa ter sido um dia o melhor lutador do mundo peso por peso.

Em vídeo disponibilizado pelo UFC Brasil, Shogun diz que renovou contrato por mais oito lutas com a organização e que ainda visa o cinturão da categoria, em posse de Jon Jones desde o massacre de New Jersey, em março de 2011.

Um trecho do vídeo é particularmente interessante. Eduardo Alonso, empresário de Shogun e homem importante durante boa parte da carreira do astro, ainda deposita esperança na recuperação da carreira de seu atleta (como não poderia ser diferente, é claro):

“Maurício ainda é um atleta jovem, ao contrário do que muita gente pensa, por já ter uma carreira longeva. Então acho que ele tem tudo para continuar no topo e chegar ainda mais alto nos próximos anos, só depende dele. Talento e potencial ele tem de sobra pra isso.”

“Talento e potencial” realmente são vistos em abundância em Shogun. Raros são os lutadores que igualaram o enorme talento e a genialidade do antigo dono do cinturão até 93 quilos. Oriundo do muay thai, especialista em nocautear gente (19 de suas 22 vitórias foram pela via rápida dolorosa), Shogun foi capaz de vencer um ex-campeão do UFC (Randleman) sem desferir um único golpe traumático e de ter dominado um muito habilidoso faixa preta de jiu-jítsu (Minotouro) usando um arsenal de quedas e controle posicional no chão. Sua meia guarda e a versatilidade do jogo de costas para o chão é elogiada por mestres da arte suave que já treinaram com ele.

A questão é que Alonso usou uma expressão que não pode passar batida. “Só depende dele”. É certo que Shogun não pensa em entrar no octógono para ser surrado ou para se arrastar. Mas o que ele tem feito para evitar que este tipo de coisa aconteça? Ter rompido com o próprio Alonso e depois reconciliado, ter largado os treinos com Rafael Cordeiro, que o levou às duas melhores fases de sua carreira, e depois ter deixado para trás sua própria academia, onde treinava com o irmão Murilo Ninja e o amigo de longa data André Dida podem ser sinais que Maurício não sabe exatamente o que precisa.

Shogun hoje treina na Vila da Luta, academia de Demian Maia em São Paulo. Sem dúvida, o paulista é um grande adicional para o jiu-jítsu do curitibano, mas será que isso é o mais importante para reconduzir a estrela ao rumo das vitórias? Na capital paulista, Maurício diz que fica longe da família (o que é sacrificante para ele) e que pode se focar apenas nos treinos. Neste ponto, a pergunta é: os benefícios que ele pode ter na Vila da Luta compensam o sacrifício de deixar a esposa Renata e as duas filhas para trás? Se for para ficar longe, não seria melhor ir atrás de um treino com mais lutadores de qualidade em seu peso do que apenas Luiz Banha?

Não se pode ignorar o fato que Shogun lutou bem e quase nocauteou Hendo duas vezes em Natal, mas acabou vitimado pela Bomba-H (ainda que ele tenha sido a única vítima do punho direito da lenda nos últimos três anos e meio). Porém, também não dá para deixar de lado o fato que isso é pouco para um sujeito tão talentoso quanto Rua. A despeito do enorme talento misturado a problemas físicos (tipo o Marco Van Basten do MMA) e de muita gente próxima dizer que ele não é exatamente adepto do trabalho duro, é triste ver o nome de um craque Shogun usado com apelidos como “Shogás” ou com lendas do MMA (“Shogun 100%”, “Anderson sem brincar”, “Cigano casado” e outros).

No próximo sábado, Maurício Rua tem mais uma chance de, pelo menos temporariamente, calar os críticos. E você, aposta no Shogun ou no Shogás?